Capítulo 21
- Quer dizer, que a sua mãe tá namorando?
Torci a boca em desagrado ao ouvir aquela pergunta da Ker. Ela riu do que eu fiz.
Estávamos na casa dela, mais precisamente na sala conversando. Depois de falar com Gilberto, eu fui a casa de Ker para vê-la como havia lhe dito ontem que faria. Dei sorte de a mãe dela ter saído com o irmão menor da Kerline, então estávamos a sós na casa.
- Não é bem namorando. Ela está "conhecendo melhor" esse Phillip.
Esclareci. Há pouco lhe partilhei aquela história sobre Phillip e minha mãe.
- Isso soa melhor pra você, do que "namorando"?
- Acho que sim.
Era mais cômodo e menos desgostoso pensar que minha mãe estava só conhecendo esse homem, ao invés, de namorando-o. Se bem que... o primeiro acaba levando ao segundo, muitas vezes.
- E você já o conheceu?
- Vou conhecê-lo hoje à noite. Ele convidou à mim, minha mãe e a Juliette pra jantarmos com ele.
- Ah, a Juliette também vai nesse jantar, é?
- Sim! Inclusive, ela saiu com minha mãe pra comprar um vestido pra ir ao jantar. Phillip fez questão de convidá-la, já que eles já se conhecem. Juliette vinha 'acobertando' minha mãe e esse cara.
- E vão só vocês quatro? A namorada da Juliette, aquela sua amiga, não vai?
- Pocah não é namorada da Juliette, Ker! - respondi prontamente e sem me dar conta de quê ao mesmo tempo fiz uma carranca. - Elas só estão ficando.
- Sei!... Sua amiga me parecia bem afim da Juliette, diria até apaixonada.
Pocah era um apaixonada por garotas, mas devo reconhecer que ela dessa vez parecia mesmo caidinha pela Juliette, como ainda não tinha visto antes, por outras garotas.
- Talvez, mas felizmente, ela não vai! Iremos somente minha mãe, Phillip, Juliette e eu. Vamos jantar em um restaurante no The Venetian.
Deus me livre da Pocah ir junto para ficar naquela sessão "grude" na Juliette. Minha cota na noite anterior no parque já havia sido demais.
- Certo!
- Acredita que a Juliette quase pirou quando soube onde jantaríamos?
- Ah, é? Por que?
- Por causa do cassino que tem lá. Ela é louca pra conhecer um por dentro.
Eu contei com um sorriso. Algo me diz que aquela garota não ia sossegar enquanto não conseguisse realizar aquele 'desejo insano' de conhecer um cassino por dentro.
- Hum...
- Algum problema?
Notei que a Kerline me olhava sem mais sorrir como momentos atrás, quando tinha acabado de lhe contar sobre Phil.
O toque do meu celular impediu que ela me respondesse. Peguei o aparelho do bolso do short moletom e vi no visor a foto de Juliette me dando língua, estampando à tela do meu celular. Aquela insuportável tinha salvo aquela foto no contato dela só para me irritar.
- Fala, Juliette! - disse ao atendê-la, sem perceber que sorria ao sauda-la.
- Você, por acaso, não está em casa? Eu tô tocando a campainha e nada.
- Por acaso, eu não estou, não.
- Onde você está? Sua mãe me deixou aqui na porta de casa e já seguiu de volta pra galeria. Eu tô que nem um poste parada na frente dessa porta há minutos.
Eu olhei para Kerline e abri um sorriso maior pela ira que sentia irradiar da voz de Juliette.
- Não diga?!
- Não debocha, não! Onde está? Eu quero entrar em casa.
- Estou aqui na Ker.
- Ah, claro! Na casa da namoradinha!... Dá pra vir AGORA pra casa com a chave?
Nossa, alguém ali estava uma fera, além de mandona!
- Já estou indo nervosinha.
- Nervosinha é você, quatro olhos!
Dito isso, ela desligou na minha cara.
- O que foi? O que a Juliette queria?
- Ela já chegou em casa. E tá uma fera, porque já tinha uns minutos que tocava a campainha e nada de eu atender. - eu ria ao contar aquilo. - Preciso ir. Ela quer entrar em casa e eu tô com a chave aqui.
- Por que não disse à ela pra vir pegar a chave aqui? Assim você não precisava ir embora e ficava mais um pouco comigo.
- Ela não viria, Ker. De jeito nenhum.
- Claro!
Franzi a testa sem entender direito o que significava esse "claro" em tom irônico. Pensei em questionar Kerline quanto a isso, mas ela não me deu tempo, pois se levantou do sofá e disse que me acompanhava até a saída.
Confesso que às vezes ela tem umas atitudes bem estranhas, que me deixavam um tanto confusa.
Imaginei que ela fosse me acompanhar só até a porta, mas Kerline fez questão de ir comigo até o portão de sua casa. Nos despedimos e eu segui para minha casa e ela ainda ficou parada no portão me acompanhando até que eu chegasse onde Juliette estava. Por falar na minha hóspede, eu a encontrei com uma cara de poucos amigos.
- Que cara irritada.
Não me contive e a provoquei.
- Sabia que você bancando a debochada é irritante?
Eu ri cinicamente.
- E rindo assim, também!
Ela completou me encarando com os olhos semicerrados.
Ainda rindo dela, peguei a chave do bolso e me virei para a porta.
- Eu sempre achei que depois das compras a maioria das mulheres chegavam super animadas em casa. - lancei um olhar por cima dos ombros para Juliette. - Ah, mas esqueci que... você não é como a maioria das mulheres!
- Nem você é.
- Ai! - reclamei da tapa que levei na costa. - Agressiva! - ao terminar de falar, eu abri a porta e apontei pra dentro de casa. - Já pra dentro troço.
- Troço é você que veio da casa da namoradinha cheia da gracinha, né?!
Agora ela socou meu braço antes de seguir para dentro de casa e eu apenas balancei a cabeça rindo dela. Foi quando notei que Kerline ainda estava no portão da casa dela me observando de um jeito que eu não soube decifrar qual era. Confesso que fiquei intrigada com sua presença ali. Para mim, ela já tinha seguido para dentro da casa dela após eu ter chegado na porta da minha casa. Mas não, ela permaneceu parada no mesmo lugar. Acenei para ela e Kerline me retribuiu o gesto para logo depois, seguir cabisbaixa para dentro de sua casa.
Entrei em casa no instante seguinte a Ker, sem deixar de achar estranho o modo como ela seguiu para sua casa.
- Que cara é essa? Onde foi parar o sorriso de deboche que tinha segundos atrás enquanto me perturbava?
- O tapa e o soco que me deu na costa e no braço doeram, viu. - reclamei, mudando de assunto.
- Ai, desculpa, nenê. Já devia ter se acostumado com isso.
Difícil!
- Comprou o vestido?
- Comprei! E isso é pra você.
Ela jogou na minha direção uma das três sacolas que tinha trazido. Por sorte, meu reflexo de reação foi rápido o suficiente para aparar a sacola no ar antes que a mesma me acertasse a cara em cheio.
De dentro da sacola tirei vestido tubinho preto, gola alta de mangas e um casaco vinho com delicadas pedrarias, que segundo Juliette contou, minha mãe havia comprado para eu usar hoje à noite.
-Eu particularmente não gostei muito da cor do vestido. Pra mim, ela devia ter comprado uma "Pink cheguei" que tinha lá junto com um blazer estilo vovó igual aos seus óculos. Inclusive eu sugeri à ela isso.
Ela riu irônica.
- Ainda bem que ela não deu ouvidos à sua péssima 'sugestão'.
***
Eu já estava esperando no sofá há o quê? Uns quinze minutos, talvez. E nada das outras duas descerem. Não sei porque tanta demora. Eu sou mulher que nem elas, mas me arrumei muito mais rápido e primeiro que elas. O vestido e o casaco haviam ficado perfeitos em mim. Para completar o visual eu usava uma sandália preta. Os cabelos lisos, não usava óculos e a maquiagem quem fez foi a Juliette e até o resultado não ficou mal. Ela levava jeito com aquilo.
- Ai, que saco, esperar. - reclamei.
Já havia subido umas três vezes e batido na porta do quarto da minha mãe onde ela e Juliette se arrumavam e tudo que ouvia em resposta ao meu chamado era: "Já estamos quase prontas!". Nunca passava desse 'quase', era incrível!
Mais uns cinco minutos de espera e eu já estava tentada a subir de novo, quando vi minha mãe descer. Ela estava muito bonita, em seu vestido marsala, o qual havia usado no último jantar de ação de graças que fomos na casa do Gil.
- Nossa!
- Exagerado?
- Não! A senhora tá... perfeita.
- Obrigada, querida. E você ficou linda.
- Obrigada. E a Juiette?
Só faltava aquela insuportável ainda não ter ficado pronta e a gente ter que ficar esperando-a aqui.
- Ela ficou só passando perfume e já vem. Vou tirando logo o carro. Você espera a Ju descer e fecha a casa, que vou ficar esperando por vocês no carro.
Assenti vendo minha mãe seguir e sair porta afora. Aproveitei para já ir logo adiantado o serviço e fechando a janela ali da sala. Assim que terminei e me virei, reparei que Juliette já descia as escadas.
- Pensei que ia... - o restante das palavras morreram na minha boca ao me aproximar das escadas e ver com mais atenção Juliette, enquanto ela descia os últimos lances de escada.
UAU...!!
Não parecia a mesma Juliette aquela que eu via. Parecia outra!... Diferente! Eu estava de "queixo caído" com essa.
- Pensou que ia... o quê, Sarará?
- Hãm?!
Franzi a testa sem entender sua pergunta.
- Quer parar de me olhar como se eu fosse um ser de outro planeta.
Ela socou meu braço e isso me fez "acordar".
- Foi mal! - pedi, passado a mão sobre o braço golpeado por ela. - Mas... você tá diferente! - falei, olhando-a de cima a baixo.
A maquiagem mais delicada realçou seus traços bonitos. As madeixas castanhas estavam escovadas e onduladas nas pontas. Em sua cabeça uma tiara com pedrarias lhe enfeitava os cabelos. Ela usava um vestido rosa bebê de alças finas, com saia evasê. A peça delicada era justa na área da cintura e ficava solta no final, seu cumprimento ia até as coxas. Nos pés uma sandália alta cor nude em um tom mais escuro e ainda havia uma bolsa de mão pequena.
Ela estava bonita. Mas, obviamente, eu não ia dizer isso à ela. Não ia lhe dar o gostinho de me ouvir dizer que ela estava bonita, ou melhor, linda!
- Diferente?? O que exatamente você quer dizer com isso, quatro olhos?
Ela me olhou ameaçadoramente.
Engoli em seco e dei sorte que minha mãe buzinou naquele mesmo instante. Agradeci, enormemente por isso. Salva pelo gongo!
- Minha mãe está buzinando pra gente. Vamos!
- Não pensa que vai fugir de me responder, não.
- Quem disse que eu tô fugindo? - indaguei, seguindo em direção a porta.
- Sei!
A escutei resmungar atrás de mim. Em minha cabeça eu só pensava o quão ferrada eu estaria se ela insistisse em realmente querer saber aquilo que me indagou. Eu não podia contar à ela verdade. Não mesmo!
***
Durante o trajeto até o restaurante, eu podia sentir o olhar interrogativo de Juliette sobre mim. Maldita hora que eu fui abrir a boca e deixar escapar aquele "diferente". Agora aquela garota ia me atazanar por isso. E ficaria pior, se eu lhe dissesse o verdadeiro significado daquele "diferente". Precisaria pensar em algo convincente para dizer aquela garota e de preferência, que não fosse a verdade.
Em pouco tempo chegávamos ao estacionamento do The Venetian. Segundo minha mãe, Phillip estaria ali nos esperando para chegarmos todos juntos ao restaurante.
Descemos do carro e mais adiante vi um sujeito de terno claro acenar para minha mãe, e ela retribuir. Bom, aquele só podia ser o tal Phillip.
Seguimos até ele. Minha mãe ia na frente e eu e Juliette a seguíamos mais atrás.
- Dá pra você melhorar essa sua cara de velório?
Juliette me resmungou baixinho para que somente eu escutasse.
Apenas olhei para ela, mas não lhe disse nada. O que ela quer? Que eu fique rindo que nem uma pateta? Eu não vou ficar arreganhando os dentes para esse sujeito.
Alguns passos depois chegamos onde o tal Phillip nos esperava. Vi minha mãe e ele se abraçarem um pouco demoradamente ao se cumprimentarem. Ouvi quando ele disse a ela enquanto a abraçava, que ela estava linda. Olhei para Juliette e esta apenas sorriu.
Depois de cumprimentar minha mãe, o tal Phillip cumprimentou Juliette também com um abraço, porém este não foi nada demorado como o que ele trocou com a minha mãe. Óbvio, né?!
E então era chegada a minha vez!
Antes, porém, minha mãe tratou de nos apresentar primeiramente.
- Phillip esta é minha filha Sarah... Filha este é o Phillip.
- Olá, minha jovem!
Ele me disse amigavelmente e estendendo-me a mão.
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