XIX

— Vire-se, Ester — ele ordenou. Sempre gentil, meu amado irmão.

Virei-me, obedecendo seu doce comando. Era definitivamente estranho após tantos anos receber um presente do meu irmão. Lembro-me de quando éramos crianças e ele fazia o possível para me comprar um presente. Nossa tradição era simples: eu recebia o que ele me dava e o abraçava – como podia afinal sou bem mais baixa que ele – dizendo "você é o melhor irmão de todos". Era especialmente difícil quando sua mente sabia o que você deveria dizer, mas seu coração lhe apontava que estava errado. As palavras de Constance eram muito claras para mim. Eu não deveria dá-lo o que ele merecia, todavia a ferida ainda era aberta demais. Algo ainda estava muito vivo dentro de mim para que eu simplesmente esquecesse. Eu sabia qual era o certo a fazer, entretanto não conseguia coloca-lo em prática.

Delicadamente ele afastou meus cabelos e eu pude sentir a corrente deslizar pelo meu colo. Imediatamente olhei o pingente. Era lindo. Uma pequena estrela, de quatro pontas. As lágrimas caíram livremente a medida que as lembranças tornavam-se reais em minha mente.

— Eu senti saudades, Ester — ele disse, sem emoção na voz. — Repassei essa cena em minha mente todos os dias, durante anos.

Fechei os olhos, tocando no pingente, e pude ser transportada para uma época que parecia longínqua demais. Aos sete anos ganhei do Leon uma corrente, feita de um material barato, com uma estrela de quatro pontas, no dia do meu aniversário. Há cinco anos atrás eu a quebrei, no momento em que descobri que ele iria embora. Eu pisei nela... assim como meu irmão fizera com meu coração.

Virei-me para olhá-lo, sentindo que teríamos "a conversa" que tão esperada.

— Se sentiu saudades porque não voltou? Leon, todos os dias, desde que partiu, eu te esperei! Durante anos também! — desviei o olhar do dele. — Naquele dia eu voltei... para pegar os restos da corrente e eles estavam lá, no chão. Eu chorei durante tanto tempo com eles nas mãos até... sumir.

Meu irmão segurou minha mão direita, me fazendo olhá-lo novamente. Em sua face uma expressão de raiva gelada era exibida, algo grotesco e amedrontador – até mesmo para mim.

— Você disse... sumiu? — indagou com o tom perigosamente baixo.

— Sim, sumiu — franzi o senho. — Em um dia ela estava comigo e no outro... eu não a achei. Mamãe também a procurou por um tempo, mas... nós nunca soubemos onde ela foi parar.

Acompanhei com um olhar o primeiro movimento brusco de Leon desde que essa conversa começou. Meu irmão enfiou uma das mãos no bolso e tirou o que eu reconheceria mesmo após tantos anos. Estava sujo e velho, mas eram, incontestavelmente, os pedaços da antiga correntinha que ele me dera.

Meu coração disparou e a surpresa tomou conta de todo o meu corpo. Eu tinha plena convicção que aquilo estava comigo antes de ele viajar! Os segundos se prolongaram em completo silêncio, eu simplesmente não conseguia falar, e quando finalmente consegui recuperar o dom da fala os berros de susto foram praticamente inevitáveis. Meu cérebro já não funcionava mais da mesma forma.

— Como?! Onde achou isso?! Estava comigo, Leon, eu posso afirmar que sim!

Ele travou o queixo, irritado.

— Asher enviou-me pouco depois de eu ter ido embora juntamente com um bilhete. Eu estava decidido a visitar vocês e pedir desculpas quando isso chegou – ergueu levemente a mão com os destroços da correntinha. – Segundo ele vocês me odiavam tanto e de forma tão irremediável que... não queriam nada meu por perto — sua voz possuía traços incontestáveis de emoção, mesmo que ele tentasse esconder.

Meu coração pesou. Quando éramos crianças meu irmão era o preferido do "tio Asher"... pensar que ele teria coragem de fazer algo assim apenas pelo que Leon decidira se tornar me deu nojo. Nós todos sofremos tanto apenas por uma pessoa que se achou no direito de tomar as rédeas do nosso destino, por alguém que pensou que poderia excluí-lo da família apenas por não ter feito as escolhas que nós aprovamos. Senti ânsia. Durante os últimos cinco anos eu julgara meu irmão por algo que ele não era. Eu o odiei em vão. E tudo isso por causa da... maldita revolução. Da causa. Lutar com ódio vale a pena ou apenas causa destruição? Eu tive a minha resposta assim que lembrei que Cristo venceu pelo amor. Por que Ele decidiu morrer e não matou, porque ele decidiu guardar a espada e não usa-lá. Jesus estabeleceu Seu reino eterno sem precisar matar, na verdade, Ele decidiu morrer.

Passei os braços ao redor do meu irmão e murmurei aquilo que, na verdade, ele sempre fora: o melhor irmão do mundo.

— Me perdoe, Leon — pedi, com a cabeça encostada em seu peito.

Ele me afastou dele. Enquanto eu estava com o rosto molhado por lágrimas, ele parecia o mesmo. Suas feições eram treinadas para não conter o menor sentimento e eu sabia muito bem que aquilo não dizia nada. Na côrte os sorrisos, as feições e as palavras não mostravam nada. Mas, em seus olhos, eu pude ver o menino sensível que eu conhecera antes do palácio.

— Você não precisa me pedir perdão, Ester — disse, cautelosamente. — Todos nós fomos enganados, mas, acredite em mim, eu não deixarei isso assim — pude ver em seus olhos o menino machucado ser substituído por algo que me causou medo.

— Leon...

— Fique tranquila, Ester, eu e o titio Asher teremos uma longa conversa... e não demorará muito — o sorriso que tomou seu rosto esfriou a minha espinha. — Agora vá! O banquete acontecerá em breve — o brilho sanguinário se mantinha em seus olhos.

— Leon...

— Vá, Ester — ordenou, resoluto.

Eu me virei com um mau pressentimento absurdo. Torcia para que Asher realmente se escondesse bem.

Assim que adentrei na ala das mulheres Bella já me esperava com um grande sorriso estampado em seu rosto. Ela preparou meu banho e me ajudou com o cabelo e o vestido. Quando, no fim, pude me olhar no espelho, senti que era a mais bela de todas as mulheres. Sabia muito bem que não era verdade, mas nunca havia me sentido tão poderosa, tão... principesca.

O vestido era vermelho e dourado. O busto e as longas mangas, que cobriam até o meu pulso, eram formadas por uma bela renda dourada, já o saiote, vermelho, era grande, pesado e armado, sem nem um detalhe. Simplesmente lindo. Em meus cabelos duas tranças laterais se encontravam formando apenas uma e pequenas flores decoravam os fios.

— Bella... — murmurei, impressionada.

— Ester... — ela me imitou, achando graça. — Você está linda! Será a mais bonita da noite — sorriu, brilhante.

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