I


Dias atuais:

O céu sem estrelas espelhava meu estado de espírito: sem ânimo, sem brilho, sem luz. Desde a minha infância meus pais me me mostravam os astros iluminando a terra e me diziam que eu era como eles, que eu havia chegado de surpresa, mas abrilhantara as suas vidas.

Hoje, eu havia perdido os dois. As duas pessoas que no passado tinham me dado uma chance de viver, de sobreviver, haviam ido e nunca mais voltariam para mim. Nunca mais poderia pegar nos cabelos da minha mãe, senti-la pentear os meus ou ouvi-la cantar para me fazer dormir após sonhos ruins. Nunca mais poderia ouvir a voz do meu pai, nem as suas histórias escabrosas, ou sentir o seu abraço me acalmando a alma. Eles foram embora... para sempre.

Na última noite com eles pedi para que meu pai me contasse uma história, eu não sabia o porquê, mas sentia a necessidade de ser embalada por sua voz, assim como quando era criança. Ele sorriu, perguntou-me, com bom humor, se não me achava muito velha para isso, mas ainda sim contou-me uma das histórias do seu Deus, aquela que tinha inspirado meu nome: a rainha Ester. Eu a ouvi, bebendo de sua sabedoria. A escutara tantas vezes durante toda a minha infância que a tinha gravada em minha memória, mas naquela noite parecia ainda mais especial e realmente era, era a nossa despedida.

— Estrela — Dulce, mãe da minha amiga mais próxima, veio até mim, no terraço. — A resposta ao recado que enviamos para o seu irmão mais cedo acabou de chegar: ele está vindo para o enterro.

— Obrigada, Dulce — agradeci.

— Eu gostava muito da sua mãe, Ester, e tenho muito carinho por você também — confidenciou. — Sei que este lugar te trás muitas lembranças, mas precisamos ir para a minha casa. Não é seguro aqui — confirmei com a cabeça e vi ela me deixar sozinha.

Meu coração estava pesado. Eu crescera neste lugar e nunca imaginei que em algum momento ele não seria seguro para mim. Ontem, quando me despedi dos meus pais para ir dormir na casa da Dulce, não imaginei que os encontraria mortos quando retornasse. Nunca passou pela minha cabeça que alguém pudesse entrar em minha casa e levar a vida dos meus pais por... dinheiro. O quanto eles valiam? Para mim, tudo. Para os ladrões, algumas peças de ouro e roupas.

Ergui-me com dificuldade, sentindo a saudades apertar minha garganta e quase me impedir de respirar. Eu puxei com dificuldade uma respiração profunda, segurando o choro. Meu coração estava quebrado, destruído, mas eu não podia deixar tudo pior do que já estava. Não tinha esse direito.

Assim que chegamos na casa da minha amiga e me aconcheguei no quarto que sobrava, chorei pela milésima vez naquele dia infernal. Naquela noite não consegui dormi com as lembranças bombardeando a minha mente.

O dia seguinte conseguiu ser pior que o anterior. A pena nos olhos das pessoas me fazia querer voltar para a cama e me cobrir inteira, mas eu não podia, todos queriam a minha presença e esperavam que eu fosse educada ao receber as suas condolências. Na metade do dia eu já está cansada, exausta na verdade, desejando apenas a minha cama.

— Está ansiosa para ver o seu irmão? — minha amiga indagou, animada.

Essa era uma pergunta engraçada justamente porque eu não sabia muito bem como estava me sentindo quanto a volta do meu irmão. Eu o amava e sentia saudades dele, óbvio, mas já fazia tanto tempo que ele havia ido e não mandava ao menos notícia de vida... acho que nem o reconheceria mais se visse. É como se ele não fosse mais o menino que me protegia quando criança, eu não sabia explicar. Eu sentia algo parecido com medo de encontrar outra pessoa e ter que rechear minhas memórias tão boas de alguém que... não era o meu Leon.

Quando fui deixada na porta da casa dos meus pais ele tinha cinco anos. Durante a infância brincávamos de tentar imaginar como foi minha recepção – uma situação mais mirabolante que a outra –, mas sempre terminávamos com Leon arrependido de ter ido dormir na casa da nossa avó, agora já falecida. Tudo que ele lembra é que no outro dia eu já estava nos braços da minha mãe e não muito além disso. Aos meus treze anos ele entrou para o exército contra a vontade do papai e da mamãe, então, saiu de casa depois de uma grande briga e um ano após, da cidade. Desde então não nos falamos com frequência.

Entretanto agora eu iria vê-lo... no enterro dos nossos pais. Era uma situação completamente deprimente, portanto, ansiosa não é exatamente como eu me sinto. Está mais para... preocupada, cansada e sem alternativas, mas engoli as palavras que expressavam a realidade e respondi: — Sim, amiga, estou ansiosa — ela sorriu, contente pela minha resposta simples e não interessou-se em saber mais então não me preocupei em compartilhar o desespero que me corroía por dentro.

Pela milésima vez naquelas horas dolorosas a dura realidade da solidão me abateu. Eu perdera meu pais, perdera... tudo. Só eles sabiam quando eu estava mentindo, só eles conheciam os meus momentos de queda, só eles sabiam quando eu estava escondendo os meus sentimentos e eles haviam ido. Definitivamente. Sem volta, sem meias palavras, somente o fim. Agora, assim como no meu nascimento, eu estava sozinha.

— Eu... eu preciso respirar um pouco — cuspi as palavras o mais rápido que pude e corri até o andar de cima da casa de Dulce.

O desespero me corroía a alma. Mais uma vez lágrimas vieram à tona e eu me perguntei quando será que elas acabariam, quando nem mais elas eu teria para me consolar.

O vento forte me abraçou assim que adentrei no terraço da residência de minha amiga. Era maior que o nosso, assim como toda a casa, mas não parecia tão bonito, tão aconchegante, quando aquele em que me refugiara durante toda a vida.

O céu voltara a brilhar, diferente de mim. Ele voltara a viver, diferente dos meus pais. Um segundo foi o suficiente para eu me lembrar de Deus e perguntar-me aonde Ele estava naquele momento. Prevalente muito feliz com os anjos cantando Santo para que olhasse para mim, simples menina, ou para as pessoas que me criaram.

Deus não me via, não olhava para mim. Duas vezes me deixou sozinha: no meu nascimento e agora. Eu não era boa e ele sabia disso, não era digna do Seu amor.

— Ester... — o sussurro foi um grito aos meus ouvidos.

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