20 - O Contrato para História
* Capítulo não revisado.
Valentina viu o dia de trabalho voar enquanto se dividia entre resolver os problemas da editora e conseguir um pequeno tempinho para escrever, logo era chegada a hora da reunião com o jurídico e Fernando. Ao analisar durante a tarde os documentos que seriam apresentados ao homem, a dona da editora percebeu que não havia como fugir, ou revelava que a segunda parte do livro era de Léia ou desistia dela. Por isso, ela acabou por enviar um e-mail ao jurídico dizendo que a segunda parte era contada a ela de maneira que a moça preferia ficar anônima, e sendo assim se recusando a receber sua parte do dinheiro. Essa era a melhor desculpa que poderia dar.
No horário marcado ela saiu de sua sala e tomou o rumo do elevador até o andar da reunião. Não podia negar, seu coração batia como todas as escolas de samba que passavam pelo sambódromo de Anhembi na época de carnaval. Se Fernando desconfiasse de tudo por alguns segundos todo o plano estaria por água a baixo e, no entanto, não havia como reverter a situação, ela não tinha como se negar a dar os direitos do livro a ele.
Assim que abriu a porta, Valentina se deparou com os dois advogados, Rafael e Renan sentados de um lado da mesa e Fernando na ponta de costas para a porta. Rafael Oliveira era seu primo, acompanhava sua jornada desde o começo, analisou seus primeiros contratos e ainda fazia serviços para a editora contanto que o seu pagamento fosse bom, afinal, o homem gostava de manter o bom estilo de vida morando em Alphaville. Era uma das poucas pessoas da família que ainda tinham sequer um contato com a antiga senhora Ramos.
− Desculpem o meu atraso. – Ela sorriu de maneira gentil para todos e tocou o ombro de Fernando sob o olhar dele ao passar pelo mesmo tomando o rumo de sua cadeira que ficava na outra extremidade da mesa. – Trabalho.
− Está tudo bem, já passamos o contrato para o senhor Fernando. – Renan comentou sorrindo para a mulher.
Apesar do pouco contato, os advogados e a dona da empresa se conheciam bem, Renan a conheceu no casamento de seu primo e acabou sendo convidado por ele a se juntar a equipe da editora. Mesmo que ficassem em outro andar e raramente se trombassem ou até mesmo chegassem a conversar sobre algo que não fosse trabalho, os três se tratavam com certa amizade.
Valentina passou os olhos sob Fernando que terminava de devorar as folhas do contrato com o cenho franzido. De fato, já que estava no final havia chegado na parte que falava sobre Léia. Seus músculos se retesaram e seu estomago embrulhou de nervosismo e mesmo assim sua expressão ainda era a mais amigável que conseguia fazer; seu único movimento foi retirar os óculos pendurados do colarinho e leva-los ao rosto com a proposta de também manter a seriedade do momento.
Assim que o funcionário chegou a última folha ele levantou o olhar na direção de Valentina:
− Desde quando o nome de Léia consta assim no contrato? Como assim ela vai contar a parte dela na segunda parte do livro? – Sua expressão era de espanto e ao mesmo tempo nervosismo, pelo menos a mulher interpretou assim.
− A senhora Léia concordou em relatar o ponto de vista dela contanto que não o encontrasse. Até se negou a receber a parte dela do livro, o nome dela só consta porque quando ela assinar o contrato, não será possível reivindicar isso mais tarde. – Rafael tomou a frente para responder antes de trocar olhares com a prima – Ela também disse que não vai assiná-los em sua presença. Seu único contato será Valentina.
− Você não acha que podia ter me contado isso antes? – Dessa vez a pergunta de Fernando foi diretamente para Valentina. Rafael e Renan mal conseguiram evitar levar os olhares ao rosto da mulher que apenas sorriu de lado de maneira complacente.
− Ela me pediu para guardar a informação até o último momento, e eu lhe dei minha palavra. – Os advogados se olharam e depois sorriram para Fernando como cúmplices da chefe.
O casal se encarou por alguns segundos, chegando a deixar os outros dois presentes em certo desconforto; era difícil ficar numa guerra de olhares sem saber o que dizer, principalmente porque como conheciam Valentina sabiam que ela era do tipo que não se dava por vencida, e muito menos voltava atrás quando inventava uma mentira daquele nível. No final, Fernando pegou a caneta dourada em cima da mesa e acabou por assinar o contrato. Os valores lhe favoreciam e a única cláusula que lhe deixava mais desconfortável era a parte onde precisaria acompanhar Valentina no mínimo na primeira sessão de autógrafos.
Com a assinatura de Fernando e Valentina no papel os advogados se retiraram dando tchau ao casal que ficou sozinho na sala, cada um sentado em uma ponta da mesa.
− Você está muito chateado comigo por esconder de você que eu havia encontrado Léia? – Ela perguntou de maneira manhosa.
− Não sei dizer, sempre achei que ela estava tão longe e de repente descubro que ela está mais perto do que imagino, mas não quer falar comigo. – Fernando coçou a cabeça e depois deu de ombros – Acho que deveria ser assim, eu a fiz sofrer.
− Eu sinto muito que se sinta assim. – Ela começou seu discurso se levantando e contornando a mesa até ele. – De qualquer forma, confesso que uma parte de mim ficou enciumada em saber que ela podia querer saber de você novamente.
Com um certo jeito de manhosa, Valentina se aninhou encostada na mesa próxima a cadeira de Fernando que só a encarava com atenção até sorrir achando graça de seu jeitinho. Era curioso como ele achava fofo o jeito que ela brincava com ele.
− Sabe, em algum momento da minha vida eu achei que se Léia e eu nos encontrássemos novamente e nos resolvêssemos, eu finalmente teria meu final feliz com ela. Imaginava que ela iria acolher Alice como filha dela, e que teríamos o namoro que tanto falávamos por mensagem. – O homem se levantou e segurou Valentina pela cintura ainda encostada na mesa. Por que sempre se encontravam naquela situação? – Mas eu não preciso viver um romance com ela se tenho você.
Sem muita demora o casal se beijou, Valentina sentia seu corpo inchar de alegria sempre que seus lábios tocavam os de Fernando; naqueles momentos até se esquecia de sua vingança. Para Fernando, beijar sua chefe lhe dava a sensação de estar em um sonho, sem querer que aquilo acabasse de maneira alguma.
Para a pessoa que era acompanhava por Jean até a sala e passava pela porta naquele momento, o único gesto possível fora cruzar os braços, enquanto o rapaz do RH apenas olhava para os cantos sem saber que providencia tomar. A única coisa que o casal não havia percebido ainda, era que essa pessoa em questão, era na verdade, a filha de Fernando.
− Estou atrapalhando? – Alice cruzou os braços de frente para a cena e logo viu seu pai e Valentina se separarem assustados.
A mulher manteve o rosto virado por alguns segundos com a mão cobrindo a boca como se quisesse rir do flagra. No fundo era realmente isso, queria rir porque aquilo lhe trazia lembranças de adolescente.
− Alice. – Fernando deu um sorriso forçado para cima da própria filha e depois olhou para Jean que tinha o rosto virado e os lábios apertados como se também estivesse segurando o riso – O que você está fazendo aqui filha?
− Eu pensei em passar aqui pra gente ir ver um filme. Amanhã é oito de março, eu quero meu presente adiantado. – A garota anunciou fazendo Valentina se lembrar que não havia combinado nada com sua equipe para a homenagem daquele ano. Estava tão absorta das coisas desde que Fernando chegou a sua vida. – Boa tarde dona Valentina.
− Olá. – A mulher mais velha se virou na direção da porta e sorriu forçadamente antes de se encaminhar para fora da sala – Eu preciso resolver algumas coisas na minha sala, vejo vocês depois.
Pegando Jean pelo braço Valentina apressou o passo em cima de seus saltos quase que correndo com o amigo pelos corredores até o elevador. Só então os dois se permitiram sorrir, e praticamente gargalharam sendo olhados pelos outros, mas depois de soltar o riso não conseguiam parar mais.
− Você podia ter me avisado que ia transar com ele na sala. Ou pelo menos fechado a persiana da porta, sabia que o vidro é transparente? – Jean comentou entre as risadas.
− Era só um beijinho inocente. – Valentina entrou acompanhada do amigo no elevador que logo abriu as portas – Droga, me sinto uma inconsequente deixando-o se resolver com a filha pra trás.
− Se serve de consolo, aquela sala cheirava a tensão sexual. – As duas últimas palavras foram sussurradas por Jean perto do ouvido da amiga que se balançou sorrindo. Eles não estavam sozinhos no elevador para aquele tipo de conversa. – Vocês formam um casal bonito, pena que você quer jogar isso ladeira abaixo.
As portas se abriram no andar da sala de Valentina e os dois amigos saíram pelo corredor ainda com resquícios de risada.
Jean não se questionava mais sobre aquilo, mas nunca entendeu porque Valentina como dona da empresa, além de não ter um CEO e assumir todas as responsabilidades, tinha sua sala num lugar que não era o último andar. Ela deixava os últimos andares para as salas de reuniões, possivelmente pelas vistas, e pela distancia de barulho da rua, mas na cabeça do mais novo sua sala deveria ser lá.
− Quando ele fala da Léia eu sinto um pesar. – Ela confessou entrando na própria sala – Mas não posso voltar atrás, ele parece arrependido, diz que a fez sofrer, mas eu ainda não sei porque ele tomava essas atitudes.
− Valentina você ta falando de você mesma em terceira pessoa, para. – O amigo a alertou soltando um riso fraco antes de se sentar em uma das poltronas – Saber os motivos dele vai fazer você se sentir melhor? A sua raiva e seu desejo de vingança vai diminuir se souber que ele fez você sofrer porque era um adolescente com hormônios a flor da pele e sem responsabilidade emocional?
− Sim. – Respondendo de uma vez ela se sentou atrás de sua mesa. – Vou me sentir menos usada se eu souber o motivo.
− Isso não vai acabar bem...
[...]
Valentina acordou no dia seguinte com o celular disparado de notificações, e meio sem entender o motivo, se sentou na cama ainda com cara de sono. Do outro lado da cama, Evidence, o gato se remexia incomodado de ter sido acordado por sua própria dona.
− Bom dia meu amor. – Ela disse sorrindo para o gato.
Sempre manteve aquele costume; acordava e dava bom dia ao bichano, antes de sair dizia tchau, e quando chegava sempre o acariciava dizendo coisas como "a mamãe chegou amor". No final das contas, o gato era sua única companhia.
Depois de preparar seu próprio café e comer algumas torradas com requeijão, a moça se arrumou para sair de casa, guardando o celular na bolsa sem nem verificar as notificações. Trajava uma calça jeans de cintura alta com um cinto preto, e uma camisa branca grande de botões. Guardava aquela camisa a anos, fora de seu avô, e sempre a usava mesmo que parecesse enorme ou masculina demais para ela. Ao trancar a porta de casa e passar pelo portãozinho do jardim dentro do carro, encontrou na caixa de correio um coração colado na parte de fora. Não havia nenhum nome, nada que indicasse quem quer que fosse, mas o gesto estava ali.
Ao som de Gloria Gaynor para animar o dia, os minutos passaram voando até que chegasse ao trabalho. Assim que passou pelos portões da gráfica, o segurança que atendia pelo nome de Lucas a cumprimentou lhe dando bom dia e ela lhe sorriu de volta. Seu primeiro cumprimento do dia sempre vinha dele, as vezes pensava o quanto isso lhe soava solitário. Incrivelmente o elevador estava vazio no momento que o pegou e ela agradeceu por isso, mesmo sendo a dona se sentia constrangida quando pegava o elevador com outras pessoas.
Caminhando lentamente até sua sala, a mulher percebeu que as cortinas estavam fechadas e que aquilo era incomum.
Ao abrir a porta da própria sala, seu próximo movimento foi levar o braço até a altura dos olhos na tentava de se proteger quando as cortinas foram abertas de repente. Seus olhos demoraram a se acostumar com a claridade repentina, mas logo que isso foi feito, pensou que fosse chorar.
− Pela deusa. – Ela sussurrou cobrindo a própria boca enquanto sorria.
A sala estava repleta de rosas e seus amigos estavam todos lá dentro segurando bombons que deveriam ser para ela.
Sorrateiramente, Fernando se aproximou de Valentina pelas costas da mulher e tocou o ombro dela chamando sua atenção:
− Feliz dia internacional da mulher. – Ele lhe beijou a testa e com uma rosa em mãos entregou para a moça.
Valentina não sabia como reagir, muito menos o que fazer. Só sabia que naquele momento, rodeada pelos amigos e sendo abraçada por Fernando não se sentiu sozinha.
* Mais um capítulo fofinho pra aquecer nossos corações antes do surto acontecer, sempre assim. Bom, não tenho muito sobre o que dizer além de que esse capítulo é completamente dedicado a Kim que sempre comenta com todo o amor e veio até mim pra conhecer a história real (porque metade desse livro é uma história real e a outra também kkkk), e que como sabem, o pix pra ajudar no desenvolver da história é 11963075434, e também é meu número de telefone - estou tentando criar uma central de spoiler mais conhecida como grupo de leitoras, caso alguém se interesse. Beijinhos, e até a próxima.
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