Capítulo 27 - Latidos - Parte 2

A família vai crescer! Mia Colucci e Miguel Arango quebraram a internet ao anunciar que estão esperando um bebê. O anúncio foi feito através de suas contas no instagram e pegou todo mundo de surpresa. Após muito especularem sobre quando o casal resolveria trazer um herdeiro ao mundo, todos pareciam ter aceitado que demoraria um pouquinho até isso acontecer depois de inúmeras entrevistas em que o casal referia que pretendiam esperar mais um pouco. Contudo, quando ninguém esperava, o anúncio da gravidez do ano foi feito e se tornou o assunto mais comentado do twitter durante a semana.

Fontes confiáveis revelaram à VOGUE que a gravidez foi sim planejada pelo casal e não um acidente como a imprensa estava especulando. Aparentemente os novos papais escolheram esperar um pouco até compartilhar a novidade com o mundo e especula-se que Mia esteja em torno do quarto mês de gestação. A estilista não fez questão de esconder a barriguinha já perceptível nas fotos postadas em suas redes sociais, além de revelar o sexo do bebê pouco tempo depois. Laura vem aí para a alegria dos papais que não escondem a felicidade. Desejamos muito amor e saúde para o novo membro da família Colucci Arango e dos nossos corações. 

@/miacolucci Nosso mundo agora é cor de rosa! Laura está a caminho e já é o amor das nossas vidas! Te amamos, filha! ❤😍🐣🍼🍀👪🙏✨👧👼👶😻🌟💫💑👗💞💓💕❤💗👣🌸🌼🌠🌈💝💟 #pregnant #gravidez #babygirl #mãedemenina

@/miguelarango Amo as minhas princesas mais do que tudo no mundo! Laura, o papai não vê a hora de te conhecer! ❤❤❤

POV Miguel

A notícia de que Laura estava a caminho fez com que nossas vidas se tornassem literalmente cor de rosa. Eu pensava ser impossível existir amor tão grande quanto o que crescia cada dia mais dentro do meu coração. Acompanhar aquele pedacinho do nosso amor, crescendo e se desenvolvendo dia após dia, era algo inexplicável.

Minha vida se resumia em amar e babar na minha mulher e na nossa filha e em me preocupar e surtar com a mesma intensidade com as duas. Mia brincava dizendo que se eu pudesse colocaria Laura dentro de uma bolha no momento em que ela nascesse, mas eu sei que sua preocupação e cuidado eram tão grandes ou maiores que os meus. Eu sempre fui super protetor, mas depois que me descobri pai essa característica cresceu exponencialmente dentro de mim.

-Boa noite, amores da minha vida. - Digo entrando no nosso quarto após chegar da empresa. Normalmente vínhamos juntos para casa, mas hoje acabei atrasando devido à uma reunião. - Como as minhas princesas passaram? - Me inclino sobre a cama selando os lábios de Mia e posteriormente beijando sua barriga. 

-Passamos bem, papai. Sentimos saudades de você. - Responde fazendo biquinho e com voz de bebê, me arrancando um sorriso. 

-Eu também morri de saudades. Vou tomar um banho rápido e já volto pra gente ficar bem abraçadinhos matando a saudade. - Beijo sua testa me dirigindo ao banheiro onde tomo uma ducha rápida. 

Coloco uma calça de moletom e me acomodo na cama junto com a minha mulher que estava distraída lendo um livro sobre criação neurocompatível. Desde que descobrimos a gravidez, nosso tempo livre era basicamente voltado para leituras sobre desenvolvimento infantil e uma criação que fosse o mais respeitável possível com a criança. Acreditávamos que para sermos bons pais precisamos nos preparar e estudar, afinal, tudo que se faz bem feito nessa vida exige estudo, por que não faríamos o mesmo com o papel mais importante das nossas vidas?

Dentre essas leituras, descobrimos a vertente de educação neurocompatível, voltada totalmente em compreender e respeitar a criança como um outro ser em desenvolvimento e não uma propriedade que deveria obedecer e seguir regras sem sentido apenas porque é criança e não tem opção de escolha. Durante muito tempo, foi exigido um comportamento quase adulto de crianças que não possuem desenvolvimento cognitivo o suficiente para reproduzi-los e quando essas expectativas eram frustradas, se punia as crianças de diversas maneiras, desde castigos físicos ao famoso "cantinho do pensamento", termo que descobrimos ser abominável, podando dessa forma características de suas personalidades. Tornando-os adestrados e prontos a servir as expectativas de qualquer um lá fora, exceto as deles mesmos. Definitivamente não era essa a forma que queríamos criar nossos filhos e por isso estudávamos em busca dos melhores ensinamentos na tentativa de sair de um modelo estrutural de educação que nada tinha a ver com nossa maneira de pensar. 

PS. (Para quem quiser saber mais sobre educação neurocompatível recomendo o instagram criacao_neurocompativel, a Márcia é uma excelente profissional e explica direitinho tudo e mais um pouco sobre o assunto)

-Muito cansado? - Questiona Mia deixando o livro de lado assim que me junto a ela na cama.

-Mais ou menos, acho que tô ficando velho, minhas costas estão me matando. - Reclamo me alongando.

-Eu disse que você deveria fazer uns exercícios de yoga comigo. Ia se sentir bem melhor. - Sorri se posicionando atrás de mim e massageando meus ombros.

-Ai amor, bem aí que tá doendo. - Reclamo quando ela aperta um dos pontos de tensão na minha nuca.

-Você tá com a musculatura toda travada. Relaxa. - Diz massageando o local e aos poucos sinto meus músculos relaxarem.

-Com essas tuas mãozinhas mágicas eu faço o que você quiser. - Brinco e ela sorri plantando um beijo na minha nuca. - E você como está? A médica tinha dito que logo você iria começar a sentir dores. - Questiono preocupado e me sentindo ligeiramente culpado por estar recebendo uma massagem quando era ela quem estava carregando outra vida ali.

-Estou bem. Acho que a Laura é muito pequenininha ainda pra gerar algum desconforto. Os exercícios de yoga estão ajudando bastante também.

-Nem me fale nesses exercícios. Eu fico louco de ver você de ponta cabeça com essa barriga. - Desabafo ranzinza e ela ri.

-Amor, yoga é super recomendado na gestação e auxilia muito na hora do parto. - Defende.

-Pode ser, mas eu fico morto de preocupação do mesmo jeito. - Resmungo e ela sorri.

-Por isso que nós amamos você. - Rebate fofa distribuindo beijinhos pelo o meu pescoço.

Dormimos abraçados com a minha mão repousando sobre a leve protuberância da sua barriga e fomos trabalhar juntos na manhã seguinte. Sai rapidamente da minha sala para discutir um relatório com um dos meus investidores e acabei esquecendo o meu celular carregando na tomada. Assim que percebi que estava sem o aparelho, me senti extremamente nervoso e ansioso, pensando que poderia acontecer algo com Mia e que não conseguiriam falar comigo. 

Tentei me tranquilizar, pensando que era coisa da minha cabeça, visto que elas estavam perfeitamente bem poucas horas atrás, mas resolvi o que era necessário o mais rápido possível para retornar para a minha sala.

-Senhor Arango, sua esposa ligou e pediu pra avisar que o senhor retornasse assim que possível. Ela disse que era urgente. - Minha secretária avisa assim que chego no andar do meu escritório e meu coração aperta enquanto eu entro em surto.

-Por que eu só estou sabendo disso agora? - Questiono furioso sentindo meu rosto pegar fogo. - Quando Mia ligar vocês devem me achar imediatamente e passar o recado, nem que tenham que olhar em todas as câmeras de segurança desse prédio até me encontrarem! - Esbravejo e minha secretária e sua assistente arregalam os olhos assustadas pela minha reação, visto que nos oito anos que trabalhamos juntos elas nunca me viram falar dessa forma.

Eu sei que estou errado e que não deveria ter falado dessa maneira, o arrependimento se instala quase que instantaneamente, mas tudo que envolve Mia e Laura me tiram completamente do sério. 

Sem deixar que elas respondessem, disparo em direção à sala de Mia, amaldiçoando a pessoa que teve a ideia de colocar a sessão criativa cinco andares acima das salas da direção. Aperto o botão dos elevadores freneticamente, mas eles não pareciam se mover rápido o suficiente, fazendo com que meu coração retumbasse no peito. 

Sem aguentar mais, me dirijo para as escadas e corro os cinco andares  subindo de dois em dois degraus. Chego ofegando no final da escada, mas não me permito cinco segundos para recuperar o fôlego, já me pondo a disparar em direção a sua sala. Ignoro sua secretária e abro a porta transtornado imaginando um milhão de cenários trágicos, mas a encontro sentada no sofá devorando uma barra de chocolate.

-Nossa, que susto amor! - Reclama levando a mão ao peito após eu invadir sua sala de forma abrupta. 

-Vocês estão bem? - Questiono ainda ofegante.

-Claro que estamos! Por que não estaríamos? - Franze o cenho em minha direção.

-Porra, Mia! Você quase me fez infartar, disse que eu precisava vir aqui com urgência, eu pensei em um milhão de coisas! - Reclamo e ela sorri. 

-Desculpa, gatito... Mas realmente era uma urgência. - Rebate sorrindo de lado e se dirigindo a porta da sala onde a fecha e passa a chave.  - Você precisa cuidar de mim, eu preciso que você me foda. - Fala insinuativa e minha cabeça dá um nó pelo misto de raiva e tesão que toma conta do meu corpo.

-Você só pode estar de brincadeira! Eu achei que você estava passando mal! - Reclamo passando a mão entre os cabelos na tentativa de me acalmar. 

-Mas eu estou, amor! Tô passando mal de tanto tesão! - Choraminga e eu tenho que me esforçar para não rir da carinha de drama que ela faz. - É como se de repente todo o tesão dos últimos meses tivesse se acumulado em mim de uma vez só.

-Deus do céu! - Suspiro ao vê-la tirar a roupa sem pudor algum na minha frente. 

Nós não transávamos desde pouco antes dela descobrir que estava grávida, pois Mia sofreu muito com enjoos e tonturas no primeiro trimestre e reclamava que sua libido tinha desaparecido. Óbvio que a entendi e havia decidido que esperaria ela dar algum sinal de que estava pronta antes de retomar nossa vida sexual, mesmo que eu estivesse explodindo por dentro.

Depois de tanto tempo sem sexo, vê-la abrir os primeiros botões da camisa social que usava enquanto me olhava cheia de malícia, foi o suficiente para meu pau inchar dentro da calça. Me aproximei afundando a mão em seus cabelos e imobilizando sua cabeça enquanto enfiava a língua na sua boca em um beijo pegado que nos arrancou um gemido rouco em expectativa pelo o que estava por vir.

-Nossa, eu tô com tanta vontade que chega a doer! - Choraminga puxando os cabelos da minha nuca enquanto eu chupo o seu pescoço.

-Não que eu esteja reclamando, mas de onde veio tudo isso? - Questiono rindo do seu desespero quando ela abre rapidamente a minha calça a empurrando para baixo com rapidez.

-Eu não sei, acho que todos os hormônios da gravidez decidiram disparar ao mesmo tempo. Eu estava trabalhando quando de repente tudo que eu conseguia pensar era em você. - Responde com a voz rouca de tesão.

-É? E o que eu fazia contigo? - Desço mordidas pelo seu pescoço e colo, desprendendo o sutiã e expondo seus seios, que estavam ainda mais fartos, na minha direção. - Porra, Mia! Seus seios estão gigantes! - Ofego os sugando com vontade a fazendo soltar um gritinho.

-E sensíveis. Deus do céu, nunca foi tão bom! - Corre os dedos por baixo da minha camisa arranhando as minhas costas.

-Você não me respondeu. O que eu fazia contigo quando estava pensando na gente mais cedo? - Cobro uma resposta desesperado de tesão ao saber que elas estava tendo fantasias sexuais enquanto trabalhava.

-Você me comia bem ali. - Indica a sua mesa com a cabeça. - Por trás, inclinada sobre a mesa, de forma bruta. Como naquele dia em que você surtou de ciúmes de um investidor depois da reunião.

-Minha mulher gosta de brutalidade. - Afirmo a empurrando em direção a mesa que era palco de suas fantasias. 

-Gosto, mas você já sabia disso. - Confessa. 

-Sabia, mas nunca me canso de te ouvir falar. - Digo a posicionando de costas para mim e afastando os objetos de cima de sua mesa para que ela pudesse se inclinar sobre ela. - Você sabe o que falam das mulheres grávidas, temos que realizar todos os seus desejos, especialmente se for a minha mulher. 

-Gosto disso. - Fala gemendo ao se inclinar sobre a mesa e sentir o contato do vidro frio com os seus mamilos sensíveis. 

Ergo a saia social que ela usava que se embola em sua cintura e baixo rapidamente sua calcinha, dedilhando sua boceta com os dedos. 

-Porra, acho que nunca te senti tão molhada! - Exclamo ao senti-la encharcada entre as pernas e ela geme alto quando eu esfrego o seu clitóris. - Shiu, amor. Estamos na empresa e nossos funcionários estão atrás daquela porta. - Relembro o local em que estamos, pois Mia parecia meio alheia a tudo ao seu redor.

Costumávamos ser bastante discretos quando transávamos na empresa, pois tínhamos que passar seriedade para os funcionários. A única exceção foi uma vez que Mia teve uma crise de ciúme de Nathália e fez questão de gritar alto o suficiente para provocá-la. Foi extremamente engraçado ver a cara da minha assistente quando saímos da minha sala depois de um sexo arrebatador. 

-Desculpa, vou me controlar. Só não para, por favor! - Implora se contorcendo toda quando enfio dois dedos dentro dela e os movimento rapidamente.

-Não vou parar. - Prometo, embora tivesse certeza de que ela não conseguiria cumprir a própria promessa de que iria se controlar. Mia já era escandalosa ao natural, com os hormônios em ebulição do jeito que estavam, eu não duvidaria que o andar inteiro soubesse o que estávamos fazendo nesse momento. 

Algumas investidas depois, ela desaba mole sobre a mesa, soltando um gritinho de susto quando a penetro enquanto ela se recupera do orgasmo recente. É a minha vez de gemer alto quando a sinto quente e apartada ao meu redor depois de tanto tempo. Deus do céu, isso não iria durar nada. 

Seguro firme na sua cintura investindo forte contra ela e sentindo a mesa oscilar com os movimentos bruscos. O som do roçar do meu quadril com o dela emitindo barulhos de tapas no ambiente que junto com o ranger da mesa deixava claro para qualquer um o que estávamos fazendo ali, caso os gemidos de Mia já não tivessem comprovado isso. 

Contorno sua boca com os meus dedos e ela os suga com vontade me fazendo gemer, assim que os sinto lubrificados afasto suas nádegas os penetrando por trás. O estímulo da dupla penetração foi o que bastou para que ela se entregasse ao orgasmo com um gemido alto. Algumas investidas a mais e eu gozei forte com um suspiro de alívio pela libertação depois de tanto tempo. Sai do seu interior observando o meu gozo escorrer do meio das suas pernas como se fosse a coisa mais fascinante do mundo. 

Puxei Mia para o sofá e ela se aconchegou no meu colo com o rosto enfiado na curva do meu pescoço enquanto eu fazia um cafuné nos seus cabelos. 

-Satisfeita? - Questionei ao ver seu sorriso bobo no rosto que refletia exatamente o que tinha no meu.

-Extremamente! - Diz selando meus lábios. 

Ali, naquele instante, na nossa empresa com a mulher da minha vida nos meus braços e a nossa filha a caminho, eu senti o que era felicidade plena. Eu tinha tudo o que precisava e o que sempre desejei, a felicidade transbordava em cada poro do corpo, em cada batida de coração e parecia que nada no mundo poderia nos afetar. Parecia

POV Mia

As semanas foram passando e minha barriga crescia a olhos vistos, embora ainda fosse capaz de disfarçar se eu usasse uma roupa larga, ela se tornava evidente com as roupas justas que eu fazia questão de colocar para deixar claro para o mundo que eu não estava sozinha. 

Com 20 semanas começamos a organizar o quartinho dela, escolhemos o mais próximo do nosso quarto, obviamente, e a melhor arquiteta do México foi contratada para fazer o projeto. Eu estava bastante dividida sobre o que eu queria, o meu lado sonhadora que sempre foi fã de princesas da Disney, queria muito fazer uma decoração digna de princesa com direito a muitos tons de rosa e bonecas espalhadas por prateleiras. Em contrapartida, o meu lado racional me lembrava que eu não deveria impor as minhas preferências na minha filha, afinal, não era apenas porque ela seria menina que deveria gostar de cor de rosa e bonecas. 

O meu maior medo era criá-la de uma maneira limitada, dando a entender que ela não poderia fazer alguma coisa por ser menina. Eu queria que ela tivesse liberdade de ser do jeitinho que fosse, usar as cores que quisesse e brincasse com o seus brinquedos favoritos. 

Conversei bastante sobre isso com Miguel que me tranquilizou dizendo que ela era só um bebê e que não se importaria com a cor que escolhêssemos para o quarto, me convencendo a fazer o quarto de princesa ao constatar que assim que ela entendesse do que gostava, nós mudaríamos a decoração para o que ela desejasse. Dessa forma, as paredes ganharam um tom de rosa bem clarinho e papel de parede com bailarinas, além de inúmeras bonecas de pano. Os móveis eram em tons claros e em estilo clássico e assim que a cadeira de amamentação foi colocada ao lado do berço, eu comecei a passar muito tempo do meu dia sentada ali imaginando como Laura seria. Será que teria os olhos verdes ou azuis? Puxaria os cachinhos do pai? Ainda não tínhamos respostas para essas perguntas, apenas a certeza de que seria a bebê mais linda e amada de todo o mundo.

Miguel e eu estávamos aproveitando o final de semana para organizar as roupinhas dela, tínhamos ganhado muita coisa de nossa família e amigos, além de que não nos controlávamos e cada vez que íamos ao shopping voltávamos com algo diferente. Existia cada coisa mais linda e fofa para bebês que eu simplesmente não tinha maturidade. Helena e Alma riam dizendo que Laura não usaria metade do que nós tínhamos, mas Miguel e eu simplesmente não tínhamos mais nenhum controle da situação. 

-Olha esse vestidinho que coisa mais pequenininha, amor. - Diz Miguel com um sorriso bobo erguendo um vestido de malha tamanho RN nas mãos para me mostrar.

-Foi sua mãe que comprou esse pra ela. - Respondo dobrando um macacão rosa e guardando em um gaveta enquanto tentava conter o sorriso de felicidade que tomava o meu rosto cada vez que eu via o amor que Miguel transbordava cada vez que falava de Laura.

-É tão pequeninho! Eu fico imaginando o quão pequena ela vai ser quando nascer, morro de medo de machucá-la sem querer. - Confessa receoso com um vinco se formando entre suas sobrancelhas. 

-Eu também fico com medo, mas quando eu falei sobre isso com Alma e com sua mãe, elas me disseram que nunca mais íamos parar de ter medo na vida. Que eles apenas iam ir mudando: no começo teremos medo de machucá-la ou de que ela se engasgue, depois medo que ela caía, mais pra frente medo que sofra bullying na escola... Resumindo, vamos precisar de terapia. - Desabafo sobre os meus próprios receios e Miguel paralisa no mesmo lugar com uma cara ainda mais assustada.

-Meu Deus, eu não tinha pensado na possibilidade dela se engasgar! Acho que precisamos comprar aqueles colchões antirrefluxo que a moça nos mostrou na loja. - Fala com os olhos tão arregalados que chega a ser engraçado.

-Calma, amor. Respira! - Digo me aproximando e selando os seus lábios para tranquilizá-lo antes que ele tivesse um infarte. - Fica tranquilo, ela tá bem segura aqui dentro. - Coloca sua mão sobre a minha na protuberância que tinha no meu ventre e ele acaricia o local.

-Graças a Deus! - Respira aliviado. - Você vai ser o motivo dos meus cabelos brancos, não é meu amor? Diz pro papai. - Fala com voz de bebê em direção a minha barriga onde ele acariciava.

-Ai! - Exclamo assustada ao sentir uma sensação estranha no meu ventre, algo como uma cosquinha por dentro da barriga.

-O que foi? O que você tá sentindo? Tá doendo em algum lugar? - Questiona Miguel sobressaltado perdendo toda a tranquilidade que recém tinha recuperado.

-Eu não sei, não é dor, é algo diferente... - Explico tentando entender aquela sensação. - Eu acho que ela tá mexendo! - Constato ao sentir de novo a sensação dentro de mim. Era algo muito sutil, por isso demorei para me dar conta do que era. Quando imaginava senti-la mexer, pensava em movimentos mais fortes, mas ela ainda era muito pequenininha para fazer movimentos bruscos.

-Ela tá mexendo? - Pergunta Miguel me olhando admirado, o sorriso tomando novamente os seus lábios em questão de segundos e os olhos nublando de lágrimas em minha direção.

-Eu acho que sim! Meu Deus, filha você tá mexendo pra mamãe? Heim, meu amor? - Converso com Laura fazendo voz de bebê e quando sinto novamente o movimento dentro de mim desabo em lágrimas acariciando a minha barriga. Aquele movimento era como se ela estivesse me respondendo do jeito dela, dizendo "Sim, mamãe. Eu estou aqui e você nunca mais estará sozinha na sua vida". O amor que eu senti dentro de mim naquele instante não cabia no peito e transbordava em forma de lágrimas pelos meus olhos. Busco o olhar de Miguel que me encarava encantado e emocionado junto comigo, os dois bobos de felicidade agarrados a barriga.

-Você consegue sentir também? - Questiono soluçando e pressionando sua mão contra o local exato em que a senti se mover. 

-Não. - Nega com a cabeça sorrindo. - Acho que ainda é muito cedo pra eu sentir, mas é maravilhoso saber que você já está sentindo. - Explica beijando o local onde nossas mãos repousavam. - Você tá ficando grande, né meu amor?! Papai não vê a hora de sentir você se mexer também!

-Ela gosta da sua voz! Tá mexendo de novo! - Falo ao sentir ela se mover cada vez mais a cada palavra que Miguel dizia.

-Ah, filha! Você vai matar o papai de tanto amor. Eu amo você Laura, mais do que tudo nessa vida. Sempre vou estar aqui por você. - Me olha emocionado e mais uma lágrima escorre pelo meu rosto ao sentir mais um movimento dentro de mim, como se ela respondesse Miguel.

-Ela também te ama muito, não para de se remexer dentro de mim. É literalmente a princesinha do papai! - Respondo sorrindo e meu marido me olha encantado. 

Aquele momento na nossa casa sentindo a nossa filha mexer pela primeira vez fazia tudo valer a pena. Parecia que nada podia abalar a nossa felicidade. Parecia

Daquele dia em diante, Laura não parou mais de se mexer. Os movimentos leves foram se tornando cada vez mais fortes, até certo dia em que eu acariciava a minha barriga durante uma reunião com os acionistas da empresa e senti um chute na minha mão. Estagnei por um momento, ficando alheia a reunião que acontecia a minha volta e prestando completamente a atenção no serzinho dentro de mim que parecia querer se fazer notada como se reclamasse que estava ouvindo há uma hora a voz do pai dela e ele não estava a dando atenção.

Sorri maravilhada quando percebi que não era apenas impressão, mas que realmente Laura estava chutando a minha mão. Boba do jeito que eu estava devido aos hormônios, foi o suficiente para que uma lágrima escorresse pelo meu rosto pela emoção. 

-Amor! - Chamei no meio da reunião e Miguel que estava explanando sobre os gráficos de crescimento no último mês, parou de falar no mesmo instante me olhando assustado ao ver as lágrimas nos meus olhos.

-O que foi? - Questiona assustado, mas logo se tranquiliza ao ver o meu sorriso em sua direção. 

-Eu tô sentindo a Laura mexer forte, ela acabou de chutar a minha mão! - Falo maravilhada como se ela tivesse descoberto a cura do câncer e Miguel abre um sorriso capaz de partir o seu rosto ao meio.

-Onde? - Questiona abandonando a sua cadeira na cabeceira da mesa e se ajoelhando na minha frente colocando sua mão sobre a minha.

-Bem aqui. - Posiciono melhor a sua mão e a pressiono contra a minha barriga. - Fala com ela, eu acho que tinha uma garotinha com ciúmes por ouvir a sua voz por tanto tempo sem que você a desse atenção. Laura não tá acostumada a não ter a atenção do papai só pra ela. - Explico e Miguel e sorri.

-É isso, meu amor? O papai não estava te dando atenção, né princesa? Não fica braba com o papai, se eu pudesse ficava conversando com você o dia inteirinho. - Fala com voz de bebê ignorando completamente os mais de dez acionistas sentados em torno da mesa e presenciando o momento com cara de tédio. Apenas meu pai e Santos tinham um sorriso bobo no rosto enquanto admiravam a cena. 

Como se respondesse o pai, Laura chuta no exato local onde estava a mão de Miguel e ele paralisa me encarando com os olhos arregalados. Nos olhamos por alguns instantes apenas compartilhando daquele sentimento de plenitude que era sentir a nossa filha chutar. O coração errando uma batida no peito pela torrente de emoções que nos dominavam, apenas nós dois sabíamos o que aquele momento significava.

-Você chutou pro papai, filha? Oh meu Deus! - Exclama ao senti-la se remexer de novo, me encarando com os olhos nublados. Seco uma lágrima que escorre pelo seu rosto e acaricio seus cabelos quando ele planta um beijo no topo da minha barriga de quase 24 semanas.  Mais uma vez foi como se o mundo congelasse e nada mais importasse ao nosso redor. Apenas nós dois e nossa filha se desenvolvendo no meu ventre.

Os dias foram passando e nós estávamos cada vez mais felizes, eu não tinha mais enjoos e minha libido estava em alta, então aproveitávamos para fazer muito sexo em todos os lugares possíveis. Até o momento, tive poucos desejos e todos eles eram bem normais e fáceis de se realizar, para a sorte de Miguel que precisou sair apenas uma vez de madrugada atrás de sorvete de pistache, que até então eu odiava. 

Dividíamos os nossos fins de semana entre ficar em casa organizando o quartinho de Laura e entre ir pro sítio aproveitar os últimos momentos de tranquilidade de nossas vidas antes de nossa filha nascer.

@/miguelarango Com o meu mundo inteiro entre os braços! Amo vocês! ❤❤❤

@/miacolucci Amamos você, papai! Você é o melhor do mundo! 😻❤👼👧👣🍼💞

Passamos o dia de ação de graças na casa do meu pai que fez uma festa que reuniu toda a família. Infelizmente, nem todos os familiares eram do meu agrado, isso incluía o meu tio Marcelo que era a pessoa mais mesquinha e inconveniente que eu conhecia. Quando eu pensava que a minha raiva por ele não poderia aumentar, o vejo brigando com o meu primo Luka, que era apenas uma criança querendo atenção.

Eu me sentia mal cada vez que olhava para aquele menino de olhos azuis que imploravam por amor, me via de certa forma na sua infância já que ele também não tinha mãe e o pai era ausente, mas compreendia que o seu sofrimento era muito pior que o meu levando em consideração a diferença entre os nossos pais. Por isso, meu coração contraía cada vez que eu o via. 

-Você poderia agir como um menino normal pelo menos uma vez na vida? O que os seus tios vão pensar com esse seu comportamento? Você está me envergonhando, Luka! É só isso que você faz! - Esbraveja Marcelo segurando meu primo pelo braço enquanto ele tem um olhar assustado e os olhos repletos de lágrimas que tenta bravamente conter. - Ah não, pode parar de fiasco! Sem choro, você está me ouvindo? Homens não choram! - Segue destilando asneiras em direção à criança enquanto todos os olham meio sem reação pela cena. Talvez alguns meses atrás eu simplesmente tiraria Luka dali e ignoraria o resto, mas nesse instante o meu lado mãe gritava dentro de mim.

-Hey, ele é só uma criança querendo a sua atenção. Não precisa tratá-lo assim! - Falo educadamente com uma calma que eu não sentia. Ele larga momentaneamente o braço de Luka que corre assustado. Olho para Miguel que entende o recado e o manda com Théo para a sala de jogos prometendo que irá logo atrás para lhe ensinar alguns acordes no violão. 

Sei que meu marido não foi junto naquele instante porque jamais me deixaria sozinha em uma discussão com o tio Marcelo. Meu primo sai um pouco mais contente da sala após a promessa de Miguel, visto que ele era apaixonado por música.

-Querendo atenção? Era só o que me faltava, esse menino tem tudo do bom e do melhor, a única coisa que eu peço em troca é que ele seja um menino normal que estude e se comprometa com as coisas. 

-Ele tem coisas materiais, mas uma criança não precisa apenas disso. Ele quer amor. - Explico calmamente. Pela minha visão periférica vejo meu pai se encolher ao perceber que eu falava sobre a minha própria infância. 

-Não são assim que as coisas funcionam. Logo logo você vai ver que esse papo de amor não adianta, crianças precisam de limites, se não se tornam péssimos adultos. E nós, como pais, precisamos fazer o que for preciso para cumprir esse papel. - Me olha como se eu fosse uma criança mimada. 

-Crianças precisam de atenção e amor. - Rebato.

-Já vi que no que depender de você essa menina será mais uma mimada no mundo. - Diz apontando a minha barriga e eu a abraço em proteção. - Espero que Miguel tenha o pulso firme para compensar esse seu coração mole. É preciso ter sangue frio para colocá-los de castigo e dar umas palmadas se for necessário. - Esbraveja e eu ofego incrédula. Ele estava mesmo insinuando de que minha filha que nem havia nascido precisava apanhar? 

Fico tão em choque estagnada no lugar que só percebo que estou sem reação quando Miguel me puxa para os seus braços me tirando dali. 

-Vamos deixar uma coisa clara aqui, Marcelo. Violência contra crianças é crime! E você nunca mais ouse usar a sua boca imunda pra falar da minha filha ou da minha mulher. Eu só não quebro a tua cara em respeito ao Franco, mas da próxima vez eu não vou ter tanta consideração assim. - Diz Miguel me abraçando de lado e me puxando em direção a sala de estar. 

Sentamos no sofá um do lado do outro e ele esfrega os meus braços me acalmando.

-Respira, amor. Laura tá bem, tá protegida e eu prometo a você que ela nunca vai levar um tapa na vida, porque eu mato quem sequer cogitar levantar a mão pra ela. Então não precisa esmagar a sua barriga desse jeito, tá tudo bem. - Beija a minha testa e só então eu percebo que estou agarrada a minha barriga como se tentasse proteger Laura do mundo exterior.

-Tá tudo bem, eu só fui pega de surpresa pelo o que ele falou. - Confesso acariciando a minha barriga de forma lenta tentando tranquilizar Laura que pulava lá dentro como se também estivesse indignada com o que ouviu. - Eu só não consigo acreditar que alguém ache normal bater em uma criança. Quer dizer, as pessoas pregam tanto o discurso de "Não violência", abominam quando uma mulher é atacada, protestam devido a violência com os animais, porque então acham normal uma criança apanhar? Ela é tão indefesa quando um cachorro e está em tanta desvantagem física como uma mulher, então porque não tem ninguém lutando pelos seus direitos e dizendo o quanto isso é abominável? - Esbravejo indignada sentindo uma lágrima rolar ao me dar conta que meu primo provavelmente era vítima de violência física também e não apenas psicológica.

-Eu sei, amor. E o pior de tudo é que elas são vítimas de violência pelas pessoas que mais amam na vida, aqueles que deveriam protegê-las. Crescem achando que o amor é violento e acabam se tornando vítimas de relacionamentos abusivos no futuro, desculpando uma agressão ao ouvirem um "eu te amo" porque cresceram apanhando de pessoas que também as amavam. - Completa e eu me aconchego nos seus braços envolvendo a minha barriga com as nossas mãos, tranquila de que Laura só sentiria aquelas mãos sobre a sua pele para lhe dar carinho e nada mais. 

Os dias seguem passando rapidamente, quando eu completo 28 semanas os americanos solicitam uma reunião de urgência para tratar de uma das clausulas do contrato e Miguel se vê obrigado a viajar para os Estados Unidos por alguns dias.

-Eu não quero ir. - Reclama mais uma vez enquanto eu o deixo no aeroporto.

-Amor, vai ficar tudo bem, são três ou quatro dias, logo você vai estar do nosso lado de novo. - O tranquilizo da melhor forma que posso, afinal também não queria que ele fosse, mas jamais diria isso em voz alta, ainda mais vendo o estado de sofrimento em que ele se encontrava por ter que se afastar de nós. 

-Eu não sei, não parece certo deixar vocês aqui. E se acontecer alguma coisa? - Questiona com o olhar preocupado e acaricia a minha barriga como se quisesse proteger Laura das maldades do mundo.

-O que pode acontecer? Nós recém estivemos na médica, fizemos um ultrassom, Laura tá saudável e crescendo bem. Eu tô bem, tá tudo certo. - O tranquilizo. - E se acontecer algo, nós te ligamos e no máximo em duas horas você está aqui de novo. 

-Certo, mas nós vamos nos falar todas as noites por chamada de vídeo. Laura não pode achar que eu abandonei vocês e ela vai ficar assustada se não ouvir a minha voz por quatro dias inteiros. 

-É claro que vamos nos falar, amor. Além disso, eu prometo colocar o áudio que você gravou conversando com ela pelo menos uma vez ao dia pra ela saber que você a ama. - Respondo boba com a sua preocupação.

-Tá bem, eu preciso ir. - Choraminga quando chamam o seu voo mais uma vez. - Eu amo vocês, se cuidem e me avisa quando chegar no seu pai. - Beija a minha boca com carinho e depois a minha barriga onde afaga delicadamente.

-Pode deixar, você também. Amamos muito você, papai! - Selo sua boca novamente e o observo entrar no portão de embarque com um aperto no peito que eu não sentia desde o começo da gestação.

Dirijo devagar em direção a casa do meu pai onde ficaria esses dias que Miguel estivesse fora, era assim desde o início da gestação, visto que meu marido surtava com a possibilidade de eu estar sozinha em casa. Coloco a mala pequena sobre a cômoda sentindo uma fisgada nas costas com o movimento que me faz ofegar.

-Merda! - Reclamo do desconforto balançando a cabeça ao pensar que Miguel iria me matar se soubesse que eu ergui a mala sozinha. Era uma bobagem, uma bagagem de mão que não pesava quase nada, mas ele não me deixava carregar nem a minha própria bolsa mais devido as dores nas costas que eu vinha sentindo com o crescimento da barriga o ganho de peso da Laura. 

Tomo um paracetamol e o desconforto passa rapidamente, me fazendo aproveitar para realizar alguns exercícios de yoga. Eu andava muito relapsa com os meus exercícios e a minha doula vinha chamando a minha atenção sobre a importância da regularidade dos exercícios.

Me dirijo a academia do meu pai realizando os exercícios, quando estou terminando resolvo tirar uma foto para publicar no instagram.

@/miacolucci Laura faz yoga com a mamãe! ❤❤❤❤❤❤❤❤❤❤ #mejorequipo #yoga #pregnant #saúde

@/miguelarango Você fica ainda mais linda carregando a nossa filha! Amo vocês mesmo quando fico com taquicardia por ver esses exercícios. ❤❤❤

Depois que termino a série de exercícios me sinto bem melhor, como se todo o desconforto nas costas aliviasse, então decido tomar um banho antes do jantar. Acabo apagando no sono depois de comer e falar com o Miguel, só percebendo que dormi em uma posição desconfortável na manhã seguinte quando acordo e minhas costas reclamam mais uma vez.

Tomo um paracetamol de novo e decido que iria para a empresa só de tarde, colocando uma roupa confortável para ficar em casa. Confiro o whatsapp e vejo que tem uma mensagem de Miguel desejando bom dia e perguntando como nós estamos.

Minha Vida

Bom dia, papai! Nós estamos bem e você? 

Gatito Bebé 😻

Tô melhor agora que vi vocês

Tá cada dia mais linda, amor

A Laura parece maior nessa foto

Minha Vida 

Não viaja, bebê kkkkkkkkkkk

Ela não cresceu em um dia

😂😂😂😂😂

Gatito Bebé 😻

Eu sei, mas pela foto parece kkkkkk

Vou entrar na reunião, amor

Qualquer coisa me liga, vou estar com o celular o tempo todo

Amo vocês

Minha Vida

Ok, boa reunião

Te amamos demais❤❤❤❤

A manhã passa tranquila e eu decido que estou bem o suficiente para ir para a empresa a tarde, trabalho durante algumas horas na minha sala, quando começo a sentir uma leve cólica no pé da barriga. Franzo o cenho para a sensação, pois estava acostumada com a dor nas costas, mas não com a cólica. Verifico o relógio e percebo que ainda não podia tomar outro paracetamol, pois não haviam passado seis horas de intervalo desde o último comprimido, então resolvo ir para casa e colocar uma roupa confortável, aquele jeans estava mesmo me apertando.

-Hey, meu amor. Chegou cedo em casa. - Exclama Alma ao me ver entrar em casa muito antes do horário que eu costumava chegar.

-Pois é, tô sentindo uma cólica meio estranha, acho que estou ficando com infecção urinária de novo. A sensação é bem parecida com a que eu senti aquela vez. - Explico.

-Pode ser, costuma ser bem comum infecção urinária na gestação. Eu mesma acho que tive umas três durante a gravidez. - Reclama.

-Sim, eu mandei whatsapp pra minha médica, ela acha que pode ser também. Vou ir no consultório amanhã de manhã coletar o exame, você pode ir comigo? Não tô querendo dirigir com essa dor. - Peço dengosa e Alma sorri.

-Claro, meu amor. Com certeza vamos juntas. - Concorda e eu sorrio. - Tomou remédio pra dor?

-Eu tomei um paracetamol mais cedo porque estava com dor nas costas e ainda não fechou seis horas, então não posso tomar outro. - Explico choramingando por pensar em ter que aguentar o desconforto por mais algumas horas. 

-Toma um buscopam, eu tenho uma cartela em casa. - Diz mexendo em sua bolsa em busca do remédio.

-Mas eu posso tomar? - Questiono preocupada.

-O buscopam simples não tem problema, você só não pode tomar o composto porque tem dipirona na composição. - Explica e eu assinto aceitando o comprimido e um copo de água que bebo com alívio por saber que logo a dor irá passar.

-Mia, você contou pro Miguel? Você lembra do que aconteceu da última vez que escondeu coisas dele... - Fala me relembrando do trágico incidente da minha infecção urinária do começo da gravidez.

-Ainda não contei, mas vou falar assim que ele me ligar de noite. - Tranquilizo. - Vou deitar um pouquinho pra ver se o desconforto passa. - Informo subindo para o meu quarto e Alma promete me levar o jantar na cama mais tarde, mesmo que eu diga que não precisava.

Mais tarde, quando eu estou terminando de jantar e assistindo um episódio de Gilmore Girls pela décima vez, o celular toca notificando uma chamada de vídeo do meu Gatito Bebé. Laura pula dentro da minha barriga como se soubesse que o pai estava ligando, eu amava senti-la mexer, mas naquele momento só fez com que a cólica retornasse. Acariciei a barriga tentando acalmá-la e atendi a ligação com uma careta de dor. 

-Oi, amor. - Falo me ajeitando na cama na tentativa de achar uma posição mais confortável.

-Oi, princesa. Como vocês estão? - Questiona também se sentando na cama para conversarmos.

-Não estamos muito bem hoje. - Respondo com uma caretinha e Miguel arregala os olhos dando um pulo imediato na cama que me faz rir. - Calma, não é nada demais. Só minhas costas que estão doendo e eu tô com uma cólica chata também, mas já falei com a médica e ela acha que pode ser outra infecção urinária. Vou ir amanhã de manhã no consultório dela. - O tranquilizo, mas ele segue me olhando preocupado.

 -Quem vai ir com você? - Pergunta passando a mão nervoso pelos cabelos. 

-Alma vai comigo, fica tranquilo, não quero te ver nervoso desse jeito. - Peço agoniada por ver o seu desespero e não pode acalmá-lo. 

-É meio impossível ficar calmo, amor. Tô a ponto de levantar e alugar um jatinho pra voltar pro México nesse instante. - Fala sem nenhum resquício de brincadeira na fala. 

-Amor, seja racional, vocês tem passagens compradas pra amanhã ao meio dia. Você participa da reunião de manhã e logo vai estar aqui com a gente. Alma vai estar comigo e eu prometo que fico em casa bem comportada até você chegar. - Tento manter a tranquilidade por nós dois, visto que Miguel estava a beira de um colapso nervoso, mesmo que o meu coração implorasse por ter ele do lado nesse momento. 

-Eu tô tentando. - Suspira passando a mão no cabelo mais uma vez. - Tá doendo muito? - Me olha consternado pela tela do celular.

-Não muito, eu tomei um remédio a pouco, logo deve começar a fazer efeito. - Explico e tento conter uma careta para não preocupá-lo quando Laura se remexe dentro de mim.

-Mia, por favor, você está sentindo dor! - Reclama ao ver a minha careta. 

-Tá tudo sob controle. É que essa menininha fica agitada quando ouve a voz do papai e se remexe toda aqui dentro. - Viro a câmera para que ele veja a minha barriga de 28 semanas exposta onde dava para perceber visivelmente as ondas que fazia com os movimento da nossa filha. 

-Oh meu Deus, que saudade de vocês. - Exclama dando o primeiro sorriso genuíno da noite ao ver Laura mexer, o vinco entre as sobrancelhas desfeito por alguns segundos enquanto ele observava fascinado os movimentos da minha barriga.

-Nós também estamos, papai. Tanto que eu tô pulando aqui na barriga da minha mãe, deixando bem claro que eu não estou gostando dessa distância. - Respondo acariciando a barriga na esperança que ela se acalmasse um pouco. - Filha, calma um pouquinho, o papai já vem amanhã, não precisa chutar a costela da mamãe em protesto. 

-Filha, o papai também não gosta de ficar longe, vamos tentar dormir um pouquinho pro tempo passar mais rápido e chegar logo amanhã? A mamãe precisa descansar, meu amor. - Miguel conversa com Laura de maneira carinhosa e ela para no mesmo instante como se estive escutando o pai. - Isso, princesa. O papai vai cantar pra você dormir. - Diz logo começando a cantar para ela, um hábito que tínhamos adquirido durante a gestação. Estávamos inclusive compondo uma música em conjunto para ela, o plano era terminar até a data do parto para que ela pudesse nascer ao som da própria música. 

Laura vai diminuindo os movimentos gradativamente, até que eles cessam por completo, não paro de acariciar a barriga em nenhum instante completamente apaixonada por aquele serzinho dentro de mim e cada vez mais enlouquecida de amor por Miguel. Eu achava que era humanamente impossível o meu amor pelo meu marido crescer mais um pouco, achava que já tinha atingido o ápice do amor por ele, mas então ele se tornou pai e me provou que eu estava enganada. Não existe nada mais grandioso do que observar o seu companheiro se tornando pai e assistir o amor e o cuidado que ele tem por aquele pedacinho de nós dois. 

-Acho que ela dormiu. - Falo baixinho depois de senti-la parar de mexer por alguns minutos. 

-Ela sempre dorme quando eu canto. - Fala orgulhoso e eu sorrio boba virando a câmera novamente para mim. - Como você tá se sentindo?

-Melhor. Acho que o remédio associado ao fato dela ter parado de se remexer ajudou bastante. - Falo bocejando. - Você sem importa se eu for dormir? Não é só ela que sente sono quando você canta. - Brinco e ele ri. - E acho que o remédio me nocauteou. 

-Claro que não, amor. Vai descansar, aproveita enquanto ela tá dormindo. - Diz e eu me aconchego na cama, apagando a luz do abajur. - Boa noite, eu amo vocês. Por favor, me liga assim que você acordar, não importa a hora, quero saber como vocês passaram. - Pede preocupado, o vinco entre suas sobrancelhas retornando no mesmo instante.

-Pode deixar, amor. Boa noite, também te amamos demais. - Respondo mandando um beijinho para a câmera e desligando o telefone. Pego no sono logo em seguida, nocauteada pelo efeito do medicamento. 

Acordo meio desnorteada sem saber que horas eram, mas a julgar pela falta de luminosidade que entrava pela janela, ainda devia ser madrugada. Eu sempre tive o sono pesado e não costumava acordar durante a noite, mas isso era mais uma coisa que havia mudado na gravidez. Agora eram raras as noites em que eu conseguia dormir inteira, afinal quase sempre minha bexiga implorava para ser esvaziada antes do amanhecer ou Laura resolvia que a minha costela era um ótimo local para praticar seus chutes me fazendo acordar. Contudo, nessa noite, foi uma sensação diferente que me acordou. 

Percebi assim que abri os olhos que a cólica de mais cedo havia voltado, entretanto com uma maior intensidade. Me encolhi na cama com a pontada de dor que eu não sabia definir se vinha das minhas costas ou barriga, porque as duas coisas doíam como o inferno. Olhei rapidamente o relógio e percebi que eram três da madrugada e que eu já podia tomar um novo remédio, suspirei aliviada e me levantei devagar devido a dor.

Assim que fiquei de pé, senti o desconforto abrandar um pouco, caminhei até o banheiro sem maiores incidentes para fazer xixi antes de ir em busca de um novo paracetamol. Ainda meio dormindo fico sentada no vaso sanitário por alguns minutos enquanto espero a minha bexiga esvaziar lentamente. Quando sinto que acabou, pego o papel higiênico ainda sentada na privada e me limpo, contudo quando vou descartá-lo na lixeira ao lado do vaso algo chama a minha atenção me fazendo acordar imediatamente.

Trago o papel para mais perto do meu rosto como querendo não acreditar que aquilo estava acontecendo e que a mancha vermelha no seu centro era devido à algum reflexo da luz causado por ilusão de óptica, entretanto para o meu desespero a mancha continuava lá.

-Oh meu Deus! Não... não pode ser... Não pode ser. - Repito agoniada como que em alguma oração enquanto pego mais um pedaço de papel e repito o procedimento me desesperando mais ainda quando esse também vem sujo de sangue. Me levanto rapidamente olhando para dentro do vaso vendo que o meu xixi estava de um tom rosa, diferente do que deveria ser. Minha calcinha estava úmida com uma gosma estranha também em tons de rosa. 

-Isso não pode estar acontecendo... - Repito novamente como se tentasse acordar daquele pesadelo, porque eu ainda só podia estar dormindo. Tudo bem que não era uma quantidade absurda de sangue, era em pouca quantidade, mas todo o planeta Terra sabia que grávidas não deveriam sangrar e aquilo não era normal. Eu sabia que não, eu sentia que havia algo errado.

De repente, todo o alívio que eu senti quando Laura se aquietou na minha barriga mais cedo, se tornou desespero por ela estar quietinha agora. Me senti uma péssima mãe por estar reclamando pelos seus chutes antes, me culpei absurdamente acreditando que tudo isso era para me punir, para eu aprender a não reclamar de seus movimentos. Eu devia ter aguentado o desconforto, aguentado a dor, agora eu implorava para senti-la novamente. Meu coração se contraiu em desespero na maior dor e angústia que eu já senti em toda a minha vida, as lágrimas escorriam livremente pelo meu rosto e os soluços saíam entrecortados pela minha respiração funda na tentativa que eu fazia de me acalmar e tomar o controle da situação novamente, porque Laura precisava de mim naquele momento e era meu papel mantê-la tranquila e sem medo.

-Filha, a mamãe tá aqui com você e tudo vai ficar bem, ok? Eu sei que você tá dormindo, mas pode dar um chute pra mamãe ficar mais tranquila? - Peço com a voz embargada acariciando a barriga e saindo do banheiro para chamar o meu pai, mas ela não se move. - Só uma mexidinha filha, não precisa ser chute se você estiver com preguiça, por favor. - Imploro e cutuco a barriga, mas ela continua imóvel e isso é o suficiente para que o meu choro saísse alto pela garganta.

Quando estou prestes a sair do quarto, a dor lancinante que iniciava nas minhas costas e irradiava para o pé da barriga retorna com força total me fazendo agarrar na cômoda me inclinando para frente na tentativa de manter o equilíbrio. Grito em meio ao choro pela dor e pelo desespero.

-PAI! ALMA! - Grito por ajuda em meio ao choro alto que saía da minha garganta. Não preciso gritar de novo porque já ouço passos apressados vindo em direção ao meu quarto.

A porta se abre em um rompante e vejo meus pais entrarem no quarto afobados com os olhos gigantes de preocupação. Meu choro se intensifica agora que eu sei que tem outros adultos ali e que eu não sou a única responsável por Laura. Me permito sentir o medo e o desespero em sua forma mais bruta pela primeira vez na noite.

-O que aconteceu, meu amor? - Pergunta Alma vindo em minha direção e me arrastando até a cama. Eu me agarro a ela e choro copiosamente.

-Tem alguma coisa errada, eu tô com muita dor e tá saindo sangue... Ela não tá mexendo, vocês precisam me ajudar! Por favor, eu não posso perder a minha filha! - Explico em prantos, o choro me fazendo engasgar pela sua intensidade, a dor no ventre competindo de perto com a dor no peito que parecia estar sendo rasgado de agonia.

-Fica calma, filha. Nós vamos cuidar de vocês e vai ficar tudo bem. - Meu pai fala e por um momento eu me permito acreditar.

-Você promete, papai? - Peço desesperada por algum alento porque era humanamente impossível considerar que pudesse acontecer algo com Laura. Eu não suportaria. 

-Eu prometo. Vai dar tudo certo. - Ele diz beijando a minha testa. 

Depois disso eu não lembro muito o que aconteceu, quando percebi ele e Alma já estavam vestidos me empurrando uma roupa pela cabeça, em segundos meu pai me carregava no colo até o carro e Alma entrava comigo no bando de trás, onde deitei com a cabeça no seu colo.

-Filha, você precisa respirar fundo. Precisa mandar oxigênio pra Laura. - Alma orienta enquanto eu hiperventilava em meio ao choro e o desespero. 

Tento obedecer as suas ordens, respirando fundo por alguns instantes, mas é impossível manter o controle quando a dor retorna. Grito agarrada à barriga como se tentasse proteger Laura de alguma forma.

-Filha, por favor, mexe pra mamãe! - Imploro assustada porque a intensidade da dor estava aumentando, mas sou ignorada como das outras vezes. - Por que ela não tá mexendo? - Pergunto desesperada olhando entre Alma e meu pai que tem os olhos assustados tentando manter algum controle. Sinto que meu pai acelera o carro e deve estar descumprindo no mínimo umas dez leis de trânsito no momento, mas eu não me importo. Eu só me importo com a minha filha dentro do meu ventre, só me importo com a saúde dela, nada mais além disso importava no momento. 

Naquele instante eu percebi a magnitude do meu amor por ela, eu seria capaz de qualquer coisa para protegê-la, eu pularia em água fervente se isso significasse que ela iria ficar bem. O problema é que nesse instante eu estava impotente, eu não podia fazer nada além de implorar à Deus que a protegesse. 

Sinto algo molhar a minha calcinha e percebo que ainda não havia atingido o máximo de desespero na noite ao esfregar a mão no lugar e ver elas voltando sujas de sangue. 

-Não, não pode ser. - Olho incrédula para os meus dedos e busco o olhar de Alma sentindo o meu peito se abrir de tanta dor. - Eu estou abortando, não estou? - Questiono desesperada. 

-Não, você não está! Você tá de 28 semanas e nessa idade gestacional não tem abortos, ela é perfeitamente capaz de lutar pela vida dela se nascer agora. - Alma explica tentando me tranquilizar, mas isso me deixa mais desesperada, ela não podia nascer agora. Ela precisava de no mínimo mais nove semanas dentro de mim para nascer saudável. 

-Papai, eu quero o Miguel! Eu preciso do meu marido! - Peço desesperada me entregando ao medo. Eu não podia passar por aquilo sozinha, eu não tinha condições emocionais de lidar com tudo que estava acontecendo. Eu precisava que Miguel estivesse ali e me prometesse que tudo iria ficar bem.

-Não se preocupe com isso, em no máximo duas horas ele vai estar do seu lado. - Promete meu pai e eu assinto em concordância. Sabia que era humanamente impossível ele vir dos Estados Unidos em menos de duas horas, mas fiquei mais desesperada ao me imaginar sozinha, sem o pai da minha filha, por todo esse tempo. Muitas coisas poderiam acontecer nesse período e eu precisava dele ali. De repente todas as possibilidades começaram a passar pela minha cabeça e eu suspirei.

-Pai, eu não sei o que tá acontecendo. - Disse assustada, mas tentando retomar o controle da situação, porque sem o Miguel ali era minha a responsabilidade de cuidar de Laura. - Mas se por acaso tiver que escolher entre Laura e eu, você vai dizer para salvarem a minha filha, entendeu? - Aviso sentindo as lágrimas escorrerem ao cogitar a possibilidade de nunca poder pegá-la no colo.

-Não fala bobagens, as duas vão ficar bem. - Responde Alma ao perceber que meu pai estava catatônico de tão desesperado.

Chegamos no hospital e eu sou levada imediatamente para a sala de atendimento, eles deixam Alma entrar comigo ao verem o meu desespero, então ela segura a minha mão o tempo todo enquanto meu pai espera do lado de fora, imagino eu que dando um jeito de trazer Miguel de volta para o México. 

Eu não conhecia o médico que entra na sala para me examinar, era o plantonista da noite, que me informa que cuidaria de mim e da Laura até que a minha médica chegasse no hospital. Ele me pergunta o que aconteceu, mas eu apenas balbucio entre o choro palavras desconexas que variam entre "sangue", "dor" e o fato de eu não estar a sentindo mexer. Alma explica mais ou menos o que aconteceu e a primeira coisa que ele faz é pegar um sonar para tentar ouvir o coração da minha filha. 

O gel gelado é espalhado pela minha barriga e ele mal encosta o transdutor sobre o meu ventre quando o som ritmado e forte do coração de Laura toma a sala. Eu nunca senti tanto alívio na minha vida, o choro esganiçado que saía da minha garganta nesse momento era de agradecimento.

-Oh meu Deus, obrigada! Você quase matou a sua mãe de susto, filha! Eu amo você, eu amo muito você! - Falo acariciando a barriga sem me importar com o gel sobre ela. 

-Fica calma, mamãe. Ainda não sabemos exatamente o que está acontecendo, mas o coração da sua bebê está batendo forte como deve ser. Ela deve estar tirando um cochilo, por isso não a sentiu mexer. - Explica o médico limpando a minha barriga e me ajudando a ficar na posição indicada para ver de onde vinha o sangramento.  - Mia, eu vou colocar o espéculo, ok? É um pouco desconfortável, tente ficar o mais relaxada que conseguir. - Explica. 

Eu sempre achei um absurdo os médicos falarem para "ficar relaxada" enquanto enfiavam um pedaço de plástico dentro da sua vagina, como se isso fosse possível, além de que "um pouco desconfortável" era piada para o quanto aquele exame doía. Entretanto, naquele momento eu estava pouco me importando para o que ele estava colocando dentro de mim, eu só queria saber o que estava acontecendo com a minha filha. 

Alma aperta a minha mão e seca as lágrimas que molhavam o meu rosto enquanto eu era examinada. Esperávamos apreensivas o que o médico iria falar.

-Mia, eu vou fazer o exame de toque antes de tirar conclusões precipitadas, mas pelo o que eu pude observar é pouca quantidade de sangue e está misturado com o tampão mucoso. - Explica e eu arregalo os olhos. Eu estava familiarizada com os termos médicos devido às minhas leituras de preparação para o parto. 

-Tampão mucoso? Mas isso só não deveria acontecer nas semanas antes do parto? Eu estou de 28 semanas! - Falo apavorada enquanto ele realiza o exame de toque. Observo a sua expressão enquanto ele remexe os dedos dentro de mim e vejo o exato momento em que ele faz uma careta. - O que foi doutor, o que tem de errado?  - Questiono sentindo todo o desespero que havia ido embora ao ouvir o coração de Laura, retornar com força total. 

-Mia, você está com quatro centímetros de dilatação. - Constata e mais lágrimas descem pelo meu rosto. - Você tá tendo contrações ritmadas, perdeu o tampão mucoso e seu colo do útero está dilatando, por isso o sangramento. - Ele continua falando enquanto eu encaro um ponto fixo na parede, sabendo exatamente quais seriam suas próximas palavras. - Você está em trabalho de parto. - Conclui enquanto Alma ofega e as lágrimas escorrem silenciosas pela minha face.

-Eu estou de 28 semanas. - É a única coisa que sai da minha boca, porque era a única coisa que eu conseguia pensar. Ela tinha que ficar ali dentro pelo menos até as 37 semanas. 

-Eu sei, você ainda tem uma dilatação relativamente pequena e suas contrações estão espaçadas. Vamos tentar parar o trabalho de parto, não tem garantias de que vamos conseguir, mas nós vamos tentar, tudo bem? - Fala e eu assinto em concordância, eu aceitaria qualquer coisa que ele me dissesse desde que fizesse bem para a minha filha. - Nós temos que trabalhar com a possibilidade real de que nós não consigamos impedir o nascimento e precisamos estar preparados para essa possibilidade. Por isso, você vai receber injeções de corticoide para amadurecer mais rápido o pulmãozinho da bebê, além de fazer um procedimento de sulfatação, que serve para proteger o sistema nervoso da sua bebê e impedir que ela tenha convulsões caso nasça hoje. - Explica e eu ofego. 

-Convulsões? - Questiono sentindo o meu peito apertar, ela era tão pequenininha, não devia passar por nada daquilo. 

-Pode acontecer com bebês extremamente prematuros como é o caso dos que nascem com 28 semanas, mas nós vamos tentar impedir e torcer para que nada disso aconteça. - Fala e eu assinto. - Vou entrar em contato com a pediatria também e reservar um leito de UTI neonatal caso o parto ocorra. Você já tem algum pediatra? - Questiona me olhando a espera de uma resposta enquanto eu luto bravamente para manter o controle, afinal naquele momento eu precisava tomar as decisões para proteger a Laura.

-Sim, Lupita Fernandez vai ser a pediatra. - Respondo torcendo para que não fosse preciso utilizar os trabalhos da minha amiga no dia de hoje. 

-Ok, eu vou entrar em contato com ela. Você vai ser transferida para um quarto na maternidade, vão precisar passar uma sonda vesical para poder monitorar o quanto você está produzindo de urina, devido a sulfatação que pode ter efeitos colaterais em você. Pode ser também que você sinta um desconforto e um calor muito forte no corpo quando a medicação estiver sendo aplicada. - Explica.

-Eu não me importo. Desde que Laura fique bem, eu não me importo com nada. - Respondo acariciando a minha barriga. 

-Também colocaremos um aparelho conectado na sua barriga para medir a intensidade e a frequência das suas contrações, além de monitorar o coração dela. - Conclui e eu assinto, essa sendo a primeira informação que eu gostei de ouvir, pois ficaria mais tranquila tendo seu coração monitorado.

POV Miguel

Dormi com o coração apertado aquela noite, preocupado com o que Mia tinha dito durante a ligação. Depois de muito virar na cama, acabei pegando no sono pela exaustão, rezando para a noite passar logo e eu poder pegar o meu avião para o México o mais breve possível. Tinha pesadelos sem sentido a noite toda, todos eles envolvendo Mia e Laura para o meu desespero. 

Acordo assustado sem saber onde eu estava ou que horas eram ao ouvir o meu celular tocar. Assim que me dou conta que era madrugada e o meu celular estava tocando, o desespero toma conta de mim, afinal, ninguém ligaria a essa hora se não tivesse acontecido algo grave. 

Pego o celular e tremo de desespero ao ver o nome de Franco estampado na tela. Meu coração nunca bateu tão rápido e eu já sinto as lágrimas se acumularem nos olhos.

-O que aconteceu? - Atendo desesperado.

-Miguel, você precisa manter a calma. - Pede meu sogro e o meu desespero aumenta, ninguém falaria essa frase se algo muito grave não estivesse acontecendo.

-Pelo amor de Deus, eu tô quase infartando. O que aconteceu? - Questiono meio gritando meio chorando, já me levantando da cama e colocando a primeira roupa que acho no caminho.

-Nós ainda não sabemos muito bem, Mia sentiu dores fortes e ficou preocupada porque Laura não estava mexendo muito, então tivemos que vir para o hospital. - Explica meu sogro e eu posso ouvir o desespero na sua voz, percebendo imediatamente que era algo mais grave do que ele estava me dizendo. 

-Franco, pelo amor de Deus, me fala a verdade. Eu sei que você está amenizando a situação. - Peço sentindo as lágrimas escorrerem pelo rosto. Procuro meus documentos colocando tudo de qualquer jeito dentro da mala.

-Ela teve um episódio de sangramento também. - Completa resignado e eu desabo aos prantos. - Calma, meu filho. Não se desespera, vamos tentar manter a calma. - Pede e eu rio irônico no meio do choro, morrendo de medo do que iria acontecer e morrendo de raiva por estar longe. 

-Você tem noção de que a minha mulher está com dor, sangrando e não está sentindo a nossa filha mexer enquanto eu estou na porra de outro país?! Como eu posso manter a calma? Pelo amor de Deus! - Esbravejo e o ouço suspirar do outro lado.

-Ela precisa de você aqui e precisa de você calmo. Já está desesperada o suficiente sem te ver assim. - Fala e eu suspiro soluçando ao telefone ao perceber que ele tinha razão. Eu precisava ser forte por elas. - Tem um táxi te esperando na recepção do hotel e um jatinho apostos no aeroporto, no máximo em duas horas você vai estar aqui. O médico está com ela e Alma lá dentro, assim que eu tiver alguma notícia eu mando mensagem. 

-Tudo bem, obrigada. Cuida delas por mim, ok? Só, por favor, eu não posso nem cogitar a possibilidade de perdê-las! - Imploro soluçando.

-Você não vai, meu filho. Vai ficar tudo bem, eu prometo. - Responde eu agradeço, mesmo sabendo que ele não tinha controle nenhum sobre a promessa que fez.

Assim que entro no táxi, disco rapidamente o número da minha mãe que atende assustada no terceiro toque. 

-Miguel? O que aconteceu pra você me ligar a essa hora? 

-Mãe! - Tento falar, mas o pranto me invade como se eu não conseguisse nem cogitar dizer aquelas palavras em voz alta. 

-Filho, pelo amor de Deus, você está me assustando!

-Mãe, eu tô desesperado! O Franco acabou de me ligar dizendo que a Mia sentiu dores e tá sangrando, eles estão no hospital e eu não sei se ela e a Laura estão bem!  - Choro no telefone com a minha mãe como nunca chorei na vida. Eu desconhecia o que era medo e desespero até aquele momento.

-Oh meu Deus, filho! - Suspira. - Eu sei que é difícil, mas tenta se acalmar. 

-Eu tô tentando, vou entrar no avião agora. Você pode ir pro hospital, por favor? Eu não sei o que tá acontecendo, vou ficar mais tranquilo se souber que você está lá. - Peço  querendo que Mia tivesse todo o apoio possível. 

-Claro que sim, já estou saindo de casa. - Avisa e eu suspiro aliviado. - Você vai ver que vai dar tudo certo.

-Tomara, mãe. Por que eu não sei o que vai ser de mim se algo acontecer. - Desabafo.

-Não pensa bobagem, Deus vai protegê-las. Eu amo você!

-Também te amo, mãe. - Digo desligando o telefone e entrando em pânico ao ver que Franco ainda não tinha me enviado nenhuma mensagem.

Logo o avião decola e eu fico incomunicável por uma hora e meia, em completo pânico e desespero, aquela foi a uma hora e meia mais lenta da minha vida. Muitos cenários vinham a minha cabeça, um mais desesperador que o outro, e eu ficava tentando empurrá-los para o fundo da mente e pensar positivo. 

Quando finalmente aterrissamos, meu celular não quis ligar e eu tive que aguentar mais quinze minutos de incertezas e medo. Cheguei no hospital correndo até a maternidade o mais rápido possível, peguei as escadas quando o elevador demorou muito e cheguei ofegante ao quarto andar. Minha mãe e  Franco me esperavam no corredor e a primeira coisa eu fiz foi abraçá-la e chorar como uma criança choraria. Meu sogro afagou as minhas costas passando conforto e eu aceitei ser consolado por um momento, antes de engolir a agonia e ser forte pelas minhas meninas. 

Me acalmo um pouco depois de colocar o choro preso para fora e Franco me entrega um copo de água que eu bebo em desespero enquanto eles me atualizam do que aconteceu. Choro mais um pouco com a possibilidade do parto prematuro, mas tento focar que no momento as duas estavam bem e que havia um plano em andamento para impedir que Laura nascesse antes do tempo.

-Como você está? - Questiona Franco alguns minutos depois.

-Tentando retomar o controle das minhas emoções.- Admito secando uma lágrima que escorre. 

-Filho, Mia está desesperada. Você precisa tentar manter a calma por ela. - Minha mãe fala e eu assinto em concordância.

Após alguns segundos tentando conter as lágrimas, mas tendo total noção de que o meu rosto revelava o tanto que eu havia chorado, entro devagar no quarto em que minha mulher estava. Ela não notou a minha presença em um primeiro momento e eu me permiti observar a cena a minha frente, vendo-a com inúmeros fios ligados ao seu corpo, Alma do seu lado segurando a sua mão e ela com o olhar vazio fixado em uma parede branca enquanto lágrimas silenciosas escorriam pelo seu rosto vermelho e inchado revelando o quanto ela já havia chorado naquela noite. Uma de suas mãos repousava protetoramente sobre a barriga como se tentasse manter Laura ali dentro a todo o custo e sua respiração parecia seguir no mesmo ritmo das batidas do coração da nossa filha que tomavam o quarto e era única coisa que deixava o meu coração mais tranquilo em todo aquele cenário. 

Respiro fundo e adentro o quarto chamando a atenção de Mia que assim que me vê ergue os braços em minha direção como se fosse uma criancinha pedindo colo, os olhos rasos de água e os lábios tremendo pelo medo. Nosso olhar se encontrou por um segundo e nós fomos capazes de sentir a dor um do outro, o medo que só nós dois sabíamos que estávamos sentindo, se reconhecendo por um instante e se compreendendo, afinal, só nós dois ali éramos os pais da Laura e tínhamos a dimensão real do desespero que sentíamos. 

Alma abre espaço para que eu me sentasse ao seu lado na cama e ela se abraça a mim como se eu fosse capaz de protegê-las de todo o mal. Acaricio seus cabelos, beijo sua testa e repouso uma das mãos sobre a sua barriga, sentindo-as protegidas nos meus braços. Mia chora alto como se finalmente pudesse colocar para fora todo o medo e desespero das últimas horas, o choro é doído demais e eu não consigo me conter chorando junto com ela. Encostamos nossas testas uma na outra e repousamos nossas mãos unidas sobre o seu ventre, sentindo um chute de Laura naquele momento, o que nos arranca um sorriso em meio ao pranto. 

Observo que ninguém no quarto ficou alheio aquela cena entre nós dois, percebendo que até mesmo Franco secava as lágrimas em seu rosto. Assim que recupero um pouco o controle, beijo sua barriga agradecendo a Deus pelo milagre de sua vida.

-Hey, meu amor. O papai chegou e não vai mais sair de perto de você, ok? Eu sei que você ficou assustada, mas vai ficar tudo bem, eu prometo pra você. - Suspiro beijando a barriga de Mia e sentindo Laura mexer sob as minhas mãos o que faz com que meus olhos nublem novamente, dessa vez de emoção e alívio. - O papai sabe que você tá ansiosa pra conhecer a mamãe, mas aguenta só mais um pouquinho aí dentro, tá bom filha? Você ainda é muito pequenininha, amor. 

Ficamos ali por um momento, apenas curtindo a nossa filha se movendo em seu ventre e agradecendo por ela estar bem. Algum tempo depois, a médica de Mia chegou e nos explicou tudo mais uma vez, explanou sobre o trabalho de parto prematuro, os riscos, o que iriam fazer para impedir e o plano de ação que havia sido montado para que Laura tivesse tudo que precisasse caso nascesse antes do tempo.

Depois disso, ela constatou que as contrações tinham diminuído de ritmo e estavam mais fracas, além de Mia permanecer com os quatro centímetros de dilatação, mostrando que ao menos por enquanto o trabalho de parto havia estagnado, para o nosso alívio. Choramos de alívio dessa vez, agradecendo a Deus por mais esse milagre, por mais essa graça que ele nos proporcionou. Naquele instante, com a minha mulher e a minha filha entre os meus braços e saudáveis, eu senti que não precisava de mais nada no mundo para ser feliz.

Óbvio que nós sabíamos que a partir daquele instante, a gravidez tranquila e saudável de Mia havia ficado para trás e enfrentaríamos uma grande batalha daqui para frente, mas como a médica explicou, naquele momento cada dia que conseguíssemos manter Laura ali dentro era uma vitória conquistada e faria total diferença no prognóstico dela quando nascesse, e por hoje, nós havíamos vencido, pois estava claro que Laura não nasceria, pelo menos não naquele dia. Graças a Deus.

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Oi tramadinhxs, demorei mais voltei! Minha vida tá uma loucura, mas sempre vou voltar, mesmo que demore pra aparecer. Esse capítulo foi bem intenso, cheio de altos e baixos, e agora MyM vai precisar segurar a barra de tudo que está acontecendo. Não se preocupem que no final tudo fica bem, mas não sem alguns problemas pelo caminho. Confiem em mim. Beijinhos





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