Capítulo 35

Ethiena acordou na manhã seguinte sentindo-se solitária. Nos últimos dias, desde que o Império estava sob ataque, sentia-se só com a ausência de Linden.

Se levantou, trocando de roupas sem a ajuda de Ângela ou Nice. Mexia-se como um zumbi, lembrando-se do comportamento do esposo, que até que achou fofo. Mordeu o lábio, também recordando-se de seu desejo em receber uma despedida.

Por mais compromissos com o governo tinha, decidiu se desfazer da sua agenda da manhã. Abriu as portas do quarto, encontrando Nice e Ângela trazendo o café da manhã.

— Vamos à estação de trem — ordenou.

Darcy apareceu algum tempo depois, e entraram ambas em um dos carros caros e oficiais do governo. Apesar de suas damas de companhias parecerem confusas, Darcy ficou tão feliz que não parou de falar sobre seus romances favoritos.

— É tão romântico! — exclamou sonhadora. — Nunca vi meu irmão tão apaixonado. Na verdade, existia até um rumor de que ele preferia homens a mulheres. Nunca esteve com ninguém além da guerra. E há muitos homens nos quartéis, sabe.

— Isso é uma fofoca, mas não haveria problema algum se preferisse homens — Ethiena respondeu, apesar de surpresa. — Ninguém tem o direito de dizer o que ele pode ou não fazer.

— Acredita? — Darcy franziu a testa. Era como se Ethiena tivesse voltado no tempo, havia esquecido de como as pessoas eram bastante preconceituosas. — Meu pai quase o internou em um mosteiro quando ouviu tal rumor.

E depois, claro, tentou roubar a namorada do filho, pensou a Imperatriz.

— Também acredito que ninguém há de interferir na vida pessoal de ninguém — Darcy disse. — Mas me enternece que meu irmão a ame tanto que parece babar toda a vez que a vê.

— Parece? — Ethiena não havia percebido.

— Ora, minha cunhada, tu também tens o mesmo olhar — a princesinha riu.

— Tenho?

Darcy deixou um risinho fluir, assentindo. Ethiena não tinha ideia de sua própria transparência.

— No Império, houve apenas um casal imperial com amor tão grande que história transcende o tempo — a princesa continuou. — Por incrível que pareça, compartilham do mesmo nome. Ethiena Malta foi uma dançarina, atriz e artista de circo, filha de domadores de ursos, que se tornara Imperatriz e uma pessoa tão influente, a ponto de ajudar a criar leis que beneficiavam às mulheres. Tal como tu fazes. E me enternece o quanto eram Malta e o Imperador Pedro I completamente apaixonados. O amor entre ambos fora tão forte, que não só sobrevivera às atribulações que sua relação trouxe como consequência, como gerou a liberdade feminina a partir disso. Até que Odolfo I, regrediu todos os avanços de liberdade, tanto de mulheres e homens. Alguns homens, após Odolfo, no entanto, gostaram de onde as mulheres ficaram.

Darcy virou o rosto em direção a Ethiena.

— Tu és como Malta encarnada — ela riu, agarrando a mão dela. — Mas o que me deixa confortável, é que tu amas meu irmão que, de todos nós, foi o que mais sofreu. Linin e Linden foram torturados pela Rainha Helena. Além de a Imperatriz Rosamond, mãe deles, morrer como morreu... Gosto que ele receba o amor que merece, Linden foi sempre tão doce, apesar da fama que colocou a si mesmo de cruel.

Ela riu, lembrando de histórias que Ethiena não conhecia de Linden.

A moça respirou fundo, se ajeitando incomodada. Se perguntando quando começou a parecer apaixonada. A memória muscular daquele corpo era tão forte que não conseguia se controlar?

Logo, assim que chegou à estação de trem reservada a família real, que partiria em destino a Gamões, Ethiena o viu. Linden estava parado conversando com Qiteria. Vestia as roupas militares oficiais do imperador, um casaco cheio de dragonas e fivelas, combinando tons de vermelho e verde. Ele sorria.

Ethiena sentiu seu coração acelerar com a imagem de seu sorriso.

Então, levando a mão até o peito, percebeu pela primeira vez desde que se casaram. Não existia apenas a memória muscular daquele corpo, talvez fosse até uma desculpa que arranjou para não se sentir culpada por ter se apaixonado por alguém que não fosse seu noivo. Ethiena percebeu que desde a primeira vez que o viu, pensava nele mais vezes do que em Pedro.

Sacudiu a cabeça.

Sim, ela amava Pedro; mas também amava Linden.

Ethiena realmente não conseguia esconder aqueles sentimentos, não mais. Principalmente de si mesma.

— Oh, Thiena! — Linden deu-se conta de sua presença.

Um sorriso infiltrou no canto de sua boca, e estava livre da barba por fazer. Ele tinha um lindo rosto. Com os olhos castanhos tão claros, que pareciam brilhar. Sua boca era bonita, e lembrou-se que foi a coisa que mais chamou a atenção dela. Adorava seus cabelos meio encaracolados, meio ondulados, que caíam sobre sua testa. Amava tudo nele, e evitava confrontar aquela verdade há tanto tempo, que pensou que fosse um pouco cruel de sua parte aproximar-se dele apenas para conseguir o posto de Imperatriz para tentar parar Linin.

— Estive a pensar que sua agenda estava cheia esta manhã — o Imperador se aproximou, seus olhos brilhando ao vê-la. — Veio cá se despedir?

Sentiu o rosto corar, abaixando para encarar o piso cinzento da estação. Como quando era adolescente, e uma vez confessou seus verdadeiros sentimentos a um garoto que gostava, Ethiena não conseguiu encarar o rapaz.

— O que foi? — Linden riu, em seguida usou as pontas de seus dedos para erguer o rosto dela como se segurasse uma flor delicada. — Estás chateada, por que não passei essa noite contigo?

— Não... — Ethiena o olhou, piscando, o coração batendo mais rápido pela extensão de seu toque. — Chorou ontem por ninguém despedir de você quando foi a guerra. Eu pensei que pudesse...

Ele enrugou a testa. Um sorriso filtrou no canto de sua boca, no momento que Ethiena escutou o flash queimar e explodir de algum fotógrafo. Virou o rosto, observando uma massa de pessoas ao redor deles. A vida de uma Imperatriz vinha com o preço da falta de privacidade.

— Estou feliz! — Linden riu, a puxando antes que Ethiena pedisse que fosse a algum lugar reservado. Abraçou-a tão forte que Ethiena deixou para lá.

O rapaz beijou o canto de seu rosto e riu de leve no pé de seu ouvido.

— Soldados guardam a melhor noite para quando voltam da batalha — riu, feliz, fazendo Ethiena sentir-se ainda mais afogueada. — Me espere, estou a pretender voltar ainda pronto.

Ele se afastou, tolamente como um garoto empolgado.

— Me dê um "tchau" enquanto parto, minha Flor Amada — disse, maravilhado. — Use um lenço enquanto acena.

Ethiena sacudiu a cabeça, revirando os olhos. Então, reuniu ar, para confessar:

— Linden, estou ardentemente apaixonada por você.

O Imperador parou no meio de seu caminho até as portas do trem. Virou-se bruscamente, ficando ligeiramente vermelho ao finalmente entender o que ela havia dito. Ela usou as mesmas palavras que ele usou quando se confessou desesperadamente.

— Eu te amo — sorriu, apenas para vê-lo reagir tão... fofo.

Com o rosto ainda mais vermelho, Linden correu até Ethiena, abraçando-a e beijando-a com amor e paixão. Ela se rendeu ao seu toque familiar, o peito inundando de sensações que conhecia. Faltava o ar, o mundo estava quente demais, queria Linden mais do que jamais imaginou que fosse desejar.

Ergueu a mão até seu rosto, jogando o braço até os seus ombros, beijando-o de volta como se pudesse fundi-lo a sua pele. Por que diabos o mundo estava tão quente aquele dia?

Ela se curvou em sua cintura, quando ele também parecia querer se fundir a ela. Desceu a mão até sua cintura, puxando-a para mais perto. E quando estava ainda mais quente, Linden se afastou.

— Se continuares a me beijar assim, não hei poder ajudar o Império — ele riu baixo, muito corado nas orelhas. Abaixou-se, plantando um beijo demorado em sua bochecha. — Eu te amo.

A soltou relutante, então piscou, afastando-se até o trem. Ethiena o chamou, tirando algo do bolso do seu vestido.

— Um lenço — ela riu, acenando uma despedida. — Vou ficar ansiosa por seu retorno.

Linden assentiu, lembrando-se antes de entrar no trem:

— Era um presente de retorno, mas não consigo mais conter-me — ele sorriu. — Desde que não estejam na linha sucessória, concordo que devemos adotar as crianças. Eles hão de ser nossos filhos adoráveis.

— Mesmo?

— Não há nada que não faço por ti, meu amor.

— Meu Deus, isso é rrealmente a coisa mais... açucarrada que já vi na vida! — Ethiena escutou uma voz conhecida quando ia respondendo.

Virou-se, espantada com a presença alta e forte de Príncipe Kiwe, trajado nas roupas típicas de Nashanti. Desta vez, vestia uma túnica branca, que descia até seus joelhos. Os arabescos cobriam as bainhas em tons dourados como ouro novo. Sua expressão estava ruim, como se fosse um irmão ciumento que acabara de flagrar a irmã beijando o namorado.

— Pensei que estaria esperando com seu pai — Ethiena desconfiou.

— Meu pai pensou que devia serr corrtês uma vez na vida e escoltarr o Imperrador, visto que as arrmas dos inimigos são... superriorres — Kiwe cruzou os braços, divertindo-se com a expressão irritada de Linden.

Ethiena lembrou-se de o esposo mencionar algo sobre tecnomagi. Atualmente sabia como usar magia de papel, e estava fazendo progresso em dar vida as dobraduras. Qiteria a fizera carregar no bolso um origami de um tigre, que ela ainda tinha problemas em transformar em uma arma.

Magia de papel era assustadora. Causava calafrios em Ethiena pensar que existia algo superior, e que uma terrorista como Linin o tinha em poder.

— Fico tranquila que o escolte — Ethiena realmente experimentou uma sensação de alívio.

Kiwe assentiu sorrindo. Enquanto sacudi a cabeça, pela primeira vez deu-se conta da presença de Ângela e Darcy atrás da Imperatriz.

De repente, a arrogância do Príncipe de Nashanti dobrou feito um pedaço velho de papel. Descruzou os braços, boquiaberto enquanto seus olhos miravam Darcy.

— Milady! — sorriu, aproximando-se, erguendo a mão quando se curvou para a princesa. — Chamo-me Kiwe Na'tawa Tulyaman Nashanti. Estou encantando em encontrrrarr-te.

Os olhos de Darcy brilharam, estava também boquiaberta. Um sorriso tímido chegou até seus olhos, curvando-os como meias-luas. Suas bochechas que não estavam cobertas de maquiagem, escureceram com a cor de sangue.

— Muito prazer, Vossa Alteza Kiwe — ela se curvou segurando suas saias. — Chamo-me Darcy dama Sesmaria. Me é um prazer encontrar-te também, Príncipe de Nashanti.

Eles estavam sorrindo um para o outro, dizendo muita coisa pelo olhar.

Ethiena entreolhou Linden, que encolheu os ombros.

— Tem dezenove, está em idade de casar-se se assim desejares — sussurrou em segredo.

Por alguma razão, Ethiena enrugou a testa. Não havia pensado, mas a princesa que escolhesse Kiwe, sofreria o mesmo drama que ela enfrentava. Seria a única branca em um reino de negros.

Ethiena não gostou daquela ideia. Darcy era inocente. Sucumbiria se não fosse devidamente ensinada a suportar pressão política.

— Vossa Alteza! — Linden pigarreou. — Estava a me dizer que vosso pai não há de tolerar atrasos. Então, penso ser prudente partirmos.

Kiwe deu-se conta de onde estava, tendo se perdido em uma bolha cor-de-rosa por um segundo. Ele assentiu, deixando um beijo de despedida nas costas da mão de Darcy.

— Aqui nos despedimos — o príncipe sorriu, sedutor.

Ethiena esticou o lenço em sua mão, acenando para Linden que estava rindo feito um idiota.

Então, entraram no trem.

De volta ao palácio, Ethiena pensou que aquela foi a cena mais melosa em toda a sua vida. Ficou tão emocionada com a certeza de seus sentimentos pelo Imperador, que deixou-se levar pelo romance. Linden era exageradamente meloso daquele jeito, mas ela gostava de preservar o momento para privacidade. Sentia-se corar cada vez que lembrava de seu romance cor-de-rosa.

O que a fez esquecer, pelo menos, foi quando alguns guardas de confiança trouxeram Lauro, Mariano e Elmo para a ala do Imperador. Havia pedido para mantê-los seguros na ala dos soldados, recebendo mimos até que Linden aceitasse adotá-los.

Os garotinhos estavam melhores, após algumas semanas ao cuidado de boas refeições. Os olhos fundos da fome, as roupas rasgadas, foram tudo substituídos por cuidado e supervisão. O pequeno Lauro veio correndo em suas pernas curtas até Ethiena, pulando em braços. Ela o abraçou tão forte, ajoelhando como se as forças em seu corpo desapareceram. Recebeu um abraço dos outros dois, rindo feliz que eles agora tinham alguém que pudesse cuidar deles, darem refeições e roupas além de um lar.

Livre da agenda da manhã, Ethiena e seus filhos passaram o resto dela se ajeitando, saboreando a novidade em ser uma família. Mostrou aos meninos onde seriam seus quartos, cada um com para si mesmo, perto o suficiente para emergências.

Enquanto faziam bagunça, as crianças sentiram fome e eles passaram o fim da manhã almoçando no terraço espaço entre o quarto de Ethiena e Linden. Lauro olhava muito feio para os vegetais; Elmo gostou da salada de brócolis. Mariano quase se enterrava em sua porção de comida.

Durante a sesta, brincaram um pouco, inventando uma batalha de músicas. Ethiena ensinou os garotos o poder do hip hop. Inventaram rimas ridículas, mas riram tanto que a Imperatriz decidiu desfazer totalmente da agenda da tarde. Aproveitaria cada momento da infância de seus filhos, e começaria naquele exato momento.

Desviaram o caminho para o lago onde Ethiena passou suas tardes ao chegar ao Palácio após Walles, recuperando-se da tragédia em perder muitos conhecidos e Pedro para sempre. Inesperadamente todos os garotinhos sabiam nadar, Mariano, o mais velho, confessara que aprenderam para pescar. Mas o rio Citra, que cortava parte de Portuália, não possuí peixes. Em seguida, caiu na água interessado se não havia peixes nos lagos "encantados" do Palácio.

Ethiena ficou de longe, observando os pequenos brigarem, atenta para não acontecer acidentes. Antes de sua vida anterior terminar, sonhava com uma casa preenchida de muitos filhos. Ela fora filha única, e sentia ciúmes das pequenas confusões de famílias grandes. Eram brigas tolas, significativas para suas amigas, mas bobas para ela. Aquilo era a vida comum que Ethiena andava desejando desde que sua alma fora transferida para aquele mundo.

— Thiena! — gritou Elmo, correndo molhado de seu mergulho. Trazia algo na mão. — Peguei um peixe!

Ethiena não acreditou que tivessem peixes naquele lago, e ficou tão curiosa para ver o que o menino pegou. Seus irmãos vinham atrás, se juntando para algo que Elmo jogou na grama.

— Meninos! — Ela se aproximou, olhando para a coisinha curiosa que jamais viu em toda a sua vida. Parecia um peixe, no entanto, colorido como um arco-íris. E também tinha um chifre no centro da testa. — O que é isso?

— É peixecórnio — Mariano abaixou-se, avaliando com seriedade.

— Não — Lauro piscou, olhando Ethiena. — É um unicórnio-d'água.

— Para mim, parece uma mutação do acidente de Chernobyl — Ethiena murmurou.

— É meu! — Elmo riu, pegando o peixe que se debatia de volta na mão. — Vou colocá-lo em copo e depois em um tanque!

Ethiena riu, fazendo um gesto para Ângela ajudá-lo. Em seguida sussurrou para Darcy o que era aquilo.

— Um peixecórnio — a cunhada respondeu, rindo. — Uma espécie rara modificada pelos jardins mágicos que cercam o Palácio de Cristal.

Ela pensou um momento.

— Ainda não saístes para explorar o jardim, certo? — deixou um risinho fluir. — Há de encontrar criaturas fantásticas e belas.

— Criaturas? — Ethiena estremeceu. — Como sereias e curupira?

Darcy riu alto.

— Algo parecido — ela encolheu os ombros. — Isso depende muito da tua intenção. Invasores haveriam de encontrar-se com terríveis ogros ou bocas do inferno. Pessoas perdidas com boas intenções, encontrariam encantadoras fadas.

Ethiena não conseguia entender, apenas assentiu anotando na mente um passeio junto de Linden ao arredor dos jardins.

Rapidamente, no entanto, Darcy mudou de assunto. Ela voltou a perguntar sobre Kiwe. Ethiena não ouvia metade de suas perguntas, mas também não se agradava em ver a sua cunhada mostrar interesse em um homem que aparentava o dobro de sua idade.

— Querida, não quero entrar em sua vida pessoal — finalmente respondeu. — Deixei-me pensar um momento se deve mesmo mostrar tanto interesse em Kiwe.

Darcy ficou espantada.

— Por quê?

— Não está pronta para enfrentar um reino senda a única pessoa... exótica em seu centro — ela disse, tremendo-se com a ideia de a jovem Darcy sofrer como ela sofria por causa de sua cor de pele. — Ainda é muito cedo.

Darcy nada respondeu. Ela olhou Ethiena de cima a baixo, como se nunca tivesse lhe passado pela cabeça qualquer diferença por causa de cor. Enrugou a testa, colocando-se para pensar, mas ao mesmo tempo, Ethiena sentiu algum tipo de choque entre elas.

Esperava que sua opinião particular não causasse rupturas.

Mas não teve tempo de levar o assunto adiante. Ethiena ouviu Mariano rir, e virou o rosto em direção ao filho. E bem atrás dele, escutou alguém gritar anunciando uma presença nublada que a arranhou como as patas de um gato.

— Sua Alteza, Rainha Helena dona Teodoro!

"Dona", pensou Ethiena, sentindo calafrios. Lançou um olhar em direção a Zaraym, fazendo um gesto em direção às crianças distraídas com Ângela e o peixe que encontraram. Seu guarda mais confiável levou a mão até a adaga, um sinal de estar pronto para golpear e esfaquear.

Ethiena olhou para a presença de Rainha Helena, enrugando a testa. Seu fluxo sentimental estava diferente da última que a viu pessoalmente. Era ainda mais denso, poroso, pegajoso como petróleo. O que a deixou ainda mais nervosa foi que sua maquiagem estava borrada, como se chorasse o caminho inteiro até Ethiena.

— Minha querida nora — Helena choramingou. — Sinto muito!

Um terrível sentimento subiu até o coração de Ethiena, que inclinou a cabeça.

— Ninguém ousou contar-te, minha nora — Helena limpou as lágrimas em seu lenço. — Oh, minha pobre criança, meu querido filho!

A falsidade era tamanha, que se tornava incrível.

— O que aconteceu? — Ethiena se aproximou, aceitando um roupão de um dos seus guardas leiais que a cercava ao redor do jardim.

— Meu querido filho! Oh, pobre Linden!

Outro arrepio subiu por todo o corpo de Ethiena.

— O que aconteceu?

Ela sacudiu a cabeça.

— A Facção Rebelde armou uma armadilha, querida nora — Helena tinha o nariz vermelho, e pela primeira vez Ethiena notou que pessoas do alto escalão do exército vinha logo atrás. — O trem que partiu essa manhã para o compromisso de nosso jovem Imperador, foi acometido por uma bomba mágica...

Ethiena perdeu as forças nas pernas. O guarda ao lado dela a segurou.

— Linden se foi, minha nora...

Durante alguns momentos, Ethiena não conseguiu escutar o que Helena havia dito. O mundo ficou distante e mudo. Pensou que desfaleceu com os olhos abertos.

Mas logo, se recompôs, correndo até um dos generais que viu em sua festa de casamento. Ele confirmou com um aceno da cabeça, pesaroso.

O mundo pareceu ter caído na cabeça de Ethiena, que correu em direção ao seu quarto. Se fosse verdade, todo o reino estaria sabendo através das rádios. Ligou um aparelho em forma de caixa perto da lareira, sintonizando em estação qualquer.

"Atenção", dizia o locutor. "Atenção, esta manhã, em 28 de julho de x918, o Imperador Pedro II foi assassinado. Durante uma viagem de compromisso oficial à Gamões, o maria-fumaça imperial foi implodido por uma terrível bomba mágica" ...

Ela não conseguiu ouvir mais do que aquilo. Seu coração estava afundando, o mundo girando em torno de sua cabeça. Se afastou do rádio, caindo sentada em sua cama. Sentiu náuseas, mas as lágrimas vieram antes de qualquer outra reação.

Sentindo-se ligeiramente esgotada, se encolheu na cama, sentindo o cheio de Linden ainda presente nos lençóis, ouvindo uma conversa entrar pelo quarto sem prestar muita atenção. Ethiena sentiu como se seu coração houvesse sido arrancando de seu peito.

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