Capítulo 17

A casa caiu em um silêncio total depois que a Juliette saiu.

Por longos e incontáveis minutos, eu permaneci no sofá envolta com meus pensamentos conflituosos.

Minha mãe "conhecendo um cara" ??

Nem nos meus piores pesadelos eu imaginei tal situação.

Tá! Pode ser que eu até esteja fazendo um dramalhão mexicano ou "uma tempestade num copo d'água" com essa situação toda, mas estava sendo difícil processar essa "notícia" da minha mãe com alguém.

Talvez, eu seja mesmo um pouco egoísta e mimada como Juliette me disse, por não querer que minha mãe não tenha um namorado. Mas o que eu posso fazer se eu sou assim nesse "quesito" ?

Lógico que eu, mais do que qualquer outra pessoa nesse mundo, quero que minha mãe seja feliz, só que... aceitar que isso implica em ela ter um namorado... não é algo fácil de se engolir.

Eu não sei o que fazer. Antes, eu tinha um pensamento formado em relação a essa situação toda, mas agora, depois de ouvir as coisas que Juliette me disse, confesso que fiquei meio perdida. Talvez conversar com meu melhor amigo me ajude. Gil sempre sabe o que dizer em momentos como esses.

Estiquei o braço e apanhei o celular de cima da mesinha que havia ali ao lado do sofá. Disquei o número de Gil, mas nem chamou e já caiu direto na caixa postal. Estranhei isso, porque o Gilberto não deixa o celular desligado. Ele sempre está com o aparelho ligado e agarrado em uma das mãos. Resolvi ligar para a casa dele. Tia Jacira quem atendeu a ligação. Perguntei a ela se poderia falar com o Gil e fui surpreendida com a mãe do meu amigo, dizendo que ele não se encontrava, pois tinha ido ao boliche com o namorado e umas primas de uma amiga chamada Juliette.

Oh! Quer dizer que agora, ele e a Juliette já são amigos a ponto da insuportável chamar Gil e Lucas para irem com ela ao boliche?

Juliette sequer me mencionou isso, e Gil também nem para me ligar contando. Mas quer saber? Deixa para lá. Não tô com ânimo para contestações quanto a isso.

Agradeci a tia Jacira pela informação e me despedi dela antes de encerrar a ligação logo em seguida.

Pensei em ligar para Kerline e lhe compartilhar aquilo e pedir sua opinião, mas depois desisti disso. Nós estávamos somente a uns dias juntas para eu ir logo dividindo algo assim com ela. Sem contar, que ela poderia me achar uma idiota por aquilo. Então só restava-me pensar e achar sozinha o rumo que tomar em relação aquela situação. Confesso que me sinto em uma tremenda encruzilhada.

- O que eu faço?

Minha mãe é a pessoa mais importante na minha vida. E a felicidade dela é a minha felicidade também. E segundo Juliette, o sujeito que mamãe estava se envolvendo lhe fazia feliz. Aquilo era uma equação simples cujo o resultado era bem óbvio. Deixar minha mãe ser feliz refazendo a vida dela com alguém que lhe fazia bem e lhe deixava feliz. Parecia tão simples falando, mas tão difícil de pôr em prática. Mas se eu queria o bem dela, devia apoiar minha mãe, lhe dar força, assim como tinha certeza que ela faria comigo independente da situação.

Permaneci ali no sofá pensando por mais um tempo que não soube precisar. Mas depois subi e fui para o meu quarto me deitar. Juliette não viria dormir em casa, pois do boliche iria para a casa das primas e por lá dormiria. E mamãe, chegaria tarde, então eu não quis esperá-la. Deixaria para falar com ela amanhã quando estivesse de cabeça fria. Não que agora não estivesse, mas seria mais fácil travar essa conversa com ela. Precisava ter essa conversa, porque não saberia ficar fingindo para ela que não sabia de nada. Mamãe me conhecia bem demais e perceberia logo que eu escondia algo dela. Então, eu optei por amanhã abrir o jogo a ela.

***

Acordei no dia seguinte ciente de que aquela manhã seria difícil para mim, mas quem disse que na vida as coisas são fáceis? Bom, vamos lá, né?!

Levantei, fiz minha higiene matinal, arrumei minha cama bem arrumadinha e desci para tomar café. Certamente, a esse horário minha mãe estaria tomando o café dela também. E não me enganei nisso. Quando cheguei a cozinha ela estava lá na companhia de Juliette que acho que chegou há pouco, pois enquanto estava no quarto ouvi a campainha tocar.

- Bom dia!

Cumprimentei-as e notei que ambas pareciam estranhas demais para o meu gosto.

- Aconteceu alguma coisa?

- Não, filha. Está tudo bem.

Pelo tom da voz dela e sua expressão meio abatida, ali podia estar tudo, menos bem. Tinha acontecido algo e ela não queria me contar. Olhei para Juliette e ela parecia séria demais.

- Como foi a exposição?

Optei por não começar tocando direto no assunto do... do... tal Phil.

- Foi um sucesso, filha.

Se foi um sucesso então por que ela não estava feliz? Estava triste, sem aquele brilho que eu via em seus olhos nos últimos dias.

- Foi mesmo? Porque não é isso que a senhora tá me passando.

- Foi tudo perfeito, Sarah. Melhor impossível.

- Mãe tá tudo bem com a senhora?

Seu semblante e até sua voz estavam esquisitos, triste.

- Está!

Lancei, disfarçadamente um olhar interrogativo a Juliette e ela me sinalizou que "não" com a cabeça e gesticulou com a boca o nome "Phil" sem que a minha mãe visse.

O que esse cara aprontou com a minha mãe?

Se eu queria saber então tinha que tocar naquele assunto.

- Mãe, eu preciso ter uma conversa séria com a senhora. - anunciei.

Deus me ajude nisso!

- Bom, eu já imagino qual será o teor da conversa então vou subir pra deixar vocês conversarem sozinhas.

Juliette levantou-se da cadeira para sair da cozinha, mas por uma razão que não sei explicar direito, eu pedi que ela não fosse e ficasse ali. A presença dela de um modo estranho me encorajava no que eu tinha a falar.

- Você quer que eu fique aqui mesmo?

Ela parecia espantada com o meu pedido.

- Sim. Como você mesma disse, o teor do assunto que vou tratar com a mamãe já é do seu conhecimento. Então não vejo razão alguma em você se retirar da mesa.

- Bom, então tá.

Ela tornou a se acomodar na cadeira.

Levou alguns segundos para eu tomar coragem de começar. A bem da verdade é que eu não sabia por onde começar, então optei por fazer isso contando logo que já era do meu conhecimento que minha mãe estava saindo com um sujeito de nome Phillip.

- Como você sabe sobre o Phil? - minha mãe questionou-me atônita. E antes que eu lhe respondesse, ela olhou para Juliette. - Você contou isso à ela, não foi?

- Eu obriguei a Juliette a me contar, mãe. Ela não queria abrir o bico, mas se viu tão acuada com a minha chantagem de que se ela não me contasse não a deixaria sair daqui de casa pra ir ao boliche com as primas, que ela não teve outra escolha senão me contar a verdade. - expliquei-lhe para não deixar Juliette com o "filme queimado" com a minha mãe. Então prossegui: - Eu fiquei desconfiada com a sua reação ao que eu disse sobre namorado, depois liguei alguns pontos do seu comportamento nos últimos dias e cheguei a uma conclusão. E pra ter certeza, eu então interroguei a Juliette. E ela sem saída me contou tudo.

- Desculpa, tia Abadia.

- Tudo bem, querida. - minha mãe tocou o ombro de Juliette. - Acho que eu errei nisso tudo. Devia ter contado a você desde o começo, Sarah. Assim evitaria essa situação toda. Mas, eu protelei isso, por justamente saber que você não aceitaria. E antes que você me diga isso agora e com todas as letras, eu quero que saiba que ontem, durante a exposição, conversei com o Phil e pedi pra ele se afastar de mim, que entre a gente não haverá mais nada. Você é a pessoa mais importante pra mim, filha... - ela segurou a minha mão. - ... E eu não  quero, de modo algum, que fique mal por conta de eu estar com alguém. Por isso mesmo, eu disse ao Phil que acabou o que a gente estava começando.

Não vou negar que fiquei feliz da conta com essa notícia, mas logo a alegria se dissipou em nano segundos ao ver a tristeza com a qual a minha mãe me contou isso. Aí, fiquei mal. Ela estava sofrendo, pois estava gostando desse tal de Phil, porem abriu mão dele por mim. Não era justo isso! Não era justo ela se privar da própria felicidade para não me ver mal. Mesmo que fosse desagradável para mim essa situação de um novo homem fazendo parte da vida dela, eu não tinha direito algum de privá-la de refazer sua vida. Ela merecia alguém que lhe fizesse feliz, como parecia que esse sujeito fazia.

- Mãe, a senhora não faz ideia do quanto eu queria deixar as coisas assim mesmo. Mas eu sei que a senhora não está feliz com essa decisão. E eu quero muito a senhora feliz. Se possível sempre feliz! Então, se eu não tiver estragado as coisas definitivamente com o tal Phil, a senhora e ele podem... ficar juntos.

- Filha, eu não quero que se sinta obrigada a...

- Eu não estou me sentindo obrigada a nada mãe. - eu esclareci, interrompendo-a. - Alguém aqui me disse que eu não tenho o direito de lhe impedir de refazer a sua vida. E que eu como filha devia ser a primeira a lhe dar força nisso. E devo reconhecer que ela está mais do que certa no que me disse, não é Juliette? - olhei para ela e minha mãe me imitou surpresa.

Eu tinha que dar o devido crédito daquilo aquela insuportável. O que Juliette me disse ontem pesou bastante na minha decisão. Talvez, se não fosse por seu "sermão", eu não tivesse mudado minha visão quanto a aceitar minha com alguém.

- Bem... Eu geralmente estou certa no que digo, quatro olhos! - ela disse toda convencida e jogando os cabelos para trás.

Eu e minha mãe rimos. Quanta auto-confiança dessa garota.

- Obrigada por ter conseguido essa façanha com a minha filha, Ju.

Minha mãe agradeceu e ela tinha que fazer isso mesmo. O que Juliette conseguiu foi uma façanha mesmo!

- Mas eu acho que depois de ontem o Phil não vai querer mais nada comigo.

Ouvir isso me deixou preocupada. Era minha culpa. Então nada melhor do que eu mesma tentar consertar isso.

- Se a senhora quiser eu mesma falo com ele. - por ela e sua felicidade, eu me submeteria a fazer qualquer coisa. - É só me dar o número dele e eu ligo pra...

- Não precisa, querida. Eu mesma vou tentar falar com ele.

No fundo fiquei mais aliviada por isso. Apesar de ter sugerido falar com esse Phil, eu ainda não me sentia pronta para isso.

- Tudo bem. E depois que a senhora e ele se... entenderem... eu gostaria de conhecê-lo.

Ela me sorriu tão contente por ouvir aquilo de mim, que eu vi que tinha tomado a decisão mais acertada em ceder àquela história de "namorado".

- Obrigada por isso, viu? E pode deixar que se der tudo certo, a gente marca um dia pra você conhecê-lo, ok?

Eu assenti. Depois vi minha mãe ainda com um sorriso nos lábios, levantar-se da cadeira dela dizendo que iria ligar para Phil para conversarem.

- Mandou bem, Sarará!

Olhei para Juliette tão logo ela disse isso após a saída da minha mãe da cozinha.

- Valeu, garota insuportável!

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