Correntes de Amor
Era pra ser apenas mais um dia comum, mas a vida tem dessa coisa doida de nos colocar em diversas situações com as quais nós não estamos habituados. E a situação na qual eu me encontrava era muito inusitada.
Em primeiro lugar, eu não queria ser um cupido. Em segundo lugar, eu queria menos ainda ser um cupido em pleno dia dos namorados. Em terceiro lugar, era a primeira vez que eu trabalhava na parte prática da coisa, e eu só estava fazendo isso por motivos de: fui obrigado. Sim, você leu direito! EU FUI OBRIGADO A TRABALHAR NA PARTE MAIS CANSATIVA DA COISA! Puta merda, por que eu não escolhi outro ramo de trabalho? O ramo do amor claramente não era pra mim. Prova disso era o fato de o famigerado dia dos namorados mal ter começado e já tinha gente postando fotos melosas com os "amores das suas vidas" nas redes sociais.
Eu estava enjoado com tanta declaração de amor, mas nem mesmo poderia me esconder dele... Eu realmente deveria ter ouvido a minha mãe, ela tinha razão quando falava: "meu filho, você tem certeza que quer isso pra sua vida? Você sabe o quanto é complicado trabalhar com o Amor? Pior, você sabe o quanto é complicado trabalhar com pessoas apaixonadas? Por que você não fez música? Tocar arpa é seu verdadeiro talento!"
Infelizmente, eu sempre odiei a harpa, e, ao contrário do que a minha mãe acreditava, eu não tinha talento nenhum pra música. Esclarecido isto, voltemos ao meu drama. Eu simplesmente odiava o dia dos namorados: muito coração, muitos tons de rosa e vermelho, muitos chocolates e... espera! Os chocolates eu aceito. Enfim! Só... eca!
Tá! Devo admitir que é bem estranho um cupido falar isso. Você deve estar pensando: nossa, Afrodite está decepcionada com você, Armando! Acontece, meu amigo, que Afrodite não está nem aí pra o que eu penso, contanto que eu realize o meu trabalho e faça as pessoas se apaixonarem perdidamente. Isso é perigoso... Será que ninguém aprendeu nada com a Guerra de Tróia? Parece que não.
Enfim, eu estava muito revoltado com o fato já mencionado anteriormente (de que eu tinha que trabalhar de forma ativa no dia dos namorados), e não demorou nem 5 minutos pra que eu ficasse mais revoltado ainda, já que meu celular acusou uma nova mensagem no aplicativo desenvolvido por Eros — o cupido original que, aliás, não aguentava mais trabalhar com a sua mãe (vulgo Afrodite) e foi passar férias na Indonésia. A propósito, muito esperto ele, que foi passar 6 meses num lugar paradisíaco e nos largou aqui, aguentando os gritos da "chefa" —, que nos enviava informações sobre as pessoas que os cupidos deveriam fazer se apaixonar.
Abri o aplicativo pra saber quem seriam as minhas primeiras vítimas. Quase engasguei com o café que estava bebendo ao olhar o perfil dos dois. PUTA MERDA! Afrodite havia pirado! Como eu faria esses dois se apaixonarem? Isso deveria ser, no mínimo, antiético.
— Armando, você tá legal? — Erasmo perguntou, me encarando como se eu fosse um alienígena que havia descido à Terra pra abduzir geral.
Talvez isso fosse mais possível do que fazer Valentina e Enzo se apaixonarem um pelo outro.
— Como é que eu vou fazer isso? — perguntei pra Erasmo, o encarando realmente assustado, e mostrando os perfis dos dois — Não tem nada no regulamento que diga que isso é errado?
Erasmo franziu o cenho e balançou a cabeça em negativa.
— Até parece que não conhece a "chefa", Armando. Nada é errado no amor. — e dito isto, Erasmo se virou e se retirou.
— Nada é errado no amor... — resmunguei, verdadeiramente chateado. Certas coisas deveriam ser, tipo esse casal. Isso era errado, mas se eu reclamasse novamente, Afrodite gritaria comigo e me demitiria.
Se bem que não era uma má ideia... Ah, não! Precisava da grana pra pagar os livros que havia pedido. Droga! Precisava do emprego.
Suspirei profundamente e me levantei. Afrodite queria que Valentina e Enzo se apaixonassem em 48 horas, com direito a declaração de amor no meio de uma praça, com aqueles carros de som que as pessoas que não tem senso de ridículo (sem ofensas) contratam pra fazer esse tipo de coisa e balões vermelhos em forma de coração voando pelo céu. Olha, Afrodite já foi menos brega, eu hein! E menos sem noção também! Como era que eu conseguiria esse milagre? Eles precisariam de pelo menos 3 meses pra começarem a gostar um do outro, imagina pra se apaixonarem?
Ah, mas você pode usar o seu arco e flecha mágicos e... Amigo, não usamos mais o recurso do arco e flecha. Afrodite aboliu quando, por acidente, um dos cupidos em treinamento atirou a flecha em si mesmo e teve o azar de olhar o seu reflexo num espelho, ficando igual ao Narciso: apaixonado por si mesmo. Ah, e também teve o caso mais recente, em que um dos cupidos do sexo feminino, que estava sendo treinado por Eros, atirou a flecha nele. Foi um problemão! Eros não se apaixonou pela menina, já que ele meio que ficou imune ao amor com o passar do tempo, mas ficou extremamente irritado e demitiu a pobre coitada imediatamente. E é por esse motivo que ele está na Indonésia. Enfim, após esses incidentes, passamos a usar correntes, o que, convenhamos, é bem mais deprimente do que flechas, já que deixa uma leve impressão de que o amor é uma prisão. Segundo Afrodite, o uso de correntes não tem margem de erros, já que elas são programadas a funcionar somente com quem realmente o aplicativo aponta como pares ideais.
Sim, Afrodite sempre foi uma sádica e só não vê quem não quer. Agora só faltava ela reviver os poetas românticos da fase do mal do século, que viam a morte como uma válvula de escape pro sofrimento amoroso; seria a cereja do bolo.
Encontrei Valentina sentada em um banco de praça. Ela parecia muito bem sem ninguém a perturbando, e isso só fez a minha vontade de dar meia-volta e ir embora aumentar.
Os livros, Armando. Pense nos livros que você comprou. Você não pode perder esse emprego agora.
Só esses pensamentos pra me fazerem continuar com essa loucura. Respirei fundo novamente e continuei a observar Valentina. Reparei que ela usava uma roupa estranha e estava falando sozinha. De repente, Valentina se levantou em um rompante e começou a gritar: Vingança! Então apareceram várias pessoas vestidas com armaduras e começaram a lutar entre si. Só aí eu percebi que a roupa estranha que Valentina usava era uma armadura também.
Legal, Valentina era uma jogadora de RPG. Talvez isso me ajudasse de alguma forma. Ou me atrapalhasse de vez, eu não sei.
Fiquei umas 2 horas esperando aquele jogo sem nexo algum acabar, e quando finalmente acabou, Valentina estava suada e jogada no chão, aparentemente descansando. Depois que todos os outros jogadores foram embora, Valentina se levantou pra ir embora também, sem nem perceber que o seu cabelo estava emaranhado de folhas secas.
O aplicativo apitou mais uma vez, e, pra minha surpresa, dizia que Enzo estava por perto. Desviei minha atenção da tela do celular pra olhar ao redor e acabei presenciando Valentina caminhando. O aplicativo fazia um ruído estranho, incessante e alto. Ainda bem que ninguém podia me ver, caso contrário, eu estava frito. Segui Valentina, entretanto, ela esbarrou em alguém, caindo de bunda no chão e xingando vários palavrões que eu prefiro não repetir.
— Qual é, cara? — ela gritou — Você não olha por onde anda, não?
— Desculpa! — o homem pediu, bem envergonhado, o que não condizia com o seu terno e gravata e sua cara de homem de negócios — Você está bem?
— Claro, claro. Eu tô ótima! Minha bunda nem tá dolorida. — Valentina respondeu, com tanta ironia que até eu ficaria envergonhado se isso fosse direcionado a mim. O homem reparou na roupa de Valentina, franziu o cenho e fez uma careta que, provavelmente, era sinal de vergonha alheia.
O aplicativo apitava cada vez mais alto, e foi aí que eu descobri que aquele ali era o Enzo.
— Bem, senhorita, se você está bem, eu vou... embora. — Enzo informou, seguindo o seu caminho.
— Bem, senhorita, se você está bem... — Valentina o imitou assim que o viu distante — Que tipo de ser humano fala desse jeito, pelo amor de Deus?
Depois disso, Valentina foi embora, e eu fiquei me perguntando se ainda havia vaga de vendedor de fast-food na lanchonete da empresa Amor de Roma (porque Afrodite achou genial que parte do nome da sua empresa amorosa fosse um anagrama da palavra "amor").
♥•♥•♥
Se passaram 6 horas desde o encontro nada amigável de Valentina e Enzo na praça, e eu ainda não sabia se deveria realmente fazer aqueles dois se apaixonarem. Fala sério, isso era loucura e poderia ter um fim como o de Páris e Helena de Tróia! Inclusive, Afrodite foi uma naja quando colocou na cabeça que esses dois deveriam se apaixonar. O mesmo aconteceu com Romeu e Julieta! — Eles existiram mesmo, Shakespeare só foi muito esperto e passou toda a trágica história pra um papel e a transformou numa peça teatral aclamada — Afrodite, que estava muito entediada, resolveu que duas pessoas de famílias rivais deveriam se apaixonar perdidamente um pelo outro. Não é preciso ser nenhum gênio pra saber que isso daria muito errado. Romeu e Julieta morreram juntos... nossa, que romântico!
Eu estava encarando o perfil de Valentina e de Enzo no aplicativo, como se isso fosse me dar uma luz e me mostrar o que eu deveria fazer. Porém, a verdade era que eu estava cada vez mais angustiado com a certeza de que essa história teria um péssimo desfecho. Como eu faria Valentina, uma garota de 20 anos, estudante de teatro, geek até o último fio de cabelo cor de arco-íris e que não leva desaforo pra casa se apaixonar por um empresário sério do ramo hospitalar e que detesta tudo o que tenha cara de juventude, embora tenha apenas 25 anos de idade? E pra piorar a coisa toda, ambos eram comprometidos.
Mas você pode falar: ah, Armando, mas não é só você acorrentar eles dois e eles se apaixonam?
Não é tão simples assim. Eros queria complicar a vida de todo mundo e programou as correntes do amor a funcionarem somente se os indivíduos que devem se apaixonar já tiverem algum nível de empatia. Essa foi uma medida que ele tomou quando Afrodite o irritou profundamente com essa história de unir pessoas deliberadamente. Afinal, Eros era quem realmente visava os fins lucrativos da empresa Amor de Roma, sua mãe, por outro lado, queria apenas se divertir com isso, como ela sempre fez, desde a Grécia Antiga. Enfim! A julgar pelo péssimo encontro que Valentina e Enzo tiveram, não é difícil supor que o nível de empatia entre eles era negativo.
Sem ter muito o que fazer, fui atrás de Enzo. Quem sabe eu não tivesse alguma ideia?
Grande iludido, esse era eu. Enzo estava conversando animadamente com a sua namorada e, aparentemente, estavam tendo um jantar romântico de dia dos namorados. Ou seja, esperança zero de que ele se apaixone por Valentina.
— Então, meu amor, o que faremos mais tarde? — Enzo perguntou, com um sorriso apaixonado.
A sua namorada, entretanto, não estava sorrindo. Epa! Aquilo me chamou a atenção! Ela deveria sorrir também, não? Bem, Enzo também percebeu que ela não parecia feliz.
— Aconteceu alguma coisa, Júlia? — Enzo indagou, preocupado. Apertou as mãos de Júlia nas suas, mas ela as puxou rapidamente, o que fez com que Enzo ficasse magoado.
— Eu não posso mais, Enzo. — ela confessou, triste, talvez, mas não tanto quanto Enzo estava — Eu não sinto mais nada por você.
— O quê? — ele perguntou debilmente, horrorizado com a situação. Senti pena, coitado.
— Eu me apaixonei por outro cara. — Júlia murmurou. — Eu sinto muito, muito mesmo. Mas eu não posso te enganar, e nem enganar a mim mesma.
É disso que estou falando! Afrodite é sádica. Com certeza isso era coisa sua.
— Você está terminando? — ele redarguiu, com a voz embargada pelo choro.
— Estou. — Júlia contestou, então levantou e foi embora.
Deixei Enzo sofrendo (coitado!) e fui até Valentina, que, ora, que surpresa!, estava jantando com seu namorado. Ao contrário de Enzo, que estava triste com o término do namoro, Valentina estava feliz... com o término do namoro. Tudo bem, talvez você esteja confuso agora, mas, sim, quem estava terminando o namoro era Valentina.
— Você tá terminando? No dia dos namorados? — o seu, agora, ex-namorado perguntou boquiaberto. Um tanto irritado, eu diria.
— Tenho certeza de que você ouviu na primeira, segunda e terceira vez em que eu disse. — Valentina franziu o cenho e o encarou. Depois revirou os olhos ao perceber a cara de cachorro abandonado que ele estava fazendo — Olha, Leandro, você é um cara muito legal, mas não dá mais! Às vezes você me sufoca, outras, me deixa de lado por causa de um videogame. Você não conhece meio termo, e eu não nasci pra extremos. Dito isto, valeu, falou, adeus!
E então ela saiu correndo, a julgar pelo seu sorriso, feliz da vida pela liberdade adquirida.
Segui-a. O que mais poderia fazer? Eu só tinha 24 horas pra cumprir a minha missão, tinha que fazer alguma coisa. Pelo menos incitar que uma das partes se torne crush da outra. Não custava tentar. Enfim! O fato é que Valentina estava indo em direção à praça em que ela e Enzo se esbarraram da outra vez. E, que ironia do destino!, esbarrou nele novamente.
— Ah, cara, fala sério! Você outra vez e... — foi quando Valentina percebeu o semblante triste de Enzo. Mas, ao contrário do que você deve pensar, ela sorriu e debochou — Um cara desse tamanho tá chorando? O que aconteceu? Levou um pé na bunda?
Ops! Pegou pesado, Valentina! Coitado do Enzo! Ele apenas fez uma careta de quem havia sido ferido e sentou no banco da praça que havia atrás dele. Pôs as mãos na cabeça e fechou os olhos, tentando afastar as lágrimas. Valentina, sentindo-se culpada, sentou ao seu lado e ficou o encarando.
— Você é sempre tão inconveniente assim? — Enzo perguntou, com a voz rouca.
— Não... — respondeu Valentina, o que fez Enzo a encarar. Então ela sorriu debochadamente e continuou a falar — Geralmente eu sou pior.
Enzo sorriu, e eu vi que talvez não fosse tão impossível assim os dois se apaixonarem. Aff, Afrodite sempre consegue o que quer...
— É, eu não duvido. — Enzo contestou, então estendeu uma de suas mãos pra Valentina — Meu nome é Enzo, e o seu?
— Eu sou a Valentina. — ela respondeu, um tanto desconfiada e apertou a sua mão — Então... Você levou mesmo um pé na bunda, Enzo?
Deus, isso estava ficando meloso, porém, engraçado. O que me fazia querer continuar vendo o desfecho da coisa. Parece um livro! É viciante!
— Levei. — Enzo afirmou, enquanto eu continuava devaneando sobre o fato de começar a gostar do meu emprego.
— Nossa, que coincidência! — Valentina exclamou, animadíssima.
— Você também levou um pé na bunda? — Enzo indagou, surpreso.
Eu tive que rir, e Valentina riu também. Gargalhou, e eu percebi que Enzo a observava com certo encantamento.
— Não... — ela respondeu, ainda entre as gargalhadas — Eu chutei a bunda de alguém.
— Ah! — Enzo murmurou.
— Ah, qual é? Isso faz parte da vida. Se não deu certo com ela, é porque você tem que conhecer outra pessoa. E se eu chutei a bunda de alguém, é porque eu tenho que conhecer outra pessoa que me mereça. Simples assim, Enzo. — Valentina sorriu pra Enzo e se levantou — Vem, vou te pagar um café, pra ver se você melhora essa cara de quem teve o coração partido.
Essa era a minha deixa. Joguei a corrente no momento em que Enzo, um pouco incerto, aceitou a mão de Valentina. Os dois se fitaram de forma profunda, e sorriram e caminharam de mãos dadas, o que fez ela sorrir, porque percebeu que ele havia ficado com as faces rubras.
— Você sempre segura a mão do cara no primeiro encontro? — ele perguntou.
— Só de caras muito bonitos que andam de terno e gravata nesse calor infernal e esbarram em garotas de cabelos coloridos, as fazendo levar um tombo. — ela respondeu.
Depois disso fui pra casa. Afrodite que me desculpe, mas eu não estragaria a originalidade desses dois só porque ela queria. Meu trabalho estava feito, eu precisava de chocolate e pensar no fato de que eu provavelmente não mudaria de emprego. Essa coisa de ser cupido era viciante.
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