Capítulo 26

Procurando uma roupa para sair com Kerline daqui à pouco, fui surpreendida por Juliette entrando no quarto - para variar sem bater - e me pegando só de calcinha e sutiã.

- Quando vai aprender a bater?

Reclamei sem jeito e apanhando da cama a toalha para me cobrir. Era impressionante como ela não se dava ao trabalho de bater ou sequer chamar antes de entrar. Ela, simplesmente ia entrando sem cerimônia alguma.

Agradeci ao fato de já estar pelo menos com o conjunto de lingerie. Se ela entrasse minutos atrás assim, me pegaria completamente nua e isso seria bastante constrangedor para mim.

- Foi mal! Eu... não sabia que estava assim... seminua!

- Saberia se ao menos perguntasse ou batesse na porta antes de ir entrando assim no quarto alheio! - rebati com certa irritação.

- Sabe que até que pra uma nerd, você tem um corpo legal.

Franzi a testa.

- Mas não foi você mesma quem disse que eu tinha corpo de frangote?

Ela riu e cruzou os braços sobre os seios.

- Até parece que você não sabe que eu estava te zoando àquele dia.

- E quem não me garante que não está me zoando agora?

Ela podia estar fazendo isso agora, não podia?

- Eu não estou te zoando agora. Aquele dia nem te vi direito, porque você tirou a blusa e se jogou na cama tão rápido que não deu pra reparar em você como deu momentos atrás quando estava de lingerie.

Fiquei realmente constrangida depois de ouvir isso.

- O que você veio fazer aqui? - mudei de assunto.

- A Pocah já está chegando... assim que ela bater aí, eu já vou. Só queria te avisar pra depois não dizer que saí sem falar nada.

- Já avisou. Agora, se me der licença... preciso me arrumar.

- Claro!... Divirta-se com a sua... vizinha!

Detectei certo desdém dela ao pronunciar tais palavras, principalmente a última, porém não quis estender comentário algum aquele respeito, pois queria apenas que ela saísse dali, porque estava me sentindo incomodada por estar só de toalha diante dela.

- E você se divirta com a Pocah! - retruquei com o mesmo desdém que senti vir de Juliette.

- Com certeza, eu vou mesmo.

- E eu também com a minha namorada.

- Tchau! - ela saiu, batendo a porta do meu quarto com demasiada força.

- Se quebrasse ia pagar. - disse alto a ela. - Estúpida! - resmunguei agora só para mim mesma.

***

Estávamos passeando pela praça movimentada, e enquanto tomávamos sorvete e Kerline contava algo a respeito da mãe dela ter comentado sobre a gente, eu me pegava lembrando do comentário feito por Juliette sobre eu ter um corpo legal.

Então ela tinha gostado do que viu?

"Mas que diferença faz isso pra mim?"

Nenhuma!

Entretanto, vi-me confessando silenciosamente que adoraria ter a certeza quanta aquela dúvida que pairava em mim, pois tinha ficado bem curiosa.

Mas, obviamente, nunca teria essa resposta dela. Sequer tinha coragem de questioná-la a esse respeito. Ao contrário, de Juliette que não tinha qualquer hesitação em me fazer perguntas desconcertantes as quais eu não gostava de responder, eu sim, tinha minhas hesitações em lhe fazer esses mesmos tipos de questionamentos.

- Sarah??

Senti um pequeno aperto em meu braço e olhei para a minha direita, encontrando uma Kerline que pela expressão séria, certamente já estava me chamando há tempos.

- Sim!!

- Você não ouviu nada do que eu disse, não é?

A verdade é que eu apenas ouvi o começo, mas depois deixei de prestar atenção no que ela falava assim que me peguei, lembrando de Juliette me pegando só de lingerie no quarto.

- Desculpa, Ker. Eu esava distraída pensando numa coisa.

Expliquei sem entrar em detalhes. Até porque em hipótese alguma lhe diria a verdade caso ela quisesse mais explicações. E ainda bem que ela não quis. Acho até que ela pensou em me indagar a respeito do que seria essa "coisa" que eu estava pensando, mas acho que desistiu disso. Melhor assim!

- Mas se você não se importar de repetir pra mim o que estava falando, juro prestar a devida atenção agora. - segurei na mão dela, entrelaçando nossos dedos e lhe dei um beijo nos lábios.

Eu tinha que me concentrar nela, lhe dar à devida atenção, pois fui eu quem a chamou para sair e não era justo ficar me distraindo assim, deixando minha acompanhante falando sozinha. Tinha que focar minha atenção nela e parar de ficar pensando em Juliette ou lembrando daquela insuportável, quando eu estava na companhia da Ker.

A minha acompanhante então, gentilmente, repetiu o que havia me dito segundos atrás enquanto eu estava distraída. Desta vez, ouvi atentamente cada palavra sua. Na verdade, passei a ouvir e prestar atenção em tudo que ela me dizia.

Passamos uma tarde agradável juntas a partir do momento em que me foquei na minha acompanhante. Depois disso, eu passei a me divertir ao lado dela. Não que eu não estivesse me divertindo antes, longe disso, eu até estava. Mas me distraía fácil pensando em Juliette. E quando me obriguei a para de pensar nela, passou a ser mais divertido estar na companhia da Kerline.

Eu e ela nos dávamos muito bem juntas, pois tínhamos tanto em comum. Havia uma enorme cumplicidade e, acima de tudo, amizade entre a gente. Nós somos namoradas, mas também amigas. E creio que é exatamente por isso que a gente se entendia tão bem assim e o nosso relacionamento era tão bom.

***

Após deixar a Ker na porta da casa dela, segui para a minha. E assim que eu ia colocar a chave na fechadura da porta de casa para abri-la, a mesma fora aberta e eu me deparei com a figura de Pocah e logo atrás dela estava Juliette.

Como elas conseguiram entrar ali se eu estava com a chave?

- Quatros olhos!!

Juliette parecia surpresa em me ver. Talvez, ela achasse que eu chegaria mais tarde, o que não foi o caso.

- Como vocês...

Antes que eu tivesse a chance de completar a pergunta, Juliette explicou que tinha passado na galeria e pego com minha mãe a chave dela para quê assim, não precisasse ficar me esperando para entrar em casa, caso chegasse primeiro que eu ali.

- E aí, Sah?? Tudo certo?

Pocah me cumprimentou, pousando a mão em meu ombro e dando uma leve apertada nele.

- Tudo, Pocah! - sorri forçadamente para ela.

Não me agradou nada vê-la ali sozinha na minha casa com Juliette. Aquela garota não tinha nada que trazer a Pocah ali, sendo que não tinha ninguém em casa.

- E o namoro com a vizinha?

- Ela se chama Kerline. E o meu namoro com ela vai indo.

- Bem?

Fiquei com a impressão de quê a Pocah parecia interessada demais em saber daquilo. Ela nunca foi de se interessar antes sobre algum relacionamento meu. Por que agora disso?

- Sim, está bem, Pocah! - resolvi satisfazer a curiosidade dela. - Agora, se me der licença... quero entrar na minha casa.

Pedi meio sem muita vontade de ficar mais de papinho com Pocah.

- Claro!

Ela que se encontrava parada na minha frente e bloqueando a passagem, saiu e assim pude entrar. Ao passar por Juliette, eu apenas lhe lancei um olhar sério e segui direto para a cozinha onde permaneci até que ouvi a porta bater alguns minutos depois.

Eu não sabia porquê, mas estava furiosa por encontrar aquelas duas sozinhas ali. Será que a minha mãe sabia que Pocah ficaria aqui em casa com Juliette??

Vi a insuportável aparecer na entrada da cozinha.

- Posso saber por quê me olhou daquele jeito sério e enraivecido quando passou por mim? E continua me olhando assim.

Ela me disse após um breve instante em que já se encontrava parada ali e me encarando como eu fazia com ela.

- Quer mesmo saber isso?

- Se eu estou perguntando é óbvio que quero saber.

Pois bem, tomada pela raiva que eu desconhecidamente estava sentindo, resolvi abrir o verbo.

- Você não tinha nada que trazer a Pocah pra cá, sendo que não tinha mais ninguém além de vocês duas aqui. Sabe-se lá o que vocês não fizeram, aproveitando que estavam sozinhas, né?!

- A gente não fez nada além de conversar e beber água. E se tivéssemos feito algo além disso, qual era o problema?

Era muita cara de pau dela de dizer isso.

- O problema, garota,... é que essa casa não é sua casa pra ficar trazendo sua ficante pra cá a hora ou quando bem entender, para ficar se agarrando com ela. Ainda mais, quando nem minha mãe e nem eu estamos aqui.

- Você só pode está de piada com a minha cara, não é?!

Ela parecia visivelmente desconcertada e sem acreditar que eu estava falando sério. Mas eu estava!

- Eu estou com cara de piadista, por acaso?... Eu não gostei de encontrar a Pocah aqui, Juliette. Acho bom isso não se repetir!

- Ah, e eu posso saber o por quê disso?

Ela questionou-me com seu costumeiro deboche. E isso me irritou mais ainda.

- Porque simplesmente... eu não quero, caceta!

Bati na mesa com a mão aberta e fez um estampido alto que assustou Juliette.

Eu estava tomada por uma raiva que não consegui controlar ou conter. Não conseguia me entender.

Nunca fui de ter esse "acesso" de raiva e muito menos, falar de modo alterado com ninguém. Isso não fazia parte do meu comportamento. Só que, naquele momento não sei explicar o que estava me dando para estar daquele jeito. Quer dizer, eu sabia sim. A razão daquilo era ter encontrado Pocah ali, sozinha com Juliette.

- Você só pode ter afrouxado ou perdido um parafuso durante esse passeio com a namoradinha.

- Não, não afrouxei nada. Você é que acha que está na sua casa, mas não está. O que queria trazendo a Pocah aqui? Mostrar seu quarto pra ela?

- Você definitivamente perdeu a noção, sua idiota.

Foi tudo o que Juliette me disse antes de sair da cozinha e me deixar sozinha com a minha raiva que me consumia.

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