Capitulo 48
***
— Agora é só procurar — disse Julian após chegarmos na pequena cidade.
— Busque por homens que parecem bêbados ou viciados. Esses vão ser os mais fáceis de convencer.
Começamos a andar, analisando cuidadosamente cada homem que víamos pela frente e por mais uma vez me deparei com o sujeito esfarrapado que antes estava mexendo na lata de lixo. Agora ele batia bruscamente em um orelhão, parecia indignado com uma suposta ligação.
— Esse aí é bizarro — comentou Julian.
— É só um pobre morador de rua. Eu o vi hoje, estava revirando latas de lixo.
— Acha que ele pode nos ajudar?
— Esse aí não pode ajudar nem a si mesmo – continuei andando enquanto ambos encaravamos as costas do sujeito.
— Me de alguns trocados ai — pediu Julian.
— Pra que?
— Vou dar a ele, deve estar com fome.
— Isso não é problema nosso. Nossa missão aqui é outra.
— Nossa missão na cidade é encontrar um homem. Nossa missão na vida é darmos o melhor de nós mesmos todos os dias. Me dê algum dinheiro logo.
Aquele sermão caiu como um grande soco no estômago e não vi outra alternativa a não ser fazer o que ele pediu. Julian pegou o dinheiro e em seguida nôs aproximamos do mendigo.
– Ei — Julian o chamou.
O mendigo desistiu de agredir o orelhão e virou-se para nós. Revelando ser uma figura conhecida.
— Isso não é bom — era ninguém menos que Peter, o homem que ajudava Cassandra no orfanato.
INIMIGO OU ALIADO?
— CARAMBA – disse Julian enfatizando cada sílaba — mudei de ideia, isso nem é um mendigo, mais parece a bosta seca de um.
— Garotos... vocês têm comida ai?
— Tem, aqui oh — Julian pressionou as próprias partes intimas. Ele não estava nem um pouco intimidado com a presença de um dos nossos piores inimigos.
— Preciso de algo para comer — Peter começou a vasculhar o chão com o olhar — onde foi que eu deixei aquilo.
— Olha só pra você, agora sim está da maneira que merece. Comendo o pó do pó do saco do capeta — Julian continuou com os insultos enquanto Peter parecia aéreo dentro da própria mente.
— Por quê está sendo rude comigo? — perguntou, em um tom defensivo.
— Vamos logo, Julian — o chamei.
— Não precisa ter medo desse embrulho de papel higiênico usado não, Ethan. Ele não vai fazer nada contra a gente, aliás, ele nem pode mais. Não é mesmo, Peter?
— Peter? Quem é Peter? Vocês podem me dar algum dinheiro?
— Quem é Peter, olha só isso, ainda por cima se fazendo de idiota. Que piada.
— Tenho que continuar procurando — Peter voltou sua atenção para o chão enquanto andava destrambelhado de um canto para o outro.
— Bizarro — comentou Julian observando tudo.
— Devíamos chamar a polícia? — perguntei.
— Não seja idiota, você mesmo sabe que a polícia não vai fazer nada. Isso está muito estranho.
— Ele parece meio retardado.
— Meio? Olha só pra isso — Julian deixou escapar um sorriso ao ver Peter tropeçando no degrau da calçada.
— É como se não fosse ele.
— Ei, você, farrapo de mendigo — Julian o chamou e Peter voltou sua atenção para nós, novamente. Seu cabelo estava maior, junto a sua barba suja e desprovida de zelo.
— Vão me ajudar?
— Claro, o que está procurando? — quis saber Julian — Sua dignidade caiu por aqui?
— Moedas, estou procurando minhas moedas.
— Qual é o seu nome?
— O meu nome? — Peter ficou com o olhar perdido no nada, parecia estar em um enorme conflito interno mas depois de alguns segundos resolveu responder — Eu não sei o meu nome.
Julian e eu trocamos um olhar meio sem nexo, assim como toda aquela situação.
— Acredita nisso? O destino seria tão generoso assim? — Julian me perguntou e a princípio eu não entendi bem o propósito daquela pergunta.
— O quê quer dizer com isso?
— Eu tenho um novo plano...
Minutos depois
— Não, não e não — Reclamou Vanda andando de um lado para o outro — está ficando louco, inferno?
— Vocês não conseguem enxergar a magnitude disso? Ethan — Ele se virou para mim — Você entendeu, certo?
— Vamos ver, você quer usa-lo para nos ajudar no plano e depois tranforma-lo em um tipo de capataz?
— Eu prefiro a palavra "escravo" mas é nessa pegada aí. Você mesmo viu o estado lastimável que ele se encontra. Quer uma vingança mais gostosa que essa? Escravizar uma das pessoas que nos escravizou?
— Isso é suicídio, ele pode estar fingindo — Vanda voltou a questionar.
— Eu acho muito improvável, em primeiro lugar, o Peter que eu conheço nunca ficaria pelas ruas pedindo comida ou dinheiro. Em segundo lugar, o Peter que eu conheço iria voar em mim no exato momento em que me visse. Pois fui eu que desmoronei o comércio podre que ele ajudava a gerenciar. Minha ideia é de que alguma coisa aconteceu depois que ele fugiu do orfanato, não sei. Algo que tenha feito com que ele perdesse a memória, isso justificaria ele ter virado um mendigo, mesmo possuindo dinheiro e certamente uma residência.
— Ok gênio, vamos supor que você esteja certo e que ele realmente não se lembre de nada. Devo mencionar que isso não muda o fato de que ele ainda pode vir a se lembrar? Nesse exato momento estaremos ferrados — Vanda citou algo muito importante.
— Não fale com o se fossemos o manter por perto a vida toda, vai ser só por um tempo. Só até cumprirmos os nossos objetivos.
— Nosssos? Ou seus?
— Da na mesma. Precisamos buscar o irmão do Ethan e depois disso reestabelecer uma renda fixa, para isso precisamos de um adulto, mas não podemos confiar em ninguém. Se alguém souber que temos dinheiro vão querer nos roubar, ou coisa pior.
— E o Peter seria o disfarce perfeito — Me pronunciei, finalmente entendendo o ponto de vista de Julian — um adulto sem memória que não oferece nenhum risco.
— Eu não estou entendendo nada, não estou entendendo vocês. Estão malucos?
— Julian quer dizer o seguinte, nosso plano atual é reestabelecer a fazenda. Mas o que vai acontecer se conseguirmos fazer isso? Adultos vão aparecer e descobrir que todo o negócio é gerenciado por crianças e isso vai levar ao nosso fim, estaca zero.
— Exato — Julian concordou.
— Então — prossegui — se mantermos um adulto por perto ele pode se passar pelo dono de todo o negócio e assim despistar os curiosos. Mas como já foi dito, não podemos confiar em qualquer adulto. Mas sim em um adulto que podemos controlar, ou seja, Peter mendigo sem memória.
— EXATO PORRA — Julian quase pulou ao perceber que nossos raciocínios eram identicos — nosso capataz, fazendo tudo o que mandamos e sendo tratado como animal. Progresso e vingança, que delícia.
— Eu não concordo nada com isso, as coisas que ele fez, as coisas que ele ainda pode fazer. Vocês estão simplesmente ignorando tudo, levando em consideração apenas a ganância.
— Ganância? Você quer passar fome? Acha que o dinheiro não vai acabar?
— A gente da um jeito.
— Que jeito? Quer ir trabalhar no bangalô? — aquele pergunta fez Vanda se calar — foi o que eu pensei. Não deixe a sua raiva ultrapassar o raciocínio, está na hora de começar a pensar como os cretinos do mundo pois são eles que dominam tudo.
— O quê faremos agora? — perguntei.
— Voltamos a cidade e contratamos o mendigo. Damos um jeito na aparência dele, o levamos até o bangalô, pegamos o seu irmão e seguimos com o projeto da fazenda.
— Tenho uma pergunta — Vanda escorou-se na parede.
— Qual?
— Vão trazer ele pra cá também? Ele está morando na rua e a única moeda de troca a altura dessa loucura toda seria uma moradia. É isso que ele vai pedir.
— Eu pensei nisso também — Julian respondeu rápido — Ele não precisa definitivamente morar conosco, pode dormir perto do chiqueiro, já está acostumado a dormir na rua mesmo.
— Ele vai recusar.
— Ele não está em posição de recusar nada, um prato de comida já seria pagamento suficiente. Estamos sendo bonzinhos até demais, no fim vamos descartar ele mesmo, vai ser só um peão no tabuleiro. Quem sabe até o matamos, todos aqui adorariam fazer isso mesmo, estou mentindo?
Tudo ficou silencioso por alguns segundos.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top