Capítulo 34
Apenas alguns momentos depois, Ethiena se viu em uma sala de reunião, esperando outras pessoas convocadas imediatamente.
Linden, Kiwe e ela entraram às pressas — o Imperador um pouco alterado. Seu rosto ficou vermelho, e, com ciúme, pediu para Kiwe sentar-se do outro lado da mesa quando se acomodava ao lado da esposa.
— Então, tu pediste ao Príncipe Kiwe de Nashanti para seguir a Facção Rebelde? — Linden questionou, depois das explicações de Ethiena.
— Sim — a moça suspirou, irritada como ele estava irritante aquele dia.
— Então, tu — apontou para o Príncipe de Nashanti — dizes que a Facção está em marcha à Capital.
Houve um momento de silêncio.
— Tu és James Bond ou algum agente secreto da CIA? — Linden estreitou os olhos, desconfiado.
Ethiena riu, embora Kiwe não parecia ter ideia do que o Imperador falava. Às vezes Ethiena até esquecia que ele também era de seu mundo original. O Príncipe estrangeiro supôs ser algum tipo de personagem folclórico de Portuália, então, foi direto ao ponto:
— Tenho meus meios de investigação, Sua Majestade — sorriu. — A inteligência de Nashanti está tão ativa no Velho Continente, que se surrprreenderia todas as inforrmações que temos sobrre todos nessa Corrte.
Linden apertou os olhos em direção a Ethiena.
— Não me interessa — resmungou irritado. — Mas me preocupa os rumores que isso há de levantar. Ethiena está a ser acusada de começar um complô para matar-me, e manter a coroa para vingar-se de seus conterrâneos assassinados por Odolfo I. Sua entrada espalhafatosa, há de aumentar as desconfianças.
Kiwe riu.
— Eu sei — encolheu os ombros.
Ethiena cruzou as pernas, observando a nova forma de falar do príncipe, como se tentasse imitá-la com seus gerúndios e um linguajar mais... brasileiro. Assim como não gostou da tranquilidade de Kiwe.
— "Eu sei" — Linden imitou sua voz. — A este momento, Duque de Citra está a se reunir com seus conspiradores, então há de ser uma questão de dias para tentar tirar-nos do poder. Estavam a falar sobre "questão de segurança nacional".
— Está tudo bem — Kiwe assegurou. — Seu povo ama tua Imperratriz. Terrão uma revolta se derrem o golpe de estado em ti e Ethiena. Meus agentes estão ouvindo os popularres, e muitos sabem da situação delicada de vós, então, dizem que darrão o trrroco se algo acontecerr. E uma rrevolta popularr, não serrá nada que seus corruptos de estimação vão querrer.
— Peraí! — Ethiena olhava de um para o outro. — Não estou sabendo de nada disso. Quero dizer, dos rumores eu sabia, mas não que todo mundo tinha ideia de uma conspiração que eu não sei que está acontecendo.
Linden a olhou, franzindo a testa. Não havia dito nada a ela, embora Ethiena soubesse que guardava segredos. Pego de surpresa, abrandou a própria raiva, largando-se no encosto de sua cadeira.
— Hoje está a ser um dia muito estranho — suspirou profundamente. — Deverias a mim, Ethiena, ter informado sobre seu acordo com Vossa Alteza...
Para piorar a dor de cabeça de ambos, Comodoro Elias entrou como um tornado na sala do Concelho Pequeno, acompanhado de centenas de soldados. Linden deu um salto do lugar onde estava sentado, levando a mão a pistola que trazia no coldre em seu cinto.
— Vossa Majestade! — Elias mal se curvou. — Trago-te péssimas notícias, Majestade.
Ethiena percebeu como seus olhos estavam dilatados, assustados. A tensão estirando os músculos em seu corpo, passou por contágio a Kiwe e ela, que se levantaram de seus assentos.
— O que está acontecer agora? — Linden questionou, irritado. Ele parecia a beira de um colapso nervoso.
— Houve um atentado, Majestade — Elias se explicou, suando, mas com a pose de um soldado batendo continência. — Nos festivais na cidade, houveram muitas explosões.
Linden ficou pálido, olhou Ethiena pelos cantos dos olhos, mas sem fitá-la completamente. Apertou o lábio, sacudindo a cabeça.
— Quão ruim está? — ele perguntou, sua voz falhando um pouco. — Quantas pessoas se machucaram?
— São muitos mortos e milhares de feridos, Majestade — o Comodoro respondeu, tensamente.
Houve um segundo de silêncio.
— Alguém conclamou a autoria? — o Imperador perguntou.
Elias desviou o olhar em Ethiena, e se esticou como uma barra. Olhou para cima, assentindo.
— A Facção Rebelde, Vossa Majestade.
Linden respirou fundo. Houve mais um segundo de silêncio, então, em um ímpeto de raiva, arremessou a cadeira a sua frente para longe, xingando toda a Facção com centenas de palavras horríveis.
— Quero esses malditos presos! — ele apontou para Elias, caminhando até onde o Comodoro estava parado. — Faça um Comitê de Guerra, agora! Hei de ir até os quartéis e comandar até que toda essa maldita Facção esteja nas piores e mais sombrias cadeias desse Império. Não os quero mortos, mas sofrendo até agonia completa.
— Espera um pouco — Ethiena colocou a mão no coração. — Também desejo ajudar.
— Por quê? — Linden respondeu, ainda muito irritado. — Não anseio ofendê-la, querida, mas diferente dos tolos do governo, militares são mais "cascudos". Tua presença há de mexer com o ego de alguns generais. Não por ser mulher, mas pela ausência de treinamento militar. Hão em zombar e machucar seus sentimentos.
— E, clarro — acrescentou Kiwe —, ainda não terrminamos nossos assuntos. Prreciso de Vossa Majestade, o Imperrador, parra uma rreunião pessoal com meu pai.
Linden olhou como se lançasse lasers pelos olhos até Kiwe. O Príncipe não recuou, sorriu como se achasse tudo muito divertido.
— Meu pai exige uma reunião pessoal com o Imperrador — revelou, encolhendo os ombros. — Querr pessoalmente avaliarr se a mentalidade do Imperradorr é diferrente como julguei.
— Por quê? — Linden disse naquele tom azedo de antes.
— Caso esteja a se aprroveitarr da popularridade de uma Florr Exótica, ou abusando de nossa irrmã, Ethiena Ayodele Sá, vamos levá-la a Nashanti parra viverr com os seus.
O rosto do marido de Ethiena ficou vermelho como um naco de pimenta. Já muito nervoso, aproximou-se de Kiwe, encarando-o face a face.
— Ouse tocar em um fio de cabelo de minha mulher — ameaçou, suavemente. — Então, hei de enviar tuas mãos em uma caixa para que teu pai saiba o quanto amo a minha mulher, e não tolero que ninguém que não seja eu, coloque um dedo sobre ela.
Kiwe riu.
— É muito intolerrante, de alguma forrma — respondeu, encarando o Imperador de volta, sem respeito e medo. — Meu pai estava cerrrto quando disse que ignorrância é, muitas vezes, a única culturra que alguns povos possuem. Agirr como um lobo alfa, desagrrada a maiorria das mulherres em Nashanti... E duvido que agrrade sua mulherr, que herrdou os genes de nosso povo.
Ethiena abriu a boca, mas Kiwe continuou:
— Irrá prrecisar de Nashanti nessa batalha, Vossa Majestade, pois a Facção é uma ameaça não apenas parra Porrtuália e Cispania — seu sorriso era como o de alguém se divertindo ao assistir algum filme engraçado. — Mas nossa ajuda está dependendo do quanto o seu povo está trratando sua Florr Exótica. Tenho a perrmissão parra levá-la a forrça, se forr prreciso. Ethiena é nossa irrmã, e Nashanti não vai tolerrar a completa eliminação de Ebone. Tampouco qualquerr humilhação por causa de sua corr de pele. Nós cuidamos dos nossos.
Ethiena sentiu como se Kiwe fosse um irmão mais velho, intimidando seu namorado que levou para jantar em família. Tentou falar algo, mas o esposo logo respondeu:
— Ebone vive em Thiena — Linden sorriu com arrogância. — E continuará a viver em nossos herdeiros. Assim como, enquanto estiver vivo, ninguém há de tirar a minha mulher a força de mim. Ninguém há de fazer nada do que ela não queira. Se alguém tentar algo contra sua vontade, farei com que saiba que só por cima do meu cadáver.
Kiwe recuou um passo, analisando silenciosamente o rosto determinado de Linden. Cruzou os braços, cravando um riso no canto de sua boca. Uma covinha afundou em sua bochecha cheia de barba por fazer.
— Muito bem — ele disse, ainda com seu tom de divertimento. — Não sou um ignorante, e sei que se abandonarrr teu povo agorra parra lidarrr com uma rreunião não oficial, há de causarr dano a tua rreputação. Então, vou esperrar que lide com o prroblema iminente. E daqui a uma semana, quando se derr conta de que o problema é maiorr do que imagina, vou esperrá-lo em um trrem em destino à Cátima. Meu pai e eu estarremos hospedados de forrma não oficial em um hotel chamado Ponte de Lima.
Ethiena aprendeu que, por causa da Rainha Helena, todos eram obrigados a se curvarem ao encontrar os Imperadores, assim como deviam curvar ao sair de suas presenças. O Príncipe de Nashanti era bastante arrogante, pensou ela observando-o sair da sala sem qualquer respeito. Ela acreditou que ele se sentia superior em todos os aspectos.
Virou os olhos em direção a Linden, que olhava para ela com as sobrancelhas franzidas. Não disse o que se passou por sua mente, mas sentiu que estava secretamente acusando-a de algo. Ethiena ficou indignada, sacudindo a cabeça para ele não começar nenhuma discussão assim que Kiwe deixou a sala, acompanhado de sua alta e poderosa guarda pessoal.
— Preciso lidar com esse atentado — Linden tossiu com o fundo da garganta, sacudindo a cabeça. — Enquanto estiver a cuidar disso, minha querida, dou a total autonomia para cuidar dos outros assuntos do Império e Palácio.
Ele respirou fundo, acalmando-se. Sorriu, puxando-a para perto. Roubou um beijo, quebrando a sua promessa de não fazer aquilo sem ela querer. Mas Ethiena não se importou, apesar de ainda estar um pouco irritada com ele.
— Eu te amo — confessou, e como mudou a expressão, estava incomodado pelas palavras Kiwe questionando como a tratava. — Que estupidez alguém duvidar disso.
A abraçou, beijando sua bochecha.
— A amo tanto, que hei de trazer a lua até ti se tu desejares — falou baixo. — Não duvides disso, minha querida.
Se afastou, sacudindo a cabeça para Comodoro Elias. Falou rápido, questionando o que estava acontecendo.
Vendo-o sair da sala, Ethiena inflou as bochechas. Ele estava sendo bastante contraditório. Por que diabos ela ia desejar a lua, quando a única coisa que pediu foi a adoção de três crianças de ruas? Ou ele esqueceu com os acontecimentos sobressaltando por todos os lados, ou aquilo era a única coisa que não podia dar a ela...
Uma semana depois, a Facção Rebelde mostrou-se ousada ao assumir a autoria dos atentados terroristas. Eles eram piores do que ela havia previsto. Conhecia o terror da guerra, primeiro impondo um medo físico, quando explosões de duas bombas causaram três mortes e deixaram 264 feridos durante os festivais de Lisbona.
Os jornais imprimiam anúncios dos terroristas, induzindo, agora, a um terror psicológicos. Rindo, burlando, ameaçando novos atentados se o Estado não lhe desse o que queriam: o controle total de Portuália e Cispania. O seu líder alegava que o trono pertencia a ela, pois era a mais velha dos príncipes e princesas de Rui I.
Linin dizia que faria a "vontade do povo". Prometia "pão, paz e terra", transmitindo mensagens de esperança e liberdade para a população através das rádios piratas e artigos de jornais. E não obstante, pedia uma recompensa gorda para quem lhe trouxesse a cabeça da Imperatriz pessoalmente.
Ethiena engoliu em seco, quando Linden voltara dos comitês de guerra uma semana depois, trazendo uma gravação que colocou para rodar em um gramofone. Linin foi aquela que fomentava a mentira de que Ethiena planejava para matar o Imperador, e roubar o trono para vingar-se de seus conterrâneos. Suas palavras contra a moça eram... preocupantes. Não valiam serem lembradas, nem mencionadas. Eram racistas, incitava as pessoas a odiá-la sem motivos. De modo que Ethiena afastou a agulha do disco, sem querer ouvir até o fim.
— Ela acredita mesmo que estou fazendo isso? — seu coração estava aos saltos.
— Linin... — Linden massageou a cabeça. — Ela perdeu completamente o juízo.
— Acha mesmo?
O Imperador percebeu o rosto pálido de Ethiena, após ouvi-la responder com ironia. Ele mordeu o lábio.
— Os ataques terroristas não pararam — ele cruzou os braços, observando a esposa. — Estava a acontecer desde que assumi o trono. Em províncias distantes, Gamões quase foi completamente tomada pela Facção. Nós enviamos tropas para retomar o poder, mas... Eles estão seriamente usando armas superiores à nossas. Os armamentos que usam são chamados de tecnomagi, e nossos grimórios ou dobraduras são brincadeiras de crianças perto do que usam.
— Por que nunca me contou isso? — Ethiena sentiu-se como se tivesse uma venda. Passou tanto tempo recuperando sua saúde mental, bebendo bebidas alegres de verão, enquanto a população estava sofrendo com a ignorância de grupos terroristas.
— Queria poupá-la — Linden confessou, sentando-se ao seu lado da cama. — A Facção Rebelde tem o objetivo de realizar uma revolução social no Império através do uso sistemático de violência contra autoridades governamentais. Contra nós. Tive medo de que pudesse desestabilizá-la emocionalmente, visto como voltou de Walles...
Pensando bem, Ethiena avaliou, na ocasião teria reagido de forma exagerada. Sentiria medo, diferente do fervor que sentia agora. Durante os atentados dos feriados, muitas pessoas ficaram feridas. Não foi pior que Walles, mas Ethiena sentia-se queimar por dentro quando prometeu a si mesma que Walles jamais se repetiria.
— Está tudo bem — Ethiena finalmente disse, admirando o quanto Linden se preocupava com ela. — Mas precisamos de ajuda, Linden. Quanto mais o terrorismo avançar, será uma forma de desorganizar o governo e nos induzir às reformas não planejadas que apenas vão piorar a situação, além de ser uma forma de pressionar o povo a se rebelar contra nós. Não generalizando, mas alguns revolucionários são bastante sanguinários, e não gosto da ideia de ter meu pescoço degolado na guilhotina.
Linden apertou o lábio, evitando um risinho com o tom da esposa.
— Kiwe estava certo — a moça agarrou as suas mãos, sentando de frente a ele. — Sei que seu orgulho está a frente da razão, mas precisa se aliar a Nashanti, Linden.
— Pensas que estou a rejeitar aquele bastardo por orgulho? — Linden franziu a testa.
— Sim, é isso que está fazendo — Ethiena apertou suas mãos, impedindo que fugisse. Ela não o via há uma semana, quando se ocupou com a pior crise, mas ouvia que ele continuava a se recusar a aceitar ajuda. — Está com o orgulho ferido, porque não conseguiu lidar com isso sozinho. Não pode estufar o peito, e me mostrar como é o melhor macho do bando.
— Está a me ofender...
— Estou — Ethiena respirou fundo, observando seu rosto contrariado. — E é para você pensar um pouco. Seu povo está sofrendo, Linden, porque quer me mostrar o quanto é poderoso. Sente-se ameaçado por Kiwe, pois vou embora se alguém ousar me humilhar ainda mais por causa de quem sou. Acredita que não consegue me proteger, então, essa queda de braço em vão é tudo que lhe resta para mostrar que pode.
Ele tentou responder, mas percebendo a verdade nas palavras de sua esposa, se soltou ficando vermelho e irritado. Ethiena adorava como ele tinha reações tão genuínas e legíveis.
— Poder é uma ilusão, Linden — ela insistiu. — O poder pode ser comprado e vendido, assim como tirado a força.
Ela havia aprendido algo em Walles. Não importava os seus títulos, nem o tanto tentou ajudar a população: títulos e poderes não eram nada em face à corrupção e aos desejos sórdidos de quem desejava o poder. Era como uma selva; leão oprimindo cordeiros, parasitas sugando o leão; no fim, o fogo foi a única força mais poderosa na savana.
— Nashanti duvida de meu amor por vosmecê — Linden finalmente respondeu, ficando ainda mais vermelho. — E cá está meu orgulho.
Ethiena sentiu um calor subir por seu rosto.
— Se importa mais com a opinião de Nashanti do que com seu povo? — ela respondeu, encabulada, mas tentando ser razoável.
Ele ponderou.
— Talvez se tu dissesses com mais frequência o que sentes por mim, não me sentiria tão inseguro — levantou-se fechando a cara.
— Linden...
— Mas está a ter razão — a interrompeu, como se não quisesse escutar. — Lembro-me de pouca coisa de minha vida passada, mas sei que nenhum império dura para sempre. Todos em algum momento entram em colapso e caem. Não quero ser Luís XVI, nem o Nicolau II da Rússia.
Ethiena arqueou as sobrancelhas, impactada como ambos pensavam da mesma forma. E incomodada de que questionava o que sentia por ele. Nunca comentou nada parecido antes, já que sabia sobre seus sentimentos por Pedro.
— Também estou a ser consumido pelo medo — Linden que se escorou em uma enorme cômoda do outro lado da cama, olhou Ethiena através do espelho. — Medo de que se a deixe cá a sós, algo possa acontecer a ti. Se os inimigos no Palácio a machucar, se tu se vás, eu morreria junto.
Ela respirou fundo.
— Zaraym está comigo — encolheu os ombros. — Temos muitos guardas leais que nos servem. Esse é o lugar mais seguro do Império. Não tem o porquê se preocupar.
Virou-se para ela. Seu rosto estava ainda vermelho, irritado.
— E se eu não voltasse? — perguntou, voltando a se sentar. — Se fosse apenas uma armadilha da Facção? O que pensas que há de acontecer a ti? Compartilhar nossas autoridades, causa muitos danos entre os ignorantes dos governos. Toleram, mas não respeitam minha decisão.
Rainha Helena era um exemplo daquela frase.
— Está tudo bem — sorriu, erguendo a mão para tocar seu rosto cheio de barba a fazer. Alguns dias antes da crise, havia dito que deixaria sua barba crescer e a tornaria maior que de Moisés. — Eu confio em Kiwe, por menos que odeio admitir isso. Você também estará seguro. Quanto as coisas no Palácio, são pequenas em face aos atentados terroristas matando civis inocentes. Nashanti é a única forma de sairmos dessa crise com a menor baixa possível.
Linden levou a mão até a dela, apertando em seus dedos.
— Tu és tão fria para analisar a situação — sorriu sem forças. — Cobiçava como um idiota apaixonado, que apenas tu sentisses um pouco de medo por deixá-la. Como uma esposa teme o marido ir à guerra.
Se tremeu.
— Mesmo quando fui à Grande, não houve ninguém que temeu por minha vida — abaixou os olhos, observando os joelhos de Ethiena. — Senti inveja dos homens que receberam acenos e despedidas de suas esposas, enquanto partiam para guerra. Ninguém se despediu de mim, quando entrei naquele trem em direção a um destino desconhecido
Ethiena entreabriu-se. Não sabia o que responder, apenas levou a boca até a dele, abraçando-o.
— Não seja tão dramático — resmungou. — Não está indo para guerra, mas sempre temo por sua vida.
Ela não temia tanto assim, mas podia fingir um pouco, para confortá-lo. Depois da morte de Rui, a guarda real valorizava seu próprio orgulho, por isso Linden e Ethiena eram as pessoas mais bem protegidas do Império. Ele estava tão seguro quanto ela.
Ethiena beijou seu pescoço, odiando um pouco da barba por fazer. Arfou, levando os lábios até o lóbulo de sua orelha, e ele a afastou de repente.
— Não senhora! — exclamou, assustado. — Nada de fazer amor antes de dizer que aceito ir ao rei de Nashanti. Não! É uma superstição entre os soldados não fazer amor antes de partir para batalha. Seria como o último sexo, e a tendência é que alguém morra depois disso. É uma despedida eterna.
As sobrancelhas da moça franziram. Há quase um mês não se encontravam na cama, desde que ela bebeu veneno e perderam um bebê.
— Linden, querido — suavizou seu tom irritado. — Não está indo ao campo de batalha.
— Não importa, não vou fazer amor contigo — ele se levantou, colocando a mão à frente de sua calça.
— Por mais que esteja animadinho?
— Sim! — respirou fundo, sapateando em seus próprios pés. — Então, não ouso tocar-te, ou meus maus pressentimentos hão de tornar-se real.
Ele se virou, procurando a saída do quarto. Parou perto da porta, como se lutasse fortemente contra sua superstição de soldado. Contudo, sacudiu a cabeça, olhando por cima do ombro.
— Hei de dormir no quartel — disse. — Vou partir ainda cedo de manhã à Gamões em um trem. Tenha uma boa-noite!
Ele abriu a porta e saiu.
Ethiena se jogou entre os lençóis. Se encolheu, irritada, mas em seguida deixou uma risadinha fluir com aquele lado que não conhecia de seu marido.
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