II

Meu coração batia tão forte que parecia ter chegado muito perto do ouvido, meu estômago estava embrulhado e senti uma vontade súbita de vomitar... e de chorar. De novo. O meu nome ecoava em minha mente repetidas vezes, como um mantra desesperado. Ester, não Estrela como ele sempre havia me chamado. Aquilo me matou mais um pouco. Até o fim daquela semana não sobraria nada em mim vivo.

Apertei mais forte a pequena parede a minha frente e tentei me fundir a ela, mas, infelizmente, foi impossível. Fechei os olhos, por alguns segundos que pareceram horas, e respirei fundo, tentando conter as lágrimas. Não ia chorar. Não podia e não o faria. Seria forte. Pelo que restava de mim, pelos meus pais... não podia fraquejar.

— Leon... — proferi com cuidado e calma para que minha voz não embargasse.

Eu pude sentir sua presença cada vez mais próxima, pairando sobre as minhas costas, mas não me virei. Não conseguia, não podia. O medo de manchar minhas lembranças, de ser obrigada a matar aquele menino do passado, me consumia a ponto de fazer-me sentir sufocada.

Não chore. Não chore.

— Ester, eu... — sua voz se perdeu no forte vento que abraçou nossos corpos.

— Não diga nada — ordenei. — Se conseguiu pensar em alguma explicação que considere boa o suficiente para expor sua ausência eu não estou interessada em ouvi-la — decretei friamente.

O silêncio sepulcral tomou o ambiente e eu fui obrigada a fechar os olhos mais uma vez para impedir as lágrimas de rolarem.

Não chore. Não chore.

— Eu não tenho uma boa explicação para isso, Ester — soltou uma longa respiração —, e sinceramente não achei que precisasse até chegar aqui. Até ver novamente essa cidade, ver você... acho que eu não tinha entendido ainda. Eles morreram. Morreram... e eu não estava aqui. Eu não vi seus últimos dias, não me despedi... você realmente acha que desejei isso quando sai daqui?! Não, Ester! Eu nunca quis me afastar de vocês, eu amo... amava meus pais. Mas eu fui atrás da minha felicidade, fui atrás do meu destino... e isso me consumiu.

Fui fraca, mais uma vez. Perdi a batalha contra as lágrimas e elas caíram, uma após da outra.

— E achou? — usei meu melhor tom sarcástico, para tentar esconder o choro. — Achou, Leon? — abaixei a cabeça e balancei em negação.

— Eu... eu acho que sim — murmurou nas minhas costas.

— Fico feliz por você, realmente fico. Mas, para mim, o preço foi muito alto. Eu não o pagaria, nunca. Eles se foram, Leon, os meus... os nossos pais morreram e você não estava aqui. Quando eu os enterrar vou saber que os amei até o fim, e você?

O medo tomava conta de tudo em mim, mas em algum lugar ainda havia coragem e eu me apossei dela para que pudesse virar e encara-lo nos olhos. No instante em que o fiz preferi não ter feito. Aquele era o meu irmão. O corpo, as roupas, a forma de falar, o cabelo, a postura... tudo era de um soldado do rei que eu nunca tinha visto, mas os olhos... os olhos azuis inundados por lágrimas que ele não permitiu cair eram os mesmos do dia em que nos despedimos há cinco anos atrás.

— Estrela... — o apelido foi levado pelo vento, mas não antes de ser processado pelos meus ouvidos e guardado em meu coração.

Seus braços me rodearam como quando éramos crianças e as lágrimas que ele finalmente deixou rolar caíam em minha cabeça. Achei que nunca mais fosse vê-lo novamente, muito menos abraçá-lo, mas lá estávamos nós. Cada um com seus problemas, suas crises, suas culpas, mas acima de tudo éramos irmãos. Não, não havia um laço de sangue nos ligando, mas memórias criadas durante uma época em que tudo era mais fácil, onde os problemas eram tão distantes. Eu sabia muito bem que ele não era o mesmo, assim como eu também não, e aquilo me amedrontava. Eu não conhecia quem ele havia se tornado, mas sabia quem ele realmente era antes dos sonhos, dos desejos... da liberdade desmedido ocuparem sua cabeça e tomarem um espaço maior do que a família em seu coração. Torcia para que fosse o suficiente, apesar de algo em mim gritar a plenos pulmões que não seria.

O que eu faria a partir de hoje? Ele me deixaria sozinha novamente?

Não grite. Não grite.

— Estrela — afastou-se de mim e voltou a olhar-me nos olhos com seriedade —, nós precisamos conversar sobre o como tudo ficará agora.

Estremeci.

Não grite. Não grite.

Eu estava com medo. Muito. Ele havia me deixado sem olhar para trás uma vez e poderia muito bem fazer isso novamente apesar de tudo o que disse e ouviu. Ao mesmo tempo eu não era ingênua ao ponto de pensar que ele deixaria tudo para ficar aqui comigo, sabia que se ele decidisse cuidar de mim teria que ir para capital, e tudo que eu vivera até agora estava aqui. Nessa cidade.

— Leon...

— Você irá comigo, Ester — decretou antes mesmo que eu pudesse completar a frase —, isso nunca esteve em discursão.

Engoli seco.

— Minha vida está aqui, Leon — me abracei.

— Os nossos pais morreram, o que há aqui para você?

Recuei alguns passos, assustada. Eu percebi uma das coisas que haviam morrido nele: o jeito carinhoso. Meu irmão não falava mais, ordenava. Sempre. A cada palavra era como se estivesse falando com um de seus soldados. Era aberto, cru, sem rodeios, nem o mínimo de cuidado ou responsabilidade com as palavras e o tom que usava.

— Meus amigos... os vizinhos... — seu olhar quase cínico me fez continuar, mais raivosa do que desejava: — Me desculpe se não consigo ser tão desapegada quanto você, irmão.

Ele piscou, atordoado. Pareceu atingido por um tapa inesperado e eu me senti culpada. Leon não queria me provocar, nem ser grosso, mas era como ele se expressava agora, eu só não estava acostumada com o "novo irmão" que a vida tinha me entregado.

— Eu não quis...

— Tudo bem. Eu entendo — interrompeu minha explicação. — Você não tem a mínima obrigação de me perdoar agora por cinco anos de ausência.

Eu me calei porque não tinha mais a ser dito, mas desejei gritar. Eu devia perdoa-lo... foi o que meus pais me ensinaram, entretanto era complicado quando se estava com o coração tão quebrado quanto o meu, quando se passaram tantos anos remoendo a saudades e pensando o que deveria ter feito que o impulsionou a ir embora, porque ninguém larga a família sem olhar para trás se não possuir um bom motivo. Por isso limitei a dar um aceno afirmativo como resposta.

— Bom... — quebrou o longo silêncio que havia se instaurado — nós precisamos realmente conversar sobre os detalhes da nossa partida.

— Eu não acho que há muito o que ser conversado, você já decidiu por mim — virei-me novamente, ficando de castas para ele.

— Será o melhor, Ester. Eu prometo.

Eu realmente esperava que fosse, realmente, afinal que outra alternativa eu tinha?

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top