Capítulo 38

Sentindo a cabeça doer, o mundo ao redor rodar, Ethiena não conseguiu segurar. Inflou as bochechas antes de vomitar.

Os efeitos de usar magia sem um conduíte, apesar de dizerem que ela era a única que podia, era devastador. Passara um ou dois dias desde que, acordou no fundo de uma cela no profundo dos calabouços do palácio, ainda passava muito mal.

O lugar era meio escuro, sem qualquer privacidade. Os prisioneiros ficavam dispostos em gaiolas como hamster, com um lugarzinho em um buraco que fedia para suas necessidades. As luzes não alcançavam os lugares mais sombrios, de modo que os piores prisioneiros ficavam encobertos pela escuridão mais densa.

Limpando a boca com as costas da mão, Ethiena escutou um som que a despertou de sua letárgica fadiga. Olhou rapidamente para o fim do corredor, notando a presença de pessoas se aproximando.

A claridade a partir das pedras ametistas, enxameando em um roxo bruxuleante, iluminou o rosto de Linin e seus capangas. Ethiena havia torcido muito para ter sido morta soterrada, mas sua sorte nunca foi a das melhores naquele mundo.

— Ethiena Ayodele Sá — Linin se aproximou da cela, parando de frente a porta, olhando para ela como se aquilo fosse muito engraçado. — Como atreve-se a causar um atentado terrorista do qual morreu o Imperador, e intentar roubar o trono?

Seu sorriso era tão debochado, que Ethiena fez o possível para não se mostrar irritada mais por ele do que pela falsa acusação.

— Astutamente, tu mataste a teu marido para governar o Império como quiseras — Linin bufou. — Pelo menos, isso é a acusação oficial escrita nos diários oficiais, que irão para história.

Ethiena apertou o lábio.

— Ainda machucando muitas pessoas com seu truque mágico — riu com deleite. — Muitos dos parlamentares que a apoiaste, agora hão de estar ao meu lado.

As imagens de pessoas fugindo, gritando de pânico enquanto a abóbada do salão do trono caía, ainda perturbava a memória de Ethiena.

— Bem — Linin esperou uma reação melhor do que a expressão dura da moça. — Eu, Linin dom Vladinova, me declarei nova governante.

Ethiena finalmente se surpreendeu, mas sabia que algo daquele jeito iria acontecer.

— Não Imperatriz, há de ser muito pretensioso de minha parte — Linin riu. — A partir de hoje, o Império de Portuália e Cispania mudará seu nome para Federação Ibera. Tornando-se uma república semipresidencialista federal, cujo há em trazer um Presidente como chefe de Estado e o Primeiro-ministro como chefe de governo.

Engolindo em seco, não havia outra surpresa. Linin era uma revolucionária sangrenta.

— Nosso novo Estado, há em ter como força motora os operários das cidades e os camponeses — ela riu. — Então, a revolução há em estar completa.

— Acredita mesmo que isso terá sucesso? — Ethiena conseguiu falar, apesar de sua voz estar um pouco rouca. — Não acredito que ficará aqui, governando o país. Tenho certeza que colocará alguém em seu lugar como Presidente. Tem certeza que sua revolução vai funcionar? Conheceu Quintino, não é? Ele era um Imperador em um estado pequeno, que provavelmente teve boas intenções no começo, até ser corrompido pelo poder.

Linin bufou outra vez.

— Quintino nunca fora um bom homem — encolheu os ombros. — Agora, que tu sabes sobre nossa Revolução? O povo médio precisa de oportunidades, e não há de ser com monarcas fartando-se com boas champanhes e bifes gordos, enquanto eles comem o que hão de conseguir nos parcos mercados. Muitas vezes, até o lixo dos monarcas.

Ethiena não sabia responder. Vivera em mundo onde mesmo repúblicas não mudara completamente a desigualdade social. Sempre teve a intenção de ajudar o máximo que podia, não tinha disposição em esbanjar em nada o dinheiro dos pagadores de impostos. Assim como Linden, não era oposta às reformas. Todas elas.

Ethiena lembrou a si mesma que odiava revolucionários. Conseguia enxergar um destino muito pior com o sonho revolucionário de Linin.

As pessoas naquele império mereciam justiças sociais, mas derramar sangue para trazê-las, parecia tão errado quanto os monarcas fartarem-se com o dinheiro dos impostos.

— Muito bem — Linin riu. — Eu, a Presidente da Federação Ibera, com o poder a mim investido, condeno-te a execução. Tu machucaste pessoas, e a partir de hoje, magia é proibida. Tal como sua bênção pela Igreja Angelicana. Tudo relacionado a estes dois pesos, que separam-nos como sociedade, há de ser eliminado.

Seu riso com gosto desceu como um calafrio pelas costas de Ethiena.

— Ethiena Ayodele Sá há de ser executada à tiros na Praça do Comércio — ela levantou o queixo, os olhos brilhando com prazer de suas ordens. — Todos hão de comparecer. Verão o que há de acontecer aos velhos poderes. A morte de um Império acontece quando aqueles que são humilhados por debaixo de suas riquezas, já não querem sofrer calados. Hei em dar voz aos humildes, aos pobres que são jogados à sorte em becos escuros e se alimentam de nada, enquanto os monarcas se fartam com seus impostos.

Ethiena notou como gostava de convencer com centenas de frases de efeito. Muitas palavras, seriam subvertidas por poucas ações. Pelo que se lembrava de pensadores hipócritas, não passava de "falaciadores". Uma hora ou outra, Linin se daria conta que morreria como um novo tipo de monarca — muito pior do que aqueles que condenara.

— Alguém se opõe a minha ordem? — Questionou, e Ethiena observou pela primeira vez que as pessoas ao redor dela eram muitos dos parlamentares que iam em contra ela se tornar uma Imperatriz independente.

Ela viu o tio de Linden, Amaro, rir com um som completamente desprezível. Ele tinha um braço pousado em uma tipoia, alguns hematomas em sua pele branca e dobrada de rugas. Não parecia que ficara tão machucado quanto Ethiena supôs. Pedir para Zaraym ajudá-lo, foi o que garantiu sua prisão: pois os guardas remanescentes de Linin o prendeu, mantendo seu protetor em algum outro lugar, provavelmente poderia até estar morto...

Para o bem de sua sanidade, Ethiena sabia que a incoerência de Linin começava, quando um parlamentar corrupto se curvava para ela. Uma cobra que se rastejou na monarquia, não deixaria de rastejar na federação. Morder e injetar veneno ainda era sua maior função.

— Estou assombrado com tua determinação, Presidenta Linin — riu com desprezo.

Linin o ignorou. Estava olhando para Ethiena no fundo da cela, como se tivesse morrendo de prazer. Podia-se sentir o seu desprezo pela cor da pele dela em seus olhos. Aquilo a incomodava tanto, que não conseguia esconder a ansiedade em humilhá-la em praça pública antes de executá-la.

— Amanhã pela manhã, a execução há de acontecer — ergueu o queixo, dando lugar para seu ódio brilhar em sua expressão.

Ela virou-se, sendo escoltada para fora do corredor do calabouço. Sumiu, sendo bajulada por parlamentares e seus apoiadores.

Assim era o poder: não era nada.

Hoje Linin era bajulada, mais tarde outros estariam em seu lugar. A troca de sistema nunca era bonita; apenas que todos aqueles que sentavam no trono, estavam fadados a cair. Um dia ou outro, reis caíam.

O provável era que sua execução pública era um exemplo para os nobres e para outras estirpes de revolucionários. O poder agora estava dominado por sanguinários, piores que Rui.

Ethiena não queria ficar sentada no fundo daquela sala esperando sua morte chegar. Apesar de ter perdido sua vida passada, ainda queria viver. Passou os últimos três dias dormindo e com muita febre. Mal conseguia pensar no que viria a seguir.

Pensou em seus filhos, sem ideia onde poderiam estar. Pensou em Ângela e sua mãe, também em Zaraym... Todos os Príncipes e Princesas que a apoiaram, provavelmente estavam com o mesmo destino marcado: execução. Lembrou do sorriso doce de Darcy, e o desespero tomou conta de seu coração.

Precisava fugir.

Engoliu a dor, apertando os lábios. Ela era uma Santa da Vida. Ficar presa naquela cela era completamente contra o que poderia ser agora. Não só precisava fugir.

Ethiena precisava salvar o povo do destino em serem governados por Linin.

Mas, em primeiro lugar, sua vida poderia recomeçar longe de Portuália, pela vida seus filhos, e levaria quem pudesse consigo para salvá-los por seus erros. Então, voltaria para corrigir aquela situação. Por Linden, que amava o povo, por ela mesma, que não seria humilhada até repetir Walles.

Walles nunca mais.

Procurando um meio de fugir, Ethiena sentiu um pouco de marasmo ao se levantar. Ergueu a mão até as grades da cela, lembrando que era uma bendita Santa da Vida. Podia manipular qualquer coisa com a magia. Ainda não tinha um conduíte, seu desespero por uma saída a fez pensar que podia fazer algo com aquelas celas.

Forçou as grades, tentando arrombá-las. Ethiena não era Hércules, porém.

Enquanto procurava um meio de fuga, escutou uma voz rir em algum lugar. Pulando de susto feito um gato, ainda não tinha se dado conta da presença de Rainha Helena, presa no fundo da cela à frente da sua.

— Crês que teus dons especiais hão de tirá-la de cá, criança? — gargalhou Helena.

Irritada, Ethiena bateu com força contra a grade. Ergueu a mão para agarrar os cabelos daquela víbora traiçoeira.

— Você! Sua imbecil! — gritou, escutando a voz ecoar no corredor. — Por sua causa, veja na merda que colocou o Império.

— Império? — Helena bufou, mexendo-se com dificuldade em sua cela. Sentou-se na cama de pedra no fundo mais escuro. — O Império não existe mais desde que Rui, o Sangrento, sentou-se no trono há muitos anos atrás. Rui era tão estúpido, que não ouvia seus súditos. Em sua própria coroação, onde manifestantes marcharam pacificamente até o Palácio para apresentar uma petição ao novo Imperador, mandou baleá-los pela Guarda Imperial. O Império começou a ruir no momento em que os governantes, esnobaram seu próprio povo.

Ethiena enrugou a testa. Havia estudado sobre o que chamava na história de Coroação de Sangue. O estranho era ouvir que Helena tinha consciência de seus prazeres por joias a ajudar o povo, que eram roubados com impostos severos para ela comprá-las.

— Acha que o país ficará melhor com Linin? — Ethiena perguntou, enrugando a testa. Sem querer, desviou o olhar para sua barriga grande de sete ou oito meses de gestação.

— Não. Há de ficar pior — riu, com deboche.

— E por que deixou aquela maluca passar e tomar o trono? — Ethiena não entendia, inclinou a cabeça, apertando os dedos nas grades.

Helena encolheu os ombros.

— Tu não sabes que tua raça é pior? — respondeu Helena, respirando fundo. — Vi com meus próprios olhos o que tua espécie é capaz.

— O modo como fala, parece que sou um tipo de goblin — Ethiena bufou, tremendo-se de irritação.

— Algo um pouco pior. — Helena virou o rosto para o lado, como se buscasse lembranças de seu passado. — Há muito tempo, enquanto viajava para o Palácio, o trem onde vira foi atacada por goblins e ebones. Todas as pessoas que conhecia foram mortas. E um desses seus malditos ebones, ousou furtar-me a virgindade. Ousou tocar-me, apenas para que eu fosse desprezada por Rui, assim que entrei no Palácio como Imperatriz.

Ethiena ficou chocada. Primeiro por não ter ideia o que era um goblin, e tampouco que existiam ebones ainda sobreviventes na juventude de Helena.

— Um grupo desses malditos ebones roubavam trens de Portuália — Helena continuou. — Uma trupe que trabalhou em um circo, mas precisou furtar para sobreviver. Lembro-me bem dos sons que fizeram, quando mandei executá-los todos.

Seus olhos ergueram-se com desprezo até o rosto de Ethiena.

— Uma, porém, voltou a assombrar-me — riu com desprezo. — A única que não consegui eliminar, por meus guardas recusarem-se a matar uma criança. Eu a vendi em um mercado de pulgas.... Para meu azar, vejas tu cá.

Aquilo explicava um pouco as origens de Ethiena, a verdadeira.

Ainda assim, as motivações de Helena eram compreensível por um lado, mas continuavam terríveis por outro.

— Parece que vive ironia por cima de ironia — Ethiena tentou ignorá-la, forçando as grades outra vez. — Azar o seu quando resolveu se tornar a Bruxa Má. A gente recebe de volta o que faz. E em vez de procurar ajuda pelas coisas terríveis que aconteceram a você, procurou ferrar com a vida de todos.

— Esse foi um troco muito lindo — Helena respondeu. — De que serve minha vida, após ser molestada por um bastardo selvagem, se é apenas sobreviver?

Esforçando-se para abrir as grades, Ethiena olhou espantada para Helena.

— Vivi ano após ano tomando tudo o que podia, inclusive aliados para que não morresse nas mãos de Rui — seus olhos brilhavam no fundo da cela. — Meu marido era meu inimigo mais íntimo. Desde que me desprezou, estou a planejar para ruir o Império.

— Em troca, vai morrer — a moça se encostou na grade, observando outra vez sua barriga de grávida. — Quando der à luz, Linin vai te executar. Pelo que fez a mãe dela, sem dúvidas se ressente e sua traição será em vão.

— Um pequeno preço — bufou Helena. — Pelo menos, minha agonia há em ter um fim. Partirei com a única lembrança boa de que Rui, no fim de sua vida, amou-me com uma digna esposa. Visitou minha cama todas as noites, como deveria ter o feito quando me trouxe para o Palácio.

Aquela revelação quase fez Ethiena vomitar. Ela bateu a cabeça na grade, tentando ter certeza de que ouviu mesmo aquilo. Se Helena não estivesse blefando, queria dizer que a criança em seu ventre era mesmo de Rui...

Queria dizer que seu noivo, Pedro, realmente deitou-se de bom grado com Helena Teodoro.

Foi como se um pedaço de vidro tivesse cravado no fundo do peito de Ethiena. Queria chorar, mas não conseguiu.

Pedro estava perdido tanto quanto ela esteve quando acordou naquela nova realidade. Certamente, ele não tinha ideia do passado entre o verdadeiro Rui e Helena. Quando descobriu, era tarde demais.

A pior parte era que ela não estava sendo falsa ou hostil. Seu tom era de alguém no corredor da morte, revelando segredos e arrependimentos de uma vida longa e cruel.

Ainda assim, Ethiena se sentia muito ameaçada.

Precisava muito sair daquele lugar.

— Uma mãe choraria por seus filhos — Ethiena forçou a grade, tentando se recordar da sensação em manipular magia livre. — Você se quer parece preocupada de que quando seu bebê nasça, Linin vai te matar e separar os dois. Em seu lugar...

Forçando, a raiva infiltrando-se em seu peito com a sensação de perder seu bebê, Ethiena começou a sentir a magia aproximar de seu corpo. Era como uma entidade viva, que se movia aos corações aflitos — para piorar a situação.

— Em seu lugar, tentaria o possível para salvar a minha vida — a grade não mudou, afinal, magia não funcionava daquela forma. Ainda assim, sentia tanta raiva que forçou com muito irritação. — Salvaria com tudo o que sou e tenho, não importa se ainda fosse pífio, então livraria meus filhos de se machucarem.

Lembrando dos pequenos garotos que adotou e deixou para serem protegidos, a raiva foi tão viva e incontrolável, que Ethiena gritou tentando dobrar as grades com as próprias mãos. A sensação de magia era como segurar uma bomba atômica com as mãos outra vez; ninguém dissera a ela que era bastante desconfortável e doloroso.

— Farei qualquer coisa para salvar meus meninos, nem que isso signifique manipular magia com minhas próprias mãos — nada funcionava, ainda continuava presa e apenas prejudicava a própria saúde. — Além da minha vida, meus filhos são tudo o que tenho. Não vou esperar aqui, lamentando pelos meus erros do passado.

Com a raiva esmaecendo ao finalmente dar-se conta de que se esgotava, Ethiena sentiu o mundo girar ao redor de sua cabeça. Não ia desmaiar, assim como prometeu que nunca mais usaria magia outra vez... Aquilo tomava todas suas energias, quando precisava dela para uma contrarrevolução.

Walles não ia se repetir, também salvaria suas crianças.

Se escorou nas grandes, pensando em outra forma de fugir.

Helena riu, observando Ethiena ofegar no fundo da cela.

— Tu acreditas ser cheia de virtudes — bufou. — Uma mãe não é uma que simplesmente dá à luz. Tampouco todas as mães criam seus filhos com amor e afeto. Que bem hei de fazer a minhas crianças, quando criei Linden e Linin com meu desprezo e ira?

Erguendo os olhos em direção a Helena, Ethiena percebeu que ela estava à beira da desesperança. Como se aceitasse seu destino, e não queria fazer qualquer esforço para mudar o futuro.

Levou a mão em direção a grade, mas hesitou um passo. Ela ficou com raiva novamente, recordando-se da pior sensação em sua vida em abortar uma criança. Helena preste a dar à luz, não se importava com o bebê em seu ventre. Ethiena daria de tudo para ter a oportunidade em receber a criança que perdeu... A única coisa que Linden deixaria de si... Mas tanto ele, quanto o bebê foram mortos pelo orgulho e avareza de Helena.

Ainda assim, Ethiena não queria que ela morresse.

— Vou te tirar daqui, e viverá a merda da sua vida por seu filho! — Ethiena gritou, sentindo o sangue subir para cabeça. — Pessoalmente te deixarei em uma casa, nem que seja caindo aos pedaços, mas vai viver para criar essa criança.

Era uma criança de Pedro. Linin o jogaria em algum orfanato cruel e administrado por gente duvidosa, assim que nascesse. Era um inocente que não merecia seu destino incerto.

Tentou afastar as grades, mas não conseguiu. Olhou ao redor, procurando alguma chave ou qualquer coisa para abrir aquelas celas.

— O que pensas que está a fazer, menina? — Helena gritou como uma leoa. — Não almejo tua piedade, e tampouco essa grade arrombada. Hei de deixar tal lugar com toda a minha dignidade.

Ethiena escutou algo no fim do corredor, quando abriu a boca para lhe dar um sermão. Provavelmente algum guarda da cela. Eles apareciam em horários regulares, vistoriando os prisioneiros. Forçou a grade novamente. Não tinha mais forças... A magia parecia tê-la ouvido prometer a si mesma, que jamais voltaria a depender daquilo. Estava por conta própria.

— Você quem sabe... — Ethiena murmurou, desistindo de arrombar a cela.

Saltou como um gato, notando a entrada de alguns guardas no corredor semiescuro.

— Hei! — gritou um homem vestido nas vestes da Guarda Imperial. — Retire tuas mãos das grades da cela!

Ethiena sentiu o coração pular no peito, afastando um passo para trás. Ao mesmo tempo, algo como um fio da piedade havia sido cortado em algum lugar em seu coração. Sentiu-se burra para tentar salvar alguém, que declaradamente não queria ser salva.

Ela procurou a saída, mas continuava presa, e não havia nada além de paredes mergulhadas na escuridão por todos os lados. Olhou para as celas ao redor, não existia ninguém ali, além dela e Helena.

Não conseguia sentir a magia, e não podia sair de seu cárcere se não pensasse um meio de fugir.

Procurou por qualquer coisa em seus bolsos, mas não achou nada.

— Não toque em tuas grades! — gritou o guarda com uma expressão cruel, que prometia fazer algo bárbaro a Ethiena se continuasse tentando escapar.

Quando ia respondendo algo, Ethiena deixou um gritinho baixo escapar ao se assustar com um vulto surgindo na penumbra atrás dos homens.

Ela levou algum tempo para dar-se conta de que algo bateu forte contra a cabeça dos guardas, e dois braços agarraram o outro pelo tronco, sufocando nas curvas interna de seus cotovelos.

O primeiro guarda caiu pesadamente no chão, o outro levou algum tempo. Assim que caiu, Ethiena deixou um palavrão voar para fora. Seus olhos encheram de lágrimas.

— Kiwe! — gritou, levando as mãos até a boca.

Escorregando os olhos para o lado, seus joelhos perderam as forças.

— Caramba! — a voz muito conhecida chegou em seus ouvidos. — Que lugar lamentável que vieste parar...

Ethiena precisou segurar nas grades da cela, evitando um encontro pesado contra o chão.

— Linden...?

Seu marido estava lá, saindo da escuridão do corredor para uma lança de luz da lua que iluminava as pedras duras.

Era Linden.

Vivo.

Seu rosto estava corado, um pouco vermelho do esforço em livrar-se do guarda.

O sorriso em vê-la, tomava todo o seu lindo rosto. Alto, bonito, firme e imponente como se lembrava que era.

Com as lágrimas escorrendo por seu rosto, ele correu em sua direção, erguendo a mão até as grades para tocá-la. Então, sem se conter, Ethiena conseguiu algum pequeno espaço até a boca de seu marido parado no outro lado da cela. De seu amado marido.

— Linden!

Se afastou e beijou sua boca, respirando com alívio enquanto ignorava seu cheiro estranho, misturado com suor.

— Oh, Deus, pensei que tivesse te perdido... — Ethiena chorou, fungando. Passou a mão no rosto dele, sentindo a calidez de sua pele. — Meu querido, Linden...

Ele sorriu ao ouvir aquelas palavras, puxando-a pela cintura para lhe abraçar mais forte, apesar da dureza das grades impedindo-os de tocar-se completamente.

— Estou cá, contigo, minha querida — Linden sussurrou. — Vim buscar-te, antes de qualquer coisa. Tu és mais importante para mim, não importa-me mesmo o trono.

Se afastou, e beijou-a com sede. Ethiena o sentiu tão quente e vivo, mas ao mesmo tempo erguendo a mão para seu peito para ter certeza de que não era um cadáver. Seu coração batia em ritmo rápido, vivo e potente.

Linden estava ali, não era um delírio de sua febre.

— Tudo bem que passarram porrr várrrios sustos, mas não hão de ficarr aí, esperrando outrros guarrdas virrem — Kiwe falou impaciente. — Vamos emborra, seus malditos rrromânticos estúpidos!

Ethiena ergueu um olhar para Kiwe, confusa. Olhou Linden novamente, perguntando como poderiam estar ali com o olhar.

— Hei de explicar mais tarde — Linden respondeu, sorrindo. — Precisamos partir, antes que Linin dê-se conta de que invadi o Palácio.

— Pois é... — Kiwe bufou. — Disse-te que poderríamos virrr resgatarrr minha irrmã Ethiena, pela manhã, quando o exérrcito chegarrá.

Ela olhou para ele, ainda mais confusa.

— Vamos explicarr — Kiwe estava irritado. — Apenas, saímos daqui antes de os inimigos aparreçam, ok? Vou cuidarr dessas grrades com um pouco de tecnologia nashanti.

Ele puxou uma estranha pistola com design um tanto quanto futurista, e Ethiena sacudiu a cabeça, incerta se aquilo ia abrir as celas. Havia visto por toda uma vida coisas impossíveis, mas nunca se esquecia que era uma cética nata.

— Afaste-se, Ethiena — pediu Kiwe.

Apontou a arma, e a moça sobressaltou de espanto. Passou de fantasia para ficção científica e mal havia percebido? A pistola de Kiwe lançava lasers. Ela piscou, observando-o "atirar", se fosse a palavra certa, contra a maçaneta da cela. A porta, em alguns minutos, abriu-se ao ser derretida e escorrendo como lava até o chão.

— Muito legal! — Kiwe olhou para Linden com um riso maroto, que estava estupefato. — Adorrei essas coisinhas novas.

Ethiena empurrou a porta, correndo até o esposo. Ela o abraçou outra vez, sentindo o calor de seu corpo. Não era um cadáver. Estava vivo.

— Certo, vamos emborra logo! — Kiwe disse, puxando Linden pelas roupas. — Deixem o rromance parra depois!

Ethiena hesitou um pouco, ainda custava acreditar que não fosse um sonho, uma realização antes do dia de sua morte.

Então, apressado, Linden a puxou, conduzindo-a para saída. Ethiena o parou, olhando para trás, em direção a cela de Helena.

— E ela? — perguntou, fazendo um gesto para trás.

O seu esposo arqueou as sobrancelhas, em seguida, estreitou os olhos. Sem tempo para discussões, ergueu o queixo apertando os lábios.

— Deixe-a — decidiu como um soberano autocrata. — Não há de morrer antes de dar luz. Então, está mais segura do que nós estamos no momento.

Puxou Ethiena outra vez, que não hesitou. Apesar de olhar para trás.

Todos construíam seu próprio futuro, pequenas escolhas o formavam e as consequência poderiam ser boas ou ruins. Helena escolheu um final ruim.

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Notas da Autora.

Eu tô com um brutal bloqueio. Não consigo configurar o final, sei como ele vai acabar, mas ainda não consigo sentar e terminar. Ai, ai, ai... Pior que tá me bloqueando para outras histórias. Fazia um tempão que não tinha bloqueios criativos... Isso que dá, escrever sem planejar kkkkkk.

Mandei esse capítulo que já tinha escrito há 84 anos atrás, para vocês não esquecerem a história, rs.

Quem sabe comentando, eu me anime a escrever e o bloquei se vá....

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