Agnes, Eros e a benção de Hebe

Enquanto a observo digitar velozmente em seu notebook me pergunto mais uma vez como foi que isso aconteceu.

Eu tinha uma missão razoavelmente simples, fazer Agnes e o seu melhor amigo, Ezequiel, se apaixonarem, porém, houve um erro na atualização dos arquivos e quando encontrei o melhor amigo descobri que ele já estava apaixonado. Foi o que chamamos de natural, às vezes, muito de vez em quando, as pessoas se apaixonam sem a ajuda de um cupido e é lindo de se ver, porém, coloca em risco a nossa missão, seríamos todos realocados se naturais começassem a acontecer com frequência, por isso decidi estudar Ezequiel e ao mesmo tempo procurar um novo par para Agnes.

Cogitei Vinicius, o vizinho por quem ela se sentia atraída, mas avaliando o histórico descobri que ele tinha tendências violentas, eu não poderia fazer Agnes se apaixonar por um cara violento, quando ela não conseguia nem mesmo abrir uma lata de milho verde em conserva sozinha. Depois pensei que Tadeu, o colega de faculdade, seria o par ideal, quinze minutos observando Tadeu percebi que ele era gay e estava interessado em Rafael.

Fiz meu trabalho, dois dias mais tarde estavam completamente apaixonados.

Já Agnes...

As semanas foram passando e os pretendentes se mostravam cada vez mais inadequados. Finalmente compreendi porque Agnes Gonzáles era um Tabu, pessoas praticamente impossíveis de encontrarem o par perfeito, mas eu não desisti.

Estava pensando em usar um pouco da poção clichê e dar a ela um verdadeiro conto de fadas com outro Tabu - um bonitão que ela encontrava todas as quartas-feiras no ônibus voltando da aula de inglês - quando ela me viu.

Ou melhor, me acertou com a tal da lata de milho verde em conserva e eu tive muita dificuldade de explicar como havia ido parar na sua cozinha, principalmente depois que ela me deu um soco desnorteador.

Após uma explicação complexa que envolveu algumas omissões e uma leve confundida nas suas lembranças, falei que era o proprietário da kitnet; a desculpa funcionou e ajudou a me manter próximo para descobrir como ela conseguia me ver.

Duas horas depois Calisto me disse o que ela garantiu ser óbvio.

Eu estava apaixonado por Agnes, era por isso que ela me via.

Não quis acreditar, eu não poderia estar apaixonado por Agnes, não mesmo.

Afinal, sou um cupido com mais de duzentos anos de experiência e ela uma simples mortal de vinte e um anos, que já mudou de faculdade três vezes e escreve poemas sob um pseudônimo bobo.

Agnes tem indescritíveis olhos castanhos de tão belos e o sorriso mais brilhante que vi em muito tempo, mas isso não significava estar apaixonado por ela.

Não poderia.

Depois de cento e cinquenta anos de sucesso, precisei admitir para Calisto que Agnes González era o meu primeiro fracasso, fui mandado de volta a base, Calisto me acobertou e ninguém ficou sabendo da minha suposta paixão, porém, foi a pior semana da minha vida. Me senti oco e apático. Nada mais tinha graça; até pizza perdeu o sabor, vivendo tantos anos em meio aos humanos adquiri alguns dos seus hábitos, e sei apreciar uma boa pizza de quatro queijos.

Foi justamente quando finalmente consegui convencer Apolo a sair da base e ir comer pizza (depois de décadas ele finalmente cedeu) comigo e com Calisto, que percebi, minha irmã estava certa e era de fato óbvio, eu estava apaixonado por Agnes.

E precisava dizer isso para ela, mas foi aí que a confusão surgiu, eu não poderia simplesmente chegar e dizer, "ei Agnes, eu, o cara que você viu duas vezes na vida, estou completamente apaixonado por você"; precisaria fazê-la se apaixonar por mim. Contudo, usar magia cupidesca com propósito egoístas era um crime hediondo e inafiançável, me vi com um problema e tanto.

Eu tinha um casal impossível para unir e não poderia usar da minha própria magia para isso.

Calisto me ajudou a bolar um plano infalível, porém, o que não nos dizem sobre planos infalíveis é que eles sempre dão errado. Foi desta forma que acabei na janela de Agnes a observando escrever mais um poema sob o pseudônimo de Amora Holmes e desejando profundamente que ela estivesse sorrindo e não a beira das lágrimas...

- Então, essa é a mortal - disse Hebe planando ao meu lado.

- Eles não gostam de serem chamados assim - falei me lembrando de outro humano. Encarei a beldade negra ao meu lado e enquanto a admirava entendi que meus dias ao lado de Agnes haviam chegado ao fim, eu seria mandado a base para descontaminação e Agnes nunca se lembraria de mim. Não achei que eu pudesse me sentir pior do que me sentia um minuto antes, estava enganado. - Pensei que meu tio, ou mesmo a minha mãe, fosse quem viria.

- Afrodite está ocupada com as Coréias e Apolo, bom, você conhece aquele velho, detesta sair da base, o coitado sente falta dos antigos templos, ainda não se acostumou com essa vida moderna - afirmou franzindo levemente o cenho. - Ela é bonitinha, mas eu esperava uma humana deslumbrante, algo como Psique...

- Às vezes, odeio sua memória, Hebe - falei cansado. - Psique foi um erro, eu me encantei com a beleza dela...

- E você não se encantou com a beleza dessa humana? - perguntou fazendo uma maçã vermelha aparecer na sua mão.

- Eu não estou encantando com a beleza de Agnes, estou apaixonado por cada nuance dela, até os lábios que ela morde enquanto escreve eu acho digno de poesia, e só não faço uma porque sabemos que esse não é um talento meu - digo observando exatamente Agnes morder os lábios e franzir a testa para a tela do computador.

- Você gostaria de viver essa paixão?

- Você sabe que não posso, Hebe, meu tio foi muito claro...

- Já te disse que Apolo é um velho, ele esquece rápido as coisas, se você quiser viver essa paixão pode viver, mas como ele disse precisará arcar com todas as consequências, até mesmo a possibilidade de um coração partido, porque a probabilidade de você e ela darem certo é de sessenta e cinco por cento...

- Você está falando sério, Hebe?

- Claro que estou, meu bem. Tem muito tempo que não vejo um dos nossos se apaixonar como você se apaixonou por Agnes - sorriu me estendendo a maçã. - Você sabe o que fazer, querido - peguei a maçã de sua mão e enquanto ouvia sua benção ela desmaterializou.

Mordi a maçã e literalmente corri para a porta de Agnes.

- Eros! - Falou sorrindo ao abrir a porta, sorri de volta e a beijei. - Achei que você não pudesse ficar - completou quando paramos para respirar.

- Fomos abençoados por uma deusa - ela riu. - Sou um desempregado e provavelmente vou ralar para me adaptar, mas por você qualquer sacrifício vale a pena, Agnes - afirmei sorrindo, ela sorriu abertamente e me beijou, fechei a porta deixando o resto da maçã, mas não me importei, eu tinha Agnes e apenas isso me bastava.

E encontrar um emprego, afinal, agora sou humano e preciso de um ganha pão. 

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