Capítulo XII
Olá, espero que estejam a gostar da história até agora. Tenho aqui uma música para ouvirem neste capítulo. Para quem quiser, é apenas após os terceiros asteriscos (* ** *). Boa leitura!
* ** *
Na manhã seguinte, o trio atravessou a chuva que caía sobre a capital escocesa em direção à esquadra da polícia. Quando lá chegaram, sentaram-se à espera de serem atendidos enquanto bebiam chocolate quente da máquina de bebidas.
Dentro de alguns minutos estavam à frente da secretária de um agente da polícia.
- Bom dia, em que é que posso ajudar?
- Bom dia, nós viemos saber em que pé está o caso daquele homem, dono de uma livraria, que morreu.
- E que relação tinham com a vítima?
- Éramos os sobrinhos. O meu pai e a minha tia estão demasiado perturbados para virem aqui, por isso viemos nós.- explicou Ava.
- Nem consigo imaginar o que seria se algo assim acontecesse ao meu irmão.- acrescentou Daniel.
O agente olhou para eles com uma cara desconfiada:
- Pelo que me informaram, o médico legista declarou que foi suicídio. O caso está encerrado.
Os três olharam para ele, atónitos.
- Eu vi que ele tinha sido esfaqueado no abdómen!- replicou Ava.
- Eu estava lá com ela, nós vimos a polícia no local e o corpo tinha sem dúvida uma grande mancha de sangue na barriga.- mentiu Daniel.
- Lamento que tenham visto assim o vosso tio.- começou o agente a dizer, no entanto, havia algo no seu tom que transmitia falsidade.- Se tiverem alguma dúvida poderão falar com um dos meus superiores.
- Muito bem, ficamos aqui à espera dele.- aceitou Ava. Por um segundo, a rapariga jurou ver um misto de espanto e perturbação na sua cara, todavia se era isso que realmente sentia, o polícia disfarçou-o com um sorriso afável.
Passou algum tempo até que alguém viesse, tanto que eles começaram a pensar que tinham sido esquecidos.
- Bom dia. Sou o Capitão Morgan, ouvi dizer que tinham algumas questões em relação ao caso do livreiro que morreu ontem à tarde.
- Bom dia, sim nós temos algumas dúvidas. Nós vimos que o nosso tio foi esfaqueado, contudo o outro polícia disse que tinha sido suicídio. Para além do mais, durante o tempo que estivemos aqui à espera, apercebi-me que é praticamente impossível o médico legista já ter declarado a causa de morte, visto que esta só ocorreu ontem quase ao fim da tarde.
O Capitão olhou para ela com uma certa irritação.
- Percebo que os jovens vejam muitas séries, hoje em dia, mas a verdade é que o médico legista foi logo chamado ao local do crime e declarou que era claramente um suicídio. No entanto, também fiquei com umas certas dúvidas. Durante a breve investigação que foi levada a cabo, foi constatado que a vítima não tinha quaisquer familiares, todavia afirmam ser seus sobrinhos, certo?
Os jovens olharam para ele sem saberem o que dizer. Aquilo não estava a correr como esperavam.
- Como hoje me estou a sentir generoso vou deixar esta situação passar, desde que saiam imediatamente e nunca mais vos volte a ver.
Sendo assim, saíram resignados.
- Não acho que pudesse ter corrido pior.- objetou Daniel.
- Nós não podemos desanimar. Sim, é verdade que correu mal, mas nós temos de continuar a insistir até cumprirmos o nosso objetivo. Fazemos isto por Isaac e não nos podemos esquecer disso.- afirmou David.
- Insistir?- começou a ruiva que tinha estado calada desde que tinham saído.- Deixa ver o que temos até agora: Isaac, que de acordo com o que nós pensávamos era um bêbado e um vagabundo, foi morto por uma organização que controla os políticos e a polícia. Para além de que também são uma seita, logo são uns fanáticos religiosos. No caminho até Edimburgo, Daniel foi raptado e um homem foi morto no dia seguinte a falarmos com ele, o que foi culpa nossa!
- Ava...- os gémeos olhavam para ela com uma cara de espanto.- Como é que podes pensar em desistir depois de tudo isto?
- É precisamente por causa de tudo isto que nós temos de parar. Eu não aguento se alguma vos acontecer, especialmente se for por minha causa. Eu não posso deixar que mais ninguém se magoe, nós temos de voltar para casa.
- Casa? E para ti o que é isso? Se voltares para Brighton vais parar a uma família de acolhimento ou a um orfanato e foi disso que sempre fugiste. Não sei onde é que foi parar a Ava corajosa, autónoma e obstinada que sempre conheci mas trá-la de volta, precisamos dela.
A rapariga olhou para eles. Pensava no que dizer, no entanto as palavras enrolavam-se e criavam um nó na sua garganta. As lágrimas ameaçavam vir cá para fora contudo ela ia-se controlar. Conseguiria pôr de lado todo o stress e toda a dor que tinha vindo a acumular e simplesmente ignorá-la. Aquilo que sentia era apenas da conta dela, ninguém tinha de levar com aquilo tudo.
Todavia, David percebeu e abraçou-a. Aí a rapariga não se conseguiu conter e começou a chorar.
- Nós entendemos perfeitamente que estejas assustada, mas nunca te vamos abandonar.
- É verdade.- continuou Daniel.- Nós devíamos voltar para o motel, estamos todos a precisar de descansar.
Começaram a fazer o caminho de volta, contudo decidiram dar um volta maior passando por um parque. Enquanto andavam aperceberam-se que havia uma estufa e decidiram entrar.
Estiveram por lá, até que viram o Capitão Morgan a falar com um homem com a cara tapada por um cachecol e uma boina.
- Porque é que eles não mudam de roupa? Sempre que vemos alguém assim vestido já sabemos que são eles, é tão óbvio.- opinou Daniel.
- Shiu, quero ouvir o que eles estão a dizer.
- Tem de tratar de eliminar o arquivo do caso.
- Eu sei.- retorquiu Capitão Morgan.- Irei mover os documentos para o meu escritório em minha casa e lá irei destruí-los.
De seguida, o homem com a cara tapada entregou um envelope que parecia conter dinheiro, ao Capitão Morgan.
Como os dois homens se estavam à aproximar o trio saiu da estufa o mais depressa que podia.
- Vocês ouviram aquilo? Eu bem achei estranho que aquele agente nos tivesse encaminhado logo para o Capitão e não para um detetive do caso.- afirmou David.
- Pelo menos sabemos exatamente o que fazer. Vamos até casa dele e levamos o arquivo.- constatou Ava.
- Tu estás louca? Sabes o que acontece se nos apanharem?
- Não eram vocês que ainda há pouco estavam a dizer que nós não podemos desistir e que temos de insistir? Então é mesmo isso que vamos fazer.
- E como pensas conseguir entrar e sair de casa dele? Além do mais, de certeza que estamos a ser seguidos.
- Para esse problema eu tenho a solução.
* ** *
Eram cinco da tarde quando Ava saiu da casa de banho do quarto.
- É estranho ver-te com o cabelo solto em vez da trança.- constatou Daniel.
- A sério? Eu pintei o meu cabelo de castanho-escuro e é nisso que tu reparas?
- Então, estou-me só a meter contigo. Assim de certeza que não te reconhecem.
- Mas ainda não é suficiente. David, cortas-me o cabelo?
- Eu? Se fosse a ti pedia a Daniel.
- E qual é a diferença...? Oh por favor!- reclamou o irmão.
- Digamos que a ele é mais natural.- David calou-se com o olhar do gémeo.
- Muito bem, senta-te aqui.- pediu Daniel enquanto indicava à amiga uma cadeira em frente ao espelho.- Como é que vamos cortar hoje?
- Não sei, estava a pensar em fazer uma permanente com caracóis. Quanto mais volumoso e com mais laca melhor!
- Estou a ver que quer algo relacionado com os anos 80... e se eu o fizesse volumoso à frente, comprido e sem volume atrás e rapado dos lados?
- É como se lê-se a minha mente.- afirmou a rapariga, entre risos.
Passado algum tempo a ruiva... quero dizer a morena... já tinha o novo visual pronto. O cabelo agora dava-lhe pelos ombros e tinha mais volume. Além disso, a cara estava muito mais visível, ao contrário de antes, que estava quase sempre tapada pelo cabelo.
- Obrigada, adorei! David, conseguiste descobrir a morada?
- Sim, aqui a tens.
- Muito bem, vamos a isso.
* ** *
Às nove da noite, após anoitecer, Ava dirigiu-se para a casa de Capitão Morgan. A distância ainda era grande, mas se fosse a pé era mais seguro e tinha tempo para rever o plano. Previamente, David fora àquela zona e havia feito uma detalhada descrição da propriedade. Além disso, notou que havia um carro a vigiar a casa, provavelmente eram os seus velhos conhecidos. Logo, a rapariga soube como evitá-los e entrar na propriedade.
A vivenda era protegida do exterior por um muro de tijolos, pintado com uma cor que já tinha sido apagada com os anos. Nele havia um buraco escondido pela hera, suficientemente grande para uma rapariga de estrutura média conseguir passar. Uma vez lá dentro, Ava tentou atravessar o jardim o mais silenciosamente e rapidamente possível. Ao chegar perto da casa notou que apenas as luzes do andar de baixo estavam a acesas, o que indicava que o capitão Morgan estava possivelmentea jantar.
Junto a um parede havia um alçapão que dava para a cave, abriu-o e entrou. Aquele espaço era pouco ou nada utilizado, possuía um cheiro a mofo e ocasionalmente viam-se algumas coisas arrumadas nas prateleiras. No entanto, aquilo que interessava à jovem era o elevador. Aquela era uma casa grande e antiga que possuía um elevador pequeno de serviço que ligava todos os andares, desde a cave até ao terceiro andar. Sendo assim, a rapariga entrou nele e subiu até ao segundo andar.
Após sair, começou a abrir todas as portas até que encontrou o escritório. Remexeu cuidadosamente as pastas e os documentos que se encontravam na secretária até que encontrou o arquivo de Tom. Arrumou-o dentro da mochila contudo, antes de ir, a sua atenção prendeu-se num livro que estava entre a confusão da secretária. Tinha um aspeto envelhecido e na sua capa lia-se a palavra Altum a letras douradas. Ava começou a passar a mão pela capa e detetou um relevo em forma de um círculo. Ao olhar com mais atenção entendeu que era uma serpente que comia a própria cauda. Ouroboros. Nem podia acreditar no que tinha encontrado! Colocou tudo o que necessitava na mochila e dirigiu-se para a porta, todavia começou a ouvir passos vindos das escadas. Fez figas para que o dono da casa subisse mais um andar, mas isso não aconteceu.
A rapariga começou a olhar por todos os lados à procura de uma saída, mas não havia nenhuma. Até que olhou para a janela. Era uma loucura, todavia nem conseguia imaginar no que iria acontecer se fosse apanhada. Dirigiu-se para a janela o mais depressa possível e abriu as portadas. Entrou na pequena varanda, fechando-as atrás de si. Parou por um segundo, mesmo não o tendo e pensou. À frente tinha uma longa e possivelmente letal queda, atrás estava capitão Morgan e talvez o fim da sua vida como a conhecia. Do seu lado esquerdo só havia outra varanda demasiado longe para ser alcançada e do lado direito estava um cano. Um cano! Já tinha visto centenas de vezes na televisão pessoas a descerem e a subirem por eles. Contudo aquela era a vida real e havia a grande probabilidade de cair e nunca mais se levantar.
Encheu o peito de ar e começou a descer por ele, com os olhos sempre fechados para não causar vertigens. Voltou a percorrer o jardim o mais discretamente possível, contudo quando estava quase a chegar ao buraco no muro ouviu a voz de capitão Morgan vinda da varanda:
- Tu aí! Para imediatamente!
Ava atravessou o muro e correu o mais depressa que podia. A saída espalhafatosa alertou o carro que vigiava a casa e o mesmo começou a persegui-la. Acelerou o mais depressa possível pelas ruas desconhecidas de Edimburgo esperando chegar a algum lado onde se pudesse esconder. De repente, as ruas desertas cheias de casas deram lugar a uma zona movimentada. Misturou-se com a multidão e começou a empurrar toda as pessoas que estava no seu caminho. Olhou para trás e reparou que três homens com a típica roupa da organização ainda a seguiam. Quando se virou para a frente já era tarde de mais e esbarrou com um homem com o dobro do seu tamanho. Levantou-se o mais depressa possível e continuou a correr. «Só não posso perder a mochila», pensava.
Finalmente, ao fundo da rua viu um autocarro a chegar uma paragem. Ainda estava longe mas era a sua última oportunidade de se conseguir salvar. Ignorou o ardor nos pulmões e os ossos doridos nas pernas e avançou para a estação como um atleta avança para a meta.
Deu mais uma olhadela para trás, censurando-se. Não podia olhar para trás, só a ia atrasar. Estava quase a chegar lá, o autocarro estava mesmo à sua frente no entanto as portas começaram a fechar-se.
- NÃO!- gritou Ava.
O motorista olhou para ela com um olhar chocado e voltou a abrir as portas. A rapariga pagou um bilhete e desfaleceu num dos bancos.
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