Capítulo 22
Lisbona ainda continuava a mesma. Intocável. Resplandecente. Alheia a destruição em massa de metade de uma cidade por uma bomba mágica. Ethiena havia se inteirado da situação lendo alguns jornais antigos e novos.
A Facção Rebelde estava em marcha para a Capital, embora ninguém soubesse quem eram seus membros ou quando iriam chegar. Só conheciam o rosto de Linin, a líder, que para surpresa de Ethiena, acabou por ser a filha do antigo Imperador.
A irmã gêmea de Linden.
Lembrando-se de seu rosto, ela em nada se parecia o irmão. Linden era tão... lindo, e ela parecia um retalho de uma vida dura e miserável.
Não sabia os seus motivos, mas perguntaria a Linden assim que o encontrasse.
Voltar para Lisbona ainda comia seu estômago, apesar de ter levado três dias para sair da Mansão da Dama. Walles estava em boas mãos, soube assim que supervisionou o comando de Ser Martim. Ele ainda merecia castigo pelo preconceito, mas Ethiena esperava que ele aprendesse com seus erros. Não o ver tratando mal os eufores, e prometendo para ela que cuidaria bem deles, era um começo. Pagou alguém para manter um olho, então trataria de enviar alguém para puni-lo. Era o máximo que podia fazer por seu amigo Zaraym.
Assim que se sentiu pronta para voltar, Comodoro Elias bar Caxias viera com uma grande escolta, exagerada, de aerobarcos e soldados por todos os lados. Sorriu em vê-la de pé, apesar de ter disfarçado algo por perceber a diferença desde a última vez que a viu. As roupas de Ethiena estavam todas sobrando em seu corpo, mas prometia que logo seria preenchida — tentava fazer uma alimentação regular agora.
O aerobarco desceu no espaço aéreo às redondezas do Palácio de Cristal, como Elias chamou para ela. Ele havia explicado que o espaço aéreo ao redor do palácio era proibido, mas que Linden abriu uma exceção para recebê-la nos jardins particulares da família real.
Ela desceu a rampa do Zéfiro, respirando o ar puro dos jardins bem cuidados na ala leste do palácio central. A cidade crescia ao redor daqueles bosques, que rodeava o enorme castelo que ainda era uma visão estonteante. Elias a lembrou que era uma proteção, e ninguém ousaria tentar invadir o castelo de cristal quando a magia o protegendo era ancestral, incompreendida e assustadora.
Não desejando se perder nos bosques e jardins de Lisbona, Ethiena percebeu um grupo se mover em sua direção, assim que pisou na grama verde-esmeralda com seu sapato baixo. Piscou uma vez, notando a presença de guardas, muitos guardas e sorriu ao notar Príncipe Rui, o Burocrata. E bem à sua frente, notou a presença marcante de Linden arque... Não, Pedro II, o Imperador.
Ela sentiu o seu coração saltar, e o prendeu o ar preenchido com o ar fresco dos bosques. Notou o corpo alto e forte de Linden, trajado no uniforme militar de Imperador. Dragonas e fivelas, e um tecido vermelho da bandeira do Império. Tinha um pouco de verde. Suas botas pretas de couro pisavam duramente contra o gramado.
— Ethiena! — exclamou o Imperador.
A moça mal o viu correr em sua direção, chamando seu nome mais alto que os motores do Zéfiro atrás dela.
Ele a abraçou. Não lhe deu tempo para nada. Apenas a abraçou tão forte, que Ethiena recordou com as bochechas corando o dia em que se deitou em sua cama para consolá-la. Virou a noite, acariciando seus cabelos, abraçando-a ou cantarolando como se ela fosse uma criança que precisasse de música para dormir — e ela dormiu bem ao som de sua voz.
Ethiena respirou com alívio em sentir o calor de seu corpo, erguendo a mão para apertar o tecido de sua jaqueta. Seu coração errou uma batida quando se apertou nele. Ela mal percebeu como sentia sua falta.
— Vosmecê estás... — Linden se afastou, finalmente olhando-lhe. — Tudo bem. Deves estar cansada da viagem, não? Por que não entramos e comemos algo?
A moça enrugou a testa. A viagem não foi tão longa no aerobarco, apesar de que vomitou bastante e precisou tomar um calmante que a apagou. Só acordou quando chegaram na capital. Seu equilíbrio estava intacto, pelo menos.
— Estou bem — respondeu ela ao Pri... Imperador. Ainda precisava se acostumar. — Tenho um pouco de fome, porém.
— É um feito em tanto, dado ao fato de que tua primeira viagem de aerobarco, quase colocou o fígado para fora — riu Elias atrás de Ethiena. — Empós isso, desejavas apenas um barril de sal de frutas, o que fosse isso...
— Não zombe de mim — a moça riu de volta, feliz que a tontura havia passado apesar de tudo. — Sua lata velha voadora daria medo no mais valente dos aeronautas.
Elias riu, e Ethiena encolheu os ombros para ele.
Linden ficou observando-a, respirando aliviado por vê-la sorrir depois de dois meses mergulhada em uma tristeza tão profunda que parecia que ia morrer. "Tristeza" era como chamavam os sintomas da depressão. E ela não se sentia cem por cento, apenas apta para ocupar a cabeça com algo.
— Estou feliz em revê-la, Ethiena — disse Burocrata Rui, apressando-se para apanhar sua mão e beijá-la com educação. — Que pena, mas até que ansiava em chamá-la "madrasta" outra vez. Agora, suponho, que devo referir-me a ti como "cunhada".
— Sou nova demais para ser sua madrasta, garoto — Ethiena fez uma careta para ele. — Quanto a "cunhada", não lembro de ter aceitado ainda essa ideia.
Linden ficou duro feito uma rocha. Ele piscou para ela, confuso, assustado. Ela quase conseguiu escutar seu coração bater rápido contra suas costelas.
— Retornaste para rejeitar-me? — questionou, fazendo uma expressão tão desolada, que Ethiena precisou desatar um riso com o medo de machucá-lo.
— Não se preocupe — riu. — Mas ainda sou uma romântica, e gostaria de ser proposta em casamento com você ajoelhando e me dando uma aliança. Seria legal se um golfinho pulasse em um lago — procurou um lago pelos jardins, mas zombou com um riso da ideia.
Ela quase acrescentou que fora assim como Pedro a pediu (sem golfinho, claro), mas tratou de descartar a memória o mais rápido pôde.
Linden enrugou a testa. Colocou a mão na boca, pensando em algo. Enfiou a mão no bolso, ajoelhando-se fundo no chão. Ergueu a mão, e sorriu com as bochechas coradas.
— Casa-se comigo, Ethiena Ágata rege Walles?
Ethiena se espantou, surpresa de verdade. Ela prendeu o ar, confusa por aqueles nomes novos. As pessoas não eram muito leais as nomeações naquele mundo. E estava brincando, mas ele pretendia fazer aquilo de qualquer jeito...
Suspirou, lembrando-se que também havia dito seu nome verdadeiro a ele.
— Tudo bem — concordou, erguendo a mão para ele. Nada romântica. — Eu aceito — se corrigiu. Encolheu a mão, quando Linden apanhou para colocar o anel. — Mas desde que nunca mais me chame de Ágata. Esqueça esse nome, por favor.
Ele ficou confuso. Havia sussurrado para ela, quando contava para ele seu passado em São Paulo naquela noite que compartilharam a cama, que ele daria tudo para recordar de seu nome verdadeiro. E que gostava do nome dela.
Ethiena percebeu, sentindo o rosto corar ao calor em suas mãos assim que Linden enfiou uma aliança de ouro puro no seu dedo anelar. Também notou, que Linden era o único que sabia tudo sobre ela. Que ele era seu confidente. Seu coração bateu rápido, percebendo que a ambição de ocupar o cargo de Imperatriz para proteger Walles e as pessoas, também continha um tantinho de ansiedade para ver Linden. Ou estar ao seu lado novamente.
Memória muscular era um saco, mas estava contente em tê-la aquele momento. Depois de dois meses, Ethiena queria dormir ao seu lado novamente, lembrando-se que foi a última noite sem pesadelo que tivera.
— Pronto iremos nos casar — sorriu Linden, se erguendo. — Rui — chamou o irmão. — Deixarei a vosmecê a honra de cuidar dos preparativos!
Rui, o irmão mais chegado de Linden, em meio a tantos, corou e sorriu um sorriso bastante largo.
— Ficaria honrado se tornasse meu padrinho, meu irmão — Linden acenou para ele.
Ethiena também assentiu quando o Príncipe olhou para ela em busca de aprovação, como se o irmão estivesse fora do juízo.
— Estou também muito honrado! — Rui abriu os braços, abraçando o irmão e a cunhada com força. — Hei de preparar a melhor festa de casamento que o império já viu.
— Sem extravagância — bufou Linden.
— Preferia que o dinheiro da festa fosse usado para reconstruir Walles.
O Burocrata se afastou, lançando um olhar surpreso para Ethiena.
— Não almejas uma festa de casamento digna de uma Imperatriz, Cunhada? — ele investigou, com um tonzinho de escândalo. — A Imperatriz Viúva fez a maior festa que o Império já viu. Devemos superá-la!
Linden riu.
— Vosmecê não conheces minha querida Thiena, Rui — sacudiu a cabeça, encolhendo os ombros. — Ela disse-me que festas são desperdício do dinheiro público.
— E não é? — Ethiena estava com as bochechas inflando de raiva. — Esse dinheiro poderia ser investido em creches ou hospitais. São os trabalhadores que nos sustentam, esperando que o dinheiro seja investido de volta na sociedade.
A boca do Burocrata torceu, e ele se segurou para não rir de alegria.
— Poucas damas diriam tal visão — uma lágrima queimou nos seus olhos, embora o seu tom era de divertimento. — Até nossas bonitas irmãs, estudadas de política, pensam apenas no vestido mais chique dos botequins da cidade...
— Isso, irmão, é o motivo de que nenhuma outra há ser minha Imperatriz — sorriu Linden com orgulho.
Novamente, Ethiena sentiu o rosto corar. Ela sempre quis ser uma diplomata. Algo como um diplomata interno, ela acreditava. Não mais uma deputada federal, nada do tipo. Havia muitos e eram apenas vampiros do dinheiro público. Queria ser alguém que desejava promover os interesses reais da sociedade brasileira perante o Monte Olimpo que era o Planalto Central.
Como Imperatriz, estava a um passo de algum sonho do seu passado, mesmo que resolvesse abandonar sua outra vida para sempre.
— Ainda que respeite teus desejos, Cunhada — disse Príncipe Rui —, não posso negar à família e a Igreja uma união oficial. Prometo, como presente de casamento, doar todo o dinheiro que pretendia gastar à Walles. Mandei um pouco, pois estava lá e és de minha confiança. Agora, se há alguém de tua confiança no teu lugar, podemos retornar as provisões sem medo que o dinheiro seja desviado.
Ethiena suspirou, seu estômago roncando. Ela apenas assentiu, apesar de que odiava a ideia de subir ao altar depois de seus sonhos com Pedro serem interrompidos.
Mas ela precisava superar, esquecer, viver a vida de Ethiena Ayodele.
Linden estava feliz, sorrindo como um tolo. Não podia decepcioná-lo. Via-se em seus olhos que ele a estimava, e cumpriria suas promessas de protegê-la.
Ela sorriu para ele, esticando a mão com a aliança no dedo.
— Eu voltei para você — disse, corando nas bochechas novamente ao toque de sua mão. — Eu voltei para meu Imperador.
O rapaz sorriu, assentindo, puxando para perto. Beijou as costas de sua mão, educado demais e Ethiena percebeu que se conteve para não roubar um beijo de sua boca outra vez. Mas naquela noite que compartilharam a mesma cama, ele prometeu que não a tocaria outra vez se ela não permitisse.
— Bem-vinda de volta — falou, caloroso como um pedaço de sol da manhã.
Ela estava de volta, não completamente, mas ela tinha uma segunda chance de viver outra vida. Ainda que longe de Pedro, de sua família, de seus sonhos terrenos. Agora, ela era a Imperatriz, e não sabia nada do que o destino lhe reservava.
Nota da Autora
Não sei se alguém está esperando um hot, mas tô com vontade de escrever um... kkkkkk
To lendo o novo ACOTAR e é bastante... né... Então, deu vontade kkkkkkk
Mentiras, não escrevo esse tipo de coisa. Não mais.
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