Capítulo 20
Wallesburgo pegava fogo. Finalmente, estava em meio as labaredas de chamas, fumaças, gritos e terror.
Linin estava parada no topo da colina mais alta, tendo uma visão panorâmica do caos que a bomba mágica causara. Ela lembrou com certa satisfação em ver o efeito perante seus olhos, do seu alquímico explicar o que aconteceria a Wallesburgo. Sua satisfação aumentou, enquanto pensava que a magia era mesmo muito subestimada.
O alquímico chamou de magia termobárica, que utilizava oxigênio do ar circundante para gerar uma intensa explosão de alta temperatura. Não importava o nome para ela, apesar de um calafrio descer por suas costas. O resultado era... assustador.
Conseguia ouvir os gritos mesmo após vinte minutos de constantes explosões e reações em cadeias.
Walles... merecia.
Colocando as mãos atrás das costas, Linin se assustou, sem demonstrar, ao perceber a presença de seus imediatos. Ela virou-se sem perder sua pose, notando sua contemplação ser invadida por seu novo tenente, Benedikt, o Tarasovich. O homem, vestido em uniforme militar, com uma medalha de superior no peito brilhando nas lanças da luz do dia, trazia consigo dois prisioneiros.
Linin sentiu suas sobrancelhas se erguerem. Esperava pela passarinha-preta, mas não pela heroína de Portuália. Um sorriso de prazer esticou-se no canto de sua boca. Os dentes, no entanto, apareceram quando percebeu que Emiliya Artemievna empurrava a pessoa que menos esperava: seu pai, o Imperador de Portuália e Cispania.
— Ora, ora — Linin levou a mão até a coronha de sua pistola, presa no coldre em seu cinto. Havia feito um plano para acabar com o centro de corrupção de Walles, quando descobriu que uma assembleia aconteceria aquele dia. Queimaria todos os corruptos de uma vez só, mas nunca imaginou que também chegaria a encontrar o maior de todos os prêmios.
Isso a lembrava que seu pai era um bufão que adorava qualquer rabo de saia que se mexia. Certamente, ele estava lá, porque amava o rabo da preta Flor Exótica.
— Sempre estar a cheirar mulheres virgens, papai — lembrou Linin, se aproximando.
Rui olhou por todos os lados após o capuz ser puxado de sua cabeça. Estava confuso, e por um segundo, Linin pensou que seus olhos não lhe pertenciam. Ainda assim, não se importava. Depois de vinte e oito anos, Rui estava ajoelhado para ela. Uma veia saltou no canto de seu olho, quando lembrava como ele tratou sua mãe, como matou seus outros irmãos mais novos... Como machucou Linden até fazê-lo tornar-se outra pessoa.
Tudo por acreditar que sua mãe, Victorique Wallets, o traíra. Por uma mentira, embora Linin soubesse que era apenas uma desculpa para trocar de imperatriz. Rui havia trocado Victorique por Helena, a Dama de Teodoro.
Foi um monte de merda, um monte de mentiras. Rui I anulou seu casamento com Victorique Wallets para que se pudesse casar com Helena dame[1] Teodoro. Quando se tornou claro que O Santo não aprovaria o divórcio de Rui I e Victorique Wallets e, posteriormente, o casamento deste com Helena dame Teodoro, iniciou-se a ruptura religiosa entre Portuália e a Igreja Apostólica Romulana, resultando na criação da Igreja Angelicana. A mesma porcaria, com doutrinas diferentes.
E pior, Rui se fez viúvo para não ser contestado por centenas de romulanos ainda existente no império.
— Os ossos em meu corpo está a vibrar — Linin sorriu. — Como capturaram Rui dom Portuália e Cispania?
Emiliya também sorriu, empinando o nariz ao observar a satisfação de sua general.
— Estava a escapar com Madama Qiteria — respondeu. — Aparentemente, as lendas a respeito de Madama Qiteria são reais. Disse-nos que cheirou o ar, e pressentiu o fedor de magia perigosa. Encontramo-nos a fugir e a proteger o Imperador.
Linin virou os olhos em direção ao rosto inchado, machucado de Madama Qiteria. Existiam tantas lendas sobre ela, que pareciam todas mentiras. Linin havia mostrado interesse em aliá-la a sua causa, porém, Qiteria era fiel a sua honra, apesar de ser uma corrupta igual a todos que moraram em Walles.
— Ainda és um cãozinho do Império, Madama — Linin sorriu. — Como Linden, escolheu o lado errado.
A mulher cuspiu no chão, sangue escarrando em uma pequena moitinha que nascia uma linda flor-amarela.
— Não te preocupes, vou deixá-la ir — Linin assegurou. — Estás agora sem tuas posses, e assim, não há mais de possuir o que empinava teu nariz. Quem há de corromper agora, Madama?
— Tu és tão louca quanto tua mãe!
Aquela era uma mentira que gostavam de lembrá-la. Apenas, por Victorique entender o mundo da mesma forma que Linin via. Ela teve um mestre, um dono de sua ideologia motriz.
— Não te preocupes, Madama. Tua vida não me és tão importante — Linin sabia que a heroína adorava o brio, a importância e a bajulação. Passou uma vida recebendo tapinhas nas costas por ser uma mulher forte que enfrentava aquela maldita sociedade sexista.
A general virou-se em direção ao rosto confuso de Rui, muito quieta para seu pai. Observando o rosto dela, certamente estaria mijando-se nas calças. Mas aquele homem apenas olhava-a como se não pudesse saber quem ela era. Até a cor de seus olhos, pareciam o olhar de um estranho.
— Posso não me importar com a vida de um soldadinho amestrado, mas tenho muito a me deleitar com tua vida — Linin sacou a pistola de seu coldre, apontando para o pai.
Tinha tantas coisas a dizer; mas não encontrava muitas palavras para dizê-los. Um calafrio desceu por suas costas, quando se recordou duramente da guarda-real invadindo a Mansão da Dama, ela se escondera com seu irmãozinho, Linden, no interior de um armário. Seus irmãos mais velhos, Tarasik e Igorek, os gêmeos de doze anos, tentaram defendê-los. Mas tudo foi uma merda, não importava se eram crianças.
Os soldadinhos de Rui mataram seus irmãos. E depois, tentaram matar Linden e Linin, os outros gêmeos. Linin fez o que pôde para salvar Linden, levando-o para os Bosques da Mansão. Não lembrava quando se separaram, exceto que soube mais tarde que o irmão caiu de um barranco e quebrou a cabeça. Até aquele momento, não entendia como ele estava vivo.
Rui ainda negava que fora sua ordem, tratou como um mal-entendido, e acolheu os seus filhos gêmeos. Embora, naquela maldita corte, Linin sentiu apenas o desprezo, enquanto Linden parecia outra pessoa. Não tinha o fogo necessário que ela tinha. O fogo para vingar-se pela morte de sua mãe e seus irmãos.
Os olhos de Rui, naquele momento, não pareciam com os olhos do homem que tanto a desprezou. Principalmente, quando a expulsou da torre mais alta e cara que fora construída pelos impostos dos burros que abaixavam a cabeça para aquele império de dor e medo.
Que brincadeira estúpida!
— Pareces, pai, que me olhas sem ideia de quem sou — Linin bufou com desprezo. — Isso é o que me tornei depois de anos me desprezando, aumentando as chamas que cresciam em mim. Aquelas que começaram quando vi teus malditos guardas, destruir todos da sua família.
Rui entreabriu a boca, abaixando os olhos quando franziu a testa.
— Li sobre isso no diário desse cara — o Imperador respirou fundo. — Ele era um cara horrível, mas se culpava por Helena Teodoro ter livrado o caminho para eles.
Linin sentiu sua mão tremer. Talvez uma confissão ou tentativa de livrar a cara? Rui não era de confiança.
— Rui não fez isso com você e seus irmãos — ele ergueu as mãos, olhando nos olhos de Linin. — Esse Imperador era apenas uma marionete de Helena Teodoro após uma tarde chá em Teodoro.
Um gatilho pareceu ter estalado em algum lugar na mente de Linin, ela recordou-se de uma tarde de chá, em Teodoro. Quando uma vez a Corte fora visitar as terras de Duque Teodoro, o homem que provia chás e outros grãos ao império. Helena era uma mulher que lhe deu calafrios assim que contemplou seu rosto pela primeira vez.
Mas engoliu em seco, ao recordar-se que a bonita e gentil filha de Duque Teodoro foi aquela que serviu chá ao Imperador e sua Imperatriz. Após aquele dia, Rui se tornou insuportavelmente paranoico. O amor lendário que sentia por Victorique, virou um pesadelo apenas porque todos acreditavam que se apaixonou por Helena. E ele fez tudo, por Helena que continuava a lhe dar chás.
— E daí? — Linin sentiu uma veia de irritação pulsar no canto de seu olho. — Ainda foi aquele que não conseguiu se livrar da porra de uma maldição. Se sabias disso, porque não consultaste Pater[2] Grigori? Ele poderia livrar-te de qualquer envenenamento.
Rui abaixou os olhos, sem resposta.
Decepcionada, Linin respirou fundo. Odiava aquele novo olhar de seu pai, odiava aquele homem. Mas ainda sentia vontade de chorar, mesmo após seus intensos treinamentos com Aleksei tzar Vladinova, seu marido. Ele havia a feito parar de chorar, apenas depois de um ano e meio. Embora ela precisasse aprender a gostar da dor antes de parar de debulhar-se por causa dos pesadelos.
— Não importa o que diga, você não vai acreditar que não sou seu pai — o Imperador sorriu. Um sorriso muito triste.
— Certamente, tu nunca foste meu pai — Linin bufou, com desprezo. — Bem, de sangue talvez, mas jamais por qualquer apreço ou consideração. Mesmo a saber que tua bruxa, aquela maldita Imperatriz de Teodoro, tornara minha vida um inferno, tu nada fizeste. Eu chorei para ti, papai, e simplesmente pediu-me para ser forte... para aguentar. Aquela mulher... ela me batia, muitas vezes me deixava sozinha em uma sala cheia de ratos. Tanto a mim, quanto a meu tolo irmão, Linden, sofremos. E tu não fizeste nada.
— Eu sei... — foi uma sussurrou, um tolo sussurro que fizera Linin perder completamente a cabeça.
Dane-se, pensou, irritada de verdade. Não existia nenhuma conversa que reverteria o que aquelas pessoas a tornara. Linin, agora, queria tudo. Tomaria tudo que Rui tocou, tomaria tudo que ainda pertencia à Imperatriz. E a primeira coisa que tomaria daquela mulher, seria a vida daquele homem.
De todas suas maldades, ela realmente amava o pior homem do mundo.
Linin, perdendo completamente a cabeça, apertou gatilho.
— Não! — gritou Madama Qiteria.
Ela tentou se livrar dos soldados de Linin, mas não era mais forte do que Benedikt. Ele a desmaiou, acertando a coronha de sua pesada arma em sua nuca. A mulher caiu desacordada contra o chão.
Um cheiro ferroso chegou ao nariz de Linin, que sentiu uma gota de sangue queimar em seu rosto. O sangue de seu sangue. Os respingos da cabeça implodida de seu pai.
Linin não conseguia tirar os olhos daquela visão, finalmente morto. Ela queria ter sentido alguma coisa, mas os treinamentos haviam blindado seu coração. Ela sentia alívio. E talvez, naquele momento, todo o mundo sentisse também.
Agora, Linin se voltaria para pegar Helena Teodoro. Não importava a ela se Linden herdaria o trono, ele havia feito sua escolha quando a rejeitou, quando disse "não" a revolução. Ela tomaria os palácios de Lisbona, cada centímetro dele.
O fim do Império estava perto.
Nota de Rodapé
[1] Dame é a junção de Dame + De, que seria usada para consortes pretendentes de casamento com os monarcas.
[2] Pater é um título para clérigos. Mater é para mulheres. A hirarquia é: Frater - algo como padre. Pater e Mater, algo como frade. Patriarca, algo como Bispo e por último Santo, algo como Papa.
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