Capítulo 41

Sentindo o cansaço, a dor e o medo consumir cada parte de seu corpo, Ethiena se perguntou como Linin os encontraram tão rápido.

Seus olhos estavam começando a ficar embaçados, o suor pingava de seu corpo fraco após levar dois tiros e segurar magia com as mãos. Ainda assim, pôde vislumbrar em uma nuvem de confusão o sorriso detestável de Linin. Seu coração erro uma batida, quando o sangue subiu para o cérebro; o medo era como uma aranha venenosa tecendo seu sistema nervoso. Sua vulnerabilidade era terrível.

— Perdemo-nos, mas olhas que interessante é, querido irmão — Linin disse, a sua voz parecia da vez mais distante. — Enquanto o jardim fazia-nos de confusos e tolos, acabou por ouvir meu desejo. Ambiciono acertar-te um balaço nas faces, querido irmão. E, antes disso, gosto da ideia em ver tua estúpida Flor Exótica sofrer diante seus olhos.

Ethiena agarrou o tecido da camisa de Linden, debaixo de sua jaqueta militar. Ela engoliu em seco, assustada com a ideia de morrer sofrendo mais do que já sofria.

— Linin, por favor... — o Imperador implorou, engolindo em seco, afastando um passo para trás. O pé de Ethiena bateu em um dos seus filhos, que se agarrava a roupa do pai. — Conhece-me, Linin. Enquanto tu buscas o caos, eu sempre almejei uma família e o equilíbrio. Se uma única vez sentiste amor por mim, deixa-nos ir...

Ethiena não tinha certeza, achava que estava no meio de um desmaio. Forçou os olhos a ficarem abertos, apenas para ver e ouvir a risada divertida de Linin.

— Eu te amei, querido irmão, mas antes de trair-me, desfazendo-se de nossa causa — Linin respondeu. — O ódio pela morte de nossa mãe era o único nós que nos unia. Deixaste-me só, e só há de partir.

Ergueu a mão, apontando seu revólver em direção ao irmão. Ethiena tinha certeza que mirava nela.

— Prometo que hei de fazer um túmulo para ti ao lado da mamãe, mas não prometo que hei de visitá-lo — Linin riu.

Ethiena queria fazer alguma coisa, contudo, estava em horripilante desvantagem. Eram três adultos e três crianças contra mais de três dúzias de soldados. Todos rindo enquanto apontava suas armas e esperavam as ordens para executar os inimigos.

Eles seriam alvejados, sem ela poder fazer nada.

— Preparem-se! — gritou Linin com um tom forte e psicótico.

— Linin não! — gritou Linden, pulando para trás feito um gato assustado. — Por favor!

— Atirar.

Ethiena fechou os olhos com força ao escutar o berro do marido, se sentindo frustrada. Se fosse uma crente, certamente pediria ajuda para alguma divindade...

A magia, pensou com a mente a beira da loucura da dor e desespero. Por favor, eu sei que não somos amigas, mas preciso de sua ajuda...

Ethiena sentiu-se sacudir por um segundo, acreditando que havia desmaiado. Voltando a si, não conseguiu entender o que estava acontecendo, exceto que existiam muitos gritos de repente. Percebeu que passo um segundo apenas, e que alguma coisa estava acontecendo com o jardim. Lembrou-se de Linden dizer que o jardim não deixava ninguém entrar, exceto o Imperador.

Não sabia se sua oração deu certo, apenas que viu uma coisa grande sair do meio da mata. Ele rugiu furiosamente. E Ethiena não tinha certeza, mas pareceu a ela que um gigante de pedra havia brotado da terrar. A mesma forma que ela evocou durante a primeira vez que havia lidado com magia em Walles.

Então recordou de alguém dizer que existiam criaturas no jardim, e que ele podia ser bonito ou assustador, dependendo de quem entrasse lá.

— DEIXA A MAMÃE EM PAZ!

Um calafrio desceu por Ethiena, que já sentia muitos frios no seu corpo. O gigante de pedra estava gritando...

Assombrados ao escutar aquilo, muitos dos soldados de Linin se assustaram. Começaram a correr dispersos na mata.

Porém, as coisas brotando na terra como grandes raízes de ginseng, movendo-se estranhamente, também não eram amigos deles. Eles berravam como um bebê sentindo dores, e atacavam qualquer um à frente.

Ethiena teria corrido de medo se estivesse no chão. Linden, porém, tomou o trabalho. Ele soltou um guincho apavorado, correndo em direção contrária a mata.

— Não fuja, covarde! — Linin gritou em meio a confusa de raízes e mata agitada por todos os lados.

Ela também atirou. Como estava desequilibrada, errou o tiro, que acertou uma das árvores. Linden abaixou a cabeça, mas continuou correndo. Avançaram em direção a mata escura e fechada.

No meio do caminho, arfando para retomar o autocontrole, Linden saltou de susto. Uma das malditas raízes assustadoras brotou de dentro da terra.

— Mamãe... — gritou a criatura, chorando como um bebê.

Linden apertou a mão nos joelhos de Ethiena, onde a segurava. Ele apertou o lábio, dando uns passos para trás. Outra criatura brotou aos seus pés, o que o fez perder o equilíbrio e recuperá-lo em uma pequena trilha.

— Cuidado garroto! — A voz de Kiwe gritou, e Ethiena correu os olhos lentos e anuviados em direção ao som de sua voz.

Uma parede de espinhos separava Ethiena de Kiwe, Lauro e Elmo. Do seu lado, Linden a mantinha nos braços, e Mariano estava encolhendo-se para trás depois de tentar agarrar o irmãozinho.

— Mamãe! — gritou outra raiz demoníaca, surgindo à direita de Mariano.

O garoto chorou, correndo em direção a Linden. Ele se protegeu atrás do Imperador, tremendo-se de medo.

— Ah, droga, que diabos está a acontecer? — a voz de Linden estava tensa. — Oh! Pelo Leão!

Mais e mais criaturas surgiram, correndo como bebês feios e chorões em direção a Linden, Mariano e Ethiena. Continuavam a repetir "mamãe".

A frente deles estava tomada pelos monstros, tornando o caminho inviável até Kiwe e as crianças. Linden deu um passo para lá e outro para cá, mas não existiam saídas. As coisas continuavam a vir, e encolhê-los e cercá-los.

Linden não podia usar as mãos para usar seu grimório, que já estava escasso de magia de papel; Mariano estava tremendo.

— Ethiena! — gritou Kiwe, em algum lugar atrás daquelas criaturas, se distanciando. — Hey! Imperrador, não vá parra longe...!

A voz dele foi ficando cada vez mais distante. E Ethiena se deu conta apenas um tempo mais tarde, quando sentiu um passo pesado de Linden a carregando no colo bater com força no chão. Ela não soube o momento em que ele achou um caminho para correr, deu-se conta mais tarde com a letargia de seu corpo que entravam em uma trilha apertada e escura. Pergolados de madeira em direção ao céu pendiam centenas de plantas, mexendo-se como tentáculos ao redor deles.

— Nunca vi o jardim se comportar assim... — Linden arfou, correndo o mais rápido conseguia. — Sempre foram unicórnios e arco-íris...

— Eu tenho medo, Imperador! — Mariano corria atrás deles.

Ethiena tentou olhá-lo e abraça-lo, mas espiando por cima do ombro, se assustou terrivelmente. O caminho debaixo das gaiolas trepadeiras, que pendiam flores de primavera, centenas das estranhas criaturas seguiam pós eles.

O medo terrível e o estado lastimável de seu corpo fizeram com que Ethiena seriamente perdesse os sentidos.

Então, acordou por alguns instantes, notando o rosto suado e assombrado de Linden. Ele estava chamando por seu nome. Mas sua consciência não estava mais se segurando e ela se perdeu outra vez.

Quando finalmente despertou, Ethiena sentiu-se como se tivesse saltado de um pesadelo. Sua cabeça estava doendo tanto quando uma dor horrível pulsando em seu abdômen, e outra pior ainda em sua panturrilha. Ela gemeu, soltando um urro logo em seguida. Estava no chão, encolhida. Mariano a abraçava. Sobre gemidos engolidos e um rosto lavado, era evidente pelo rosto do garoto que estivesse desconfortável e assustado. Mas ele não olhava para a moça, apenas para frente.

Ethiena ergueu os olhos para onde o garoto fitava, e percebeu que ainda estava no jardim. Linden estava um passo a frente, rasgando os últimos papéis de seu grimório. Expulsando com fogo o que ela pensou ter sido parte de um pesadelo.

— Mari... — sussurrou, tentando se mexer. A dor foi ainda pior, ela também percebeu que continuava sangrando.

Quanto tempo haveria passado?

Olhou ao redor, em busca de um medidor, mas estava escuro e ela não tinha ideia onde estava. Ela e o filho se escoravam encolhidos no que parecia uma gaiola cheia de flores e plantas escoradas. Insetos da noite zumbiam, acompanhados dos sons insanos das raízes do jardim, vivas e assustadoras. Ou Ethiena estava alucinando por causa dos ferimentos, ou aquilo era um filme de terror sendo gravado em algum jardim.

Sem certeza, ofegou, chamando pelo esposo.

Linden olhou para trás. Ele estava com uma expressão apavorada cobrindo todo o rosto. Ethiena sentiu desespero, chegando a conclusão de que não havia como escapar. A expressão de desolação no rosto de seu marido a fez sentir lhe rasgar o coração.

Ela se mexeu com dor, sacudindo a cabeça, e de repente, Ethiena sentiu a grade cheia de plantas atrás dela sumir. Ouviu algo parecido com o rangido de dobradiças enferrujadas, e o estampido de ferro batendo em ferro. Também caiu para trás, batendo a cabeça no chão.

— Thiena! — escutou a voz de Linden e Mariano.

— Filho da pu...! — a moça quase gritou, confusa.

Olhou para cima, gemendo de dor e percebeu que a gaiola de trepadeiras onde estava escorada, abriu-se para uma pequena cela.

— Entres! — Linden gritou de repente. — Vá garoto, para dentro!

Mariano, com sua força de menino de dez anos, tentou puxar Ethiena, que ainda não conseguia mexer-se sem sentir dor. Ele fez esforço, e sentindo pena dele, a moça se arrastou em seus cotovelos para ajudar. Só não tinha muita força.

— Vá para o quinto dos infernos, coisa feia! — Linden gritou.

Ethiena ergueu o pescoço, vendo o esposo lutar contra um dos monstros. A criatura agarrou seu pé, mas Linden o chutou com força com sua bota coturno de soldado. Reequilibrando-se, correu até a esposa, puxando para o interior da gaiola trepadeira.

Lá dentro, a cela de grade era em forma de tigela, cercada por plantas e flores da primavera. Não dava para ver o lado de fora. Tudo estava escuro, exceto por uma luz bruxuleante brilhando em cima de uma base curta.

Linden gritou um palavrão, enquanto Ethiena sentiu-se atraída pela luz no centro da cela. Assustando-se, escutou o baque da porta, e vislumbrou rapidamente Linden fechá-los lá dentro.

Lá fora, sobrou apenas o som dos gritos ou choro das pequenas criaturas assustadoras, sacudindo as grades quando pulavam para tentar abrir a gaiola.

De súbito, sentiu pavor e, desesperada, virou-se para ver um dos mantos de plantas escorregar para o chão. Ethiena queria, mas não conseguiu se encolher debaixo da luz bruxuleante acima de sua cabeça.

— Calma... — escutou a voz de Linden, e ele a abraçou, repousando seu corpo em seu colo como se ela fosse uma criança. Mariano sentou ao lado deles, abraçando a jaqueta do Imperador. — Tudo há de ficar bem... Shh! Respira apenas...

Ethiena não percebeu que estava respirando raso e o terror estava fechando seus pulmões. Ou eram os ferimentos. Mesmo com a certeza de que estavam seguros, ela sentia muita dor e medo. Com o ar cada vez mais rarefeito, olhou para fora, assustando-se com a figura estranha de raízes que continuavam a chorar e chamar "mamãe".

Quem era mãe daquelas coisas?

Ethiena desviou o olhar quando sentiu que os olhos estavam cheios d'água. Escondeu-se na curva do pescoço de Linden, ofegante. Não sabia quanto tempo aquelas grades iriam suportar, mas se elas viessem a se abrir, pelo menos, ela morreria ao lado de alguém que amava muito.

Não, pensou, a morte sempre era muito solitária e única.

A sua pergunta era o que viria após aquilo? Já morrera uma vez, e a assustava que fosse parar em um lugar muito pior do que aquele mundo.

Com uma sensação de grande tristeza e depressão no fundo do coração, fechou os olhos e tentou conter as lágrimas. O medo do futuro arrancara de seu corpo todas as esperanças de sair daquela loucura viva, exaurindo suas forças restantes. 

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