Capítulo 3
A cidade capital de Portuália, Lisbona, era tão grande quanto uma metrópole moderna. Ethiena, observando através da janela do trem que tomou ao partir da Mansão Sá aos palácios imperiais, analisava com olhos atentos cada detalhe, os desenhos arquitetônicos, as ruas populosas, as casas com telhados em formas cônicas como chapéus de bruxos. No horizonte, nos confins de telhas, passarelas e bandeiras do Império, estava o pretensioso castelo imperial.
O palácio era enorme, bonito como um lustre de cristal. Com torres abobadadas e pontudas, janelas grandes e pedras rosadas como uma pintura contrastando com o lindo céu azul. Via-o de todas as partes da enorme cidade, mesmo à muitas milhas de distância. Ficava no marco zero da cidade, onde o gigante jardim verde-esmeralda tomava metade do distrito central. Sua suntuosa arquitetura arremetia a luxúria e poder.
Ethiena se mexeu com inquietação no banco de palhinha, sentindo a madeira sólida em seu próprio traseiro. Mesmo o céu azul abrindo-se como uma safira não a animava; menos ainda os homens do Duque Sá, dois brutamontes com a missão em levá-la para os haréns imperiais.
O homem grande como um armário, segurava um tubo que os homens carregavam em uma bolsa de pergaminhos. Lembrava-se vagamente em sua aula sobre magia chamarem de "grimório". Uma espécie de bastão, que possuía pequenos papéis com inscrições mágicas. Ethiena havia notado como empunhavam ao tubo, portando-os feito uma espingarda. A maioria dos homens os levavam à anca do cinto.
Seria ridículo se ela não tivesse visto como o grimório funcionava. Parecia um pergaminho, que ao desenrolar destacavam-se pedaços de papéis. Sempre ao rasgar um papel, ativava a magia.
Ethiena viu o cavalheiro ao seu lado direito treinar junto ao cavalheiro da esquerda nos quintais da Mansão Sá. Quando o forte homem que não sabia o nome soltou um pedaço de papel do bastão, do tamanho de um bilhete da sorte de biscoito chinês, uma bola de fogo inflamou no ar como uma lâmpada. As chamas se contiveram, entretanto, ao outro guarda fazer o mesmo e uma onda de água consumiu o fogo.
Os pequenos bastões eram armas perigosas, e como Ethiena achava que tinha um pouco de juízo, preferiu não fugir. Talvez encontrasse outra oportunidade, assim que ninguém estivesse olhando para ela dentro do palácio.
A moça mordeu o lábio, espiando pelos cantos dos olhos para o bastão na bolsa do cavalheiro sentado à sua direita.
― Morder o lábio é um hábito vulgar e não combina com uma dama, senhorita ― disse o homem, também inquieto.
Ethiena virou o rosto para o lado, fitando de volta para a janela. A visão foi bloqueada pelo brutamontes que procurava por hostilidades vindo por sua parte.
― Acredito que como perdeu a memória, Dama Exótica, não deve saber que morder o lábio pode convidar homens mal-intencionados a tomá-la para cama ― informou o guarda, sorrindo para Ethiena. ― Olhar-me a cintura e morder tua boca, poderia significar que me convida. Mas sei que é a nova Dama Régia do Imperador. Pôr-me-ia louco se tocasse em um fio de teus cabelos agora, minha dama.
A garota gostaria de responder a tal grosseria, mas apenas abaixou a cabeça, olhando para seus próprios sapatos. Cada vez que pensava sobre sua nova ocupação, causava-lhe náuseas.
Todas aquelas pessoas eram desprezíveis, e Ethiena estava cansada de gritar ou espernear. Seus novos planos eram deixar a vigilância afrouxar, para então encontrar uma brecha e fugir. Não importava aonde ia, ou se escapar agora significava ter a cabeça na guilhotina. A ansiedade tomava-lhe o ar apenas de pensar em correr para o mais longe podia ir.
― Estamos chegando ― informou o guarda à esquerda da moça. O trem começava a parar, causando um pouco de marasmo em Ethiena, que segurou a bile cada vez que planejava novos planos de evasão em sua cabeça.
Ela esquematizou tanto, que simplesmente não percebeu onde foi e como parou no salão do trono apenas algumas horas depois de o trem maria-fumaça estacionar nos quintais do castelo.
Havia descido em uma pequena estação privada, muito vigiada por guardas fortemente armados de grimórios, lanças, mosquetes e pistolas. Um mordomo muito velho que cheirava esquisito a recebeu, abrindo um enorme sorriso e lambendo os lábios cada vez que percebia a jovem. O idoso curvado sobre uma bengala, dizia a Ethiena que era vigésima sétima Dama Régia do Imperador, e foi escolhida devido a seu lindo tom de pele.
Uma ova!, pensou Ethiena ao ouvir aquilo. Esse lugar é o paraíso de Hitler, e o inferno de seus inimigos, sem dúvida.
Após quase xingar alguns palavrões, então foi encaminhada para uma sala onde algumas criadas do palácio faziam fila para vê-la. Ethiena sentiu-se como se fosse um animal em extinção, e agora era a atração principal de algum circo. Baba a alertou sobre o interesse das pessoas, que eram bastante ressentidas com o grande Imperador, Odolfo I, pela execução em massa de outros povos considerados por ele "indesejáveis".
Com a modernidade atual, parecia a Ethiena que as pessoas não estavam de acordo com o erro histórico, tratando indivíduos como ela como um tesouro nacional. Mesmo se não fosse a concubina do Imperador, Ethiena se volveria algo importante na sociedade de Portuália.
A vestiram em um vestido longo e simples. Sentia-se trajada como uma donzela em uma novela de época, no início do século XX. Os babados eram um pouco incômodos e pinicavam. Usaram um pouco de maquiagem e joias, tal como perfumes fortes.
Ethiena, após isso, soube que acontecia um banquete por parte do Imperador, para acomodar um nobre do país vizinho, Franceia. Apenas ao cair da noite, ela foi convocada após andar de um lado para outro em um quarto pequeno que as criadas do castelo a deixaram ― tentou escapar, mas existiam mais guardas no castelo do que previu.
― A única Flor Exótica de Portuália, filha do Ducado de Sá, e a vigésima sétima Régia do Imperador ― gritou um homem, anunciando em voz alta os recém-chegados. ― Ethiena Ayodele Sá.
Entrando no salão do trono, Ethiena prendeu o ar, sentindo como se seus sapatos de salto baixo crescessem dez centímetros a cada passo em direção ao centro da sala. O salão era gigante, tudo lá dentro brilhava como uma joia. Muitas pessoas, os nobres e família real, estavam a sua espera. Eram tantos detalhes a notar, que se sentiu tonta e nada conseguiu ver.
― Nossa, olha a pele dela como é linda ― escutou alguém no centro da multidão, que se colocava nas pontas dos pés para avistar a Flor Exótica do Império.
― Ouvi dizer que ela pode brilhar no escuro.
― Me disseram que é filha legítima do Duque Sá...
― Meu, como ela é linda.
― Os cabelos dela não são um pouco estranhos?
Ethiena continuou caminhando, incomodando-se quando os elogios mudaram para apontar suas peculiaridades físicas. Franziu a testa, sentindo as lágrimas que continha queimar nos cantos de seus olhos. Estava admirada que conseguia ainda chorar, depois de quatro dias naquele lugar infernal ― chorou sem saber onde estava, quem eram as pessoas no ducado de Sá e quando soube que figuraria aquele momento, caminhando em direção a seu... marido.
Manteve a cabeça baixa, apertando o lábio que tremia. Aquilo não podia ser verdade, não tinha nenhuma lógica. Há quatro dias, a alma no corpo de Ethiena lembrava-se de ir de férias para encontrar seu namorado, Pedro. Quando seu carro perdeu o controle na descida da serra a Santos, no litoral de São Paulo, seu veículo avançou em algum lugar cheio de água. Ethiena pensava perder o juízo cada vez que acreditava que morreu, e agora estava no centro daquela maldita situação.
Será que foi uma pessoa tão ruim em sua vida passada? O inferno era uma simulação, uma realidade virtual em que ela estava jogando? Ou estava mesmo perdendo a sanidade?
Contendo uma lágrima, olhou para o lado, para uma mulher bonita vestida na velha moda romântica de Portuália. Ignorou em seguida o comentário racista, e sem querer seus olhos avançaram em direção a um rapaz.
Ethiena o havia visto em uma figura de um livro sobre o Império de Portuália e Cispania. De fato, o pensamento valia o mesmo: o homem mais bonito que encontrou em sua vida. Pessoalmente, o impacto era mais profundo. Se recordava bem, seu nome era Linden arque Walles e Portuália, o príncipe herdeiro.
Ele estava parado, imóvel como um soldado, fitando para ela com curiosidade. Mesmo para um rosto tão intransigente quanto parecia, a surpresa passou por seus olhos castanhos. Vestia uma jaqueta militar antiga de golas altas, dragonas e fivelas por todos os lados. Por cima do ombro direito, descia uma capa que ia até o chão. Sua boca estava entreaberta enquanto estudava a Flor Exótica. Mesmo para um príncipe imperial, não parecia ter visto alguém como Ethiena antes.
― Ah-hem! ― tossiu o velho mordomo do castelo, que seguia Ethiena até a ponta do altar. Ele sussurrou para ela: ― Apresente-se, minha dama.
Como se tivesse estalado um fogo de artifício diante seus olhos, a garota ergueu os olhos em direção ao trono pela primeira vez.
Não poderia ter certeza, mas a segunda surpresa quase a fez pular. O Imperador, Rui dom Portuália e Cispania estava sentado no trono de forma desleixada, cansado da longa cerimônia. Novamente, Ethiena não podia acreditar que um raio atingiu duas vezes o mesmo lugar. O Imperador também tinha uma beleza incomparável a qualquer outra coisa, que tivera visto até então. Talvez fosse até mais bonito que o próprio filho.
Ela sentiu a boca entreabrir, e piscou, observando cada detalhe do homem. Tinha o corte de cabelo baixo em estilo militar, loiros como uma porção de ouro em pó, brilhante como estrelas em uma noite de verão. Em volta do uniforme, entre medalhes de honras, dragonas e fivelas, passava uma enorme echarpe de pelos negros. Uma das mãos segurava um grimório, batendo contra a palma da outra. Sua pele era rosada, como se usasse muita maquiagem. Os olhos amendoados finos eram cruéis e curiosos.
― Ah... ― Ethiena abriu a boca para falar, embora sentisse que a língua endureceu igual granito. ― E-Eu... Hum! Eu, Ethiena Sá, tenho a honra em apresentar-me a meu mestre e marido. É um prazer, Sol do Império.
O silêncio continuou enquanto a garota se inclinava, segurando suas saias ― assim como Baba ensinou como se comportar diante do membro imperial. Dentro de Ethiena, ela se perguntou quantos anos o imperador teria. Seu príncipe herdeiro parecia ter trinta.
O Imperador suspirou ruidosamente, descendo de seu trono. Parecia que ao se movimentar, não somente Ethiena, mas todos no salão prenderam o ar. Uma estranha aura oprimia tudo ao redor, como se a gravidade houvesse aumentado cem vezes mais. Os ombros da jovem pesaram antes de endurecerem.
― Levante seu rosto, minha jovem Régia ― disse o Imperador.
Ethiena hesitou, notando que o homem estava apenas alguns centímetros à frente. Levantou-se, respirando o perfume forte que carregava o ar feito uma nuvem de nicotina. De perto, Rui dom Portuália e Cispania era ainda mais bonito, se é que pudesse ser possível.
A pior parte era que Ethiena não esperava por aquilo.
― Você ― sorriu o Imperador ― é linda. Uma raça pura, pelo que vejo.
Toda a boa impressão foi quebrada na cabeça de Ethiena, que conseguiu até escutar o som de vidro partido. Aquele sujeito dizia aquilo como se estivesse avaliando um cavalo raro, que comprou em um leilão exclusivo. Se ele não fosse o Imperador, e a moça gostasse demais de seu pescoço, cuspiria nele.
Havia escutado pelas criadas da Mansão Sá que o Imperador, apesar da aparência, era um porco nojento. Ela pensou ter negado dentro de sua mente, esperando algum milagre.
Pelo bem da verdade, Ethiena nunca fui otimista. Deixar seu pragmatismo de lado foi um erro e a decepção era maior ao rememorar a si mesma que milagres não existiam.
O belo Imperador passou a rodeá-la, avaliando-a. Colocou a mão no queixo, sorrindo ao chegar em alguma conclusão que não compartilhou com ninguém.
― Estava certo em fazer da Flor Exótica uma exclusividade do Império de Portuália e Cispania ― o homem sorriu. ― Muito bem. Muito bem. É linda, é exótica e minha esposa a partir de hoje.
Ele passou a mão nos cabelos, respirando fundo. Em seguida, tocou uma das mechas dos cabelos encaracolados de Ethiena. Sorriu de lado.
― Pena não poder tocá-la mais que um fio de seus delicados cabelos, minha Régia ― sussurrou suavemente. ― Tenho vontade de entrar em você neste exato momento, aos olhos de toda a minha corte. Seria um pecado, pois deves antes da consumação das bodas pagar teu dote.
Ethiena queria responder algo desbocado, mas se conteve. Ainda queria cuspir na cara daquele homem, e agora também desejava chutar suas partes baixas. Se conteve, recordando das instruções das criadas que a prepararam para aquele momento.
― S-Sinto muito, Sol do Império... ― murmurou Ethiena.
A única coisa que a continha, de verdade, era estar salva de deitar-se com aquele homem, por alguma regra santa. A igreja daquele mundo só reconheceria o casamento, após a soma do dote. E era tradição que as concubinas trabalhassem para pagá-las elas mesmas ― era uma honra ser a consorte do Imperador, embora tudo fosse um absurdo.
Pelo que entendeu Ethiena, o Império apenas vendia um posto no harém do Imperador, de modo a evitar ascensões e favoritismo de nobres. Todos os ricos possuíam o mesmo valor limite de riquezas, então o cargo não podia ser corrompido (embora fosse a ter dúvidas).
Ethiena precisaria sair dali, após apresentar-se aos nobres, ao noivo e aos filhos do noivo. Seria mandada para o régio, o nome que davam aos feudos do império, onde trabalharia para pagar sua noite de núpcias com o Imperador.
Ela suspirou de alívio, observando o belo Rui dom Portuália e Cispania conter a própria vontade em tocá-la ainda mais. Era um alívio, porque tudo o que precisava fazer era não pagar o próprio dote. Este, de fato, era seu único plano imediato.
Arque ou Arq¹ ― Arque é um título recebido, mais precisamente, pelos príncipes herdeiros. Os títulos são usado após o nomes da família imperial. Ex. Rui dom Portuália, Linden arque Walles.
Dom² ― Segue o mesmo exemplo acima. Um pronome de tratamento concedido a imperadores e imperatrizes. É usado depois do nome e atribuído ao imperador, tal como imperatriz e princesa herdeira. Por ex.: Linden dom Walles, Rui dom Portuália, Ethiena dona Sá.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top