Capítulo - 28 - Latidos - Parte 3
POV Miguel
Após sermos nocauteados pelo maior pesadelo de nossas vidas, a noite passou rapidamente em meio a orações e a pedidos fervorosos para que tudo ficasse bem. Mia estava exausta, visto que já não conseguia dormir bem há algumas noites devido às cólicas, somado a toda a exaustão física e psicológica que ela foi submetida nas últimas horas. Após muito choro, ela finalmente se rendeu cochilando no meu peito enquanto eu fazia um cafuné em seus cabelos. Meu coração estava esmagado ao ver seu lindo rosto marcado por lágrimas e tensão e ao ouvi-la soluçar mesmo durante o sono. Por vezes, seu corpo estremecia sob o meu, me obrigando a sussurrar em seu ouvido que Laura estava bem e que tudo daria certo. Nossos familiares revezavam seu tempo no hospital para nos ajudar e trouxeram tudo que precisávamos de casa, visto que tudo aconteceu tão de repente que corremos para o hospital apenas com a roupa do corpo.
Na manhã seguinte, o médico realizou novos exames e constatou que a dilatação de Mia não havia mais aumentado, o sangramento havia cessado e as dores já eram bem mais leves do que na noite anterior. Suspiramos aliviados com a constatação e senti como se um elefante tivesse sido retirado do meu peito quando ele autorizou que Mia fosse desconectada de tantos aparelhos. Algumas horas mais tarde, a ultrassonografista realizou uma ecografia em 4d e fomos capazes de ver o rostinho de Laura com exatidão, nos arrancando lágrimas de emoção e felicidade.
-Papais, essa é a princesinha de vocês! - A médica falou assim que focou a imagem no rostinho de Laura que mexia as mãozinhas em frente ao rosto e abria e fechava a boquinha como se bocejasse, nos fazendo rir.
-Oi, meu amor! Você é tão linda, princesa. Igualzinha à sua mãe. - Falei emocionado e Laura agitou as mãozinhas como se entendesse que eu estava falando com ela, me arrancando um sorriso bobo.
-Filha, você é tão perfeita! A mamãe te ama demais! - Mia fala com a voz embargada. - Eu sei que você está com sono, mamãe promete que essa noite você vai poder dormir direitinho e descansar bastante, ok? - Completa assim que vê Laura bocejar mais uma vez.
Quando o exame terminou, a médica imprimiu uma nova imagem do rostinho de Laura para a nossa coleção, dessa vez em 4d.
-Amor, ela tem o seu nariz. - Apontei emocionado sendo incapaz de parar de babar em cima daquela perfeição. - Olha esse perfil, Mia! O narizinho arrebitado igual ao seu! - Falo bobo e Mia sorri em minha direção. Naquele instante o universo se encontrava exatamente onde deveria estar.
Passamos mais aquela noite no hospital, Mia aplicou a segunda dose da injeção de corticoide por via das dúvidas, mas graças a Deus o universo conspirou ao nosso favor e Laurinha continuou quietinha e saudável dentro da barriga da mamãe. Dessa forma, Mia teve alta na manhã seguinte com recomendação de muito repouso e de correr para o hospital a qualquer mínimo sinal de trabalho de parto.
A partir daquele dia, começamos a trabalhar do escritório da nossa casa e a evitar todo e qualquer estresse possível. Nos primeiros dias insisti para que Mia não trabalhasse, mas com o tempo fui percebendo que a ociosidade não fazia bem à ela, de forma que conversando com a médica, ela voltou a trabalhar em sua coleção direto da nossa casa. Nas poucas vezes em que eu precisava sair, alguém de nossa família ficava com ela até que eu voltasse. Em uma dessas vezes, fui abordado por jornalistas que questionaram o nosso afastamento da mídia nas últimas semanas, visto que teve eventos importantes da Colucci que nós não comparecemos e isso era extremamente raro. Desconversei rapidamente, mas aquilo acendeu o sinal de que precisávamos divulgar algo para a imprensa antes que chovesse fofocas que pudessem estressar Mia.
Quando cheguei em casa, conversamos e decidimos lançar uma nota simples e breve no instagram, explicando o que estava acontecendo e pedindo a compreensão de todos.
@/miacolucci e @/miguelarango Há cerca de duas semanas fomos surpreendidos durante a madrugada pelo maior susto de nossas vidas, a gravidez de Laura que até então era completamente saudável, se tornou de alto risco devido a um trabalho de parto extremamente prematuro iniciado com 28 semanas, sem nenhuma causa aparente. Felizmente, graças à Deus e aos médicos que foram incansáveis, conseguimos estagnar o trabalho de parto que não avançou. Contudo, estamos vivendo um momento extremamente delicado em que precisamos de repouso e tranquilidade total visando o bem estar de nossa filha, por esse motivo, estamos afastados das redes sociais e dos eventos da empresa. Pedimos a compreensão de todos os nossos fãs e da imprensa, além de muitas orações e boas energias para que tudo termine bem. Obrigada pelo carinho! Com amor, Mia, Miguel e Laurinha. 🙏🙏🙌❤️❤️❤️
Quando Mia completou 30 semanas de gestação, Roberta, Josy e Lupita organizaram um chá de fraldas para Laura na nossa casa. Óbvio que não precisávamos de nada material, mas foi um evento familiar voltado para desejar saúde e emitir boas vibrações para Laura e Mia. Foi maravilhoso para a minha esposa se sentir acolhida e amada, embora ela não reclamasse nem por um segundo, eu sei que estava sendo extremamente difícil para ela ficar sentada na cama ou no sofá e depender de alguém para absolutamente tudo. Como nossa casa tinha escadas, ela ficava extremamente limitada em seus movimentos, dependendo de mim para absolutamente qualquer coisa.
Pela manhã, eu carregava Mia no colo para o andar de baixo, onde ela insistia em permanecer durante o dia. Minha esposa estava pegando verdadeiro horror em ficar trancada no quarto e por isso, insistiamos em manter a rotina o mais normal possível. Após o almoço, eu carregava ela novamente para o quarto, onde deitavamos juntos por uns trinta minutos, tempo suficiente para Laura poder se esticar na barriga da mãe. Depois disso retornavámos para o andar de baixo, onde Mia trabalhava em nosso escritório.
@/miacolucci Laura ainda não chegou, mas já é extremamente amada por todos a sua volta! Queremos agradecer muito as titias /robertapardo /lupitafernandez /josycolucci /lollyarango e às vovós /helenaarango e /almareis que organizaram esse dia especial para mim e para a minha mamãe! Nós amamos muito vocês e não sei o que seria de nossas vidas sem vocês ao nosso lado! #babygirl #mãedemenina #laura #laurinha 🙏🙌🙌🙌🥰🥰♥️♥️♥️💞💖💕😍🤩⭐💫💯😻🖤🤎💜💜💙💞💚💛🧡❤️🤍💋💓💗💖💝💘♥️❣️💟💌💕
@/miguelarango Nunca serei capaz de expressar minha gratidão pela família abençoada que temos! Obrigado por amarem tanto a Laurinha quanto nós!
Os dias foram passando um a um e juntos se tornaram semanas, e a cada semana que passava era uma grande vitória conquistada. Mia tinha consultas semanais com a sua obstetra e além disso, uma enfermeira da equipe passava ao menos duas vezes na semana na nossa casa para avaliar a situação e auscultar os batimentos de Laura. Não aconteceram novos episódios de sangramento ou dores desde então, e Laura se mexia mais do que nunca dentro da barriga da mãe. Cada vez mais era possível visualizar os movimentos, e já tínhamos gravados ao menos dez vídeos memoráveis.
Quando Mia completou 30 semanas, aproveitamos que a tempestade tinha se acalmado e resolvemos fazer o ensaio da gestação de Laura, visto que não saberíamos se ela chegaria até 37 semanas e queríamos ter recordações dessa fase linda. Contratamos a equipe de fotografia e realizamos as fotos no jardim da nossa casa, evitando o máximo de esforço possível para que Mia não se cansasse . As fotos ficaram lindas e eu chorei de emoção vendo o resultado.
@/miacolucci Filha, eu amo sentir você se mexendo dentro de mim, amo você se revirando quando ouve a voz do seu pai e o modo como fica quietinha quando cantamos pra você. Amo o seu bom dia cheio de chutes e a maneira como você se espreguiça quando eu me estico na cama lhe dando um pouco mais de espaço. Sou apaixonada na maneira que você se embola buscando o calor da minha mão sob a barriga e como exige ao seu próprio modo a atenção do seu pai toda pra ti quando ouve a voz dele no ambiente. Eu presto atenção em todos os aspectos do seu dia a dia, amo todos os teus pedacinhos e não vejo a hora de descobrir mais características suas! Obrigada por ter me escolhido tua mãe! #babygirl #mãedemenina #gravidez #30weeks 🤩😍💜💙💚💛🧡💘♥️❣️💟💌💕💖💗💛🧡💯💫😻🥰😍🤩⭐👶🏻🤰🏼
@/miguelarango Sou completamente apaixonado em vocês duas! Minhas princesas, amores da minha vida!
Os próximos dias foram reservados para organizarmos as últimas coisinhas do quarto de Laura. Mia estava sentada na cadeira de amamentação dobrando algumas roupas, enquanto eu tentava pendurar um quadro com o nome de Laura na parede. Estava concentrado na minha função quando ouço Mia falar.
- Filha, não se preocupa, porque apesar do seu pai não conseguir pregar um quadro na parede, ele é o melhor em amar e cuidar das suas meninas. - Diz rindo e apontando a câmera do iPhone na minha direção me fazendo perceber que ela fazia um stories. Eu rio em sua direção, porque amava ver ela recuperando a leveza e tirando sarro de mim após os dias difíceis que tivemos.
POV Mia
Os dias foram passando tranquilos, sem incidentes. Algumas vezes Miguel ia para empresa rapidamente assinar alguns papéis, enquanto eu ficava em casa com Alma ou Helena, ou ambas. Elas não desgrudavam de mim, estavam sempre de prontidão para me ajudar em tudo que eu precisasse. Minhas irmãs e amigas também estavam sempre por perto, fazendo de tudo para que eu não me sentisse sozinha ou excluída dos acontecimentos devido minha ausência na empresa ou eventos familiares.
Óbvio que eu passava por momentos nos quais não aguentava mais estar em casa e que pensava que iria surtar, afinal minha vida era bem agitada socialmente antes. Mas o desespero logo passava quando eu me lembrava que o que realmente importava era a segurança e bem estar da minha filha.
Quando eu completei 32 semanas, Miguel teve que ir às pressas na empresa resolver alguns problemas urgentes em contratos importantes que haviam ficado para trás. Meu marido bufava de raiva antes de sair de casa, chamando metade dos nossos funcionários de incompetentes por não terem percebido o problema antes e terem deixado para resolver tudo em cima da hora. Eu apenas deixava ele desabafar, oferecendo palavras de conforto, pois sabia que ele precisava disso para chegar na empresa mais calmo.
Antes de sair, ele me carregou no colo escada a baixo, assim como fazia diariamente, e eu me sentei em nossa mesa no escritório rascunhando a nova coleção que fazia especialmente dedicada para gestantes, algo que eu vinha me interessando cada vez mais após sentir na pele o quanto é difícil se manter bonita e na moda com uma barriga enorme.
A maioria das marcas produziam roupas que "servissem" nas gestantes, mas não estavam realmente interessados em fazer peças bonitas e sim apenas funcionais. Quando eu precisei comprar roupas que comportassem a minha barriga que crescia cada vez mais, foi uma verdadeira dificuldade, pois o que servia na cintura, ficava enorme nas pernas e eu parecia que estava literalmente vestida com um saco. As roupas não valorizavam em nada as curvas da gestação e eram extremamente simples, deixando a mulher pouco sensual, como se "mães" não pudessem se sentir bonitas e sexys.
Minha nova coleção estava focada em produzir peças para gestantes que fossem bonitas, confortáveis e funcionais. E isso incluía desde vestidos de festa adaptados para barriga e amamentação, até lingeries para o pós parto que não fossem exclusivamente de algodão e na cor nude.
Enquanto eu desenhava, ia comentando os detalhes das peças em voz alta, como se explicasse para Laura o que eu fazia, pedindo a sua opinião algumas vezes recebendo um chute em resposta como se ela realmente entendesse o que eu falava, o que me arrancava um riso.
- Eu amo te ver assim, Mia. Feliz, conversando com Laura... Você vai ser uma ótima mãe. Na verdade, já é. - Comenta Helena emocionada enquanto entra no escritório com uma bandeija com o meu lanche da manhã.
- Obrigada Helena. Eu tive boas referências para me inspirar. - Respondi me referindo a ela e a Alma que eram excelentes mães e avós. - Laura tem sorte em ter avós tão dedicadas. - Completei sorrindo.
Helena e Alma se dividiam em ficar comigo em casa quando Miguel saia. Nós tínhamos funcionários que nos ajudavam com a limpeza e manutenção da casa, mas Miguel insistia que sempre ficasse alguém da família junto, no caso de eu precisar de alguma coisa. Eu inicialmente quis dizer que era exagero, mas fui voto vencido visto que Alma, Helena e meu pai pensavam o mesmo. E com o tempo eu fui percebendo que realmente eu me sentia mais segura na presença deles.
Minha alimentação era rigorosamente controlada pela minha família, que jamais me deixavam ficar mais de 3 horas sem comer algo. Sorri olhando o carinho que Helena tinha usado para preparar o meu lanche da manhã que continha um iogurte natural com morango picado e granola, além de um copo de suco de laranja.
Após eu terminar de comer, Helena logo se retirou do escritório, me dando privacidade. Eu percebia que ela e Alma faziam um esforço grande em me dar o máximo de privacidade que eu poderia ter, na tentativa de eu não me sentir sufocada com todos os cuidados.
O problema na empresa parecia ser grande, visto que Miguel não conseguiu retornar para casa na hora do almoço. Ele me ligou por vídeo para garantir que estava tudo bem, e se tranquilizou depois que conversamos por alguns minutos. Após o almoço, eu me recostei no sofá para dar uma descansada já que não poderia subir as escadas para o quarto, Laura pareceu não gostar muito da ideia de não ter o tempo dela para se esticar, visto que começou a se remexer dentro de mim em protesto.
Ao longo do dia, Laura foi ficando mais inquieta e eu desisti de trabalhar na mesa, carregando o notebook para o sofá na tentativa de achar uma posição mais confortável. Em certo momento minhas costas começaram a arder e eu fiz uma careta, estava começando a ficar levemente preocupada com o desconforto. Sem eu dizer nada, Helena me trouxe um copo de água e um paracetamol, provando que ela estava atenta a tudo que eu sentia e fazia. Aceitei a medicação sem contestar, sentindo certo alívio alguns minutos depois, o que me deixou mais tranquila. Comecei a cantarolar para Laura e acariciar a barriga, o que a deixou mais tranquila.
No final do dia, Miguel chegou em casa com a expressão cansada, mas logo abriu um sorriso quando nos viu no sofá. Jantamos juntos e depois nos despedimos de Helena que não deixou de apontar que eu tinha sentido certo desconforto à tarde para o desespero de Miguel. Tentei o tranquilizar dizendo que agora estava tudo bem, mas eu mesma estava preocupada. Era uma dor bem leve, mas depois do susto que tivemos, qualquer coisa era sinal de alerta.
Decidimos ligar para a médica que disse que pediria para a enfermeira obstetriz passar aqui em casa para me avaliar, tomei um banho e me recostei na cama na tentativa de aliviar um pouco o desconforto nas costas enquanto Miguel tomava seu banho. Eu estava rolando o feed do Instagram tentando me distrair do desconforto, quando mais sinto do que escuto um "ploft" na minha barriga, sentindo uma grande quantidade de líquido claro e quente com odor de água sanitária escorrer por entre as minhas pernas e encharcar tudo ao redor.
O desespero foi instantâneo ao perceber que o líquido se tratava da minha bolsa rompendo.
-Não, não, não... Não pode ser! Isso não pode estar acontecendo! - Choraminguei desesperada enquanto contastava que aquilo realmente era real e não um pesadelo. Laura se mexia animada dentro de mim, sem compreender a gravidade do que estava prestes a acontecer.
Comecei a soluçar segurando a minha barriga com a mão, como se eu fosse capaz de manter Laura dentro de mim a segurando externamente. Implorei a Deus que a protegesse, mas eu sabia que no momento, após romper a bolsa, pouco poderíamos fazer para mantê-la dentro de mim por mais tempo. Eu já tinha tido tempo o suficiente para estudar tudo e mais um pouco sobre trabalho de parto prematuro para saber que Laura iria nascer nas próximas horas.
-Miguel! - gritei aos prantos e já escutei o chuveiro desligar. Não precisei chamar uma segunda vez, em dois segundos meu marido estava na minha frente pingando água pelo quarto e com os cabelos cheios de shampoo.
- O que aconteceu? - questionou com os olhos esbugalhados de preocupação, ao mesmo tempo que olhava a cena ao seu redor e a compreensão cruzava o seu rosto entendendo o que estava acontecendo.
-Minha bolsa estourou. - Expliquei, sem necessidade nenhuma visto que era claro o que tinha acontecido, mas na tentativa de fazer a minha ficha cair.
Miguel sentou ao meu lado ignorando a cama molhada de líquido amniótico e me abraçou fortemente enquanto chorávamos abraçados nos preparando para a batalha que estava por vir. Ambos sabíamos o que esperar e era exatamente isso que nos assustava, pois tínhamos o conhecimento de que não seria fácil.
-Vai dar tudo certo, você vai ver. Laura é forte e vai conseguir, né filha? - falou Miguel, na tentativa de convencer a ele próprio dessa afirmativa, visto que não conseguíamos nem imaginar outra possibilidade.
Meio que automaticamente, sem pensar muito no que fazia, Miguel seguiu exatamente o "protocolo" que criamos para seguir em casos como esse. Tínhamos pensado tudo que iríamos fazer em caso de emergência, pois sabíamos que na hora estaríamos desnorteados.
Primeiro ele ligou para a minha obstetra, que questionou sobre contrações, cor, odor do líquido e movimentação fetal. Miguel explicou que eu estava sem contrações ritmadas, apenas algumas esporádicas , que o líquido era claro com odor de água sanitária e que Laura mais parecia dançar dentro de mim de tanto que mexia. Essas informações a deixaram mais tranquila, ela nos orientou a nos preparármos, tomar banho, pegar as malas e ir para o hospital.
Miguel terminou seu banho rapidamente e enquanto eu tomava outro banho para me limpar do líquido, ele carregava o carro, colocou as nossas malas, a mala de Laura e o bebê conforto no carro. Depois me ajudou a sair do banho e a me secar, colocou o primeiro vestido que viu no closet pela minha cabeça e enquanto eu penteava o cabelo ele foi procurar um absorvente, visto que o líquido não parava de escorrer, molhando toda minha calcinha recém trocada.
Já no carro a caminho do hospital, liguei para Lupita aos prantos implorando para que ela salvasse Laura. Ela tentou me tranquilizar, dizendo que tínhamos feito as injeções de corticoide para amadurecer o pulmãozinho, que tínhamos conseguido 4 semanas de tempo que fariam toda a diferença para ela e que estaríamos na melhor UTI neonatal do México. Eu sabia de tudo isso, sabia que com 32 semanas, Laura tinha muito mais chances de com 28. A questão é que eu não queria que a minha filha precisasse de UTI, não queria que ela sofresse para respirar, não queria que ela passasse por picadas e mais picadas de agulha assim que viesse ao mundo, tudo porque eu fui incapaz de mantê-la segura dentro de mim. Me amaldiçoei ao pensar nisso. Amoldiçoei o meu corpo e o meu útero por serem tão fracos, mesmo sabendo racionalmente que a culpa não era minha, o meu coração me culpava. E foi aí que eu entendi o ditado popular que diz que quando nasce uma mãe, nasce uma culpa.
Depois de falar com Lupita, liguei para Alma e para Helena, me demorando mais um pouco no telefone enquanto chorava e era tranquilizada por elas, que ficaram de nos encontrar no hospital.
Miguel estava catatônico ao meu lado, derramava lágrimas silenciosas, enquanto dirigia até o hospital com uma das mãos, enquanto a outra segurava a minha firmemente sobre a minha coxa, na tentativa de nos dar forças.
Quando chegamos no hospital, minha médica já me aguardava. Miguel ficou fazendo os papéis burocráticos de internação, enquanto eu fui levada para a sala de pré parto. Após um exame ginecológico, ficou constatado o que todos já sabíamos, a bolsa tinha rompido, minha dilatação estava em 5cm e agora era questão de tempo até Laura nascer.
O monitor do MAP foi instalado na minha barriga, um aparelho que mon itorava os batimentos cardíacos de Laura e as contrações, me mostrando que na verdade eu estava tendo contrações ritmadas, mesmo que não as sentisse tão fortes, acredito que ainda inebriada pelo susto de tudo que estava acontecendo.
Uma das enfermeiras lutava na tentativa de conseguir um acesso venoso, enquanto outra passava uma sonda vesical por entre as minhas pernas, pois como Laura era prematura, muitas medicações precisariam ser feitas. Assim que Miguel adentrou a sala, já vestido com a roupa azul do hospital, minha médica começou a nos explicar mais uma vez todos os detalhes do parto.
Ela nos explicou que como a bolsa tinha rompido e eu já estava com 5cm de dilatação, nós não poderíamos usar medicamentos para tentar cessar as contrações como usamos da outra vez, devido ao alto risco de desenvolver uma infecção chamada corioamnionite, que seria extremamente grave tanto para mim quanto para a Laura. Nos disse, que mesmo prematura, nossa filha teria mais chances de sobreviver fora da minha barriga nesse momento do que dentro dela, sem a proteção da bolsa. Devido ao risco dessa infecção, durante todo o trabalho de parto eu iria receber antibiótico na veia para tentar proteger a mim e a Laura da infecção (essa era uma das medicações sendo instalada no acesso venoso do meu braço esquerdo). No meu braço direito, estava sendo instalada outra medicação, chamada sulfato de magnésio, que serviria para proteger o cérebro de Laura de convulsões após o nascimento devido a imaturidade do seu sistema nervoso. Como o sulfato de magnésio poderia ser tóxico para mim, foi colocada a sonda vesical para controlar a minha urina e ver se estava tudo bem.
Eu e Miguel já sabíamos de tudo isso, ela havia nos explicado inúmeras vezes sobre o protocolo de parto prematuro nessas últimas semanas e nós havíamos estudado bastante sobre. Mas agora que era real, que estava acontecendo, eu só conseguia chorar e implorar para Deus proteger a nossa filha.
Alguns minutos depois, Lupita chegou e já preparou a mesa de atendimento de Laura no canto da sala, eu chorei mais ainda ao vê -la preparando muitos materiais de intervenção e auxílio a respiração, me desesperei ao pensar naquele tubo sendo enfiado na garganta de Laura que ia ser tão pequenininha. Solucei ao imaginar seus pequenos bracinhos sendo furados por agulhas tão grandes. Lupita tentou em acalmar dizendo que tudo aquilo era preventivo, que não saberíamos se ela ia precisar e que já tinha reservado um leito na UTI para ela caso necessário. Eu apenas assenti, agradecendo a minha amiga. Eu sabia que não tínhamos certeza se ela iria precisar, mas a chance de precisar era muito maior do que a de não precisar.
Alma, meu pai e Helena chegaram algum tempo depois. Eles nos deram um beijo e abraço e tentaram nos tranquilizar, sem muito sucesso. A médica deixou ficar outro acompanhante junto com Miguel enquanto meu trabalho de parto evoluía, então eles revezavam entre si , enquanto os outros esperavam no corredor. Com exceção de Miguel, claro, que não saiu um minuto do meu lado.
As contrações foram se intensificando, e como eu estava com sonda e com os dois braços recebemdo medicação, eram poucas as posições que conseguia ficar para tentar aliviar o desconforto. Eu chorava o tempo todo, mas as dores das contrações não se comparava a dor emocional que eu sentia. Eu chorava por tudo que eu idealizei e não poderia ter.
Eu não iria ter o meu lindo e sonhado parto humanizado na banheira, a minha filha não iria vir direto pro meu colo, eu não iria poder ficar segurando ela por 1 hora seguidas na Golden hour, Miguel não iria poder cortar o cordão umbilical, eu não iria amamentá-la logo após o nascimento, não teríamos a primeira foto de família com ela nos meus braços e Miguel ao nosso lado enquanto chorávamos de emoção... Nada disso aconteceria, nenhum detalhe do meu plano de parto pensado e idealizado com muito carinho. Ao invés disso minha filha iria nascer direito para a mão de médicos, e ao invés de carinho e amor, iria receber intervenções. Miguel chorava ao meu lado, sentindo a minha dor mais do que a dele próprio, me dizendo o tempo todo que tudo iria ficar bem.
Com o passar das horas, as contrações começaram a aumentar de intensidade e frequência, me fazendo esquecer qualquer coisa ao redor. Eu não conseguia prestar a atenção em mais nada que não fosse a dor escruciante que parecia que me quebraria ao meio, eu comecei a gritar na tentativa de aplacar a dor. Mas não funcionava. Então em dado momento eu socava o colchão desesperada, Miguel segurou as minhas mãos preocupado que eu me machucasse, mas eu pedi a ele que soltasse pois estava com medo de machucá-lo com a força que apertava as suas mãos na hora das contrações.
- Eu não aguento mais, pelo amor de Deus! Eu não aguento mais! - Gritei desesperada em meio as contratações. Quando eu pensava que não poderia piorar mais, elas ficavam ainda mais fortes.
-Dra, pelo amor de Deus, não tem nada que a gente possa fazer? Eu não consigo vê -la assim! - Falou Miguel desesperado por me ver com dor.
- Miguel, nós já conversamos sobre isso antes. O melhor pra Laura agora é que a Mia não receba analgesia, e eu tenho certeza que a Mia vai aguentar. Ela é forte. Todas as mulheres dizem isso no momento do parto, e todas aguentam, acredita em mim. O teu papel agora é dar força pra ela, você não pode se desesperar. - Explicou a médica enquanto eu ouvia a conversa de fundo.
- Eu não quero analgesia. - Informei fraca enquanto ainda tinha forças no intervalo entre uma contração e outra. Eu havia lido bastante sobre analgesia de parto, e ela não era isenta de riscos, ainda mais em partos prematuros. Laura já iria ter que correr muitos riscos, eu iria poupá-la do que conseguisse, eu iria aguentar a dor, mesmo que achasse que não.
A médica me examinou e viu que eu estava com 8cm, suspirei pedindo força a Deus porque eu não sabia se ia aguentar mais muito tempo aquela dor. Ao ver meu desespero ao saber que ainda faltava tempo para Laura nascer, ela sujeriu que eu fosse para o chuveiro na tentativa de aliviar um pouco a dor. Eu sentei na bola de Pilates em baixo do chuveiro enquanto me recostava em Miguel que massageava as minhas costas. Nessa posição eu conseguia pensar novamente, doía, mas era um pouco mais suportável.
De 30 em 30 minutos a médica auscultava o coração de Laura, que estava sempre rápido e forte para a nossa alegria. O que pareceu uma eternidade depois, a dor voltou a ficar insuportável, mesmo em baixo do chuveiro. Resolvi sair, sentia uma necessidade absurda de caminhar. Miguel trocou a roupa por uma seca e me ajudou a trocar o avental do hospital também. Caminhei de um lado para o outro dentro do quarto, parecendo uma barata tonta pelo o que pareceu horas. De repente, começou me dar uma vontade absurda de fazer cocô. Eu sabia o que isso significava.
Chamamos a médica que estava em uma sala separada e ela apareceu para me examinar, quando ela fez o exame eu já percebi pela sua cara que havia chegado a hora. Eu estava finalmente com 10cm de dilatação.
Enquanto eu me posicionava na maca, me preparando para o parto, Lupita e seu auxiliar se posicionavam aguardando no canto da sala e a obstetra e a enfermeira ficaram entre as minhas pernas. Miguel segurava uma das minhas mãos, enquanto Alma segurava a outra. Naquele momento milhares de sentimentos se passaram pela minha mente. O primeiro foi felicidade - Laura finalmente iria nascer e eu iria conhecer o seu rostinho, sentir o seu cheirinho, a pegar no colo. O segundo foi medo - eu seria capaz de parir? Teria forças na hora do parto? Conseguiria fazer a minha parte? Afinal eu já estava me sentindo tão cansada! O terceiro foi desespero - minha filha iria nascer, mas ela iria ficar bem? A prematuridade lhe afetaria de alguma forma?
Quando a contração veio forte, não consegui mais pensar, apenas gritei e deixei meu corpo agir como deveria, empurrando a minha filha. A dor ela dilaceradora, eu gritava e chorava de dor, enquanto apertava a mão de Miguel e Alma que me acalmavam.
- Eu não vou conseguir! Eu não aguento mais! - chorei após uma contração.
-Claro que vai amor, você é a mulher mais forte que eu conheço! Você é a mãe da Laura, uma leoa que é capaz de tudo pela nossa filha, amor! - Disse Miguel segurando a minha mão e seca ndo o suor na minha testa. Eu estava derretendo, a sala estava quente a espera de Laura e eu estava morrendo de calor pelo esforço.
Como se lesse meus pensamentos, Alma me alcançou um copo de água que eu bebi como se a minha vida dependesse disso, ganhando forças para a próxima contração. Após mais algumas contrações e gritos, senti minha vagina arder, com o famoso "círculo de fogo". Sabia que estava perto. O medo tentou me parar, mas o pensamento de que queria a minha filha comigo, me deu forças e eu empurrei com tudo que eu tinha gritando alto e alguns segundos depois todo o desconforto passou. Respirei fundo e me desesperei quando não ouvi som nenhum, parecia que o mundo tinha parado, todas as atenções voltadas para o meio das minhas pernas, de onde minha filha tinha acabado de nascer, mas não se ouvia nenhum choro. Olhei para Miguel desesperada por respostas, mas não as obtive. Ele também não sabia se estava tudo bem.
-Por que a minha filha não tá chorando? - perguntei desesperada.
- Ela já vai chorar mamãe, só um segundo. - Respondeu a obstetra enquanto cortava o cordão umbilical e a secava, a enrolando em um pano morno quando ela chorou fininho, me arrancando um soluço de alívio.
A obstetra colocou ela rapidamente no meu colo, foram segundos, mas para mim mais pareceram horas. O pequeno ser no meu colo, que detinha todo o meu coração, era minúsculo. Laura era pequenininha e se perdia entre o pano que a envolvia, os olhinhos piscando, se adaptando ao novo mundo, ainda não conseguimos perceber a cor que eles teriam, mas já detinham um brilho inconfundível. A cabecinha coberta por uma penugem escura, que me fez pensar que ela teria o cabelo escuro do pai. O nariz pequeno e arrebitado era todo meu. Sorri em meio as lágrimas ao vê -la pela primeira vez.
-Oi meu amor! Bem vinda, filha! Mamãe te ama demais! - Falei emocionada, enquanto ela remexia a cabecinha no meu colo procurando a minha voz e cessando o choro como se me reconhecesse.
- Bem vinda amor, papai e mamãe te amam demais! - Completou Miguel e Laura o procurou com o olhar reconhecendo a voz do pai. - Oh meu amor, você sabe que é o papai, não é? - disse Miguel todo emocionado.
- Desculpa pessoal, mas eu realmente preciso pegá-la. - Se desculpou Lupita. Eu assenti em concordância. Eu sabia que minha filha não ficaria comigo após o nascimento, mas saber não fazia doer menos.
- Filha, não fica com medo, ok? Mamãe e papai vão sempre estar do teu lado. A titia vai te levar pra dar remedinho pra você ficar forte, mas logo logo vamos estar juntas de novo, ok? A mamãe te ama demais, Laura! - disse me inclinando para beijar a sua cabecinha, sem me importar com o sangue, e sentir o seu cheirinho.
Segundos depois ela foi retirada de mim e atendida no berço aquecido da sala, meu colo ficando com um vazio horrível, meus braços tremendo pela falta que ela fazia. Alguns minutos depois uma incubadora foi trazida e ela colocada ali dentro com inúmeros fios ligados ao seu pequeno corpinho. Quando Lupita começou a levá-la para fora, Miguel me olhou em questionamento e eu apenas assenti, em uma conversa silenciosa, ele sabia que deveria acompanhar a nossa filha e me deixar ali. Pela primeira vez desde o ensino médio, nós nos separamos, pois agora todas as nossas forças eram voltadas a proteger e cuidar da nossa filha.
Quando eles saíram da sala me deixei chorar e ser consolada por Alma, enquanto recebia os atendimentos finais. Uma pequena parte do meu cérebro registrou que a enfermeira aplicou uma injeção no meu braço para prevenção de hemorragia, depois retirou as medicações que estavam sendo feitas no soro, trocando por um outro com ocitocina para prevenir hemorragia. Senti uma ardência quando a médica me falou que tinha retirado a placenta, e um pouco de dedcforto quando retiraram a sonda. Logo depois me limparam, me auxiliando a me vestir com um calcinha, absorvente e camisola limpas. Tudo acontecia ao meu redor, mas eu só observava, os meus pensamentos estavam em Laura e em como ela deveria estar. Passei a mão sobre a barriga lisa e chorei, minha filha estava longe de mim agora e não dependia mais de mim mantê-la a salvo.
Fui levada para o quarto onde Helena e meu pai já nos esperavam. Eles me abraçaram, me deram parabéns e disseram que eu tinha sido muito forte. Contaram que viram Laura rapidamente pela incubadora e que ela era linda demais. Desde então, não tiveram mais notícias.
Alma tentou me fazer comer algo, mas eu não tinha fome alguma. Aceitei apenas tomar água pois tinha soado demais durante o dia.
O que pareceu uma eternidade depois, Miguel adentrou o quarto com o rosto inchado e vermelho de choro. Imediatamente eu fiquei alerta.
- O que aconteceu, amor? Como tá a Laura? - questionei desesperada.
- Ela tá na UTI. - Disse sentando ao meu lado e me abraçando. - Ela nasceu bem até, ficou os primeiros minutos respirando bem, mas logo começou a ficar com esforço. A Lupita disse que é esperado devido ao pulmãozinho não estar bem desenvolvido ainda. Então eles colocaram no oxigênio no CPAP, aqueles caninhos no nariz - Explicou - Mas então ela não melhorou e eles tiveram que intubar. - Concluiu chorando. E naquela momento meu mundo desabou.
Intubação e respiração mecânica era o meu maior medo em ser mãe de prematuro. Eu sabia que poderia acontecer, mas tinha esperanças que o CPAP fosse suficiente. Chorei abraçada no Miguel enquanto nossos pais tentavam nos consolar. Mas não tinha nada que eles pudessem nos dizer que melhoraria essa situação. Agora nós só podíamos esperar e rezar, nada mais poderia ser feito.
-Eu nem ao menos tenho uma foto dela. - Chorei.
- Não está muito boa, mas eu tirei uma na hora do parto. - Disse Alma chamando a minha atenção.
Ela me entregou o celular para eu ver e chorei de emoção. Não era a foto que eu tinha idealizado comigo e com Miguel felizes segurando a nossa filha, mas era o que eu tinha, era real e isso me daria forças para lutar. Na tentativa de me distrair e de trazer boas energias para a nossa filha. Miguel e eu decidimos compartilhar com o mundo que Laura já estava entre nós. Protegi seu rostinho com um emoji e publiquei a foto mais importante da minha vida.
@/miacolucci e @/miguelarango
Laura Arango Colucci nasceu de parto natural às 04:56 da madrugada de 01 de agosto, pesando 1,950kg e medindo 40cm. Apesar de prematura de 32 semanas, Laura é forte e guerreira, e já nos mostrou que não temos controle de nada. Tudo será no tempo dela como ela quiser, uma leonina com personalidade. Laura está na UTI neonatal e recebe ajuda para respirar. Pedimos a todos muitas orações e energias positivas, assim como respeito e privacidade para viver esse momento tão importante e intenso nas nossas vidas ♥️
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Olá traumadinhxs, tudo bem? Sei que estou sumida, minha vida virou de cabeça pra baixo no último ano, estou sobrecarregada e me recuperando de uma depressão desencadeada pelo excesso de trabalho, precisei me afastar das redes sociais pelo bem da minha saúde mental. Consegui férias em novembro para ver o show do RBD, descansei bastante e consegui escrever esse capítulo pequenininho, mas muito especial pra vcs. Não se preocupem, a fic vai continuar, só não sei com que frequência terão postagens. Não farei promessas de quando, mas voltarei ♥️
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