A ENTIDADE
- Quem é você? — Um dos homens amarrados e que está apoiado na parede de concreto corroído, pergunta para uma sombra parada no escuro.
— O importante aqui não sou eu, mas vocês. — A sombra revela-se.
O homem está usando uma roupa de plástico transparente, com sua nudez à mostra.
— Você sabe quem somos? — O rapaz mais novo e que usa uma camisa vermelha, pergunta tentando intimidar ao mesmo tempo que procura se soltar das cordas.
— Pouco importa saber quem são vocês. O que realmente importa é saberem como irão morrer. — Ao completar a frase, ele senta-se num banco de madeira olhando para os três pares de olhos.
— Eu estou lembrando da sua cara! — Grita o rapaz que está usando uma camisa com botões.
- Sim! Nós roubamos a sua casa. — Reforça o mais velho dos três. Um homem aparentando quarenta anos e com um tufo de cabelo no centro da cabeça.
— Eu te deixei à beira da morte. Na verdade pensei que havia te matado. Como isso é possível? — Revela com surpresa o noviço.
O homem sentado, deixa escapar um sorriso.
— Como você nos achou? — O coroa insiste na pergunta: "Como".
— O cheiro podre que exala de vocês. Lauro é um bom homem. Ele acha que darei apenas um susto em vocês. Inocente.
— Você está de gozação conosco? Esse é seu nome! Eu me lembro de você!
— Não tenho dúvidas que lembram-se do Lauro. — Fala o homem com um sorriso mais expressivo. — Mas quem está diante de vocês não é ele.
— Vamos seu otário, deixe dessa sua ladainha e nos solte! — Fala o quarentão, que está com as mãos amarradas para frente.
— Quando eu começar a matar vocês, e acreditem que vou — O trio ver o homem arrastar uma mala para perto da cadeira que está sentado. —, e acreditem tambem que vai doer... Então saberão que isso não é uma gozação.
— Não caio nesse seu papo furado! Você gritava feito uma mariquinha enquanto te furava. — O noviço solta as palavras que são recebidas sem entusiasmo pelo homem que mexe na bolsa comprida.
- É verdade! Nem força para defender sua familia você teve! Seu merda! — É a vez do que está usando a camisa com botões, insulta-lo.
O trio percebe que há algo diferente com ele, mas ainda não sabe o que é.
O calor aumenta.
O homem se levanta.
— As pessoas me adoram por causa das minhas várias formas. Eu não sou o Príncipe dos Caídos, porém sou conhecido como: A Entidade. — Ele volta a mexer na bolsa, puxando de dentro dela uma faca e um porrete. — Enquanto escolho o primeiro para matar, vou contando minha história.
O primeiro deles é arrastando pelas pernas sem dificuldades, para longe dos demais que gritam: "Solta ele!"
— Sei que estou nesse corpo, mas não tenho culpa se Lauro me chamou. — Ao terminar de escutar a frase, o mais jovem tem a sua língua colocada para fora e serrada com uma faca cega.
O sangue jorra na face realizada do homem, que segura o pedaço de carne enquanto escuta os urros infernais do bandido.
— Eu não dou crença a todos que me chamam, mas ele me invocou na moda antiga... Na forma mais ancestral e dolorida possível.
O homem joga a língua dentro da boca e começa a mastiga-la. E mesmo fazendo volume enquanto mastiga, segue falando:
— Estão vendo isso? — A dupla que ainda será morta, enxerga um corte profundo na mão esquerda dele. - Lauro me ofereceu o sangue dele por comunhão. Fez um pacto comigo.
O noviço sem língua, balança veementemente sua cabeça, tentando impedir que sua orelha esquerda não seja decepada. Inútil.
— Vocês foram muito cruéis. Poderiam ter ficado somente com o pecado da inveja, e apenas o roubado. Mas não adiantava somente olhar com malícia para os bens de Lauro... Vocês queriam tê-los na forma mais literal possível.
A orelha do mais jovem, depois de arrancada é jogada fora, parando ao lado do rapaz que tem a camisa com botões.
— O mal só quer uma desculpa... — Reflete olhando para o mais novo que grita alucinadamente cheio de dores.
A ponta da faca entra ferozmente no olho direito do marginal sem língua, que tem o bagaço do globo ocular levado até a boca do seu algoz.
— Os olhos tem um sabor diferenciado. — O rapaz mais novo, ainda gritando de dor pelo globo ocular extraído, urra mais alto quando é a vez do olho esquerdo ser-lhe arrancado.
— Como a filha dele, que vocês mataram naquela noite, dizia: "Está uma Dilicia".
— Quem é você? — A pergunta irrita o possuidor da faca, que agora pega o porrete.
Com ataques brutais... O noviço cego, sem ligua e com uma orelha a menos é morto à porretada.
Como um urso pardo que levanta-se depois de uma vitória, o homem faz igual pairando sobre o morto.
O corpo dele está com a pele esmagada de dentro para fora, pelas pauladas que recebera.
— Essa necessidade do ser humano de querer saber tudo é entediante. Mas vejamos pelo seguinte ângulo: Se esse aqui morreu sem os olhos, língua e ouvido, qual será que foi o pecado dele?
O homem que está usando a camisa de botões, é puxado logo em seguida que a pergunta é feita.
— Por favor eu fui forçado. Meu irmão me obrigou!
— Na antiguidade minha imagem parecia com a de um gafanhoto. Eu era verdadeiramente adorado. — Depois de suspirar continua: — Que saudades daquela época.
Ele para de falar bruscamente.
— Vocês escutaram o que acabei de ouvir? Os cães do inferno receberam o amigo de vocês! E estão fazendo uma baita de uma festa! O problema de ir para o inferno é como você recebe a punição pela vida que levou. Digamos assim, as consequências dos suas atos vão te punir eternamente e infinitamente. Vocês terão suas carnes, nervos e tendões, novamente reconstruídos para serem punidos sucessivas vezes!
A camisa do segundo assassino é rasgada com tanta ira, que os botões saltam para Longe.
— Esquerdo ou direito?
— Por favor... Eu imploro.
— Novamente: Esquerdo ou direito? — A ponta da faca passeia pelas auréolas dos mamilos do segundo matador. — Se você não escolher, eu o farei por você.
— N-não... Por favor pare. Eu te suplico! — Grita o homem que vê de baixo a figura da maldade que está por cima dele. — Foi meu irmão quem me obrigou!
— Você escutou as súplicas de Lauro, quando ficou por cima da esposa dele? — Um grito é dado no ouvido do rapaz: ESQUERDO OU DIREITO?
— Direito. Pode tirar o peito direito. — O choro do homem, que fez sua escolha, é recebido com uma satisfação efêmera pelo dono da faca.
— Meu rapaz... Quem disse que estava falando do seu peito? Eu só perguntei direito ou esquerdo?
O rapaz tem sua calça arrancada com violência voraz.
— Me deixe em paz! Me deixe em paz! — O jovem grita batendo as pernas.
— Nós te daremos uma oferenda muito maior da que ele te deu! — Dispara o coroa. — Se você gosta de sangue, nós te daremos sangue. O que você quiser faremos para que nos deixe livres!
Os dois escutam uma gargalhada louca. Sem nexo. Desorientada e ininterrupta.
— Vocês querem corromper o que já está corrompido? É sério que para escaparem da minha vingança, fariam qualquer coisa que pedisse?
— Sim! Eu faço qualquer coisa por você. — Responde o homem que tem um tufo de cabelo no meio da cabeça.
— Então você castraria esse merda que está ao meu lado?
— Eu faço isso! Eu faço! Pode confiar que num instante eu castro ele!
— E depois de matá-lo, o que mais você me daria?
— Minha alma! Eu dou minha alma se você matar o Lauro também!
— Mas por que iria querer ele morto? Eu moro dentro dele!
— Você vai ter meu corpo. Pode morar dentro de mim. — O rapaz que está sem as calças, observa tudo sem acreditar no que está escutando.
Vendo que sua situação só piora, ele começa a implorar ainda mais pela sua vida e promete ainda mais coisas.
Porém o que ele escuta logo a seguir, o deixa sem esperança:
— É meu rapaz, eu acho que vou ficar com a proposta do coroa ali.
O homem mais velho depois de solto, lhe é entregue a faca para que mate o que está no chão.
— Sim! Só mais uma coisa, depois que tirar o testículo dele, vai ter que comer.
— Sim... Pode deixar. — O rapaz vê o seu comparsa se aproximando com a faca na mão. Ele volta a implorar:
— O que você vai dizer à nossa mãe?
Com uma obstinação macabra e diabólica, o homem que tem um tufo de cabelo no meio da cabeça, rasga o saco escrotal e o come sentado sobre o corpo do irmão que esguicha sangue.
— E agora? Eu fiz o que você pediu! Eu quero poder! Eu quero matá-lo. — Abrindo os braços continua dizendo: — VENHA! A MINHA ALMA É SUA!
Clap, clap, clap e clap.
Ele escuta as palmas.
Franze o cenho sem entender nada.
— A sua alma e a minha já não nos pertencem mais.
O homem que pedia para ser possuído, leva uma porretada na clavícula esquerda a quebrando.
Ele Grita de dor mas implora gritando:
— EU FIZ O QUE VOCÊ PEDIU! EU MATEI MEU IRMÃO!
Outra porretada, agora no joelho.
E mais outra no mesmo lugar, logo em seguida.
— Sim... É verdade que fez o que te pedi, e ainda comeu o testículo do seu irmão.
Lauro se aproxima do homem caído no chão cheio de dores.
— A Entidade nunca existiu seu filho da puta. Eu sou "A Entidade"!
O homem para de gritar com os olhos arregalados sem entender nada.
— Não os achei por causa dos pecados de vocês! Foram três anos pagando a vários detetives, até que um deles me deu a pista que chegou até vocês. E agora posso ter a minha vingança.
Lauro o golpeia no outro joelho.
— Eu morri naquela noite. Mas a minha morte foi dentro da minha alma. Porém como professor de Antropologia, eu sabia que os homens temem mais o sobrenatural do que o natural.
— Então você não está possuído por Entidade alguma? — pergunta o homem tentando inutilmente segurar mais uma porretada que castiga sobre seu corpo.
— Seu merda! Será que não consegue ver que estou possuído pelas desgraças que vocês me causaram? Contemple a sua obra prima! A Entidade!
Lauro vai desferindo golpes e mais golpes, deixando a ira contida todos esses anos, extravasar pulmões à fora.
Com a chegada do cansaço Lauro cai sobre o corpo. O cheiro do sangue impregna suas narinas.
Ele agora sorrir como um demente. Gargalha como se estivesse assistindo um filme de Charles Chaplin.
Lauro levanta-se e segue até o banheiro. Liga o chuveiro e deixa a água correr pelo seu corpo.
Ele sorrir com a ignorância do ser humano em acreditar que todo mal é sobrenatural.
Os homens são os piores demônios deles mesmos.
Seus gritos de sofrimento vibra a parede que está na sua frente.
O bolor enche sua boca, o fazendo vomitar até o que não tinha mais para sair.
De joelhos ele olha para o lado, e a imagem da mulher e filha aparecem sobre uma luz forte e brilhante.
Lauro entendo agora que eles nunca ficarão novamente juntos, por que o caminho escolhido por ele foi o do inferno.
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