13 - Uma festa para a história
Finalmente, era o dia da festa. Fernando e Valentina tiveram um leve afastamento, já que agora ela passava o pouco dos seus dias com Jean, até mesmo dormira na casa do amigo apenas para ter certeza de que ele estava bem. Mesmo assim, era inevitável ignorar os olhares, boa parte dos funcionários da gráfica já perguntavam ao companheiro de trabalho se ele tinha algo com a dama de ferro. Enquanto ele negava para quem trabalhava consigo, a mulher negava aos amigos, insistindo que eram apenas amigos que estavam se ajudando sobre um livro. Livro esse que fora deixado de lado, visto o drama que havia acontecido.
Pelo menos o drama havia servido para algo, afinal, Jean e Valentina passaram tanto tempo juntos que até compraram suas roupas combinando. Ela havia escolhido um longo vestido vinho com um decote em V sendo coberto por um tule, e ele optou por usar uma camisa social no mesmo tom de vinho que a amiga.
— Valentina! — Jean gritou pela amiga acordando até mesmo Evidence, o gato que dormia no sofá. Nunca entenderia porque ela tinha ficado com aquela casa enorme de dois andares sozinha. — As gays já chegaram, você pode descer por favor?
Encarando-se no espelho da penteadeira, a mulher se questionava se realmente precisava de tudo aquilo. Odiava ficar horas a fio com o salto no pé, mas gostava de se sentir poderosa com eles. Também não era fã de vestidos longos, mas aquele em especial havia gostado. Claro, depois de tanta pressão de seu amigo, ela podia ter odiado e ainda assim seria obrigada a usar. Afastou todos os pensamentos maldosos que estava tendo e tratou de respirar fundo para descer as escadas.
— Vocês são escandalosos, eu sabia que haviam chegado quando tocaram a campainha — Ela parou na ponta da escada, chamando a atenção dos amigos. — E então? Foi escolha do Jean, se estiver feio vocês brigam com ele.
— Tá linda, linda — Vinicius se pronunciou, mostrando o terno azul que combinava perfeitamente com seus olhos. — Até colou os cílios direitinho e tirou os óculos.
— Haha, muito engraçado, estou de lentes, não quero ficar cega na festa da minha editora. — Ela desceu, pegando a bolsinha prata que havia deixado na mesa de centro da sala justamente com o intuito de não esquecer. — Vamos, anfitrião não chega atrasado.
O quarteto poctastico entrou no carro, sendo dirigido pela única mulher do grupo e, numa viagem de quase meia-hora, trataram de escolher todas as músicas que tocaria. Começando com Bruno Mars, Valentina e Diogo cantavam a plenos pulmões Locked Out Of Heaven como um hino atemporal. Mas não demorou muito para que colocassem algum funk para tocar e todos fizessem suas falhas tentativas de dança ainda sentados.
Quando o carro foi estacionado, um funcionário veio cumprimentar aos convidados e pegar as chaves com Valentina para guardar o carro. Ela agradeceu com um sorriso e seguiu com os amigos para dentro do salão. Um salão próximo do local de trabalho fora alugado para o evento, a mulher não queria que seus funcionários se deslocassem mais que o necessário num evento que começaria a noite. Assim que colocou o pé para dentro do tal salão, ela já fora bombardeada com cumprimentos, apertos de mão e beijos no rosto, não sabia quando foi a última vez que fora recebida de forma tão calorosa num lugar.
Normalmente, os funcionários não eram tão amigáveis com ela, também porque a mulher não lhes dava oportunidade, no entanto, nos últimos tempos, Valentina vinha fazendo muitas tarefas especiais para facilitar o trabalho dos mesmos e, talvez, sua aproximação com Fernando tenha derrubado a barreira entre patrão funcionário que tinha construído antes.
— Dona Valentina — um dos organizadores abordou a mulher, que ainda estava acompanhada dos amigos. — Vinicius. — Ele apertou a mão de todos. — Podemos conversar sobre a organização? Deixei um tempo para um leve discurso.
— Claro — ela e o amigo concordaram enquanto se viravam para os outros dois. — Peguem uma taça de champanhe pra mim por favor, amo vocês.
Diogo e Jean se encararam com um sorriso cúmplice e se afastaram, deixando que os outros dois seguissem para um canto do salão para debater o tal momento do discurso.
Longe do local, Fernando pedia a ajuda de Alice para colocar uma gravata. Ela insistia em dizer que aquilo era desnecessário, mas o homem queria causar uma boa impressão.
— Pai, eu tenho certeza que nenhum dos amigos próximos da Dona Valentina vai usar uma gravata. O senhor já fica bonito sem ela.
Ele se olhava no espelho, tentando se convencer do que ouvia. Todo o seu look era preto, queria colocar a gravata vermelha para dar uma cor no que vestia.
— Tenho a sensação de estar vestido para um enterro — ele comentou, encarando a filha que fazia uma careta. — Eu sei, você já disse que preto fica bonito e que estou parecendo um CEO dos livros que você lê.
— Exatamente.
Naquele momento, o pai se deu por vencido; Fernando se curvou, beijando a bochecha da filha e pegou o celular para pedir o Uber que o levaria até o local da festa. Aquela não era uma ocasião para usar o metro. Quando o carro chegou, o homem beijou a bochecha da filha sussurrando um "cuide-se" e, mesmo com receio, saiu do apartamento, entrando no carro logo depois, tomando o rumo do salão.
Enquanto isso, Valentina se aproximava do microfone na ponta do salão que dava uma visão geral de todos, chamando a atenção dos demais enquanto tinha uma taça de champanhe em mãos, dada por Jean.
— Uma ótima noite a todos! — ela iniciou seu discurso. — Eu fico completamente grata em ver que a esmagadora maioria decidiu estar aqui hoje. É uma festa para vocês e sobre vocês. Um agradecimento da minha parte pelo duro trabalho que os funcionários da nossa gráfica prestam todos os dias e também para dar as boas-vindas para aqueles que se interessaram em trabalhar conosco e construir esse império juntos. Todos vocês fazem parte de um sonho muito importante para mim. — Ela ergueu a taça com um grande sorriso. — Um brinde a todos os trabalhadores da gráfica.
As pessoas presentes que carregavam a taça consigo, ergueram o objeto, acompanhando Valentina em seu brinde, e o resto bateu palmas enquanto a mulher saía do "palco".
— Parabéns pelo sucesso gata. — Jean beijou de maneira estalada a bochecha da amiga que o abraçou em retorno. — Obrigada por me deixar fazer parte dele.
— Oh, alguém está sendo sentimental — ela comentou, rindo com o amigo. — O que foi? Eu estou passando uma imagem maternal demais pra você e isso te deixou sensível?
— Ora, não posso nem ser legal com você, cão.
Enquanto sorriam das próprias brincadeiras, alguns funcionários se aproximavam para cumprimentar Valentina e Jean, agradeciam a contratação e alguns até comentavam sobre como achavam que ela era uma pessoa bem mais rígida e dura antes de a conhecerem. Isso não a magoava, mas a fazia começar a pensar em que imagem estava vendendo de si mesma antes, uma mulher impetuosa viciada em trabalho? É verdade que quando a editora se estabilizou, após a fundação da gráfica, ficava difícil sorrir para todos com os problemas que enfrentava, mas não lhe custava nada ser mais simpática de vez em quando.
— Você já viu seu companheiro de jornada literária? — Vinicius perguntou para a mulher ao se aproximar.
— Não... — Por um momento, ela tinha até mesmo esquecido que Fernando apareceria, estava tão leve na presença de todos. — Acho que ele não vem, ele disse algo sobre a filha no dia que anunciamos.
— Valentina. — A voz grossa soou em suas costas e ela mordeu o próprio lábio fazendo uma careta para os dois amigos presentes. Como eles podiam deixar que Fernando se aproximasse assim pelas costas dela sem avisar? — Sinto lhe desapontar.
Ao se virar ela viu pelo canto do olho os amigos saírem de fininho e, infelizmente, o champanhe de sua taça estava por um gole.
— Fernando... — Não devia tê-lo analisado como o fez, mas não resistiu em constatar que ele ficava lindo em roupas sociais. Por que tinha que ser assim? Era um tipo de "fetiche" tão óbvio, homens em trajes daquele tipo. — Não estou desapontada, pelo contrário. Fico extremamente feliz em vê-lo.
— Extremamente? — Um garçom passou pelo casal com a bandeja de taças e o homem pegou duas, tirando a quase vazia da mão de Valentina e devolvendo na bandeja do garçom. — Eu sempre quis fazer isso.
— Extremamente — ela repetiu, passando a língua pelos lábios. — Você está altamente galanteador hoje, devo avisar as mulheres da empresa para se segurarem?
— Se isso lhe trouxer mais segurança. — Então ele sabia brincar? Valentina se sentia extasiada pela competição de leves provocações em que havia entrado. — Alice disse que eu estava lindo, mas é porque ela certamente não lhe viu.
Levemente envergonhada, a mulher sussurrou um obrigada antes de bebericar o champanhe da taça. Como era uma pessoa muito fraca para álcool, a dama de ferro sabia que não deveria passar da quarta taça ou chegaria na fase de falar demais.
— Sua filha não mentiu — ela resolveu devolver o elogio sem evidenciar o quanto aquela roupa estava incrível nele, como podia se sentir atraída por algo assim? — Pena que perdeu meu discurso, foi muito inspirador.
— Eu estava ocupado procurando uma taça de vinho ao invés de champanhe. — Ela observou o homem terminar o líquido de sua taça em um único gole. — Eu sei que o propósito não é se embebedar, mas água gaseificada não é o meu forte.
— Eu tenho vinho na minha sala. Vamos de fininho para ninguém achar que estamos fazendo algo errado. — Valentina tratou de engolir o líquido da própria taça e liderar o caminho para a saída do salão.
Pedindo a um funcionário do estacionamento para que trouxesse seu carro, ela e Fernando entraram no veículo rapidamente, olhando para os lados na falha tentativa de comprovar que não estavam sendo vistos por ninguém, mas os outros três integrantes do quarteto poctastico haviam visto o casal saindo da festa com as taças em mãos.
Em menos de dez minutos, Valentina estacionou o carro em frente a editora e destravou o alarme para entrar com Fernando. Cumprimentando o segurança noturno com um aceno de cabeça, ela apenas disse que estava subindo até sua sala para pegar algo importante. O senhor em questão nada perguntou, não tinha motivos para o fazer.
— Parecemos dois adolescentes fazendo algo errado — Fernando comentou, entrando no elevador com a mulher e sorrindo.
— Isso é bem diferente das coisas que eu fazia na adolescência.
Encostado no fundo do elevador, o homem a encarou com uma sobrancelha arqueada.
— O que você fazia na adolescência então?
— Hm... — Ela pensou no que ia dizer, não podia dar muitas pistas de coincidência com Léia. — Eu jogava vôlei. Enquanto morava com meus pais o horário de voltar era as dez, e virou meia-noite depois que eu fiz 18.
— Você era líbero, não é? — Os dois sorriram, ela de maneira ofendida e ele para disfarçar o que tinha dito. — Desculpa, é evidente que não tem dois metros.
— Pra sua informação, eu comecei como levantadora, fui federada como líbero, mas ainda joguei como oposta e central — ela dizia aquilo com tanto orgulho na voz que ele se questionou internamente o motivo de não ter seguido a carreira. — Mas fui obrigada a abandonar.
O elevador finalmente abriu a porta, mostrando o longo corredor escuro a frente deles. Valentina foi a primeira a sair, tomando o rumo de sua sala de cor
— Posso perguntar por que você parou de jogar?
Ela ligou as luzes da sala assim que entraram e, andando até a mesa, largou a taça sob o local, se virando para Fernando ao farfalhar o tecido do vestido. Depois ela exibiu o joelho esquerdo envolto em um tecido escuro.
— Tive uma lesão no joelho. Tenho que andar com esse tensor para cima e para baixo na tentativa de aliviar a dor, mas acredite, nunca fui ao médico. — Ele lhe mandou um olhar de reprovação. — São anos sentindo dor, mas tenho pavor de médicos.
— Como você usa saltos tão altos se seu joelho é assim? No dia do almoço não estava usando.
— Isso é porque eu sou teimosa. — Ela caminhou até uma estante, pegando a tal garrafa de vinho. — Quando uso algo que deixa meu joelho exposto, eu não coloco o tensor. Quanto ao salto, gosto de colocar porque me sinto mais confiante, mais bonita.
Pegando um abridor, ela fez força para retirar a rolha da garrafa, obtendo sucesso quase que imediato. Fernando se perguntou se aquilo não era resultado de algum tempo de prática e, logo depois, se aproximou, tendo sua taça preenchida pelo líquido vermelho-escuro, quase do mesmo tom de vestido que a mulher a sua frente usava.
— Se você soubesse o quanto fica linda de qualquer jeito, não diria nada disso, muito menos se colocaria em tal martírio por beleza.
Próximos. Era assim que o casal se encontrava naquele momento.
Valentina considerou a situação como perigosa e excitante ao mesmo tempo. Deveria gostar tanto daquilo? Ora, tinha planejado aquele acontecimento quando Jean pensou na festa por ela. Mas aquilo já não importava mais, a ideia de vingança estava diminuída em sua mente.
Fernando percebeu o entorpecimento da mulher e colocou a taça cheia na mesa atrás dela, vendo-a se apoiar na superfície como se estivesse encurralada. Por algum motivo, ele gostou daquilo. A grande mão do homem se ergueu, tocando o rosto dela e aproximando o rosto quase que em câmera lenta, a cena não podia ser melhor, era como um filme.
No entanto, um barulho longo tirou o casal do transe, fazendo Fernando afastar a mão do rosto da mulher rapidamente. "Maldito celular", Valentina pensou ao sorrir, constrangida, para o homem a sua frente. Retirando o aparelho do bojo enquanto via sua companhia pegar a taça de vinho e lhe dar as costas, ela percebeu que nada daquela ligação podia ser algo bom.
Afinal, quando foi a última vez que uma de suas tias lhe telefonaram?
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Oi gente tudo bem? Cheguei meio atrasada esse mês - pra quem não percebeu ainda eu atualizo todo dia 5 15 e 25 - estou com alguns problemas em casa, e isso acabou me atrapalhando. NOs próximos dias eu vou ficar sem escrever, mas podem ficar tranquilos que temos quase 30 capítulos dessa história só esperando serem liberados. Os comentários de vocês tem sido muito importantes nessa jornada minha, muito obrigado a quem dedicou um tempinho pra isso.
De resto já sabem, mandem um real pra tia no pix 11963075434 - ou mandem mensagem, qualquer leitor é bem-vindo. Adoro vocês <3
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