make me whole

—Está tudo bem? — Mingi assentiu, abrindo mais a porta de seu apartamento para que o mais velho entrasse.

As ruas estavam silenciosas por causa do toque de recolher, mas o músico se recusava a dormir cedo ou ficar em casa.

Não há punição para aquele que não for pego.

—Eu ainda acho isso uma má ideia — Yunho murmurou, tirando o capuz do moletom preto que vestia e bagunçando os cabelos molhados pela garoa que caía do lado de fora do prédio.

Mingi deu de ombros, não se importando de verdade com as palavras do outro. Se Yunho realmente não quisesse sair, eles não estariam tendo essa conversa, em primeiro lugar.

—Por que você está vestido assim? — Mingi olhou para as próprias roupas, tentando entender o que Yunho quis dizer, antes de empurrar o maior de leve e fazer o caminho para o próprio quarto.

—É meu pijama, ué. Hongjoong-hyung me disse pra ficar pronto para caso você me desse um bolo — brincou o mais novo, fechando a porta do quarto atrás de si para trocar de roupa.

Assim que assumiu que a roupa estava decente o suficiente, um jeans um pouco justo demais e uma camisa que com certeza marcava mais do que só seus braços, Mingi saiu do quarto segurando duas jaquetas de couro, sendo que uma ofereceu para Yunho.

—Pra quê isso? — mesmo questionando, Yunho tirou o moletom que estava usando e colocou a jaqueta. Ele já tinha uma ideia do que ia acontecer.

Como previra o mais velho, Mingi desenterrou dois capacetes de um dos armários ao lado da saída e entregou um ao melhor amigo antes de empurrá-lo para fora do apartamento pela janela da sala para que os dois usassem a escada de emergência anexada ao exterior do prédio, resmungando algo sobre ter que fazer silêncio mesmo que fosse dono do andar inteiro.

Tomando cuidado para fazer o mínimo de barulho possível, os dois desceram até o beco atrás do prédio de Mingi, que guiou o melhor amigo até um monte de lixo próximo à rua. Depois de olhar em volta e confirmar que não havia ninguém por perto, Mingi pulou um pedaço de plástico do lugar, expondo uma moto preta que estava escondida sob uma lona alterada para parecer um monte de caixas de papelão.

Com a moto pronta para dar partida, Mingi sinalizou para Yunho subir na garupa já de capacete, nem mesmo dando um momento para que o ruído do motor cortasse o silêncio da rua antes de começar a correr pelas avenidas da cidade.

As luzes dos postes passavam como um clarão atrás do outro, e o vento zunia no ouvido de Yunho, enquanto ele segurava com firmeza ao redor da cintura de Mingi, que deixava escapar uma risada gostosa vez ou outra em que faziam uma curva um pouco mais fechada.

O destino era um pub na periferia da capital, escondido entre prédios abandonados e ruas esburacadas.

Eles esconderam a moto em um beco sem iluminação e Mingi fez questão de segurar a mão do mais velho por todo o caminho até os fundos de um galpão depredado, onde entraram com cuidado para não encostar no arame farpado.

Com a prática de anos, o Song guiou Yunho pelo labirinto de paletes e escombros até uma porta que dava para o porão da construção. Só de abrir a porta eles já conseguiam ouvir algum ruído distante.

—Bem vindos à noite do microfone aberto — um rapaz musculoso os recebeu na entrada do pub, deixando escapar uma risada nasalada enquanto gesticulava para os dois passarem pela segunda porta logo — Hoje a noite é dos românticos incuráveis.

O pub era iluminado por lâmpadas amareladas, com poucas luzes brancas dando contraste ao espaço. As mesas ficavam próximas às paredes, e um bar estava disposto um pouco mais ao fundo, com alguma distância da pista de dança que também era integrada à um pequeno palco.

A música era alta, mas não de um jeito atordoante.

Yunho e Mingi conseguiam conversar sem gritar, e a maioria das pessoas preferia fazer o mesmo próximos uns aos outros.

—Como é noite de romance, hoje está bem mais tranquilo — Mingi comentou, voltando do bar com uma batida sem álcool e uma água — Vossa majestade deveria ficar longe de álcool por enquanto — brincou o menor, entregando a bebida não-alcoólica para o Jeong.

—Quem nos conhece já sabe como funciona, mas para os novatos, aqui estão as regras da noite do microfone aberto — o homem que falava ao microfone sobre o palco tinha cabelos roxos, um sorriso ladino e covinhas que arrancavam suspiros de metade da audiência — Nossas noites são temáticas, e apenas quem se encaixa no tema da noite pode assumir o palco. Máximo de duas músicas por pessoa, e você é automaticamente vetado se estiver tão bêbado que não consegue escrever "dokkaebi" — Yunho não sabia discernir se o homem estava brincando ou não com a última parte, mas preferiu não brincar com a sorte.

Por um tempo eles ouviram as pessoas subindo e descendo do palco, cantando para alguém que perderam, alguém que nunca tiveram, ou simplesmente dedicando uma música para alguém que os acompanhou.

Era uma noite para relaxar, para que Yunho superasse seu coração partido e seguisse em frente de uma vez por todas.

Antes que Yunho percebesse, Mingi havia deixado o seu lado e se dirigido ao palco, conversando com o homem de cabelos roxos e subindo para tomar o microfone depois de enroscar um violão emprestado sobre seus ombros.

Uma das regras para ter direito à uma música era justificar o motivo de ser um romântico incurável.

—Eu perdi minha visão colorida para a doença de Lágrimas das Estrelas quando o amor da minha vida se apaixonou por outra pessoa — o olhar de Mingi entristeceu quase que instantâneamente, apesar do músico ainda ter um sorriso nos lábios — Depois de sofrer perda de memória e esquecer sobre essa pessoa, eu me apaixonei por ela de novo — um longo suspiro e uma lágrima solitária depois, os olhos de Mingi se fixaram em Yunho, no meio da plateia — O nome dessa música é "Rose", do solista D.O.

Yunho não conseguia respirar.

Os acordes ecoavam pelo pub com tamanha tranquilidade, mas faziam seu peito doer como se alguém estivesse sentado sobre seus pulmões.

Ali, com o cabelo bagunçado de tanto correr as mãos, rosto corado pelo calor do salão e sob uma luz que fazia o seu entorno se iluminar como se ele fosse uma criatura divina, Mingi cantava com um sorriso triste uma das músicas mais doces da noite.

Eles olham para mim

E foi quando Yunho se deu conta da justificativa anterior do mais novo para poder cantar.

Quando estou olhando para você

E tudo fez sentido.

Eu não dou a mínima

O fato dos olhos de Mingi agora serem de um cinza tão claro que o homem usava lentes de contato para escurecer um tanto suas íris.

Porque é tudo que posso fazer

Ou como Mingi sempre pedia para que alguém escolhesse suas roupas, usando a desculpa de que não sabia se vestir, apesar de o fazer muito bem se tivesse certeza de que as peças das quais dispunha eram brancas, pretas ou cinzas. Nunca coloridas.

Por favor, não machuque meu coração

E talvez o coração de Yunho já estivesse balançado há muito tempo, porque seus olhos se encheram de lágrimas e ele só conseguia pensar no tempo que perdeu por não dar uma chance ao melhor amigo.

O tempo que perdeu por não se permitir seguir em frente e aceitar que, apesar de um pouco calejado e cansado, seu coração provavelmente já batia por outra pessoa.

Alguém que valia muito mais a pena.

Yunho sentia que finalmente poderia se dar outra chance, e uma segunda chance ao amor.

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