XX
Meu coração batia forte e eu sentia que qualquer pessoa poderia ouvi-lo de forma clara. Eu estava extremamente nervosa. Nunca me sentira assim em relação a minha aparência. Na verdade, durante toda a minha vida fora a "menina bonita" – não a inteligente, nem a talentosa, mas, a detentora de uma beleza que poderia enlouquecer qualquer homem. Antes dos meus pais morrerem, por exemplo, havia uma grande campanha para que eu casasse o mais rápido o possível, afinal, a beleza não duraria para sempre e, segundo as mulheres do meu vilarejo, era única coisa da qual eu era detentora. Entretanto, minha família sempre me encorajou a ter outros talentos e, na contra mão do resto das pessoas, me elogiavam por eles. Graças a isso, por muito tempo, eu fui obcecada por cozinhar, costurar, dançar, tocar e tantos outros ofícios que tentei para mostrar as pessoas que eu poderia ser mais do que elas acharam. Nunca funcionou.
Passar pelos grossos véus se tornara uma rotina, todavia, ver meu irmão em uma elegante roupa preta de gala era uma novidade. Admirei sua aparência e o quanto ele parecia com o nosso pai. Seus cabelos, olhos, nariz, sobrancelhas me traziam uma sensação de nostalgia quando analisados. Eu sentia saudades dos meus progenitores, entretanto, possuía a firme e nova convicção de que eles estariam protegidos nos braços do Cordeiro.
Leon também me examinou com muita atenção. Seus olhos passaram por meus sapatos, vestido e pararam por alguns segundos no colar que ele me dera antes de, finalmente, subir para o meu rosto.
— Meu acompanhante não me parece muito contente... acha que não estou a sua altura? — ironizei.
Ele ergueu uma sobrancelha e em seus lábios um pequeno sorriso pode ser visto. Eu comemorei. Sim, era patético.
— Definitivamente você não chegará a minha altura — fez o trocadilho, usando minha estatura. Revirei os olhos.
— Não é educado da sua parte fazer esse tipo de comentário, Sir Lewis — disse, em tom de reprovação.
— Oh, me perdoe, por favor! Certamente eu não consigo ser tão educado e estudioso quanto o ourives... estrela — ironizou em um tom perigosamente baixo.
Ignorando o salto dado pelo meu coração com o uso do apelido, mesmo em tom de ironia e irritação velada, dissimulei como uma perfeita palaciana: — Não sei do que está falando.
— Não tente mentir para mim, Ester, a prisão está cheia de pessoas que se esforçaram bem mais do que isso — seu tom era definitivamente perigoso e me lembrava quem meu irmão realmente era: um soldado do Rei.
— Desculpe, Leon — usei meu melhor tom controlado —, não sabia que conversar era crime.
— Mas é — suas feições se tornaram sarcásticas e eu pude pressentir o próximo comentário. — Principalmente se tratando de uma mulher tão brilhante.
— Seus soldados e o príncipe acharem que sou bonita é normal, mas, alguém ver além disso é errado? — semicerrei os olhos, já irritada com a conversa.
— Meus soldados estavam até ontem limpando latrinas, o príncipe... ele não é alguém que eu possa parar, mas o ourives...
— Não me irrite, Leon.
— Longe de mim — ele ergueu as mãos em sinal de paz. — Não posso fazer um simples comentário? Até porque o nosso caro amigo não faz questão nenhuma de esconder sua admiração. Assim que cheguei em sua sala pedindo um colar ele imaginou que era para você e sugeriu uma estrela. Surpreendentemente ele estuda significados de nomes e sabia o do seu. Chocante, não?
— Não. Coincidências acontecem todos os dias — disse, irritada.
Ele sorriu levemente parecendo estar muito feliz em me irritar.
— Inclusive, admirei a coragem dele, mas, não o suficiente para mantê-lo com a cabeça sobre o pescoço.
— Você é muito agressivo, Leon — critiquei.
— Eu sou um general, Ester, essa é exatamente a ideia — comentou, em tom de riso.
Cruzei os braços, chateada – mesmo sabendo que era completamente contra as regras de etiqueta – antes de dizer: — Não tínhamos um jantar para ir?
Meu irmão pareceu lembrar do fato e me chamou com um gesto para caminhar ao seu lado. Não falamos nada, mas, não existia aquele clima pesado das outras vezes. Na verdade, eu me sentia leve. O dia de hoje havia sido crucial no nosso relacionamento e me feito enxergar ele e o nosso passado de uma forma diferente. Leon não me abandonara simplesmente. Diferente do que eu imaginara ele fora impedido de voltar para casa e isso tirou um pouco o foco de mim e colocou nele. Ninguém chega no lugar aonde ele está com tanta facilidade, ou se transforma tão drasticamente, principalmente em um período relativamente curto como esse, sem uma interferência externa. Pela primeira vez pensei no que ele pode ter passado... nas cabeças em que ele provavelmente ele deve ter pisado. Quanto de sangue um general da guarda do rei deveria ter na mão? No fundo eu não queria saber a resposta.
Inundada nos meus pensamentos não percebi os corredores que cruzamos. Vi apenas quando entramos no último corredor, portal de entrada para um grande salão, que ostentava uma grande e longa mesa feita da mais bela e cara madeira.
— Não se afaste de mim — meu irmão ordenou em meu ouvido antes de realmente entrarmos no salão.
— Leon, meu amigo — um homem de cabelos loiros aproximou-se de nós assim que cruzamos uma grande porta enfeitada com bronze e prata.
— Alexander — meu irmão o cumprimentou sem nem um sentimento no tom de voz. — Essa é minha irmã, Senhorita Ester Lewis — me apresentou e eu maneei educadamente e levemente a cabeça sobre o atento olhar do homem.
— Sou Alexander Lenox, futuro Conde de Camberry — informou-me, com toda a pompa. — É um imenso prazer conhecer a mulher mais bonita da noite — galanteou.
— Achei que esse título fosse meu, Alexander — reconheci rapidamente a voz da intragável Annie.
— Era, Senhorita Ivanov, até essa bela moça passar pelas portas — disse sem nem ao menos envergonhar-se de diminuí-la na frente de todos.
— Não vejo nem um problema em dividirmos esse título que gentilmente o senhor Lenox nos deu, afinal, a senhorita também está belíssima — fui obrigada a intervir.
Era um fato que não gostava de Annie e que ela retribuía o sentimento. Da última vez que nós vimos quase fui atacada por suas unhas afiadas, mas, mesmo assim não compactuaria ou sentiria algum tipo de prazer ante a tal humilhação pública.
— Não divido títulos, Senhorita Lewis — pontuou, seca.
— E não precisa — Natanael entrou na conversa, surpreendendo a todos.
Contive meu impulso de erguer uma das minhas sobrancelhas perante a um comentário de tão ofensivo, desnecessário e, principalmente, incoerente já que há dias atrás ele tinha elogiado as minhas "características físicas". Não que eu me importasse, claro.
— A senhorita está deslumbrante — disse para Annie. — E, terei que dizer, meu amigo, por favor não se chateie, que a senhorita está fascinante, como sempre, senhorita Ester.
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