III


A cremação aconteceu durante a noite como já é tradição em nosso pequeno povoado. O início do costume foi durante a resistência organizada por alguns rebeldes contra a tomada do controle pelo Reino de Dmitrei – ao qual estamos unidos ágora. Nessa época as mortes aconteciam com tanta frequência que a esposa do líder decidiu que os mortos seriam enterrados durante a noite para que ninguém, além da família, soubesse e não impactasse a confiança dos moradores. Minha mãe sempre dizia que ela havia sido uma grande mulher.

A revolução só acabou quando o general da época, com a promessa de um acordo de paz, atraiu o líder para uma emboscada e o matou, depois fez uma fogueira com seu corpo, levando os rebeldes a se renderem. Meus pais lembravam dessa época muito bem. Minha mãe cuidou dos feridos e meu pai participou no início, mas, foi machucado gravemente e mandado para casa a fim de se recuperar, entretanto, nunca houve tempo de voltar para o campo de batalha. Entretanto eles nunca pararam de lutar, ninguém do nosso povo parou, mesmo quando os oficias proibiram, com pena de morte, a transmissão da história, os moradores continuaram contando para os seus filhos, e, debaixo do nariz dos homens do Rei, eles mantiveram a tradição, mostrando que nunca esqueceriam daqueles que morreram pela causa.

Agora, quando um grande homem morre, nós o queimamos. É uma homenagem dada a poucos, importante para o nosso povo. Meu pai, com um ex-soldado, foi cremado, e eu sei que esse era o seu desejo, por isso proibi a meu irmão de falar algo quanto a isso. Eram as nossas tradições e eu não deixaria que um soldado patriota do rei a mudasse. Papai foi um guerreiro e merecia ser homenageado da forma que desejava por sua coragem.

O enterro da minha mãe foi mais simples, mas não sem algumas honrarias. Quase toda a cidade se reuniu para ver a mulher que lutou como pôde por seu povo sendo coberta pela areia da terra que ela tanto amava. Doeu muito vê-los partir, mas algo em mim se alegrou em ver tantas pessoas que os admiravam, que sentiriam saudades. Eles criaram um legado e eu tinha muito orgulho disso. Fiz questão de abraçar todos, cumprimenta-los e agradecê-los pela presença, era isso que a mamãe faria.

— Menina Estrela.

— Tio Asher — virei-me, surpresa, para o olhar homem ao qual todos nós respeitávamos.

Asher havia guerreado há anos atrás e quando tentaram matá-lo conseguiu escapar e meu pai ajudou a escondê-lo no porão secreto da casa da Dulce e de seu marido, Arthur, durante dois anos. Os soldados do rei nunca descobriram quem ele era, assim como nunca souberam sobre o meu pai. Todos se mantiveram calados para preservar a vida daqueles que ainda podiam ser guardados. Após o tempo de reclusão o senhor Asher foi morar conosco, meu pai disse a nós e aqueles que não sabiam da real história que era o irmão mais velho dele, apenas por parte de pai. Anos depois, quando meu irmão decidiu entrar para o exército, e meu até então tio, tão apaixonado por ele, cortou laços sem nem uma explicação aparente, meu pai foi obrigado a contar-me o porquê da raiva. Por motivos óbvios, ele não gostava de soldados do rei.

— Não deveria estar aqui! — murmurei, preocupada.

Asher era alguém muito especial para mim. Chorei muito quando, depois do
meu irmão, ele se foi. Um dos homens do rei que participou da guerra voltou para a cidade e quase o reconheceu, então meu pai achou melhor tirá-lo da cidade. Desde que foi embora ele não tem um lugar fixo para morar, vive sua vida coordenado diferentes levantes contra o monarca.

— Vim me despedir dos seus pais. Eu devia isso a eles.

— Você nunca esteve em dívida, tio, eles te amavam — murmurei, o puxando para um lugar mais escondido.

— Eu sei que sim, mas não pude evitar, também amava aqueles dois velhos — sorriu.

Eu não consegui sorrir, na verdade senti vontade de chorar. Meu tio me lembrava a minha infância, quando tudo era tão perfeito e fácil. Eu tinha meus pais, meu irmão, ele... e agora? O que eu tinha além de muito medo e um futuro incerto?

— Ei, não fique triste — aproximou-se de mim — lembre-se que você irá reencontra
-los um dia.

— O senhor acredita nisso, tio?

— Depois de tantos anos eu perdi a minha fé, querida. Mas eles não... seus pais nunca deixaram de crer no Deus que os protegia.

E do que adiantou? Onde estava Deus quando eles precisavam da Sua proteção? Engoli a pergunta.

— Isso não importa agora, tio — desconversei. — O senhor deve ir embora o quanto antes, é perigoso.

— Eu já estou indo, Estrelinha. Vim apenas me despedi dos seus pais, falar com você, com a Dulce e com o Arthur — seu rosto endureceu de repente. — Soube que aquele menino está aqui e irá levá-la com para o antro de cobras.

— Eu não tenho outra escolha, tio.

— Sei que não — suspirou. — Gostaria de poder levá-la comigo, mas você não merece ter a mesma vida que eu.

— Deveria sossegar, tio. Sair do reino, ir para outro lugar, longe...

Ele sorriu, triste.

— Eu perdi meus amigos para a guerra, Estrela, essa é a única coisa que eu sei fazer: vinga-los. Seu pai conseguiu seguir em frente, na medida do possível, e criar você e aquele outro, mas eu não posso... queria puder, queria conseguir dormir sem sentir a raiva queimando nos meus ossos como brasa. Eu admiro a sua ingenuidade e desejo que você seja feliz naquele lugar, sinceramente.

— Tio...

— O passado é muito pesado, Estrela, só eu sei, e não desejo o mesmo para você. Nunca. Então, quando chegar naquele lugar, seja feliz. Apenas isso. O que é real para mim, deve ser antigo demais para você.

— O senhor está dizendo para que eu esqueça do que eles fizeram contra nós? — perguntei, abismada.

— Eles nunca fizeram nada contra você, Ester — disse firme, quase seco, desviando os olhos do meu.

— Tio...

— Seja feliz, querida, era tudo o que seus pais iriam desejar. Todos eles.

— Tio, o que quer dizer com...? — ele me interrompeu.

— Têm alguém chegando, provavelmente aquele lá — beijou minha testa tão rápido que nem mesmo senti. — Preciso ir, Ester, não esqueça o que eu disse.

Então saiu pela mata, me deixando sozinha e confusa, ao lado do lugar em que havíamos acabado de enterrar meus pais.

Todos eles? O que eles quis dizer com isso?

— Ester — meu irmão gritou —, o que está fazendo sozinha aqui?! É muito perigoso!

Me virei, atordoada.

— Não sei — respondi simplesmente.

Não podia contar ao meu irmão sobre o convidado surpresa ou suas palavras confusas, infelizmente, e era horrível dizer isso, eu não confiava nele para isso. Asher dava trabalho demais para o exército e meu irmão era um dos comandantes, a relação boa e amigável deles certamente havia ficado no passado.

— Você não está bem — ele concluiu. — Vem, vamos para casa — chamou-me e eu o acompanhei na caminhada.

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