C A P Í T U L O 2 - Bruxas devem se curvar?
Ao passar pela porta de casa,não precisei ser nenhuma vidente para saber que não precisaria contar aos nossos pais,eles já sabiam. O olhar em seus rostos me dizia "Como pôde Hilary? " Já cheguei em casa me sentando na mesa junto com os demais, o jantar estava posto.
"Eu posso explicar" digo com calma,sabendo que o terreno estava instável no presente momento. Meu pai me olhava com raiva,minha mãe com medo e meu irmão dizia silenciosamente que não tinha sido ele.
"O que significa isso,Hilary? Essa carta nas suas coisas? Estava pensando em fazer isso sem contar para ninguém." Não era uma pergunta. " Sabe o quanto é importante dizer a verdade nesta casa,seja transparente. Você vai para Nefivil?" Penso em inventar milhares de desculpas,em me desculpar e dizer que não,que estava louca e que tinha mudado de ideia e finalmente voltado a razão, é o que eles gostariam de ouvir mas não posso. Não posso continuar a viver assim,como uma prisioneira.
"Eu quero ir e eu ia contar assim que chegasse em casa,recebi a carta hoje cedo e estava feliz porque fui aceita. Eles me querem lá, pai. Se não teriam recusado minha matricula. Não posso viver escondida para sempre,todos nos sabemos que se não fizermos nada a respeito de como somos tratados,isso nunca acabará. Você sempre foi pela paz,realmente acredita que como estamos agora é a verdadeira paz?" Meu pai ficou mudo por um instante,não sabia se pela raiva ou por medo ou porque sabia que eu estava certa. Minha mãe finalmente se pronunciou:
"Você está certa,como vivemos não pode ser chamado de paz mas é muito difícil para mim e para o seu pai,deixar que você vá para aquele lugar,sabe que vai estar em perigo. Como poderemos dormir tranquilos? "
"Confiem em mim. Eu sei me cuidar." digo,tentando entender o lado deles de preocupação mas ao mesmo tempo não podendo abrir mão de algo tão importante. Ary se levanta de sua cadeira.
" Também não estou confortável com isso,porém Hilary tem um sonho. Não podemos impedi-la de tentar. Todos nos já tivemos sonhos. Não é? " Pode parecer uma frase ingênua e completamente frágil mas foi o que fez nossos pais cederem por mais impossível que pudesse parecer. Meu pai se levantou e saiu da cozinha,voltou com algo em suas mãos.
"Hilary,leve isso com você. Só assim estarei mais calmo." Ele abre suas mãos e vejo uma pequena bola dourada brilhante em suas mãos.
"Mas...isso é um portal,posso fazer um eu mesma." Disse,não compreendendo o que ele queria com aquilo.
"Não é só um portal. Use só em emergências de extremo perigo. " Pego a pequena bola brilhante de suas mãos e a guardo em meu bolso da jaqueta.
"Obrigada, pai." Ele me dá um breve aceno e o jantar se desenrola o restante da noite em um silêncio precioso.
Depois de duas longas semanas,havia chegado a hora de pegar o trem para Nefivil,não sabia nem descrever o que estava sentindo,animação, medo,ansiedade,pensamentos acelerados. Tudo em uma mistura só. O trem estava cheio de pessoas que não conhecia,era muito difícil eu viajar de trem,ainda mais um especialmente feito para novos alunos do Nefivil,achei que teria contato com alguns alunos de lá mas eles eram bem rigorosos em colocar cada um em sua devida cabine e trancar as portas com magia. Não entendia porque isso era necessário mas não me importei muito,afinal eu estava perdida em meus pensamentos e aproveitar esse tempo para organizar minhas emoções seria vital para um bom convívio futuro com meus colegas de classe. Assim eu esperava. Ao passar das árvores verdes e saudáveis,me imaginava sentada em uma cadeira ouvindo meu professor,com um monte de alunos em volta,devia estar assustada mas a animação superava o meu medo e apreensão. A única coisa que podia fazer era sair da cabine para ir ao banheiro que também ficava separado por uma barreira magica dos demais. Apenas fui até lá e voltei a me sentar,passaram-se algumas horas até eu finalmente poder reconhecer a beleza das ruas de Nefivil,realmente era tão linda quanto diziam. Tudo parecia... mágico.
Paramos bem em frente a porta da escola de Nefivil e as cabines foram liberadas magicamente na hora,agora poderiamos nos falar se quiséssemos,mas não vi ninguém parando para fazer isso,pelo contrário todos estavam super serios e apenas andaram até as portas da escola,apenas segui o ritmo e fui junto com os demais. Antes de podermos subir as escadas para adentrar a escola,havia um homenzinho baixo,de cabelo rosa e barba da mesma cor que nos recebeu e nos guiou até os dormitórios,foi explicado onde meninas e meninos ficariam,o que não eram juntos,havia um dormitório para os dois sexos,o que achei bem inteligente e confortavel. Foi nos apresentado as enormes salas de aulas,todas elas pareciam saidas de castelos antigos e super enfeitados,parecia que todas tinham temáticas diferentes,como o castelo de uma princesa, até as masmorras de uma prisão. Imaginei para que cada uma delas servia,o lugar era tão grande que tinha certeza que mesmo com as instruções recebidas não seria capaz de achar o banheiro sem ajuda. Enquanto iamos para a apresentação dos pátios,alguém tocou em meus ombros me fazendo virar rapidamente,era um menino de cabelos castanhos,seu rosto parecia o de uma criança.
"Oi,não precisa ficar nervosa. Você deve ser caloura aqui,estou aqui a uns anos, pode relaxar,você não vai se perder. "
"Como você... " começo,surpresa com sua abordagem.
"Feitiço de ler mentes,vão ensinar ele a você daqui a uns meses,é bem útil mas funciona só alguns instantes e dá uma baita dor de cabeça." ele sorri e meche nos cabelos "Sou Ivan,posso saber o nome da senhorita?" Ivan estende a mão em cumprimento. Se eu falasse meu sobrenome,quem sabe o que ele faria? Já que ele não sabia quem eu era, achei melhor dessa forma e disse somente meu primeiro nome.
"Hilary,muito prazer em conhecer. Sabe me dizer quando começam as aulas de verdade?"
"Apressadinha em,só amanhã,hoje é mais para apresentações e instalações,aliás meu quarto sempre fica no 301. Não me entenda mal,não estou dizendo nada indecente,é que nessa escola a regra é que não podemos dormir juntos e blá,blá, blá mas podemos fazer visitas. Posso te apresentar ao pessoal,se quiser." Ele pisca para mim esperando uma resposta.
"Sim,é claro. Conhecer gente nova está nos meus planos" dou um sorriso verdadeiro.
"Legal,passa lá no horário da noite então,espera,esquece o que eu disse,vou buscar você no seu dormitório,é fácil se perder por aqui" Ele dá um aceno e some na multidão. Ia perguntar como ele ia achar meu dormitório,mas ele já tinha ido.
As apresentações,longas apresentações,devo dizer acabaram e fomos liberados para comer e dormir se assim quiséssemos,o toque de recolher era só depois das meia noite o que achei muito bom. Fui ver meu dormitório e encontrei mais duas colegas de quarto,elas já tinham escolhido suas camas e estavam forrando com lençóis de corações e estrelas ao que consegui ver. Nada melhor do que dar o seu toque ao lugar.
"Está bem,vamos logo as apresentações, se seremos colegas de quarto,vamos ter que nos aturar e unir forças,sou Stephanie,sou uma boa pessoa e não quero ficar perto de gente falsa,se uma das duas for duas caras,já saiba que não poderemos ser amigas. Prazer. " Diz sorrindo e nos olhando com certa expectativa,fez-se silêncio e foi quando percebi que a outra menina não ia responder.
"Prazer, Stephanie. Meu nome é Hilary, não sou duas caras então não se preocupe,vou só pôr minhas coisas aqui e começar a desempacotar umas roupas,legal conhecer vocês." começo a tirar minhas roupas dobradas da mala e colocá-las dentro do guarda-roupa branco. Stephanie se vira para a outra menina que parecia ser do estilo gótica.
"O gato comeu sua língua?" diz Stephanie tentando tirar uma resposta dela. A menina a fuzilou com o olhar e disse apenas:
"Greta,não estou afim de papo hoje." Deita em sua cama agora coberta de estrelas pretas e fecha os olhos. "Não me acordem até amanhã."
Stephanie e eu nos olhamos e damos de ombro. Talvez ela só esteja cansada da longa viagem até aqui.
"Gosto de trocas roupas e fazer noite das meninas,sinto pena de vocês de verdade,não sou fácil de conviver,posso ser bem irritante." diz ela agora pegando um secador de sua bolsa rosa.
"Estou achando você bem legal,por enquanto. Todos nos podemos ser irritantes" Meu celular toca na hora "Alô?" era Ary querendo saber se cheguei bem. Conversamos um pouco e desligo o telefone. Stephanie me olha com curiosidade.
"Namorado?" pergunta.
"Credo, não! Ele é meu irmão" digo soltando uma risadinha.
"Gatinho?" Diz ela em um sussurro,não sei se devo responder ou não. Decido apenas responder com outra pergunta.
"Você é nova aqui?" ela faz que não com a cabeça.
"Esse é meu segundo ano aqui e se quer uma dica,fique longe do Ivan. Ele parece legal com aquele rostinho de anjo mas é um espião do diretor e ele sim é duas caras."
"Quando ele falou comigo,parecia see legal,porque diz isso dele? " Ainda não sei em quem confiar e nem conheço as pessoas direito,não da pra sair julgando assim.
"Experiência própria. Se não acredita,mete a cara. Depois não diz que eu não avisei. " Diz Stephanie e coloca suas pantufas de coelho. "Vou ter que fazer igual aquela garota ali e dormir um pouquinho,não consegui dormir nada no trem pra cá. Boa noite." Pega sua coberta e deita de costas para mim.
"Boa noite,Stephanie." Fico observando o horário e arrumando minhas coisas para que fiquem mais organizadas,quando está perto das dez horas, tomo um banho e fico esperando Ivan chegar. Ele não demora muito a me achar e não me seguro em perguntar como ele sabia onde estaria meu quarto.
"Tenho minhas fontes." foi tudo o que consegui dele. Andamos um pouco até chagar no 301,onde estava rolando algo que nem sei como devo chamar, festa? Rave? Grupo de estudos que não era. Ivan me puxou gentilmente pelo braço e me levou pelas pelo menos dez cabeças de pessoas que sinceramente não sei como couberam em seu quarto. "Hilary, essa é a galera. Viviane,Dirt, Olivia. São meus parceirinhos." Pela voz de Ivan ele já devia estar meio alterado e olha que tinham acabado de dar dez horas. Me deram um "Oi" que pareceu ser sincero.
"Aí,saco olha só o que eu acabei de descobrir" disse um menino de porte alto que Ivan não havia me dito o nome. Ele mostrou algo para os outros alunos em seu celular. "Um dos Port vão estudar aqui esse ano. Acredita nisso?" Ah, merda.
"Me dá isso aqui. " diz Ivan pegando o celular da mão do garoto. Ele parece estar lendo algo.
"Puff" zomba Ivan "Deve ser mentira,as pessoas adoram inventar as coisas." Devolve o celular e logo se distrai falando com outras pessoas.
"Mas não seria divertido se isso acontecesse? Quer dizer,quanto tempo não temos um Port estudando em qualquer lugar que seja?" diz Olivia.
"Não seria nada divertido Olivia,os Port são perigosos." Rebate Viviane.
"Pra mim, alguém do sangue Port nunca pisaria em um lugar como esse. Aqui não é o lugar deles." Dirt diz com odio no olhar. "O que você acha,Ivan?"
Ivan ouve seu nome sendo mencionado e volta sua atenção para Dirt. "Qual foi a pergunta?" Naquele momento tudo o que eu conseguia pensar era que eles eram uns preconceituosos por me julgarem,julgarem todos os Port dessa maneira,sem nem ao menos nos conhecer. Não poderia ficar perto de pessoas que odeiam o sangue que corre em minhas veias.
"Ele perguntou o que acha de um Port entrando em Nefivil? "Digo tentando parecer calma,porque queria saber o que ele achava disso,queria saber se pra ele eu também era alguém desprezível.
"Pra mim tanto faz. Desde que não chegue perto de mim." diz Ivan dando de ombros. Foi bom que eu não tivesse me apresentado com o sobrenome,Ivan e seus amigos poderiam ter disfarçado seu ódio mas aqui onde ninguém sabe quem sou,eles não sentem medo de falar o que realmente sentem. Quer saber? Porque eu deveria ficar triste com isso? Se tem uma coisa que meu pai me ensinou,é que bruxas não devem se curvar. Pego meu casaco que havia deixado na cama de Ivan e me viro para sair. Ivan vem atrás de mim.
"Ei, calma aí. Aonde está indo? " pergunta ele confuso. Minha raiva era tanta que já não me importava quem soubesse sobre mim,que soubessem e que sentissem o medo que eles mesmos criaram. Falei em alto e bom tom para que todos ouvissem:
"Pra longe de você,já que meu sangue PORT não é bem vindo aqui." Todos se calaram no mesmo instante.
"Você..." começou Ivan mas não esperei ele terminar de tanta raiva que sentia,apenas sai dali o mais rápido possível. Foi um erro. Stephanie estava certa.
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