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Bianca Araújo


— Como vocês estão nesses meses que ele voltou?

Respiro fundo antes de dar um gole na xícara com café e poder responde-la.

— Estamos bem na medida do possível, ele ainda está atrás de emprego, mas não tem formação com nada e quando fala que é ex-presidiário... Mandam embora no mesmo instante. — Suspiro com pesar.

— Olha amiga, sabe que eu e o Onório conversamos sobre toda essa situação de vocês, são nossos amigos e não nos importamos em ajudar.

Encaro com carinho a mulher morena de cabelos lisos preto a minha frente. Cassandra e eu somos amigas de longas datas, inclusive fizemos pedagogia e nos formamos juntas. Entre nós duas sempre rolou o seguinte ditado: toda loira tem sua morena. Porém no nosso caso é: toda ruiva tem sua morena. E sempre fomos muito unidas.

— Onório vai ajudá-lo? — Pergunto com esperança.

— Ele está contratando para uma nova obra e deixou uma vaga para o Leandro, se ele quiser.

O sino da escola bate indicando que o recreio acabou e já nos levantamos pegando nossas coisas para as próximas duas aulas.

— Vou conversar com o Leandro. Deve ser um pouco difícil no começo, mas é melhor que nada.

Cassandra me responde com um sorriso e me abraça de lado quando saímos da sala dos professores depois que os outros já saíram apressados. Os outros são legais, não me encaram torto ou com desprezo apesar de saberem sobre meu marido, mas hoje Cassandra e eu ficamos mais no canto, eu precisava desabafar coisas mais intimas.

— E o churrasco lá em casa domingo, precisamos inaugurar aquela piscina! — Me encara com os olhos de jabuticabas pidões e a voz manhosa.

— Cass, é uma caixa d'água em um buraco. — Recordo esse detalhe o que a faz revirar os olhos.

— Eu sei, eu sei. Já reclamei com aquele homem desnaturado. Adora se encher de obras e reformar a casa dos outros, mas a nossa... — Deixa a frase no ar.

— Faz greve mana, ele logo se ajeita. — Rimos e nos separamos no segundo corredor.

Cassandra é casada com Onório a bastante tempo. Faz mais ou menos seis anos que nos formamos e eles têm quase quatro anos de casados. O cara é engenheiro civil e faz os trabalhos muito bem, apesar disso, quando o assunto é a casa deles, Cassandra falta bater no homem para ele fazer as coisas.

Entro na sala cheia de enfeites e fecho a porta depois que percebo que todos meus alunos na média cinco/seis anos estão em seus lugares e retomo a aula. Estava tudo indo bem, tirando a parte de chamar a atenção porque se dispersão muito fácil e até em uma formiga andando no teto eles prestam atenção.

— Antônio e Carlos, se eu tiver que chamar a atenção mais uma vez de vocês dois, vou chamar a diretora Tabata!

Altero o tom de voz aos dois garotinhos que logo se aquietam por medo da diretora que realmente é muito assustadora e voltamos a formar silabas com as palavras no quadro.

Para meu alívio, o último sinal toca e já auxilio as crianças a guardarem seus materiais e ficarem sentados quietinhos esperando os pais, aos poucos eles vão chegando, me cumprimentam, chamam o filho que se despedem com um aceno de mão e a sala vai se esvaziando.

Depois de guardar algumas coisas e organizar a sala, encosto a porta e retorno para a sala dos professores para bater o ponto e vejo que Cassandra já está ali.

— Não esquece de conversar com seu marido.

Me relembra deixando um beijo na bochecha em despedida e sai apressada, no mínimo Onório já deve ter ligado avisando que está esperando-a no estacionamento. Só não pego carona porque moramos longe uma da outra e não da rota. Então sigo até o ponto de ônibus mais próximo para chegar à estação, pegar a linha Belford Roxo e seguir para o Jacarezinho.

Quando desço no bairro, meu medo já ocupa mais espaço da minha mente e corpo. Consigo ver o carro da polícia civil virar uma esquina mais à frente e rezo mentalmente que estejam apenas de passagem. Meu olhar fica atento a toda movimentação ao redor enquanto caminho até minha casa e quase morro do coração quando passo na frente de um salão que frequento e as mulheres dentro dele estão todas animadas e dando altas gargalhadas, fazendo o maior escândalo na verdade.

— Que cara é essa Bianca? Parece que viu fantasma!

A dona do salão, dona Iris me olha curiosa e solto o ar com força sentindo meu corpo amolecer.

— Dona Iris levei um susto com as risadas, só isso. — Sorrio nervosa.

— Entra aqui menina, você vem fazer as maquiagens sábado, né?

— Claro, sabe que é sagrado.

As outras comemoram mais animadas e sorrio mais tranquila até me sentando em uma cadeira vaga. Todo sábado tem farra e muitas delas até sobem o morro para aproveitar os bailes funks, mesmo sabendo dos riscos. E eu, como fiz alguns cursos profissionalizantes de maquiagens, combinei com dona Iris de todo sábado vim atender a clientela que quer chegar arrasando. O que tem sido ótimo, é uma grana extra para mim que tive que aprender a virar sozinha com a casa e todas as contas em um piscar de olhos.

— Gente eu vou indo! — Anuncio.

— Vai lá e fala para o teu homem que estamos esperando os bolos que ele fazia.

Uma das mulheres fala e outras concordam, eu apenas sorrio voltando meu caminho. Eu falei pra ele que seria bom voltar fazer os bolos. O povo já esqueceu o que aconteceu.

Meu coração quase sai pela boca quando vejo outro carro de oficial, porém esse é do exército e só falta estarem procurando alguém do comando vermelho. O que costuma acontecer e o pior é que eles se escondem na casa de pessoas inocentes. Apresso meus passos e espero que Leandro esteja em segurança, eles gostam de provocar as pessoas, principalmente quem já foi para prisão.

Abro o portão de grade alta e todo fechado, quando o fecho solto todas as minhas coisas no chão puxando o ar com força para meus pulmões. De alívio, por ver Leandro mexendo no carro. Ele ergue as duas sobrancelhas quando me vê, seus olhos me avaliando e vem até mim com pressa.

— Amor, o que houve?

Sem conseguir responde-lo, apenas o abraço, me encolhendo em seus braços deixando toda tensão do meu corpo ir embora. Respiro fundo novamente puxando seu cheiro para mim, me deliciando com o carinho que ele faz em meu cabelo.

— Ruivinha, fala alguma coisa. — Pede apreensivo.

— Não foi nada. — Sussurro.

Ele me aperta em seus braços, mas logo me afasto deixando um beijinho em seus lábios rosados e encarando seus belos olhos escuros que me avaliam curiosos. Avalio sua barba rala, a sobrancelha grossa e até uma tatto que ele fez de baixo do olho esquerdo. Por Deus, é uma saudade que nunca morre. Deixo mais um beijinho e me recomponho.

— Está mexendo no carro?

Mudo o foco para o carro HB20 preto que ele mexia no motor e no mesmo instante, uma bola de pelo preta de quatro patas que provavelmente estava no fundo da casa, vem correndo em nossa direção e me escondo atrás de Leandro que recebe o primeiro impacto quando Diplo pula nele.

— Pois é, não saiu muito da garagem, quase enferrujou. — Responde com dificuldade por estar segurando Diplo.

— Não sou louca de sair de carro sozinha aqui. — Digo estridente. — É isso aí meu filho, aproveita seu pai!

Digo me afastando recolhendo minhas coisas no chão e corro para dentro de casa. Não me leve a mal, Diplo é um bom cachorro, o que me assusta é o tamanho dele e desisti de leva-lo para passear, já que sempre me arrasta pelas ruas. Agora que o pai dele voltou, quase não me dá moral também, e eu corro pra trocar de roupa e depois de espairecer um pouco que rolo no chão com ele.

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