Capítulo 2
(Uma Semana Depois)
Ethan levantou-se da cama após ser acordado pelo despertador e foi se arrumar ainda com cara de sono. Seguiu a mesma rotina diária e ao chegar no hospital vestiu seu uniforme, decidiu que desta vez começaria a limpeza pelo segundo andar já que era o mais fácil.
Empurrou a porta do quarto AF e por mais uma vez a bela jovem ainda dormia.
— Você tem uma vida muito boa, sabia? — foi em direção as janelas que desta vez estavam fechadas e as abriu — estou nesse emprego há uma semana e sempre que venho aqui arrumar o quarto você está tirando um cochilo.
Ethan começou a varrer a poeira que havia se acumulado no chão, mas quando foi virar-se acabou tropeçando, desta vez foi no próprio pé e quase caiu se não tivesse se segurado na cama.
— Inferno — reclamou, fitando a mulher para ver se havia lhe acordado, ela aida estava de olhos fechados mas parecia dar um leve sorriso – disso você sorri né? — Se aproximou da cama e cruzou os braços — não precisa fingir que está dormindo, te vi sorrindo. Eu acho —ele começou a balançar a mulher, tentando faze-la confessar.
— Vai ser assim? Espere um pouco ai — andou para fora do quarto onde havia deixado um balde preto com alguns objetos de limpeza, revirou tudo até encontrar o que procurava, um pequeno espanador.
Andou até a mulher e passou o objeto em seu rosto na intenção de fazer cócegas, mas ela não reagiu.
— Eu ganhei uma medalha como um dos melhores fuzileiros, mas você merece muitas de melhor atriz. Agora é serio, pare de fingir que está dormindo só por que estou aqui, não sou tão chato assim.
Ele voltou a balançar a jovem, queria a todo custo que ela abrisse os olhos mas finalmente se deu conta de que alguma coisa estava errada, saiu as pressas do quarto e se dirigiu até a recepção.
— Temos um problema no quarto AF, aquela mulher precisa agora mesmo de cuidados médicos.
— Por que? Houve alguma coisa?
— Sim, ela não está se mexendo e nem respondendo, vai fazer uma semana que estou aqui e ela nem se quer abriu os olhos.
A recepcionista o encarou com seu típico olhar frio e por mais uma vez procurou algo entre as papeladas, pegou duas pequenas folhas amassadas e o entregou.
— Veja — ele pegou e começou a ler:
*Ficha do paciente*
Nome: Elizabeth Watson
Idade: 25 anos
Responsável pelos diagnósticos: Doutor Grumes
Estado atual: Comatoso
— Comatoso?
— Sim, está em coma a cerca de dois meses.
Ethan analisou a segunda ficha da mulher.
— Eu...— Seu semblante mudou completamente.
— Mas isso é temporário já que irão desligar os aparelhos em cinco meses.
— Mas se fizerem isso ela irá morrer.
— Essa é a intenção, não gostamos nada disso mas é a solução mais racional.
— E a família dela?
— O namorado não veio mais visita-la e a avó é paraplégica. Quase não aparece por aqui. E pelo que sabemos elas não tinham um afeto tão forte de avó e neta. Família complicada, entende?
— Mesmo assim a avó dela precisaria assinar algo permitindo a desligamento dos aparelhos, estou certo?
— Sim. E estes já foram assinados, o veredito foi dado, Ethan, não é algo que nos orgulhamos mas os custos são muito altos com um paciente assim. A avó dela gastou muito e agora não tem mais como continuar pagando, ela ainda está viva devido aos fundos do hospital mas isso se encerrará em exatamente cinco meses.
Ethan largou os papeis sobre a bancada e voltou ao corredor 2 onde havia deixado suas coisas, lá fitou a mulher e aproximou-se dela. Levou a mão até o cobertor que a cobria e puxou lentamente revelando tubos de alimentação ligados a moça.
Os seguiu e rodeou a cama, alguns outros aparelhos estavam em baixo dela. Ficou ali olhando o belo rosto inocente de alguém que em poucos meses deixaria de existir, mesmo que não a conhecesse, não aceitava o fato de que iriam desistir de uma vida, uma vida que estava lutando por dentro para se recuperar.
Horas Depois
Ethan deitou-se na cama e ficou fitando o teto enquanto se deixava levar pelos acontecimentos do dia.
Pensava em como seria ruim estar no lugar daquela jovem em coma, ou até mesmo como seria bom apenas fechar os olhos e entrar em um sono eterno.
Era torturado também pelas varias vozes que sempre ouvia antes de dormir, as vozes que um dia havia escutado. Sabia que aquilo era um dos sintomas de sua doença, então fechou os olhos e se concentrou em uma única imagem que se projetava em sua cabeça.
Uma bela arvore no centro de um pasto verde, o vento batia contra ela e fazia algumas folhas voarem para longe assim como sua mente, até pegar no sono.
Um menino usando calça marrom e uma blusa branca de pano fino tentava arrancar algumas cascas de uma grande árvore usando uma pedra pontuda.
Uma garota aproximou-se, o fazendo parar seu ato. Ela usava um vestido azul e seus cabelos loiros estavam soltos
— Quem é você?
— Elizabeth, e você?
— Ethan, Ethan da fazenda — a garotinha sorriu.
— Ethan da fazenda? Que nome engraçado.
— Me chamam assim, eu moro lá — ele se virou e apontou para uma grande casa, ao se voltar para frente a garotinha estava deitada sobre o chão, desacordada — Elizabeth?
Ao olhar em volta tudo estava repleto de lápides e grandes aviões cortaram o silêncio do local lançando suas varias bombas catastróficas que abriam grandes lacunas ao colidirem com o chão.
Ethan acordou assustado com o despertador tocando, ele estava suando, mas havia se acostumado com tudo aquilo.
Tomou seus remédios e arrumou-se para mais um dia de trabalho.
Ao chegar no hospital se espantou ao ver que estava praticamente vazio, não haviam pessoas e nenhum enfermeiro por ali.
— Onde está todo mundo? — perguntou aproximando-se da recepção.
— É feriado, não sabe?
— Não sou muito de contar os feriados, a propósito, qual é seu nome? Ou devo te chamar de ranzinza?
— Não se quiser continuar trabalhando.
— Acho que eu quero — virou-se sorrindo indo em direção aos armários onde ficavam seus uniformes.
— Ethan.
— Sim - respondeu sem se virar.
— É Margareth.
— Ótimo.
Após trocar de roupa, limpou todo o corredor e estava feliz por não ter ninguém por ali o atrapalhando. Arrumou todos os dois quartos e subiu para o segundo andar.
Lavou o corredor e enquanto ele secava foi arrumar o quarto de Elizabeth, entrou e fitou seu lindo rosto sonolento.
— Bom dia — disse indo em direção a janela e abrindo-a, trazendo mais iluminação ao quarto — se você pudesse ver como o céu esta lindo lá fora.
Começou a limpar tudo e logo terminou pois a bagunça era pouca. Foi até a janela mais uma vez para poder olhar para fora, esta ficava perto a cama de Elizabeth.
— Nós dois somos quase iguais, fiquei sabendo que o seu namorado parou de vir a um mês e que você não tem família. Eu também não tenho, não mais, também tenho uma doença que as vezes me faz escutar e ver coisas. Mas é bem raro de acontecer, meu medico disse que eu preciso me abrir mais com as pessoas sobre isso. Conversar para que a doença fique cada vez mais escondida dentro de mim, mas eu não gosto muito de conversar, prefiro ficar sozinho. Você nem pode me ouvir, né - ele a encarou — falar sobre isso com você é bem irracional, mas idai, eu sou doente mesmo — ele riu lembrando-se da própria desgraça.
Ethan pegou uma cadeira que estava no canto do quarto e colocou ao lado da cama, sentou-se e ficou fitando o lado de fora pela janela mais uma vez.
— Essas montanhas me lembram do meu passado, não que eu me orgulhe dele. Vamos fazer um trato? Se você acordar antes desses cinco meses acabarem eu te levo para ver uma linda arvore na minha cidade natal. Eu nem sei se você aceitaria isso mas seria melhor do que morrer sem ter a chance de escolha.
Eu não te conheço e sei que não deve me escutar, mas não quero que morra ai nesse estado, já vi muitas mortes e tomei trauma disso.
Existem muitas coisas ruins que guardo só para mim... posso mudar nosso trato? Eu te conto tudo o que tenho guardado dentro de mim e quando eu terminar você tem que prometer que ira abrir os olhos e se levantar dai.
Mesmo que não saiba quem sou e que não se lembre do trato. Eu preciso conversar, como disse o medico e você precisa acordar, até que formamos uma bela dupla.
— Ethan, o que faz sentado ai? — perguntou Margareth encarando-o da porta
— Estava esperando o chão secar e aproveitei para conversar com ela, talvez ela escute, apesar de não poder escolher entre viver e morrer, afinal vocês já fizeram isso para ela.
— Que seja, então. Quem sabe ela acorde com essa sua falação insuportável — foi a primeira vez que ele viu Margareth sorrir, ela voltou a andar pelos corredores checando tudo já que não havia muita coisa para se fazer no feriado.
— Aquela é a recepcionista, Margareth, ela tem esse jeito de ogro mas com certeza deve ter um bom coração, de ogro, mas tem. Não conte isso a ela, será o nosso segredinho. Sabe a arvore que eu mencionei antes, você ia adorar vê-la já que mulheres gostam dessas coisas. Ela é linda, assim como você – ele ficou tímido ao dizer essas palavras mesmo sabendo que ela não o escutava, ou talvez até escutasse - vou te contar algumas partes da minha vida e quando eu terminar você vai levantar e se quiser, pode me contar a sua.
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