Capítulo 21
Ethiena sentiu o cheiro de seus cabelos esparramados no travesseiro. Precisava tomar um banho. Ela não tinha ideia quanto tempo estava lá, deitada, chorando. Não via a luz do sol há muito tempo, não conseguia sair da cama quando lembrava que, se saísse lá fora, a primeira coisa que veria seria Wallesburgo completamente destruída — parte dela.
Mas não conseguia sair da cama, porque a lembrança doía em seu peito. A lembrança de receber o cadáver de Pedro em uma carroça, na porta da Mansão.
Enquanto todos estavam distraídos, trazendo feridos e desabrigados para ocuparem o espaço de um lugar seguro, eles... não sabia quem, trouxeram os restos de Pedro...
Ver os olhos de seu noivo sumir da carapuça que era o corpo do Imperador, desesperou Ethiena de uma forma tão intensa, que ela não conseguia mais fazer nada. Suas forças se esvaíram, mal escuto a voz de Sier Martim pedindo para alguém acudir. Não escutou Linden deixar um palavrão escorrer, depois de um segundo de silêncio.
Eles a levaram para seu quarto, onde ficou lá, imóvel no meio dos travesseiros, atormentada pelas lembranças de seu noivo. Chorou após dar-se conta que agora, Pedro havia ido para sempre.
Houve algum momento, que desejou jamais ter sido lembrada de seu verdadeiro nome. Junto dele, não conseguia esquecer as memórias doces de Pedro.
Ela se encolheu no travesseiro, sentindo as lágrimas escorrerem pela aba de seu nariz. Fechou os olhos, preservando as memórias no núcleo de seu coração. Era a única que lhe restava de seu noivo.
Lembrou-se de conhecer Pedro em um evento da empresa que trabalhava. Ele não era ninguém importante, apenas o cara que cuidava do cenário onde ricos e celebridades dançariam e festejariam. Era um homem negro bonito, que usava uma simples camiseta cor creme, jeans e tinha um jeito charmoso que chamou sua atenção. Era dono de uma pequena companhia em ascensão de carpintaria, assim ele gostava de chamar quando Ágata perguntou se ainda estavam na época de Jesus. Ele também era um homem gentil e religioso. Ela adorava tudo nele.
Apesar de suas colegas de trabalho olharem de cima a baixo, com certo preconceito, Ágata só conseguia ver um homem trabalhador, lindo e adorava como se esforçava. E principalmente, amava como um brilho em seus olhos vinha em sua direção. Tentaram tirar de sua cabeça que haveria futuro com ele; mas enquanto Pedro trabalhava, Ágata fingiu que supervisionava, apenas para pedir seu "WhatsAPP".
Ela riu com a lembrança, recordando-se que estava agora em um lugar onde usavam cartas para se comunicarem.
Pedro, em seu mundo real e comum, passou seu número. E eles ficaram algum tempo se conversando, mandando mensagens um para outro. Contando como foi o dia, como eram, o amavam, encontravam pontos incomuns para se aproximarem. Ele nunca mandou foto de si mesmo nu, e nunca pediu "manda foto de como você está agora". Pedro sempre foi gentil, mandando "bons dias" com um sorriso ou emoji de beijo. Era simples, mas completamente diferente de qualquer namorado que Ágata um dia tivera.
Ela novamente teve iniciativa, e o chamou para sair. "Pensei que nunca chamaria", ele escreveu, mandando uma fotografia de si completamente vibrando. Ágata riu, adorando aquelas novidades. Em outros relacionamentos, ela simplesmente saia, se divertia, e logo estava deliciando-se em corpo nu. No dia seguinte, sobrava apenas o vazio e o frio ao lado de seus travesseiros.
Pedro era devagar, gostava que o fosse. Ele era um cavalheiro. Construiu um relacionamento tão doce baseado na franqueza, cavalheirismo e era o parceiro que qualquer mulher poderia desejar.
Após dois anos de namoro, ele a pediu em casamento, quando tinham trinta e cinco anos. Essa era a idade que Ágata morreu. Eles estavam tão felizes, que brincaram que precisavam fazer diferente, e experimentar a lua de mel antes dos jovens bobocas que moravam junto para "experienciar" a vida de casado antes de casar. Sairiam em um cruzeiro, como Ágata sempre quis.
Mas na autoestrada, Ágata foi fechada por um caminhão, perdeu o controle do carro... Então, eles morreram.
Ethiena não gostava daquela lembrança, se mexeu inquieta na cama.
Ele já estava morto para ela, embora soubesse que tivera um noivo. Se esqueceu dele, quando se focou em outra coisa. Talvez funcionasse outra vez.
Ethiena sentia que precisava esquecer seu nome novamente.
Se levantou, passando a mão nos olhos, sentindo que estava um caco. Olhou em um espelho de corpo inteiro, bordado em arabesco cor de cobre. A aparência daquela mulher que habitava, Ethiena, estava um horror.
Seus olhos estavam inchados de tanto chorar, estava pálida e os ossos em seu rosto estavam fundos. Recordava-se que traziam comida para ela, mas não sentia muita fome. Comeu apenas algumas garfadas, mas quando se lembrava do cadáver de Rui naquela carroça, vomitava tudo o que comera. Seu corpo estava fraco por tanto vomitar, por falta de comer e tanto chorar.
Ouviu no profundo da Mansão da Dama as vozes das crianças brincando nos corredores, embora estivessem proibidas de subir ao segundo piso por causa da reconstrução das abobadas. Escutou as conversas distantes, lembrando de que fora sua ideia reunir os sobreviventes das explosões de Wallesburgo ao redor da Mansão. Havia sussurrado a alguém que não lembrava quem, que também providenciaria espaços nos terrenos vagos da mansão, para reconstruir Walles.
Ela havia esquecido, ajudando feridos, sobre as preocupações de que Pedro estava no meio das explosões. Sabia que havia morrido, mas para não sentir o peso da dor, ocupou a cabeça.
Quando o viu morto de verdade, bem ali na sua frente, seu nome voltou para sua cabeça, a preocupação e o amor que sentia por Pedro arranhando seu coração feito uma faca fria.
Linden tentou tanto consolá-la, até dormiu ao seu lado, murmurando coisas que não conseguia ouvir. Mas ela não conseguiu se levantar daquela cama.
Decidida a afastar aquela dor, Ethiena passou as costas da mão debaixo do nariz inchado e vermelho. Havia muito trabalho, precisava voltar e liderar o desastre que ficou em Walles após o ataque terrorista.
Vestiu um de seus vestidos confeccionado por Madama Susana, apertando um laço sedoso que substituía o espartilho em sua cintura. Seu corpo havia ficado magro demais, os tecidos estavam sobrando.
Não se importava, saiu do quarto após dezenas de dias, centenas, meses, ela não tinha ideia quanto tempo havia passado. Havia perdido a noção do tempo, quando Linden partiu para herdar o trono em Lisbona, prometendo que voltaria em breve. Ele nunca voltou.
Descendo as escadas, percebeu que a abobado do teto estava perto de ser concluída. Preservaram os vidros, de modo que a luz do dia jorrava do alto como um lustre, iluminando os pisos de mármore do hall principal. Ela gostava das mudanças. Agora, sentia que estava em uma mansão de verdade, apesar de que os móveis ainda eram de segunda mão.
Quando chegou ao último degrau, notou a ausência das centenas de pessoas que ocuparam os espaços vagos. Dos feridos gritando por ajuda, de Olga correndo de um lado para o outro para ajudar. Sentiu falta de Linden ao seu lado, pedindo ajuda aqui e ali, com os olhos concentrados como se fosse comum para ele aquele cenário horripilante — foi um soldado durante uma grande guerra mundial.
A casa jazia em silêncio, apesar de que procurando por pessoas, escutou vozes de crianças rindo. Ela virou o rosto para o lado, percebendo que duas crianças se escondiam atrás das decorações em formas de estátuas. Sorriu, sentindo como se sua boca fosse feita da mesma pedra que aquelas estátuas. As crianças riram, e ela viu apenas as sombras delas ao saírem correndo aos risos.
— Eu disse que ela era linda! — a criança correndo atrás de uma menina disse.
— Vou eu contar ao papai!
— Não, eu quem vou, Antônia!
Ethiena não escutou o que a menina respondeu, pois se afastaram e sumiram no fim do corredor. Ela se perguntou se tivesse casado com Pedro, teria um par de filhos. Não tinha nada contra a família tradicional, e gostaria de dar à luz há muitas crianças. Não tantas, mas gostaria de tê-los.
Suspirou fechando os olhos, ao virar o rosto em direção a cozinha, donde subia um delicioso cheiro de comida fresca. Seu estômago revirou de fome, não lembrava quando sentiu vontade em comer de verdade nos últimos tempos.
Dando um passo em direção a comida, Ethiena quase gritou de susto pela entrada repentina de Ser Martim, acompanhado de Sr. Basílio e um homem que ela não conhecia. Seu coração deu um salto.
— Dama Ethiena! — Ser Martim disse primeiro do que ela. Ele a estudou de cima a baixo, mal escondendo a frustração ao perceber seu corpo magro. — E-estou feliz em revê-la, minha dama.
Ethiena deixou outro sorriso inclinar no canto de sua boca, embora parecesse que tentava erguer uma pedra com os músculos faciais.
— Estás bem, Dama Ethiena? — questionou Sr. Basílio.
Ela não conseguiu falar, sentia que a voz havia desaparecido. Assentiu, respirando o doce perfume da comida. Seu estômago roncou alto, e ela sentiu as bochechas corarem quando Ser Martim e o homem que não conhecia quase riram.
— Acredito que o almoço está a ser servido — Sr. Martim sacudiu a cabeça. — Poderia acompanhá-la se desejares, Dama Ethiena.
Assentiu outra vez, embora não responder com a própria voz, voltou a preocupar Basílio e Martim, que se entreolharam.
Ethiena se mexeu em direção a comida antes que fizessem mais perguntas. Entrou na cozinha, chamando a atenção de centenas de outras pessoas que ela não conhecia. Cozinheiras novas, que ajudavam senhora Olga, que estava rindo ao lado de outra mulher que parecia da mesma ideia que a dela. A Mansão ganhara novos rostos, cores e sons. Ela gostava.
Sorriu para todos que olharam para ela, um caco, pálida, magra e com vontade de chorar outra vez.
Sra. Olga nada disse, preparou um prato gigante de comida, servindo mesmo que o almoço não estivesse completamente pronto. Repousou a louça na mesa, onde Ethiena lembrou-se de sentar ali diversas vezes acompanhada de Ser Martim, Zaraym e os outros.
Zaraym... seu coração deu um salto. Ele estava no prédio do Concelho da Cidade, quando a explosão consumiu Wallesburgo a partir daquele epicentro. Sentiu o coração dar um salto de dor.
Ninguém sabia se Zaraym estava vivo, apenas não o encontraram. Assim como não havia encontrado Pedro, até seu corpo aparecer... morto.
Sugando o ar, Ethiena evitou que a lágrima escorregasse. Sentou-se à mesa, onde Olga esperava sem dizer nada. Se ajeitou na cadeira, usando seu conhecimento sobre o corpo que habitava, algo que chamava de "memória muscular". A recordação que ficara no corpo que acomodava agora outra alma feito um caracol e suas conchas.
Ela quase riu daquela comparação, levando à boca a comida através do garfo com educação. Ser Martim, sentando ao seu lado, franziu a testa. Era novidade para ele, já que Ethiena sempre conservava sua própria educação do Século XXI. Ele pareceu tenso, mas nada disse, apenas comeu em silêncio. Sr. Basílio e o homem que não conhecia também estavam lá.
Ethiena, após começar a sentir o estômago doer, apesar de não ter comido muito, bebeu um gole de água de uma taça, e olhou em direção a Ser Martim.
— Encontraram... — sua voz estava dura, precisou tossir com o fundo da garganta para recompô-la. — Encontraram Príncipe Zaraym?
Lutou com as lágrimas para não as deixar escorrerem de seus olhos.
— Sinto muito, minha dama, ainda não — Ser Martim respondeu.
Ethiena sentiu a decepção, mas mergulhou o garfo em seu prato. Seu estômago estava cheio, e não estava na metade da porção que Olga havia preparado. Sentiu um pouco de marasmo, até um pouco febril.
— Quanto tempo estou... fora? — disse, remexendo nas ervilhas. Ela não lembrava quando ervilhas começaram a compor o cardápio.
— Quiçá... — Sr. Basílio começou, quando Ser Martim lhe pediu ajuda. — Oito semanas?
Tanto tempo, pensou Ethiena. Dois meses inteiros e tanta coisa havia mudado. Dois meses inteiros e provavelmente ninguém procurou por Zaraym, porque ele era um escravo na visão daqueles malditos preconceituosos.
— Como está a cidade agora? — Perguntou, recordando-se de Ser Martim tentando envolvê-la no bem-estar da Mansão.
— Ainda destruída — Sr. Basílio disse. — Tudo o que sobrou, se reconstrói ao redor da Mansão da Dama, como vosmecê ordenaste, Dama Ethiena.
Ela balançou a cabeça, lembrando-se de suas ordens em abrigar os sobreviventes na Mansão.
— O que sabem? — ela perguntou, tentando afastar a visão das explosões de sua mente. — Alguém reclamou a autoria dos atentados?
Ser Martim espiou Sr. Basílio, e Ethiena viu a noz na garganta de seu soldado favorito subir e descer. Ele se mexeu inquietamente, respirou fundo antes de responder.
— Quer mesmo estar ao dispor de tal informação tão cedo, minha dama? — ele falou, cauteloso. — Acabaste de voltar... então...
Ethiena bateu as pestanas longas uma vez, devagar, letárgica, do jeito que estava ainda se sentindo.
— Não tem problema. O que posso fazer? — ela riu, apontando para si mesma, magra e fraca. — Certamente, não será revidar.
— Mas tua saúde... — Basílio teimou, realmente preocupado.
Observando o rosto irritado de Ethiena, apesar de tentar ser indiferente, fez com que Basílio respirasse fundo.
— A Facção Rebelde é a culpada — respondeu ele, como se as palavras fossem fogo.
Ethiena não se sentia surpresa; mais sim impressionada, por dias acreditou que eles apenas iriam fazer um cerco e tentar tomar a cidade. Explodi-la... aquilo era desumano.
— Disseram-nos que Wallesburgo era o exemplo da "Limpa" que hão de começar — Ser Martim continuou, observando Basílio se acovardar por causa da expressão de desolação no rosto de Ethiena. — Queimaram Walles, pois acreditam não haver mais como recuperá-la. "O fogo purifica", foi o que disseram nas rádios e nos reportes dos jornais.
Ethiena olhou para seu prato, recordando dos corpos queimados que abrigaram cada cantinho da Mansão. Tentou abafar de sua mente os pedidos de socorro, e a visão terrível quando desceu até os pontos de explosões para coordenar resgates e soluções junto de Linden.
Seu coração enxameou de uma raiva crescente, também recordando-se que era a causa daquele atentado terrorista. Se não tivesse sido roubada por Linin, nada daquilo haveria acontecido. A raiva de si mesma, a causadora do infortúnio de Walles, errando e errando até que seu único acerto havia terminado daquela forma.
Ethiena não sabia como ninguém não a estava levando para prisão naquele momento. Foi o catalisador, o princípio de tudo.
Deixou o garfo no fundo do prato, segurando a vontade de vomitar. Por oito semanas, além de cair em um buraco fundo pela morte de Pedro, não conseguia deixar de escutar as vozes fantasmas dos mortos lhe acusando por dar munição a Linin.
— Minha dama — Ser Martim a segurou, quando tentou se erguer para longe dos pares de olhos esperando uma reação melhor do que sua desolação facilmente estampada em seu rosto. — Não estás bem, por favor, volte para teu quarto.
— Não — Ethiena não queria voltar para lá. — Preciso esquecer de meu próprio nome...
Martim inclinou a cabeça, franzindo a testa sem entender. Linden não havia contado para seu melhor amigo, pelo visto.
— Preciso me ocupar com qualquer coisa que seja urgente — Ethiena suplicou, apertando o tecido de sua roupa quando se escorou nele. — Quero procurar por Príncipe Zaraym.
Respirando fundo, as narinas de Martim dilataram. Odiava que Ethiena o tratasse como um príncipe. Não um escravo. Ela se lembrou onde estava, do preconceito e do ódio que sentia cada vez que via o rosto das pessoas.
— Vocês não o procuraram, porque ele é um "grotesco". Talvez até se sentiram aliviados, por ele estar na cidade durante as explosões... — irritada, reprimiu o olhar de Martim e também dos outros que torceram o nariz. — Será melhor para ele, que aproveitou a oportunidade para fugir. Mas ainda, quero me despedir de meu grande amigo.
Ela respirou fundo.
— Linden e Zaraym são os únicos que me entendem neste "universo paralelo".
Martim ficou pálido. Eles tinham uma ligação, ela sabia. Gostava do homem, mas Martim era igual aos preconceituosos que conhecia em todo canto. Ela viu decepção e frustração em seus olhos outra vez, um fio de seu cabelo vermelho até se soltou feito uma antena no topo de sua cabeça.
— Estou tentando poupá-la da verdade — o nó na garganta de Ser Martim desceu e subiu, quando a irritação chegou aos seus olhos. — Não o procurei, é a verdade. Tantas outras pessoas a serem resgatadas, deveria eu preocupar-me por um escravo...
— Ser Martim.
Os ombros do homem se encolheram. Ele arregalou os olhos com o tom frio e cruel qual Ethiena o interrompeu.
— Disse que se alguém se referisse aos meus amigos como "escravos" ou "grotescos", perderia a língua — Ethiena o olhou secamente. — Era uma promessa em vão, para intimidar. Mas se ousar usar esse tom novamente para se referir às pessoas, tenho certeza que farei minha promessa tornar-se literal e real. E terei a honra em cortar sua língua pessoalmente.
Basílio quase riu, mas apertou o ombro de Ethiena, tirando sua atenção de Ser Martim. Ela não intimidava ninguém com seu corpo fraco e magro, mas Martim prendeu a respiração com muito medo.
— Está bem, hei de procurar por Zaraym, minha dama — Basílio sorriu para ela. — Embora, creio eu, que deverias recuperar-se antes de baixar aos escombros de Wallesburgo. Não me restam dúvidas que há de desmaiar pela visão terrífica.
Ela certamente, pensou consigo, iria desmaiar.
— Que tal, minha dama, ler as cartas que nosso Sol do Império envia a ti — Basílio aconselhou. — Não abriste nenhuma delas. Estás a deixar nosso Imperador frustrado e impaciente para vir buscar-te pronto. Após o que aconteceu com o último Imperador, para segurança do império, o Imperador Pedro II, o novo Sol do Império, estás confinado em Lisbona.
Ethiena enrugou a testa.
— Quem é Imperador Pedro? — Ela perguntou, confusa.
— Nosso príncipe herdeiro, dama, Linden arque Walles — Basílio mordeu um sorriso. — Quando ascendem ao trono, os príncipes herdeiros têm o direito de escolher um novo nome.
Ele escolheu justo Pedro?, pensou Ethiena. Ela supôs que se estivesse brincando com seu coração, ele era tão cruel quanto seu pai.
Não tinha ideia, porém, que ele lhe mandava cartas. Alguém sussurrou alguma coisa para ela, mas não tinha energia para muita coisa além de chorar e se encolher na cama.
— Oh, minha dama — Basílio recordou, com um sorriso em seus olhos. Tirou um pedaço de papel de dentro dos bolsos de seu casaco militar. — Chegou nova carta, desejas ler?
Ethiena arqueou uma sobrancelha, focando seus olhos azuis no rosto do soldado. Pensou ter visto um olhar de alívio a Martim, mas ignorou assim que apanhou o envelope da mão de Basílio.
O envelope diferia dos que costumava receber quando Linden era um príncipe. Agora era mais... requintado. O papel estava bordado com arabescos dourados, que talvez fossem feitos de ouro. Tinha os carimbos oficiais do Império, do Imperador.
Ethiena hesitou um pouco, mas abriu a carta, se ajeitando para ler: "Querida Thiena" com a caligrafia inconfundível de Linden. Ela segurou o ar, recordando dos beijos de Linden antes de perder os sentidos vendo Wallesburgo queimar. Um calor se espalhou por seu rosto, uma memória muscular de seu corpo. Do amor que a verdadeira Ethiena sentia por Linden.
Querida Thiena,
Estou aqui aflito, preocupado por tua saúde. Meu estimado amigo Martim dizes-me que tu ainda te encontras mal da saúde. Preocupa-o de que se continuar a alimentar-se pouco, não resistas a tristeza e há de partir deste mundo. Por favor, leia estas palavras, minha querida: não te vás. Volte para mim.
Volte para mim. Neste novo mundo, mesmo que tu jamais hás de me amar, volte para mim. Volte e torne-se minha Imperatriz. Prometo-te que cuidarei de ti, que a tratarei melhor do que haveria de meu pai tratar-te. Sei que não posso competir, e não quero comparar-me ao amor que sentiste por Pedro, teu noivo... Mas tudo que posso fazer, no momento, é cuidar de ti. Moverei todo o mundo para cuidar de ti, Ethiena.
Me ferve por dentro, ter a visão de teu coração partido como estás agora. Volte para mim, Ethiena...
Seu estimado, aguardando ansiosamente,
Linden arque Walles.
Ethiena respirou fundo. Sua letra era linda, quase sentiu vontade de abraçar o pedaço de papel como se Linden estivesse lá. Secou uma lágrima que escorreu, lembrando-se de sua voz pedindo para ela sair da cama, pois a levaria para coroação. Ela pediu para ele deixá-la ou jamais a veria novamente, e ele respeitou seu pedido por oito semanas.
A dama ergueu os olhos e percebeu que todos estavam olhando para ela, segurando o ar. Ethiena virou o rosto para Basílio, limpando o rosto.
— Envie uma mensagem a Linden — disse, decidida a reviver. — Diga que estou voltando para ele. E que vou para Lisbona imediatamente.
Ser Martim arqueou as sobrancelhas, mas Basílio o impediu de falar.
— Ao seu dispor, minha dama — ele se curvou, sorrindo.
Quando ele saiu, Ethiena virou-se para Ser Martim. Apesar de ser um idiota preconceituoso, ainda se preocupou por sua saúde. Ele sempre ia até seu quarto, para lhe forçar a comer. Sempre ele, nunca ninguém mais.
— Eu vou deixar Walles... — ela engoliu as palavras. — O que sobrou de Walles a seu comando. Como Dama Regina, eu deixo o comando para você, Ser Martim. A partir de hoje, eu o declaro como Regente de Walles.
O rosto de Ser Martim ficou avermelhado. Ele se curvou, passando do terror de ter a língua cortada, à honra de ganhar um título tão importante.
— Minha Imperatriz — disse ele, e Ethiena enrugou a testa.
— Imperatriz? — perguntou, confusa.
— Tu foste declarada a nova Imperatriz, minha dama, por Linden no momento da coroação — explicou Martim. — Houve muitos contrários, mas Linden usou a imprensa para revelar ao Império as tramas malsucedidas de Rui I em torná-la Concubina do Imperador. As pessoas estão a aceitá-la, sem quaisquer ressalvas. Como se tu e Linden protagonizassem um conto de fadas.
Ethiena revirou os olhos. Então, as bochechas coraram, não por uma memória muscular.
— Apenas — ela ignorou o fato de Linden não a ter consultado, mas não se importava tanto assim — prometa, Ser Martim, que não voltará colocar por baixo pessoas como os eufores. E quando encontrar Zaraym, o leve até mim pessoalmente. Ainda que for seus restos mortais...
Ela odiou dizer aquilo, mas tinha de lidar com mais de uma realidade. Pedro se foi para sempre, Zaraym também. E agora, sua vida havia mudado para outro patamar.
Não se importava em ser declarada como Imperatriz, porque era um lugar bem alto onde poderia ter o poder necessário para parar Linin e sua revolução assassina. Saber que levou metade de uma cidade para provar, sabe-se lá o quê, era o quanto ruim aquelas pessoas seriam se tomassem o poder.
Ethiena não queria se vingar... Ela queria esquecer o próprio nome, e o faria tentando o máximo lutando para proteger o povo. Walles jamais se repetiria. Nunca mais.
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