Capítulo 6
A viagem de trem acabou sem que Ethiena prestasse atenção no tempo ou distância. A conversa junto a Linden provou-se agradável e útil. Se divertiram descobrindo um sobre o outro enquanto trocavam uma taça de vinho, que o Príncipe havia pedido para uma funcionária das linhas de trem trazer.
Os campos que passavam pela janela ficaram distantes. As paisagens rurais foram substituídas por um vilarejo moderno, militar e muito movimentado. Ethiena conseguiu ver uma procissão de roupas modernas, a moda do império, embora notasse que de algum modo eram mais pobres e de mesma cor.
Quando o trem parou em na estação final, Linden se levantou de seu banco, esticando-se e espreguiçando.
― Chegamos ao Domo ― disse com um bocejo. ― Há uma extensa região montanhosa, por isso para chegar a Walles, vale-se apanhar um aerobarco.
Ethiena se levantou, ajeitando as saias do vestido que ficaram com vincos e dobras por tanto tempo sentada.
― O que um Príncipe Herdeiro faz tão longe do palácio imperial? ― perguntou a moça, há muito incomodada com aquela dúvida.
― Sou Linden, Arquiduque de Walles. Linden arque Walles. Estou apenas voltando para casa depois das festas de fim de guerras ― o Príncipe respondeu, encolhendo os ombros. ― Antes de vosmecê[1], minha dama, minha mãe era a Regina de Walles.
― Oh. Não sabia disso.
Ele havia comentado bastante sobre sua vida prévia, antes da nova vida como nobre herdeiro de um império autocrata. Linden pareceu tão animado em contar como viveu feliz como um cidadão comum na década de 1980 em Portugal.
Ao saber que Ethiena floresceu na década de 2020, a conversa mudou para uma atualização do mundo moderno que ela ainda se recordava. A tecnologia, o futebol e a política eram seus interesses mais proeminentes.
― Os príncipes imperiais não possuem apenas uma mãe, nunca descobriram quem é a sua mãe biológica ― Linden explicou. ― Exceto o príncipe herdeiro. Porque nascemos para herdar o império. Minha mãe era uma princesa estrangeira, que foi oferecida para meu pai em troca de canhões e navios de guerra. Ela foi a primeira Imperatriz.
Ethiena entendia sua expressão, fizera a mesma ao lembrar que foi trocada por um cargo no parlamento.
― É uma longa história... ― murmurou o Príncipe. ― Para encurtar: minha mãe morreu há muitos anos, e Linden arque Walles também. Pelo que me falaram, o Imperador acreditava que minha mãe o traía, por isso com as próprias mãos matou mãe e filho.
Inspirou com força e prendeu a respiração, olhando para fora através da janela. Cerrou os olhos como se pudesse vislumbrar a visão daqueles acontecimentos, enquanto Ethiena lamentou por ouvir aquele relato horrível.
― Eu sinto muito ― a moça disse.
― É o que pode esperar de um ditador ― Linden respondeu, a voz lotada de desprezo e ressentimentos. Tentou disfarçar a magoa, mas Ethiena era esperta demais para perceber. ― Uma pena para o meu pai, que eu vim de outro mundo para habitar o corpo do filho que conseguiu derrubar. E talvez isso tenha sido o pior erro por parte dele. Tentar me matar, quero dizer.
Bufou, com mais desprezo.
― Me disseram que quando o verdadeiro dono desse corpo se foi, meu pai se arrependeu e chorou dizendo que me atingiu sem querer ― ele apertou o lábio. ― Ele ficou a aliviado quando acordei, com a mente intacta e esperto demais para entender que ele era um maldito de um filho da puta.
Ethiena quis dizer algo, mas nada saiu.
― Oh, perdoe-me pelas palavras indecorosas. ― Linden colocou a mão sobre a boca. ― Esquece esses assuntos do passado. Prosseguimos, pois tenho que lhe mostrar algo assim que desembarcarmos em Walles.
O Príncipe foi cortês, inclinando-se para abrir a porta da cabine para ela. Ethiena pensou que o jovem a deixava muito confortável, e todo o medo que vinha sentindo começava a ceder, voando para longe.
Acompanhando logo atrás de Linden, Ethiena descobrira mais uma peculiaridade daquele reino; mulher com seu status, jamais deveria andar à frente de um homem poderoso, sendo ele Príncipe, Rei ou Imperador. Por isso ela passou atrás do rapaz, sendo atingida por uma infinidade de olhares das pessoas que saiam das cabines daquele corredor do trem. Ouvia alguns sussurros, que ficaram piores quando Linden parou para que ambos andassem lado a lado.
― Você disse... ― Ethiena começou depois de se incomodar com o resmungo de uma velha sobre a quebra de protocolo cultural. ― Você disse que não devemos andar assim...
― Somos iguais. Almas que não vivem de acordo com as regras desse mundo ― Linden piscou para ela, sorridente. ― Andar um do lado do outro, diz o que exatamente somos e acreditamos que somos, não? Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza.
Pela primeira vez, Ethiena notou que Linden era um jovem idealista.
Percorreram lado a lado para fora do trem em direção a estação O Domo. O lugar era um assentamento militar que se tornou uma pequena cidade moderna. Uma região composta por picos elevados, planícies relvadas e florestas douradas. O enorme hangar conhecido como O Domo, ficava no centro da cidade, onde lançava para as cadeias montanhosas de difícil alcance os enormes dirigíveis que vez ou outra Ethiena já havia percebido transitar pelos céus da Capital do Império.
Linden e Ethiena tiveram apenas alguns poucos minutos para apreciar a cidade que cresciam em volta d'O Domo. A cidade parecia religiosa, pois existia uma igreja e um mosteiro perto das portas do hangar. Ethiena também viu um moinho e uma padaria de pedra na região central da cidade. Os campos de trigo e cevada eram ordenados e bem cuidados além do mar de telhados na região baixa, onde teve curiosidade em visitar.
As pessoas que passavam por ela, vestiam roupas comuns, longe das extravagantes vestes da Capital. Os vestidos das mulheres cobriam os ombros até a metade, descendo em um decote redondo simples. As saias tinham um corte soltos que tornava os vestidos agradáveis de usar e olhar. Os homens trajavam camisas simples com suspensórios, as boinas tornavam-se moda entre os mais novos; outros, dentro do uniforme do exército, transitavam por todos os lados distraídos em direção as suas tarefas.
Antes de embarcarem, Linden levou Ethiena para tomar uma xícara de chá na casa de doces O Auberto. O seu interior lembrou a moça um bolo de casamento rosados e cobertos de flores. Certamente, produziam o melhor biscoito recheado, macarrons, que já havia provado outrora.
Depois do pequeno desvio, Comodoro Elias apareceu sorridente. Disse que o Zéfiro estava pronto para partir.
Enquanto caminhavam para o hangar, pouco tempo depois, Ethiena descobriu que o Comodoro se referia a um enorme dirigível, preparado para alta-classe que desejava viajar de Portuália Ocidental a Oriental. Ela tomou conhecimento de que a família Caxias fazia parte da alta corte do império. Elias bar[2] Caxias era dono das companhias de aerobarco militar, e ele como oficial da tropa do céu, tinha algum interesse em transformar aerobarcos num pequeno negócio de viagens. Tinha muitos planos de se aposentar, e por suas contas conseguiria aumentar a renda da família.
Foi apenas um tempo mais tarde, após o fim da espera no salão de espera onde eles tomavam vinho e conversavam amenamente, um homem anunciou que já estava tudo pronto para a partida.
No hangar, haviam ligado os motores, e as hélices grandes emitiam um vento lento e constante que tomava conta do hangar junto ao som alto dos motores. O Zéfiro era uma aeronave modificada de transporte, um estranho dirigível. Era grande e majestoso, feita na medida para os nobres.
As poltronas que se sentaram eram muito confortáveis, de classe luxuosa. Após pôr o cinto, Ethiena virou o rosto para a janela onde teve a honra de se sentar, de modo que mantinha uma vista exuberante da cidade. Aquela também era a primeira vez que voava em um dirigível.
Adejaram para o norte, passando por uma praça enfeitada por um monumento, seguindo por lojinhas e uma rua com a sua bela ponte sobre o rio onde passeavam patos na água escura. Então, finalmente saírem em um campo fora da cidade. Alcançaram em pouco tempo uma área árida de ermos desolados, montanhas escarpadas e florestas cinzentas.
E apenas depois de algum tempo de viagem, Ethiena começou a rogar ao Criador que lhe desse forças para o enjoo que começava a sentir não ficar pior. Mas ficou... O marasmo do voo causava-lhe náuseas.
Antes que pudesse vomitar, Linden iniciou uma conversa junto a Elias. Ouvindo-os, segurando as ânsias, Ethiena foi tomada de surpresa ao saber que havia tropas vindas das fronteiras do outro lado da área florestal que dividia Walles. Ela sentiu um arrepio passar por seu corpo ao saber da inquietação fervente de pessoas que viam o Império como autocratas, em vez de líderes.
― Soldados da Facção Rebelde ajudou-nos quando precisamos de ajuda ― argumentou Elias ―, mas partiram ao pensar que a causa estava ganha. Temo dizer que o inimigo recebeu auxílio de Jeremai. Um de seus soldados é muito... peculiar. Nós não podemos vencer por tal peculiaridade.
― Só um soldado? ― Linden ergueu uma sobrancelha.
― Apenas um ― assentiu Elias.
A boca de Linden remexeu.
― Como há de chamar tal soldado, que põe o exército imperial em pânico? ― perguntou ele, curioso.
― Temo que os soldados sejam supersticiosos ― Elias respondeu com desprezo ―, mas por falta de um nome, chamam-no Fantasma.
Ethiena sentiu-se retesar e prendeu a respiração a menção do nome.
― Fantasma? ― Linden bufou com indiferença. ― O que ouviste sobre?
― Bom ― Elias cruzou as pernas ―, entre os soldados defendendo a Fronteira, cochicham que em qualquer batalha que participa, o saldo de sua vitória é instantâneo e uma pilha de mortos se espalha pelo campo. E é ainda pior... dizem que quando é abatido, ele aparece de novo em outra batalha, como um fantasma.
Ethiena apertou os punhos contra o braço de sua poltrona. Isso é possível?, ela se perguntou.
― O dirigível tomará a rota da floresta ― observou Linden olhando para fora. ― Uma pena poder ver apenas árvores e nevoa. Aerobarcos poderiam ajudar nas investidas contra a Facção.
― Sim, futuro Sol do Império ― Elias suspirou escorando a face no punho fechado após cruzar as pernas. ― Mesmo contando com um apoio aéreo, cominaram em resultados insignificantes. A floresta impede o uso normal de artilharia, dobraduras ou espiões aéreos. Os confrontos são terrestres; pouco posso amparar, desde que sou um aeronauta.
Olhou para baixo da janela com olhos triste e apreensivos. Ethiena achou que mexia com seu ego batalhar uma batalha imprevisível e sobrenatural.
O dirigível avançou pela mata escura. A região florestal mencionada era uma pequena região praticamente intocada pelas mãos dos homens. Mesmo sobre o som dos motores, ouvia-se os uivos dos lobos, bem como os coaxos de sapos e podia ser encontrado espreitando nas profundezas da mata estranhas formas de fogos fátuos flutuando sobre o grande lago no centro dela. O farfalhar das folhagens das árvores centenárias eram alto quando açoitadas pelo vento.
Era um dia de sol, mas fazia frio dentro daquele aerobarco após sobrevoarem a floresta. Ethiena ficou curiosa quando notou que o frio ficava mais intenso conforme mais avançavam. Então, eles estavam no profundo da floresta onde as coisas que realmente aconteciam começaram a se revelar.
Quando passaram por uma esquina onde as árvores possuíam uma tonalidade estranha, corpos também surgiam por todos os lados. Corpos decapitados no campo que parecia congelado como cristal. Os lábios de Ethiena tremeram junto de seu coração assustado.
― Ah, estava a esperar... ― Elias disse, tranquilamente.
― O-o que está acontecendo lá embaixo? ― Ethiena gaguejou.
Linden virou-se para ela. Algo que se assemelhava a um sorriso surgiu e desapareceu em sua boca.
― Não sabe depois de tudo, não? ― concluiu o Príncipe. ― Esta é a Floresta Assombrada. E aqueles são soldados mortos, que retornaram através da corrente das sombras. A Facção Rebelde é um grupo revolucionário que defende a luta armada para chegar ao poder. Eles criam soldados mortos a partir da magia negra, ou como conhecemos, corrente das sombras.
― Como fez Duque Sá comigo? ― Ethiena inclinou a cabeça. ― Revivendo cadáveres?
Linden assentiu.
― O quê? ― Elias guinchou, confuso, franzindo a testa. ― Duque Sá usa a corrente das sombras?
O Comodoro espiou Ethiena com desconfiança. Pelo olhar de esguelha de Linden, não era um assunto que Elias poderia escutar livremente. Muitas pessoas não tinham a mente aberta como o Príncipe.
― E tu seria um cadáver revivido? ― a voz de Elias saiu com um grama de rispidez e ameaça.
Ethiena queria responder algo, porém a cabeça ficara em branco. O silêncio no interior do dirigível flutuou de volta para o espaço que havia se criado com a falta de palavras. Não tinha parado para pensar, mas não tinha ideia do que o Duque havia feito com ela. Sentiu-se assustada de que seu corpo agora, fosse peças de alguma bruxaria e por causa disso, pessoas de mente fechada a considerasse lenha para fogueira.
Ela realmente não conhecia Elias. O fato de se ter mostrado amável não queria dizer que se conheciam mais do que duas horas.
De repente, com um tormento interno, sentiu um arrepio mais fundo, e Ethiena virou o rosto para a janela e notou que o bosque se encontrava escuro e sombrio, o vento rumorejava as folhas das árvores como uma chuva.
Ela se recostou na poltrona soltando um gemido e logo apertou os lábios.
― Por tua aflição, suponho que sim ― Elias concluiu, ainda mais ameaçador. Ele colocou a mão no grimório que trazia preso ao cinto. ― Como Sá...?
― Acalme-se, Elias ― Linden ergueu a mão. ― Fale baixo. E tu podes confiar em Ethiena. Garanto que é igual a mim.
Ouvir aquilo fez a mão de Elias por cima do grimório relaxar. Ele voltou a se recostar na poltrona depois de murmurar algo para si mesmo.
― Oh, sinto muito ― desculpou-se rapidamente. ― Lutar com aqueles malditos cadáveres é ruim o bastante para saber que há alguém como vosmecê, futuro Sol do Império.
― Não acho que sejam muitos iguais a mim ― Linden sorriu, relaxado com a reação de Elias. ― No fim, rituais de correntes sombrias nunca dão certos, e resultam apenas necro-errantes.
Ele queria dizer sobre zumbis? Novamente Ethiena se sentiu uma estranha em um lugar estranho, ouvindo termos que não conhecia.
― Posso realmente confiar nela, senhor, sendo concubina do Imperador? ― Elias perguntou. ― Antes pediu-me para deixá-los sozinhos, pensei que se livraria dela...
― Podes confiar ― Linden respondeu. ― Tenho planos para com Dama Ethiena.
― Planos? ― a moça arqueou as sobrancelhas.
― Bem, quando em Walles chegarmos, minha dama, entenderás.
Ethiena abriu e fechou a boca. A desconfiança tomou lugar na pequena troca de afabilidade com o Príncipe. Queria poder crer que ele não estava jogando com ela, mas seus olhos diziam o contrário.
[1] Vosmecê, você, é um dialeto em português de Walles.
[2] Bar – Barão. Elias, Barão de Caxias.
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