Capítulo 27

Desde que eu falei à Juliette aquelas coisas, não a vi mais. Ela se trancou no quarto dela e não saiu mais de lá para nada. Nem me importei! Que ela ficasse lá se quisesse. Era até melhor mesmo! Não queria olhar para sua cara agora.

Enquanto isso, eu fiquei na sala sozinha e tentando me distrair com a TV, mas sem conseguir ser bem sucedida nisso. Pouco tempo depois, escuto a campainha. Sem muita vontade me levantei e fui atender a porta. Era a minha mãe.

- Que cara amarrada é essa, Sarah? - ela disparou assim que olhou bem para mim após abrir a porta para ela.

Minha mãe ainda estava de inocente sobre a minha briga com Juliette.

- Nada!

- Carolline, eu vou perguntar só mais essa segunda vez. Que cara amarrada é essa? - ela falava séria atrás de mim enquanto seguiamos até o sofá.

Me atirei no móvel ao chegar nele. Eu ainda vestia as roupas que havia saído com Ker. Não tinha me dado o trabalho ainda de trocar a roupa.

- Vamos, Sarah Carolline. Fale! - exigiu mamãe ao sentar no mesmo sofá que eu.

Não ia ter como fugir. Teria que falar, até porque se não o fizesse era certo ué Juliette o faria. Então, eu comecei à lhe despejar com indignação e raiva, o que houve.

E, em meio ao meu relado exasperado, a minha mãe foi aos poucos começando a rir. Então, interrompi o que estava lhe dizendo e questionei-a o motivo pelo qual ela ria. Quando ela me respondeu, quem riu fui eu pelo que ela disse. Mas meu riso era uma mistura louca de nervoso e espanto.

Simplesmente, minha mãe falou que eu estava com ciúmes da Juliette! Pode?!

- Eu com ciúmes daquela garota?

- Exatamente!

Sorrindo, ela me confirmou com a maior naturalidade possível. Acho que a minha mãe perdeu a lucidez do que diz. Ou talvez, ela não esteja tão longe da verdade!

Não!

Que isso, Sarah Andrade?!

Eu estava apenas indignada e com raiva por aquela garota ter trago alguém para cá quando nem minha mãe ou nem eu estávamos aqui. Isso não quer dizer, que eu estava com ciúmes de Juliette. Ou será que estava?... Não! Claro que não! Definitivamente não e não!

Por que eu teria ciúmes dela?

Inclusive, foi essa mesma pergunta que fiz a minha mãe. E ela simplesmente disse que "Eu gosto da Juliette e por isso estava com ciúmes dela!".

- A gente só sente ciúmes de quem gosta... e muito, querida!

Minha mãe endossou seu argumento com essas palavras, quando eu neguei o que ela disse.

- Eu não gosto dela. Não desse jeito!

Mais uma vez neguei, mas sem a menor convicção e minha mãe percebeu isso, pois sorriu e ainda me lançou a questão:

- Será que não gosta mesmo? - e sem me dar tempo de respondê-la, ela mesma respondeu a própria pergunta. - Eu acho que sim. Mas você ainda não se deu conta disso. Ou do contrário, por que esse ciúme todo dela ter trazido a Pocah aqui em casa?

- Não é ciúme, mãe. Já disse! - eu negava para tentar convencer a mim mesma disso e não propriamente a minha mãe. Mesmo não querendo admitir, eu sabia que estava com ciúmes. Agora o por quê disso, é que era a grande questão pra mim. Ou nem tanto assim. - Não achei certo ela trazer a Pocah sem uma de nós duas estarmos aqui.

Minha mãe apertou os lábios um contra o outro e meneou com a cabeça.

- Filha... essa sua justificativa não me convenceu. - eu abri a boca para rebater, mas mamãe depositou dois dedos sobre os meus lábios, me impedindo de falar. - E tem mais, você pode negar o quanto quiser que não está com ciúmes da Ju, mas está evidente pra mim que o motivo de toda essa cena é ciúmes. Você está gostando da Juliette e quer saber de uma coisa? - mamãe chegou mais perto de mim e em um tom baixo, disse: - Pelo que eu percebi na Ju, ela também está gostando de você.

Quê??? Eu não escutei isso, escutei?

- Eu acho que a senhora está vendo coisa que não existe. Eu gosto da Ker. E a Juliette gosta da Pocah, ou do contrário, por que estaria com ela?

Minha mãe tocou meu ombro e com um sorriso indisfarçável, disse-me: 

- Talvez, a Ju goste da companhia da Pocah. A Viviane é uma boa moça e muito bonita também. Mas, algo me diz que a Juliette gosta é de você, Sarah!... Ela sente ciúmes de você com a Ker, assim como você sente ciúmes dela com a Pocah. Acho bom, vocês resolverem isso para não magoarem de verdade as pessoas que estão ficando e se machucarem também.

Tão logo minha mãe falou isso, ela beijou-me a testa e se afastou, dizendo que precisava tomar um banho. E seguiu em direção às escadas, me deixando sozinha na sala e sem ter a chance de contra-argumentar aquelas suas palavras. 

E assim que ela sumiu da minha vista uma única pergunta me veio a cabeça.

O que ela queria dizer com aquilo de: "resolverem isso"?

Resolver o quê exatamente?

***

Meus olhos encaravam os pontos luminosos em formato de estrelas e uma lua no teto do quarto, que vinham da luminária que meu pai havia me dado no último Natal dele com a gente. Eu adorava aquela luminária e guardava-a com muito carinho. O efeito dela no quarto era espetacular, me fazia sentir como se estivesse no espaço cercado de estrelas brilhantes e a lua.

Suspirei e mais uma vez, virei-me um pouco na cama e apanhei o celular que se encontrava na mesinha ao lado. Era a sétima ou oitava vez que fazia isso na última uma hora.

Passando o dedo sobre a tela do aparelho para destravá-lo, vi então às horas: 01h07m da madrugada. Eu não estava conseguindo dormir desde que me acomodei ali há um tempo bastante razoável.

Essa falta de sono era por culpa da minha mãe. A minha cabeça só maquenava a conversa que tive com ela. Cada palavra que dona Abadia disse, martelava e martelava em minha mente me deixando mais confusa acerca daquilo tudo.

Ok! Embora eu tenha negado à ela que não estava com ciúmes da Juliette, mas era óbvio que eu estava. Só não quis admitir a minha mãe.

A verdade é que Juliette tem me confundido de uns dias para cá. E as coisas que a minha mãe disse só fizeram mais confusão ainda.

"... Mas algo me diz que a Juliette gosta é de você, Sarah!... Ela sente ciúmes de você com a Ker, assim como você sente ciúmes dela com a Pocah. "

Será que isso é verdade?

Será que aquela insuportável gosta de mim mesmo e sente ciúmes?

Droga!

Por que eu tinha que começar a me dar bem com ela? Só para ficar assim confusa com meus sentimentos.

Há semanas eu era totalmente apaixonada pela Ker, só pensava nela e agora, eu já não tinha tanta certeza dos meus sentimentos por ela e ainda de quebra, fico pensando na minha hóspede insuportável quando estou com a Ker.

Eu ainda gosto da minha vizinha, mas também... acho que estou gostando daquela insuportável!

Inferno!

Como que isso é possível?

Como foi que isso aconteceu se somos tão diferentes?

- Eu acho que preciso de um chá de camomila que minha mãe sempre tinha no armário da cozinha, para tomar quando era tomada pela insônia. Quem sabe se eu tomasse isso me desse sono e eu conseguisse enfim dormir de uma vez.

Levantei da cama, calcei meus chinelos e saí do quarto, tomando o devido cuidado para não fazer barulho e acordar ninguém, principalmente minha mãe que tem o sono leve.

Desci as escadas na ponta do pé e segui em direção a cozinha. Ao me aproximar da porta ouço uma música tocando em um tom baixo vinda de dentro do cômodo. A melodia da canção era boa, só não fazia ideia de quem cantava ou como se chamava a música. E a julgar pelo estilo dela, não podia ser a minha mãe quem a ouvia e sim, Juliette.

- Boa música!

Juliette me olhou no mesmo instante em que disse tais palavras enquanto adentrava na cozinha. Só que minha hóspede não disse nada em resposta.

- Como se chama e quem canta? - quis saber ao me aproximar mais dela que estava a mesa.

- "Surprise Youself", de Jack Garratt.

Foi tudo o que ela me disse antes de levar a xícara a boca.

- Nunca tinha ouvido o nome dela e nem desse cantor até agora é claro - acomodei-me na cadeira de frente para Juliette.

A minha "insatisfação" com a garota acomodada diante de mim, já havia passado. Apesar de eu ainda não engolir o fato dela e Pocah terem ficado sozinhas aqui, por sabe-se lá quanto tempo e fazendo sabe lá Deus o quê.

- Pensei que só tivesse rock nesse seu celular e não essas... baladinhas pop.

- Pra você vê. Eu tenho um gosto eclético. Apesar de não aparentar.

Apenas estiquei os lábios em um discreto sorriso enquanto observava Juliette levar a xícara outra vez aos lábios, sem me dirigir o olhar.

- O que faz acordada à essa hora?

- Perdi o sono e vim tomar chá de camomila. Sua mãe me disse uma vez que tomava quando a insônia bati, então vim experimentar. Mas... já acabei e vou subir pro meu quarto de hóspede.

Ela pausou a música, guardou o celular no bolso da calça moletom que usava naquela noite e se levantou da cadeira, levando sua xícara até a pia para lavá-la.

- Você está indo por que já acabou mesmo, ou... só por que eu cheguei?

Algo me dizia que a minha presença era a responsável por aquilo.

Com certeza, ela estava querendo evitar minha companhia em virtude do que houve. Era bem compreensível. No lugar dela agiria igual.

- Quer que eu diga a verdade ou minta?

Ela me questionou de costas para mim enquanto lavava a sua louça suja.

- Acho que depois dessa sua pergunta, eu já faço bem ideia da resposta verdadeira.

Ela estava chateada comigo, isso para não dizer coisa pior. E a verdade é que Juliette tinha toda a razão para estar.

Sem me dizer mais nada, Juliette desligou a torneira, enxugou a xícara que lavou e guardou-a no armário. Depois, ela passou por mim sem me olhar e apenas me dirigiu um seco "boa noite".

- Me desculpa! - pedi inesperadamente e vi Juliette parar há poucos passos da porta. - Eu não devia ter falado aquelas coisas a você e nem me portado daquele jeito com você. - disse me levantando da cadeira.

- Não devia mesmo!

Ela me retrucou alguns segundos depois de ficar parada e virando-se logo em seguida, para me olhar.

- Foi mal!

- Foi péssimo isso sim. Só que você tem razão. Essa casa não é minha pra ficar trazendo minha peguete pra cá, quando você ou sua mãe não estão. - havia ressentimento e uma pitada de raiva em sua fala, que fez com que eu me sentisse péssima. - Mas pode ficar despreocupada que isso não vai acontecer de novo e por dois bons motivos. O primeiro, é que a Pocah viajou com os pais pra casa do avô dela no Texas e ficará por lá uma semana.

Achei uma ótima isso.

- E o segundo motivo?

- Eu vou passar uns dias na casa da minha tia. Falei com as minhas primas pelo celular e elas toparam arranjar uma brecha no quarto delas pra mim. Então, eu vou amanhã pra lá. - não gostei dessa "novidade". - Pela manhã falo com sua mãe e peço pra ela me deixar lá na casa da minha tia antes de ir para o trabalho dela.

- Você vai para lá por causa do que houve, não é?... Se for, olha... eu estou te pedindo desculpa. Não precisa ir.

Sei que passei do limite. Fui uma idiota como ela bem me xingou. Mas Juliette também já estava sendo radical demais, para não dizer, dramática demais fazendo aquilo. Tudo bem, ela tinha sua razão de ficar chateada e até ressentida comigo, mas sair dali era uma atitude desnecessária.

- Preciso sim. Quero passar uns dias com as minhas primas. Foi pra isso que vim passar férias aqui nessa cidade. O seu xilique de mais cedo não tem nada a ver com isso.

- Por que será que não consigo acreditar nisso?

- Problema seu se não acredita. - ela deu de ombros. - Mas devia estar feliz com a notícia, pois você vai se livrar da minha desagradável companhia por alguns dias, quatro olhos. - ela forçou um sorriso. - Terá de novo, a casa só pra você. O silêncio que tanto gosta e ninguém te perturbando como era antes de eu chegar. Quer coisa melhor?!

Franzi a testa e apertei as mãos. Antes, talvez, logo quando ela chegou ali e me desse aquela mesma notícia, sem sombra de dúvida, eu ficaria exultante em saber que me livraria por alguns dias de sua companhia. Mas agora, as coisas mudaram nos últimos dias. E, por mais que eu até quisesse, não conseguia ficar feliz sabendo que ela iria passar dias longe daqui. E pior que a culpa daquilo era minha, apesar dela não admitir.

- Boa noite! - ela disse antes de sair da cozinha e me deixar sozinha ali com cara de tacho, me sentindo uma completa responsável por tudo aquilo.

- Você é uma idiota, Sarah Andrade! - resmunguei a mim mesma.

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Por hoje é só 😘

Amanhã posto mais uns quatro.

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