Capítulo 13


Ajeitando-se na cama, Ethiena resmungou um palavrão baixo e irritado. Sentia-se irritada tanto por ainda se sentir febril, quanto pelas palavras de consolação que recebeu de Regente Quintino. O homem oferecia suas condolências pelo ocorrido, embora Ethiena soubesse que existiam ironia e deboche naquela carta.

Ela amassou o papel, rezingando centenas de palavrões. Jogou a carta no canto oposto do quarto, apressando-se para abrir a próxima que havia recebido aquela manhã das mãos da pequena criada, Catarina.

Ethiena ficou boquiaberta, notando que as respostas do Imperador não eram nada animadoras. Haviam passado uma semana, e não houve qualquer menção de ninguém sobre o que Linin fazia com o dinheiro que roubou de Ethiena. Porém, três dias atrás, os reportes que vinham de Wallesburgo só ressaltavam o deslize que a moça havia cometido.

Chegavam os péssimos relatórios sobre soldados rebeldes se alinhando nas fronteiras ao redor de Wallesburgo, com a missão de sitiar e conquistar a cidade em poucos dias.

Suando frio, Ethiena escreveu imediatamente para o Imperador, solicitando por tropas melhores armadas. Mas, agora, o que recebeu em resposta não condizia em nada com a solicitação da moça.

Ela desejou arrancar os olhos com os dedos, conforme começou a ler a carta de Rui I:


Queridíssima, Flor Exótica,

Obrigado por sua carta. Não estava eu a saber onde encontra-te, estava a pensar que estivesse sã e salva em Gamões. Hei de questionar ao Burocrata os motivos de enviá-la a um burgo que traz-me más recordações.

Não existe futuro, tampouco esperanças para Walles. É um terreno que estou a negociar com nossos vizinhos para anexação a seus territórios. Um pedaço de terra problemático, pela paz é um preço pequeno. Então, não há com o que se preocupar, apenas aguarde pacientemente, minha noiva. Quando nosso jovem filho uma desculpa coerente tiver, prometo-te buscá-la eu mesmo, e hei de trazê-la a Lisbona o mais pronto possível. Então, todos os traumas que estão a correr em sussurros pelo país, que a Facção Rebelde impetrou em machucá-la, será por meus beijos sanado. Vou reconfortá-la assim que a tirar desta maldita prisão que tornou-se Walles.

Querida, assim estou desde que recebi notícias tuas, hoje, ontem, antes de ontem num estado de impaciência por nenhuma palavra sua ouvir outrora. Estou gemendo e queixando em não saber como minha Flor Exótica está a sair. Anseio por teus beijos, e anseio por beijar-te todo o corpo da cor de um pecado que quero pecar.

Ethiena de Sá, até breve, com muito afeto de seu futuro marido.

Rui de Portuália e Cispania.


Ethiena amassou a carta tão igual havia feito com as condolências debochadas de Quintino. Pelo visto, Linden estava certo sobre a importância que o Imperador dava à Walles. Ler que pretendia ceder os territórios de Walles a outro país, deixou Ethiena ainda mais irritada do que saber que ele não enviaria ninguém para ajudar.

A moça pensou que ler cartas não era uma boa ideia, não quando seus hormônios ferviam por causas de suas regras ativas aquela semana. Uma combinação de dias femininos mais a sua humilhação recente, a fez erguer-se da cama resmungando mais palavrões, que sua vó Clarice gritava para os netos quando iam em sua casa aprontar poucas e boas.

Sentiu-se um pouco estonteada, mas estava determinada a sair da cama. Chovia lá fora, contudo acreditava poder aprimorar seus planos com Senhor Quintas. Eles andavam traçando ideias para surpreender as tropas de Linin, que acampavam nas florestas ao norte da Mansão da Dama. Não teve outra ideia, porém queria fazer qualquer outra coisa além de ficar deitada.

Desceu as escadas até os andares térreos da Mansão, escorando-se nos cantos enquanto sentia-se mareada. Ethiena não estava se alimentando muito bem, e teve febre alta antes de receber os reportes sobre as tropas da Facção Rebelde iniciando um cerco. Sra. Olga temia que seus ferimentos tivessem infeccionado; entretanto, foi um chá medicinal de Zaraym que a reanimou. Tanto quanto a irritação por saber que Linin se movia com o dinheiro da comida que compraria para a população de Wallesburgo.

― Burra...! ― Ethiena resmungou pela décima vez, sacudindo a cabeça. Sentia tanta raiva de si mesmo, que não sabia muitas vezes onde enfiar a cara quando encarava Martim e os outros.

Ela alcançou o último degrau das escadas que se abriam em cascatas, escorando-se em qualquer coisa para não cair quando picos de tontura flutuavam direto para o centro de sua cabeça. Muitas vezes via o chão se aproximar e distanciar um segundo depois, causando náuseas terríveis.

Colocou a mão na boca, antes que vomitasse. Fechando os olhos enquanto engolia a ânsia, Ethiena esqueceu-se das sensações torturantes de enjoo ao ouvir vozes que não conseguiu reconhecer. Esticou-se, apoiando nas pontas dos pés como se pudesse ver as vozes por cima das paredes que cercavam o caminho até a cozinha.

Curiosa como era, Ethiena levou-se cambaleante por debaixo das arcadas que sustentavam as bancadas no andar acima, passando as portas em direção a balbúrdia de vozes. Atravessou o pequeno corredor apoiando a mão boa nas paredes lisas decoradas com quadros de segunda mão e vasos de flores que explodiam em multicores e verde-vivo. Chegando à porta da cozinha, cruzou o arco da porta, dando-se de cara com um homem, Sr. Olga e outras pessoas que não reconhecia.

A boca de Ethiena entreabriu. De todas as coisas que havia esperado encontrar naquele mundo, nunca, jamais, pensou em ver um homem com tom de pele igual ao dela.

Deixou um grunhido baixo escapar, viajando os olhos em direção àquela pessoa e aos outros que tomavam cada espaço da cozinha.

― Dama Ethiena ― disse Olga, enquanto Ethiena franzia-se, totalmente atônita.

Tentou responder alguma coisa, mas ela nunca teve as palavras arrancadas da ponta de sua língua como naquele momento. Sentiu até que havia ficado pálida, afinal, sua temperatura corporal estava abaixando vertiginosamente.

Aquele homem... não um homem, um rapaz, como ela podia constatar, não deveria passar dos vinte anos. Ele tinha cabelos negros e crespos, caindo em pesadas tranças dreads enfeitadas por contas de ouro, os olhos eram castanhos calorosos e sua pele linda era escura. Tinha um brilho como ébano, com lindos entretons dourados e suave como pétalas de lírios.

O rosto do rapaz dotava duma expressão calma. Ethiena imediatamente percebeu uma falha em uma de suas sobrancelhas, e uma pequena cicatriz no canto esquerdo da boca. Ao redor da cabeça, usava uma tiara simples, porém brilhante como cristal.

― Oh ― disse o rapaz, após um momento de um silêncio constrangedor. ― Então, acrrredito que tu és a quem vim eu verrr.

Ele sorriu, e quando o sorriso enviesou no canto de sua boca, seus olhos acompanharam. Ethiena não pode deixar de notar o sotaque carregado de "erres" arrastados.

― Quem é você? ― a moça conseguiu colocar as palavras para fora, percebendo que ainda possuía o poder da fala.

Novamente o rapaz riu. Ele, sem dúvidas, havia percebido o deslize atarantado de Ethiena e não fez questão de esconder o quanto achava peculiar. O que causou um súbito aumento de temperatura até o rosto de Ethiena, que se sentiu como um termômetro.

Ele fez uma reverência muito exagerada, onde a moça aproveitou-se do gesto para pensar. Enganou-se o tempo todo ao achar que era a última pessoa negra do mundo? Não sabia o que estava acontecendo, mas observou as roupas do rapaz. Vestia-se em mantos, com saiotes e joias que lembraram a Ethiena tribos africanas.

― Muito prrazerr, Dama ― o rapaz falou após se curvar, erguendo seus olhos castanhos em direção a moça. ― Meu nome é Kiwe Na'tawa Tulyaman Nashanti.

Ethiena ergueu as sobrancelhas. Não soube o que responder, e percebendo que estava ainda muito surpresa, Sra. Olga disse em seu lugar:

― Oh, querida Dama, Príncipe Kiwe é meu amigo ― ela levou a mão ao osso de sua clavícula, alisando-o enquanto os olhos se tornaram sonhadores. ― Vem há Walles por anos, o conheço da venda de grãos nos mercados, que dividíamos no passado. É um rapaz tão bom e gentil. Um presente de Deus. Desta vez, querida, veio ter contigo.

Ela apontou, então, em direção a moça:

― Príncipe Kiwe, está aqui, vestida em pijamas, minha querida Dama da Mansão: Ethiena Ayodele Sá de Portuália e Cispania.

Ethiena fechou a boca, olhando para baixo. Estava coberta em uma camisola curta, também cheirava a fortes remédios que Zaraym havia lhe passado no ferimento no ombro.

― Hum! ― ela tossiu ligeiramente com a garganta. ― Perdoem-me... Eu... Hum-Hum! Não esperava por visitantes tão cedo da manhã.

Kiwe desviou os olhos do pijama que Ethiena vestia-se. Manteve o olhar na altura do dela. Um gesto bastante elegante, que trouxe dúvidas à moça se Linden faria o mesmo.

― Muito prazerrr, Dama ― Kiwe disse uma segunda vez, curvando-se outra vez. ― Perrdoe-me tu, pela vista inesperrada. Porrém, estou a ouvirr histórrria curriosas a teu rrespeito, minha Dama.

Em silêncio por alguns segundos, Ethiena olhou para os outros homens ao redor, percebendo que faziam parte da mesma etnia que Kiwe. Eles não eram tão educados, e estavam olhando por todos os lados da camisola de Ethiena. Sentindo-se um pouco invadida, a moça apontou para a cadeira de frente a mesa que atravessava a cozinha.

― Oh, tudo bem ― falou ela, encabulada. ― Tenho muitas perguntas, então, por favor, sente-se.

― Acrredito que sim ― Kiwe assentiu.

Antes de sentar, educadamente puxou uma cadeira para Ethiena, erguendo a outra mão para ajudá-la. Sentindo-se mareada, ela agarrou as pontas dos dedos dele antes de se acomodar no seu lugar. Sua pele era macia como a de um nobre que não conhece o trabalho pesado.

Então, ele se acomodou no outro lado da mesa, observando cada centímetro do rosto de Ethiena.

― Tenho porr mim, que perrgunta-se porrquê um ebone está aqui, a tua frronte, quando ouviste que todos nós fomos exterrrminados, não? ― Kiwe foi direto ao ponto.

― Isso me ocorreu também ― Ethiena respondeu, olhando para os outros atrás do príncipe estrangeiro.

O rapaz cruzou as pernas por debaixo da mesa, acomodando-se ao cruzar os braços que tencionaram. Ele era franzino, não muito musculoso como Linden.

― A rresposta parra essa dúvida: é verrdade. Todos os ebones forram exterrrminados ― disse Kiwe. ― Ebone erra um país, que jaz em cinzas após tantas guerras. O tom de minha pele é parrecido com um ebone, mas sou de Nashanti.

― Nashanti? ― Ethiena inclinou a cabeça.

― Nashanti ― Kiwe assentiu, apertando o lábio ligeiramente. ― É considerrada porr muitos como "A Nação das Nações". Thieara é a capital. Posso dizerr com todo meu orrgulho, que lá, é a melhorrr cidade deste mundo. Com tecnologias avançadas, medicina cada vez mais prrroeminente e com paz, muita paz.

Ethiena ergueu as sobrancelhas, pensando em uma estranha cidade retrofuturista com prédios com varandas ecológicas cheia de mosquitos e vespas que incomodavam seus moradores. Não teve ideia de onde veio aquela visão, mas deixou um sorriso inclinar rapidamente.

― E como...? ― Ela abandonou as questões sobre a cidade, tendo uma visão própria sobre.

― Como estamos aqui, e vivos ainda? ― Kiwe sorriu, curvando o canto de sua boca cheia. ― Nashanti está localizado no Continente Demoníaco... Bem, pelo menos assim chamam as pessoas deste Velho Continente. Nós o nomeamos, no entanto, de Continente de Nyama. Uma homenagem ao deus Nyama, que tudo esconde.

Ainda com seus olhos presos no de Ethiena, ele sorriu.

― Perrdoe-me, Senhorra Olga, mas os povos tolos do Velho Continente, são tolos o suficiente para temerr viajarr pelo Continente Demoníaco ― continuou o rapaz. ― Nós nos aprroveitamos desse medo, e nos escondemos o suficiente parra não serrmos caçados como os antigos ebones. Prrosperramos durrrante todos esses anos em rreclusão intencional. Devido a isso, somos inteirramente independente do rrresto do mundo.

― E o que o trouxe ao continente que exterminou uma raça inteira por pura maldade? ― Ethiena perguntou, ajeitando-se na cadeira.

Kiwe levou os dedos longos e franzinos até a boca, olhando para cima enquanto analisava uma resposta.

― O que me trrrouxe? ― indagou-se ele. ― Hum, se fosse dizerrr, a rresposta cerrta quanto a isso? Sou um pacifista e visionárrio. Estou em missões de diplomacia parra abrirr uma relação durradorra e comerrcial aos países deste continente. Vendo tantas doenças, que já erradicamos, ou as rrebeliões e questões políticas que ferrrvilham, todas elas que já passamos, gosto da ideia em serr um intermediárrio entrre as nações que necessitam evoluirr parra que este mundo seja um lugar melhorr.

Outro revolucionário, pensou Ethiena, erguendo uma sobrancelha. Se existia uma coisa que ela odiava, eram pessoas que queriam mudar o mundo fazendo as mesmas coisas que os antepassados fizeram e não deram certo. De boas intenções, até o inferno estava cheio.

Ou talvez fosse seu pragmatismo falando mais alto, não conhecia Kiwe e não podia julgá-lo tão rápido quanto contar até dois. Mas já tinha chegado às suas próprias conclusões.

― Tenho uma sede, uma embaixada em segrredo em Austrra ― revelou Kiwe, fazendo um gesto com a mão. ― Não é muito longe de Walles. E temos ouvido que o Imperador Rui dá sinais porr venderr as terras de Walles. Já havia feito muitas missões nessa cidade, trrazendo alimentos e rremédios. Porrém, o Regente Quintino me expulsou. Poderia arrancarr a cabeça dele, e ele nem verria o que o atingiu, mas... Não é assim que trrabalho. Como disse, sou um pacifista. Achei porr meio terrmo, abandonarr a cidade e ajudarr lugarres que desejam serrem ajudados.

― Acha que as pessoas em Wallesburgo não desejam ajuda? ― Ethiena prendeu o ar, engrossando a voz. ― Existem interesses destoantes da voz da população, e sei o que o povo quer. Não vou deixar que essas vozes malditas falem mais alto que aqueles que precisam.

Kiwe mordeu o lábio, ouvindo aquelas palavras cheias do furor de Ethiena, que arrastava consigo por dias. Ela sentia vergonha de como as coisas ficaram, mas também experimentava por todo seu corpo uma motivação para fazer alguma coisa sobre o coronelismo de Walles.

― Sim, entendo, Dama ― Kiwe assentiu. ― Como disse, ouvi que o Imperrador estar a vender Walles. Tenho grande interresse em comprrá-la, e torrnar um territórrio independente e parrte de Nashanti.

Houve silêncio. Ethiena inclinou a cabeça, franzindo-se. Passou a mão na boca, pensando no destino de dezenas de milhares de pessoas que estavam sendo vendidas feito gado. Não conhecia Kiwe, ao ponto de não poder confiar nele ― mesmo que não fosse exclusividade.

Indignada em ouvir aquilo, Ethiena sacudiu a cabeça, batendo a mão na mesa. Esteve furiosa minutos antes em saber das intenções do Imperador em dar fim a Walles, agora sentia-se com o humor piorando por escutar que existiam compradores interessados.

― Porra nenhuma! ― gritou ela, sentindo um calor subir até suas bochechas. ― Fui enviada para governar Walles, e é o que vou fazer. Walles é minha, e ninguém vai vender merda nenhuma para lugar algum.

Notando a reação tão desentoada do pasmo anterior de Ethiena, Kiwe perdeu o sorriso e até ficou um pouco pálido. Ele recuou na cadeira, abaixando as mãos onde Ethiena não conseguia ver. Perguntou-se se levou ao coldre de sua arma, presa em seu cinto. Um pacifista uma ova!

― Minha Dama ― Kiwe pigarreou. ― Desculpe, não desejei insultá-la. Tenho ciência de tua guerra com Regente Quintino. Pensei que, prropô-la uma aliança, terria porr ajudá-la. Escutamos que Quintino aliou-se a execrrável Facção Rrebelde, e... ― apontou para o ferimento no braço dela. ― Porr causa disso está em total desvantagem.

Ethiena respirou fundo, notando como seus dias femininos estavam fazendo-a tomar reações bastante irritadas e exageradas. Não estava pensando em nada, além de que não iria cair no papo-mole de ninguém.

― Estou em desvantagem, mas ainda tenho um cérebro, soldados e não sou uma pacifista ― respondeu ela. ― Quando tiver finalizado os meus planos, duvido que Quintino ou aquela vaca da Facção, saberão o que os atingiu.

Kiwe abriu a boca para retrucar, mas Ethiena ergueu a mão.

― E estou cansada de príncipes, então poupe seu tempo ― apressou-se, atravessando-o. ― Acha que, comprar algumas terras, a fará sua? O Imperador vai fazer alguma coisa para tomá-la de volta, não seja um tolo. Se não tem uma proposta em me dar soldados, armas de raio lasers ou aviões de guerras, não tenho qualquer interesse em seus desejos monetários.

Ainda impactado com a resposta de Ethiena, Kiwe se recuperou do choque inicial. Seu pretensioso sorriso dobrou no canto de sua boca, e Ethiena o viu se erguer com muito barulho.

― Sei, Dama, que não possuí qualquerr apego emocional a esse lugarr, tampouco lealdade pelo Imperrador ― ele disse, caminhando até o outro lado da mesa. Escorou-se no punho fechado sobre a mesa, continuando: ― Meus fiéis espiões me disserram, que tens um acorrdo com Linden arque Walles. E acrredito que isso não incluí manterr-se fiel ao teu futurro esposo.

― Isso não é da sua conta ― Ethiena desviou o olhar.

Observando-a franzir o lábio, Kiwe não se controlou. Suas mãos conduziram-se em direção as de Ethiena. Mesmo que ela tentou livrar, ele segurou-as com força. Uma pequena dor de mal jeito viajou para o ombro ferido da moça, mas mal teve tempo de gritar um feio palavrão quando Kiwe se ajoelhou.

― Dama Ethiena Ayodele Sá ― ele disse, enviesando seu sorriso pomposo. ― Vossa Excelência se casarria comigo?

Ethiena sentiu-se ficar branca e fria como um cadáver. Outra proposta de casamento? Quem disse aos homens que desejava casar-se?

Abriu a boca para responder, porém Kiwe se apressou ao notar seus olhos nublando:

― Prrometo, Dama, auxílio e um casamento que Rui dom Portuália e Cispania jamais poderria darr-te.

O coração de Ethiena pulou para fora de seu peito, e voltando como um elástico. Talvez fosse os hormônios, mas não conseguiu entender nada além de "blá, blá, blá sou alfa e meu peitoral intimida mais". Apertou o lábio, e teve quase um derrame ao ver Kiwe beijar as costas de sua mão.

Então, enquanto fazia aquilo como se fosse um gesto bastante romântico, embora Ethiena achou invasivo quando não estava de acordo, outra sucessão de acontecimentos a fizeram quase uivar de espanto.

Ela escutou atrás da trupe de Kiwe, provavelmente soldados, a voz conhecida de Martim rindo, misturando com Senhor Basílio e ela viu o rosto de Linden antes de ouvir o som de sua voz.

O príncipe entrou pelas portas do fundo da Mansão, vestido em seu engomado uniforme militar. Seus olhos castanhos viajaram em direção às dezenas de pessoas que ocupavam todos os espaços da cozinha, que era um pouco grande. Levou a mão até a pistola presa no cinto de sua calça, franzindo-se enquanto estudava as ameaças.

Seu rosto, então, ficou lívido quando arregalou os olhos ao enxergar Kiwe ajoelhado diante Ethiena, que vestia uma camisola curta e suas pernas estavam bastante vistosas. Prendeu o ar no segundo depois, observando o que significava toda aquela encenação.

― O que diabos...? ― Linden murmurou confusamente.

Ethiena rapidamente se levantou, puxando sua mão da de Kiwe. Ao notar como Linden afastou a pistola alguns centímetros do coldre, não conhecia o Príncipe de Nashanti. Nem parecia capaz de escolher uma prioridade para sentir-se surpreso: ou o fato de flores exóticas se espalharem em sua cozinha, ou um homem bonito propondo casamento à Ethiena.

Em suas dúvidas, ele escolheu obviamente tirar seu casaco grande, militar, e correr para cobrir Ethiena. Em seguida, a puxou para suas costas como se ele fosse um cachorro que mostrou os dentes ao rosnar para os invasores de seu território.

― Quem diabos é você? ― Linden quase gritou. ― O que pensa que está fazendo, visitando uma Dama que acabou de acordar, e mal vestiu-se ainda?

Kiwe sorriu, erguendo as mãos, observando toda a ferocidade de Príncipe Linden. Rendeu-se antes mesmo de começar uma briga. Certamente, Ethiena percebeu, era um pacifista.

― Não se prreocupe, Sr. Príncipe ― Kiwe mordeu o lábio, depois de rir com deboche. ― Acrredito que meu assunto tenha encerrado... Porrr enquanto.

― Hã? ― Linden olhou Ethiena por cima do ombro. ― Quem diabos é ele?

― Longa história ― a moça encolheu os ombros.

Neste momento, Linden se aproveitou para notar não somente as poucas roupas dela, também o rosto empalidecido e aspirou o fedor de ervas medicinais que exalavam das ataduras no ombro de Ethiena. Ele prendeu o ar, voltando o olhar de cão feroz em direção a Kiwe.

― Não sei quem é você. ― O tom de voz do príncipe era tão perigoso quanto a ponta de uma faca. ― Mas acredito que deva dar meia volta, antes que te encha de bala.

― Por Nyama! ― Kiwe se afastou. ― E diziam vós, que érramos bárbarros. Não estou aqui parra disputarr o tamanho do cano de nossas armas, jovem prríncipe. Sou um amante da paz, e acrredito que tudo se rresolva com a diplomacia.

Linden franziu-se, inclinando a cabeça. Abriu a boca para dizer alguma coisa, mas recuou rapidamente. Ele mesmo havia dito algo semelhante, e aquelas palavras o pegaram de surpresa.

― Não interessa ― Ethiena empurrou o rapaz para o lado. ― Penso que esteja na hora de Vossa Alteza, Kiwe, ir embora. Já disse o que veio aqui fazer, então, nosso assunto acabou.

Kiwe riu, provocando Linden, que estava espichando como um gato de rua.

― Não, ainda não ouvi sua rresposta, Dama ― falou ele, voltando os olhos em direção ao azul do olhar de Ethiena.

Sem pensar muito, a moça replicou:

― Se não tiver um helicóptero equipado com uma metralhadora, pro inferno sua proposta.

Como se a resposta fizesse cócegas, o príncipe estrangeiro deixou um risinho escapar.

― Bem ― falou, ajeitando suas vestes engomadas. ― Parrece que terrei de aparrecer outrras vezes. Tu és popularr em Walles, Dama, e serria muito melhor estrreitar a rrelação com o povo atrrravés de tua popularridade. Um líderr antipático, não trarrá nada além de rebeldia e discórrdia. Quem dirrá um líderr estrrangeirrro.

Ethiena estava confusa sobre "popular". Não tinha noção do que estava acontecendo depois que levou um tiro, nem como o povo de Walles reagiam as notícias dos motivos de ter sido atacada. Sempre acreditou que estavam rindo dela.

― Até logo, Kiwe! ― Ethiena fez um sinal com a mão, acenando um "tchau" de forma bastante mal educada.

Linden virou os olhos de Kiwe para Ethiena, sem entender nada. Rosnou com o profundo da garganta, irritado, mas nada falou.

― Virei outrra vez, Dama ― Kiwe virou-se. ― Estou ansioso em reencontrrá-la, minha querrida Flor Exótica.

Ethiena coçou atrás da orelha, observando todos saírem da cozinha, assim que Kiwe procurou por si mesma a saída.

Quandodeixou a sala, achou que mais dor de cabeça estava preste a começar.

Linden estava irritado, mas não o suficiente para ignorar sua surpresa. Após ouvir tudo o que havia acontecido na cozinha, começou a andar de um lado para o outro, pisando nas pétalas de flores que caíram de uma flor que murchara por causa do inverno.

Eles haviam ido até a estufa, em busca de privacidade. O príncipe, para a boa sanidade de Ethiena, não era o tipo que gritava ou fazia uma cena se não conseguisse entender o que estava acontecendo. Ethiena gostava muito dessa parte dele, que agia de forma racional. Sentada na beira do chafariz no centro da estufa, a moça deixou um sorriso livre cruzar sua boca ao continuar a conversa de forma civilizada.

― Diplomacia, minha bunda! ― Linden finalmente se manifestou, após passar alguns minutos andando de um lado para o outro. ― O cara vem aqui, diz a vosmecê sobre tua popularidade, e pensa que interesses dúbios é diplomacia?

Exasperado, Linden estalou a língua entre os dentes. Seu rosto estava ficando vermelho, e os fios de seu cabelo caíam irregulares em sua testa. Vestia apenas a camisa branca do exército, a sobrecasaca ainda cobria os ombros de Ethiena.

Então, o príncipe parou de repente, olhando para rosto empalidecido dela, ainda com hematomas e curativos. O rapaz apertou o lábio tão forte, que a moça achou por um instante que fosse explodir.

― Maldição! ― gritou, voltando a caminhar de um lado para o outro. ― O maldito do Basílio só me disse o que aconteceu, quando cheguei na cidade. Caramba, Thiena, por que diabos não me enviou uma carta?

"Thiena"?, pensou ela. Soava muito melhor do que "querida".

― Sabe como fiquei aflito pensando que havia morrido antes de minhas tropas chegarem? ― Linden questionou, fazendo gestos com as mãos. ― Fiquei tranquilo quando recebi uma resposta de Basílio, mas se eu soubesse disso...

Respirou rápido, como se tivesse corrido por toda a estufa. Passou a mão nos cabelos.

― Não sabia que tinha se ferido, Thiena... ― ele murmurou, abaixando a voz. ― Não sabia nada disso. E agora me aflige a alma vê-la tão pálida, como se estivesse preste a morrer a qualquer um de seus suspiros.

― Que exagerado ― Ethiena sacudiu a cabeça, rindo dele. ― Estou bem.

Mas quando ela disse aquelas palavras, Ethiena mal percebeu que estava trêmula. Todas as emoções de ira foram reservadas a Kiwe; contudo, ver Linden reaparecer, trouxe um alívio que mal havia percebido até a adrenalina secar.

Pérolas de lágrimas fluíram ao redor de seu rosto, e ainda enquanto esticava um sorriso nos cantos de sua boca. Seus lábios começaram a tremerem no momento que Ethiena notou que não fazia sentindo guardar seus sentimentos.

― Estou feliz que esteja de volta, Príncipe ― murmurou ela, abaixando a cabeça enquanto esfregava os olhos com os pulsos.

Linden parado, observando seu choro, encheu o peito de ar. Seus olhos brilhavam em direção ao rosto da moça, e o queixo tremia como se ele estivesse indeciso sobre o que deveria fazer. No fim, por puro instinto, ergueu a mão e tocou o rosto de Ethiena. Afastou a mão, como se tivesse tocado fogo, mas voltou-a cobrindo até atrás da orelha da moça. Seu toque estava quente, como os olhos cintilavam em direção aos dela. Então, se aproximou o suficiente para lhe dar um abraço com a delicadeza que os homens grandes tinham.

― Também estou feliz por voltar, Thiena.

Oh, céus, os dias são tão complicados. Vou de zero a cem em um minuto, pensou a moça, limpando suas lágrimas.


Notas Autora: Confesso que estou ficando sem vontade de escrever essa história, porque parei e desconectei completamente da história. Não consigo sentir os personagens, nem o mundo. Tem as anotaçoes, mas sem essa conecção, sinto que é uma história sem alma :-/


Notas de Rodapé

Kiwe - se pronúncia Qui-ú-ê

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