Capítulo 10


Ao voltar para casa, Ethiena estava bastante terrificada por escutar todos os planos que o Regente e seus amigos tinham para ela. Falavam em assassiná-la e fingir que era um acidente, se possível. Provava que não tinha qualquer respeito pelo Imperador, nenhum medo.

Ter ouvir é bom ― disse Zaraym, enquanto Ethiena se tremia no caminho de volta para casa. Ele queria dizer que ter escutado os planos foi um bom golpe de sorte.

Depois que Ethiena chegou na Mansão, ela deu a bolsa de moedas que conseguiu para Martim, que dizia ter obtido ouro pelas vendas dos artigos luxuosos da mansão.

― É dinheiro o suficiente para consertar a abóbada do saguão principal ― disse Martim, esgueirado nos livros de contabilidade, que Ethiena estivera riscando quando separavam os inventários para venda. ― Também podemos encomendar tintas e novas mobílias de segunda mão.

― Deixarei que cuide disso, Sier Martim ― Ethiena, sentada em uma poltrona velha que não se dava para aproveitar, cruzou as pernas, pensativa. ― Está encarregado em redecorar a mansão.

― Oh, posso mesmo, madame? Pensei que as mulheres gostassem de decorar ― riu de leve, com uma linha bastante sexista.

Ethiena não achou que tivesse forças para retrucar. Sua cabeça estava doendo.

― Faça como quiser ― murmurou, suspirando. ― Mas poderia me ajudar com algumas informações, Sier Martim, visto que viveu em Walles toda sua vida.

― Em que posso ser útil, minha dama?

Ethiena fitou a travessa de biscoitos de trigo, que tinham lhe trazido por não conseguir jantar. Apanhou um biscoito redondo, mordendo e se surpreendendo o quanto estava gostoso.

― O que sabe sobre as pessoas que governam Wallesburgo? ― perguntou com a boca cheia.

A pergunta não pareceu estranha a Martim, provavelmente investigara Joaquim sobre como a Dama Régia se saiu no Baixo Burgo.

― Bem, Regina, o governo de Wallesburgo é tão podre quanto um monte de esterco despejado pelos corcéis do Regente ― Martim respondeu, percebendo sua indelicadeza, mas não se desculpou. ― Quintino vem do Burgo Alto e assumiu o governo como um monarca menor sem a eleição de ninguém. Sua família e seus capangas controlam, literalmente, todas as esferas do poder, desde os altos escalões até as delegacias.

Ethiena imaginou que fosse algum coronel, como lembrava-se das práticas feudais em regiões rurais ou afastadas, em seu mundo de origem.

― Quer dizer que Quintino é poderoso. ― Ela sentiu um gosto amargo na boca ao chegar àquela conclusão.

Não somente poderoso, ele amava governar e protegeria sua paixão com todo o seu ser.

― Ele é. ― Martim assentiu. ― O Regente Quintino utiliza-se do poder que possui para manter seu domínio. Tem bom apoio dos nobres do Burgo Alto, para os quais é considerado um homem honrado e íntegro.

― E o quanto ele está atolado em corrupção? ― Ethiena perguntou, respirando fundo.

Martim mexeu a boca, fazendo seus bigodes ornamentais mover.

― Bom, isso não é muito difícil ― respondeu, empertigando-se e colocando as mãos na cintura. ― Vez ou outra, Quintino inaugura uma obra desnecessária, visando desviar dinheiro público com os valores irreais das construções. O dinheiro de suas obras aparece nas contas do Estado, mas nunca existem construções.

― O Príncipe Linden sabe sobre tudo isso? ― perguntou Ethiena, erguendo a mão para o fogo tremeluzente da lareira ao seu lado. Estava uma noite fria.

― Temo que sim, minha dama.

― E ele nada fez para resolver esse problema?

Martim parou para pensar. Ergueu os olhos para ela depois de chegar em uma conclusão.

― Sim. Nos trouxe Vossa Excelência, Dama Ethiena.

As bochechas dela afoguearam com um calor profundo. Realmente, o Príncipe havia planejado tudo aquilo. Ethiena só não se sentia capaz em fazer cumprir sua parte no acordo de cumplicidade de ambos. Esperanças em "políticos" iam em contra sua própria filosofia de vida; e tornar-se um deles, que via com ceticismo, era uma virada ridícula em sua vida.

Quintino era um bandido legalizado, um criminoso de terno e gravata, a pior espécie que podia existir. Daqueles sem escrúpulos, que matava, roubava e destruía pelos próprios interesses. Ele tinha o comando de todo o tipo de gente abominável que não pestanejava na hora de dar fim em alguém. O que Ethiena tinha para batalhar contra Quintino? Um anel?

Olhou para o aro dourado e o símbolo do império desenhado no ouro. Ela se considerava realista demais para saber que poderia sair tudo errado. Um homem que planeja dar fim a uma noiva do Imperador, nada temia.

Ethiena foi dormir tremendo-se. Mesmo quando passou uma noite chorando por acordar em um lugar desconhecido, não sentiu tanto medo.

Acordou no dia seguinte no escuro de uma manhã frienta, em um quarto estranhamente familiar. Quando se levantou, uma pontada de dor trespassou sua cabeça e fez com que se lembrasse do pesadelo terrível que a acordou.

Não era um pesadelo. Era a sua verdade, a sua nova realidade. A sua nova vida.

Pelo menos, enquanto xingava baixo, planos começaram a se formar em sua cabeça. Esboços de saídas que podia encontrar para estar a um passo à frente do abjeto Regente Quintino.

A primeira coisa que pensou foi continuar a gerenciar a reestruturação da Mansão da Dama. Martim havia trazido à casa construtores bem recomendados para consertar a abóbada, depois ocupou-se na compra de novos móveis. Ethiena não precisava se preocupar com aquelas tarefas. Buscou ela mesma no Burgo Baixo por costureiras para costurar novas roupas.

Madama Susana, uma alfaiate, a melhor recomendada, era uma jovem de cabelo castanho escuro cortado curto com olhos cinzentos e uma pele manchada por algumas cicatrizes. Ela tinha uma expressão sonolenta.

Tirou as medidas de Ethiena, e, então, conversavam energeticamente sobre tecidos, moldes e toda a moda atual de Walles.

― Quero propor novos desenhos ― disse Ethiena quando Madama Susana sugeriu babados e mangas bufantes.

Roupas modernas em um ambiente tão hostil para as mulheres traria desconforto, tanto para muitos olhos quanto para ela mesma. Ethiena pensou em modelos com cortes modernos, porém discretos. O que deixou Madama Susana encantada com a capacidade de Ethiena em desenhar.

― Isso é encantador, Regina ― a mulher explodiu, batendo exageradas palmas. ― Camisas simples, gravatas em laços e saias com cortes simples. Estava eu mesma achando babados e mangas bufantes ultrapassados.

Na visão da Regina, tudo era bastante normal. Desenhou alguns modelos de roupas sociais que usava para trabalhar, embora Ethiena evitou calças.

― Também preciso que crie uniformes para meus... eufores ― disse, odiando parecer que era dona de escravos. ― E para os funcionários.

A produção demoraria algum tempo, mas Ethiena ficou feliz que pudesse logo se livrar de babados, espartilhos, chapéus com fitas e saias que se arrastavam no chão.

Após sua deliciosa conversa com Madama Susana, de que descobriu que "Madama" era um título usado por mulheres que conservavam um ofício sem autorização dos homens, ela escreveu uma carta para Príncipe Linden. Pedia-lhe a sua presença, ou se possível alguns soldados da reserva para ajudá-la nas questões de vida ou morte.

A resposta veio uma semana depois, logo após Ethiena provar as novas roupas e ajustar as medidas. Martim pulou para dentro de seu escritório, anunciando a chegada de um pelotão de mais de cinquenta homens.

Ethiena saiu para o pátio principal, vestida em seus novos trajes. Agora se destacava como uma nobre, e até Sra. Olga deixou um sorriso inclinar em seu rosto carrancudo ao vê-la passar. O líder do pequeno grupo de soldado, não soube se por causa da cor da pele ou pelas roupas, logo a reconheceu, aproximando-se e tomando sua mão em um cumprimento solene.

― Sou o capitão do vigésimo regimento de Sua Alteza, o Príncipe Herdeiro Linden ar Walles, o futuro Sol do Império. Basílio de Quintas ao seu dispor, minha dama ― se apresentou. ― Trouxe soldados como solicitou, Vossa Excelência. Tanto para proteção, quanto para tomada do controle de Wallesburgo.

Ele foi além do que solicitei, a moça pensou, exultante. Não era minha ideia usar a força para expulsar os corruptos.

― Trouxe também uma carta de Sua Alteza Imperial, minha dama ― Sr. Quintas sorriu, entregando um envelope para ela.

Ethiena não se sentiu capaz de guardar a ansiedade, abriu a carta ali mesmo. Mexeu-se inquieta, lendo em silêncio:


Anjo querido,

Após um passeio pelo jardim público na capital de Prussória, trouxeram-me tua carta. Escrevo logo que a recebi. Minha criada trouxe-me chá enquanto escrevo essas palavras. Estou mal da garganta; está um dia de chuva. Desde que o conforto de pensar em ti me acalma, sinto-me melhor por recordar de teus olhos.

Você sabia que "reencarnados", como você referiu, mudam as cores dos olhos? Os meus se tornaram escuros, mas nada se compara aos teus azuis. Vendo nuvens tão cinzas pelas janelas de meu quarto, lembrar-me do azul cor-de-céu de seus olhos, traz-me a nostalgia dos meus dias moços em Walles. Eu costumava brincar até me cansar nos doces verões nos campos verdes-esmeraldas da propriedade de minha mãe, debaixo de um lindo dia de céu limpo e claro. É assim que me acalmo, refletir essas recordações na lembrança de teu olhar.

Bem, antes minhas missões diplomáticas e a minha doença, não sei quando te verei. Conto as horas para ver-te, e assistir com meus próprios olhos como está lidando com nosso acordo. A responsabilidade de fazer-te meu braço direito é decerto o maior de meus acertos; tenho a alegria em saber que contigo poderei contar até o fechar de meus olhos, e estou certo que saberá desempenhar este desagradável encargo.

Em recompensa por tua paciência, envio-te o pelotão mais capaz que se aquartelava nos campos nas fronteiras entre Walles e Prussória. A paz é uma realidade pouco a pouco conquistada, e tenho certeza que podemos deixar de olhar por sobre o ombro com medo dum ataque inimigo. Não mais existem inimigos, minha missão é tornar todas as contendas criada por meu pai em pontes que estreitam os laços de amizade junto aos nossos vizinhos.

Aqui hei de terminar, um pouco preocupado com vossa segurança, mas esperançoso que houve tempo para estas palavras em tuas mãos chegar através de Basílio de Quintas. Quer dizer que houve tempo, pois as estradas estão ruins empós a Grande Guerra.

Suas circunstâncias são diferentes da minha, porquanto eu preciso da sutileza e diplomacia. Em teu caso, carece da força e austeridade. Use todo o poder que puder para conseguir a paz.

Com carinho,

Linden, Arquiduque de Walles.



Ethiena franziu a testa ao terminar de ler. Abaixou a carta, sentindo as bochechas afoguearem. O Príncipe foi doce demais em suas palavras.

Ela desejava que não, pois aquilo não poderia remexer tanto com seu interior quanto mexeu. Sentia o coração acelerar, as bochechas queimar na lembrança e no delírio da boca de Linden dizendo todas aquelas palavras.

Recordava que achara seus lábios bonitos. Não somente seus lábios, também conseguia pensar em uma infinidade de adjetivos para descrever seu sorriso.

Não!, gritou para si mesma, nem pense nisso!

Pelo menos, viu-se pensando novamente, "Anjo querido" era muito pior do que "querida".

A jovem Dama de Sá era uma concubina do Imperador, e pragmática como acreditava que era, sabia que um dia Rui I poderia bater às suas portas. Tinha a tendência a ser azarada daquela forma.

Linden odiava o pai, pelo que entendeu. Estava ele querendo brincar com seus sentimentos por causa de tal descontentamento pessoal?

O Imperador mandaria tanto o Príncipe quanto a rainha-concubina para a guilhotina se colocasse os olhos em tais palavras.

Ela se abanou, fitando para as filas dos soldados bem organizados atrás de Senhor Quintas. Portavam à mão enormes grimórios como se fossem espingardas, trajavam o uniforme do exército imperial. No fim da fila, Ethiena notou que traziam provisões. Ela não havia mencionado nada sobre a escassez de alimentos na mansão; mas em se tratando de um Príncipe com cargo militar, Linden julgou que aqueles soldados precisariam de alimentos para viver sobre a tutela dela.

Ethiena ficou bastante aliviada.

― O que disse Príncipe Linden a você, Senhor Quintas? ― ela perguntou ao soldado.

Soldou-o, observando seus detalhes. O lábio cortado e nariz arrebitado, e seus olhos esverdeados e os cabelos castanhos; notou cada detalhe do quepe que mostrava sua posição de líder. Tinha um belo sorriso antes de responder:

― Sua Alteza deu-nos instruções para a auxiliar, minha dama. Não me disse qualquer outra coisa. Apenas que ficaríamos em Walles por tempo indeterminado.

Ethiena assentiu. Ela não gostava do uso da força, mas duvidava de que Quintino não usaria a sordidez para imobilizá-la. Gostava de ser prática. Naquele caso, a praticidade era a aspereza.

― Muito bem, Senhor Quintas. Seja bem-vindo à Mansão ― respondeu ao homem, com educação. Apertou a carta de Linden em sua mão, sentindo como se suas palavras fossem um punhado quente de brasas queimando sua pele. ― Oh, e por favor, mais tarde envie uma resposta a Sua Alteza, o Príncipe Linden. Diga que estamos todos bem, por enquanto.

Virou-se com as bochechas queimando no frio do Norte. O inverno começava a ficar um pouco pior, mas ela nunca se sentiu tão afogueada como naquele momento.

Não podia responder de próprio punho uma carta ao Príncipe. Temia que poderiam significar provas contra ela, caso seus planos dessem errados. Não confiava no Imperador, também na calmaria da vida. Pelo que sabia, tempestade sempre vinham uma ou outra vez para devastar algumas fundações.

― Siga-me, Senhor Quintas, devo deixá-lo a par de nossa situação ― disse ao soldado, que permaneceu parado enquanto ela retornava para o interior da mansão.

O capitão passou instruções para seu imediato procurar o melhor lugar para descansar, Sier Martim se encarregou em instruí-los. Enquanto aquilo, Ethiena e Senhor Quintas entraram no escritório principal, uma sala grande nos andares baixo do enorme Solar. Ela pediu um pouco de chá quente, ótimo para aquecer naquele dia tão frio.

Nos dez primeiros minutos, iniciou-se uma conversa afável com o objetivo em conhecimento. Ethiena não conhecia o capitão, assim como também ele não possuía quaisquer informações sobre ela.

O Senhor Quintas era pai de uma criança com uma moça chamada Guilhermina, que morava no Burgo Baixo. No início da Grande Guerra foi um porta-estandarte da Brigada de Bombardeiros do império. Tornou-se um herói de guerra na sangrenta Ofensiva do Lyra ao salvar Príncipe Linden em sua primeira batalha. Após salvar o Príncipe, ganhou o posto de capitão, e participou da maioria das guerras de infantaria e trincheiras na região entre os três países em conflito, agora conhecida como Três Fronteiras. Na troca de amenidades e formalidades, os detalhes sobre massacres nas batalhas ao redor de Walles deixaram a moça atônita.

― Então ― pigarreou Ethiena, após um último gole de chá. ― Fico feliz que a guerra tenha acabado.

― Sim ― disse o homem, a voz baixa. ― Voltamos aos pequenos conflitos, dentre eles as pequenas batalhas causadas pela Facção Rebelde, minha dama.

Ethiena havia escutado sobre a Facção Rebelde, tanto de Linden quanto de Sier Martim. Mas não tinha muitos detalhes, parecia-lhe apenas um grupo de revolucionários que se escondiam no fundo das florestas das regiões.

― Príncipe Linden tem uma visão mais ampla sobre os pequenos motins que a Facção Rebelde inicia contra o Império ― Senhor Quintas apertou os lábios, desgostoso com aquela informação. ― O que podemos dizer que é diferente do que sabe Sua Majestade Rui, que vive isolado em seu palácio fartando-se em sua vida boêmia.

― O Príncipe Herdeiro parece uma pessoa bastante competente ― Ethiena observou, um pouco curiosa.

― Ah, sim, minha Dama, muito competente ― riu Senhor Quintas. ― Apesar da fama de mal-humorado.

Ethiena não conseguiu pensar no Príncipe como mal-humorado. Lembrou-se do seu sorriso, e desviou os olhos, com medo de que Senhor Quintas percebesse seu desconforto.

― Vossa Alteza Linden, conhece os desastres econômicos que a Grande deixou ― o capitão continuou, enquanto deixava um sorrisinho significativo dobrar no canto da boca. ― O exército levou 15 milhões de homens das fazendas e os preços dos alimentos elevaram-se. Um ovo custa quatro vezes mais do que no ano passado, manteiga cinco vezes. Logo o inverno causará avarias nas ferrovias, tornando a chegada de alimentos, ferro e outros suprimentos em pequenas aldeias o prego que falta para içar o pilar de motins generalizados.

― Tenho pouco conhecimento do que está acontecendo fora dessa mansão ― Ethiena foi sincera. ― Não posso tomar qualquer decisão ainda sobre o que devo fazer, Senhor Quintas, mas...

― Oh, minha dama, chame-me Basílio. ― Sorriu o capitão em sua voz grave e agradável. ― Vamos esquecer as grandes formalidades.

― Certo. ― Ethiena sentiu-se embaraçada. ― Bem, Senhor Basílio. Não posso tomar decisões ainda sobre as ameaças externas, mas quanto as internas... Tenho alguns planos.

As grossas sobrancelhas do soldado ergueram-se ligeiramente e um sorriso curvou os seus lábios cobertos pelos fartos bigodes.



Sier¹ é a forma retraída de se referir a um plebeu de respeito, contração de Messier (Misere) que também pode ser usado como Ser ou Sr.

Madama² - Título usado para senhoras casadas, ou que detém um ofício, desde que mulheres na história não podem legalmente trabalhar sem autorização de um homem ― juiz ou marido, no caso.

De³ – é usado pelos soldados. Por exemplo = "Primeiro Nome" de "Cidade ou Lugar que veio".

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