Capítulo IXX
Os dias passavam devagar para Ava. Tal como os outros membros, acordava às 6:30 em ponto e tomava um duche de água fria. Depois, dirigia-se à capela onde decorria sempre a mesma cerimónia e quando esta acabava, seguia para o refeitório onde o pequeno-almoço começava a ser servido. A partir daí tinha liberdade para fazer o que quisesse ou ir a qualquer sítio dentro daquela que se podia denominar uma cidade-estado. Claro, que havia sempre alguém a vigiá-la ao longe. Ou de perto, no caso de Heidi.
Mesmo assim, ela por vezes conseguia escapar da sua vista graças a Zach, que a tentava ver sempre que possível. O truque, tinha ela percebido, era trata-lo de maneira indiferente e desafia-lo. Isso deixava-o louco. Mais louco do que o costume, pois ele às vezes era assustador. Não era pelo seu lado possessivo, mas antes pelas suas explosões. Não era segredo para ninguém que o rapaz se considerava superior a qualquer criatura viva ou inanimada, contudo as reações eram quase sempre exageradas.
Naquele dia, os dois decidiram dar um passeio no edifício principal, quando a tarde já ia a meio.
- Tens fome, ruivinha?- perguntara-lhe o rapaz.
- Sim, mas ainda falta tempo até eles abrirem o refeitório.
- Anda comigo.
Ele encaminhou-a, apressadamente, para fora do edifício principal e foram dar às traseiras. Ali, estavam os contentores do lixo e uma porta que ia dar diretamente à cozinha. Ao entrarem, Ava constatou que aquela divisão estava completamente vazia.
- A cozinha nunca tem ninguém a esta hora. As pessoas que aqui trabalham faltam à cerimónia da manhã porque estão a fazer o pequeno-almoço, por isso vão a uma cerimónia especial à tarde. É mesmo daquilo que estamos à procura.- explicou Zach enquanto apontava para os queques em cima das bancadas.
- É melhor não, eu não tenho assim tanta fome.
- Tretas! Eu vou comer e tu também.
Assim que ele deu uma dentada num dos queques, a porta principal da cozinha abriu-se com um estrondo.
- O que é que vocês os dois pensam que estão a fazer?- questionou um rapaz albino, com um semblante furioso.
- O que é que achas que estou a fazer, floco de neve? Estou a experimentar estes bolos para ter a certeza que estão bons o suficiente para serem servidos. Lamento, mas parece-me que têm farinha a mais.
- Floco de neve, a sério? Não consegues ser mais criativo? Pousa isso e vão-se os dois embora. Pode ser que as cozinheiras estejam hoje de bom humor.
Ava ia a começar-se ir embora, quando Zach agarrou o braço do rapaz, num ápice, e o torceu atrás das suas costas. O miúdo gemeu de dor e implorou para que ele o largasse.
- Se eu quiser comer alguma coisa, eu como. E se eu te chamar alguma coisa tu não dizes nada, ouviste?
- Larga-o, imediatamente!- bradou uma das funcionárias da cozinha que tinha acabado de chegar.- Andras, vai para a enfermaria e vocês os dois vão para o gabinete da Dirigente, agora!
A caminhada até ao gabinete foi silenciosa. Ao lá chegarem, foi-lhes dito que Mlle. Girard estava numa reunião e que por isso teriam de esperar. A ruiva olhou para o rosto de Zach com atenção. Na cara dele não havia um único vestígio de culpa, apenas uma calma serena.
- Para onde é que estás a olhar, ruivinha?
- Estava a pensar no que é que íamos fazer, depois disto.
- A minha mãe costuma amuar quando eu me meto em sarilhos. Provavelmente ainda vai demorar uns dias até nos podermos ver outra vez.
- Tu arranjas uma maneira de a fazer ver que não foi culpa tua.
- E não foi! Ele é que começou a mandar vir comigo. Como é que ele estava à espera que eu reagisse?
- Explica isso e deve tudo correr bem...- foi tudo o que ela conseguiu responder.
Passados poucos segundos Mlle. Girard mandou Zach entrar no gabinete. Quando este saiu olhou para ela, friamente, e apenas disse que era a sua vez de entrar.
- Senta-te. Já sei o que aconteceu e gostava de saber o que tens a dizer sobre isso.
- A culpa não foi de Zach. Ele apenas se alterou um pouco quando aquele rapaz, Andras, entrou na cozinha.
- Não, eu disse que já sei o que aconteceu. Interessa-me saber o que tens a dizer sobre ti.
- Eu? Bem, eu acho que não tenho nada a dizer sobre mim.
- É mentira que vocês os dois foram para a cozinha porque tu disseste que tinhas fome?
- Não, não é. Mas não foi eu quem teve a ideia de comer os queques.
- Então estás a declarar que a culpa foi de Zach. Ele que ainda agora te esteve a defender e a afirmar que tu não tinhas más intenções quando sugeriste que fossem à cozinha.
- Mas não fui eu que...
- Basta! Eu não tenho sido nada para além de uma boa anfitriã para contigo e é assim que retribuis? Aproveitando-te do meu filho?
- Eu nunca me aproveitei dele!
- Tu somente começaste a mostrar interesse quando ele referiu que sabia como passar a vedação. Achavas que ninguém ia perceber o teu plano ridículo? Eu tenho olhos e ouvidos em todo o lado.
- Explique-me, porque é que não me matam, simplesmente? Eu faço parte de algum tipo de profecia?- a Dirigente teve um súbito ataque de riso ao ouvir isto.
- Tu? Oh, não. Tu és insignificante. Se fosse há umas décadas atrás, talvez te tivéssemos eliminado, se insistisses muito. Contudo, nós estamos muito perto de atingir o Propósito e entrámos num período de preparação espiritual em que não pode haver mais sangue derramado.
- O que é o Propósito? E o que tinha Isaac haver com isto tudo? Ele fazia parte da Altum e decidiu sair?
- Claro que não. Foi-lhe entregue informação altamente confidencial, por engano. Nós prometemos que nada de mal lhe aconteceria se nos desse o que nós queríamos. Todavia, em vez de aceitar o acordo, decidiu ir à polícia. No final, teve de se tornar sem-abrigo, enfim.
- E Tom?
- Tu és uma rapariga demasiado curiosa. Este homem vai-te levar até ao teu novo quarto e eu espero que desta vez sejas uma melhor hóspede.
Ava olhou para trás e deparou-se com o homem que tinha servido dias antes da morte de Isaac. Quando ela olhava para os seus olhos só conseguia ver morte. Ele não disse nada e apenas fez um gesto para que ela o seguisse. De seguida, entraram os dois no elevador e desceram até aos subterrâneos. Aquela parte do edifício era bastante húmida e escura e após andar vários metros e virar em várias esquinas, a rapariga estava completamente perdida. Mesmo assim, numa tentativa desesperada, fez uma rasteira àquele homem e começou a correr o mais depressa que podia. No entanto, apesar da idade, ele era mais veloz do que ela e depressa iria alcança-la. Sendo assim, quando virou numa esquina entrou numa sala para se esconder dele durante algum tempo. Foi apenas quando olhou para a sala onde se encontrava com mais atenção que entendeu o que era o Propósito. Não interessava se o homem com os olhos gelados a encontrava ou se ela conseguia fugir para fora do Refúgio. Ava não conseguiria escapar ao que estava para vir.
* ** *
Boas Festas!!
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