O elixir da Gastrimargia
Depois de cumprir mais de um terço da minha pena — sim, havia retornado à prisão logo após a missão de deter Victoria Silveston — recebi o benefício da liberdade condicional. Sendo assim, estava livre novamente, mas subordinada às condições especificadas pelo poder judiciário; caso as descumprisse, retornaria ao regime fechado.
Katrina Muon havia prometido há muito tempo que não usaria de sua influência para me absolver de crimes que eu viesse a cometer, ela era uma mulher de palavra. No entanto, minha relação com minha Mestra melhorou bastante depois que parei de ser uma completa cabeça dura. Aceitei as condições de atuar nos limites da lei, assim como voltei a ouvir os seus sábios conselhos. Não poderia me permitir sucumbir para a soberba das trevas, nunca mais.
Felizmente, restavam apenas mais duas relíquias das trevas (além da minha, evidentemente), o que significaria que a grande missão da minha vida estava terminando. Ainda não imaginava o que faria quando tudo acabasse, talvez meus planos para meu desfecho tenham mudado um pouco, graças à Katrina Muon.
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Não foi difícil, nem demorou muito, para que eu sentisse a presença de mais uma relíquia das trevas. Tratava-se de um pequeno frasco que possuía uma bebida em pequena quantidade, chamada de elixir da gastrimargia. O primeiro humano a experimentar o elixir se tornaria o novo proprietário da relíquia, transformando-se numa criatura faminta e sedenta conhecida como o demônio da Gula. Obviamente, essa relíquia representa o pecado capital da Gula — consistindo no excessivo desejo de comer e beber, como também no uso de drogas e outras dependências.
O demônio da Gula, proprietário da relíquia, tornava-se dependente do elixir, contudo, para obter mais do líquido irresistível, precisava espalhar sua influência das trevas o máximo que pudesse, para afetar uma grande quantidade de humanos com a gastrimargia — desejo insaciável por comida e bebida, o que faria com que comessem e bebessem até que seus estômagos explodissem. Por conseguinte, a relíquia das trevas era capaz de espalhar desgraças e calamidades, destruindo um povo com suas próprias compulsões alimentares.
Ao invés de simplesmente rumar igual uma louca até o local onde senti a presença da relíquia, informei Katrina Muon sobre a minha descoberta, algo que ela apreciara muito. Uma força tarefa imediatamente fora montada para restringir a área de atuação da influência da Gula, enquanto nós duas deteríamos o proprietário das trevas antes que promovesse grandes tragédias.
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Katrina e eu chegamos num galpão enorme na Capital de Ignis, onde sentíamos a maior concentração de influência das trevas da cidade. O restante das tropas se dividiu, com um grande efetivo focado em realizar o cerco do galpão, enquanto outras equipes auxiliavam as pessoas que invadiam restaurantes e bares para se empanturrarem até a morte com várias comidas e bebidas que estivessem disponíveis. Alguns indivíduos até mesmo praticaram a antropofagia — atos de canibalismo que criaram cenas de crime bastante sangrentas.
Entrementes, eu e minha Mestra nos deparamos no interior daquele galpão enorme com o demônio da Gula: um ser grotesco que não era mais humano, tendo dez metros de altura com quase toda a composição de seu corpo sendo uma barriga colossal. Em sua barriga havia várias bocas abertas salivantes, elas arrotavam sem parar, sendo assim que ele liberava a essência das trevas por toda a cidade para afetar mais pessoas a se entregarem ao pecado da gula. Em sua extremidade superior exista uma cabeça humana com braços também humanos, de tamanho normais, por isso sendo completamente desproporcionais com o restante do corpo gigantesco.
A criatura segurava o pequeno frasco com o elixir da gastrimargia, o qual bebericava até acabar, aumentando ainda mais o seu tamanho e surgindo novas bocas bizarras em sua barriga.
— Precisamos de mais, muito mais! — disseram as inúmeras bocas. — De ventris ingluvie! — Proferiram todas em uníssono, arrotando mais uma vez e liberando uma quantidade massiva de influência das trevas.
— Nós precisamos detê-lo, agora! — Vociferei, espantada com toda aquela energia das trevas opressiva. — A cada nova golada do elixir ele ficará maior, sendo capaz de influenciar mais pessoas em maiores distâncias!
— Lex Divina! — Proclamou minha Mestra, criando uma lança de energia divina que brilhava como o sol, segurando-a em uma de suas mãos, mirando-a e em seguida arremessando-a na criatura.
O demônio da Gula diminuiu drasticamente de tamanho, ficando com quatro metros de altura e com poucas bocas na barriga, mas ainda sendo uma ameaça.
— Reginald Olivan, por favor, retorne a si! — Exclamou minha Mestra, fazendo com que o homem a encarasse com um olhar choroso. — Apenas a virtude da temperança, ou seja, a moderação, equilíbrio e parcimônia em suas atitudes pode derrotar completamente o pecado da Gula! Assuma essa prudência novamente em sua vida, aja comedidamente, interrompa os exageros! Caso contrário, irá se autodestruir e todas as pessoas de sua cidade!
Apenas observei impressionada a atitude de minha Mestra Katrina tentando salvar aquele homem. Provavelmente, eu jamais tentaria nada parecido, mas agora que prestara mais atenção, via nos olhos dele que o sujeito era apenas mais uma vítima das trevas.
— Eu não posso, não consigo parar, o elixir é bom demais! É a melhor coisa em minha vida! — Exclamou o homem, claramente tentado a beber mais do frasco em sua mão.
— Isso não é verdade, Reginald! Lembre-se de quando conseguiu largar o vício da bebida, o quão feliz sua esposa e filhos ficaram! Eles nunca o odiaram, sempre o amaram e precisam muito de você! Eles são a melhor coisa em sua vida! Nenhuma bebida poderá ocupar o espaço de seu coração que pertence apenas à sua família! — Retrucou Katrina, fazendo o homem retroceder um pouco na tentativa de beber mais um pouco.
Claramente minha Mestra fizera o dever de casa, pesquisando sobre o sujeito e a sua vida pregressa ao momento da completa perdição para as trevas.
As palavras de Katrina o fizeram chorar, enquanto sua mão que segurava o pequeno frasco das trevas tremia pela abstinência. Reginald a encarou intensamente, enquanto reunia coragem para dizer suas últimas palavras.
— Por favor, digam a minha esposa e filhos que eu os amo muito e que nunca desejei nada disso! Digam que por causa deles eu larguei a bebida uma vez mais! — Ele arremessou para longe o frasco com o elixir da gastrimargia. — Eu abdico da posse da relíquia das trevas!
Depois de dizer as últimas palavras, seus olhos viraram nas próprias órbitas e ele desabou morto no chão daquele galpão. O corpo desnudo do pobre homem retornara ao tamanho normal, sem mais nenhum traço das trevas presente, sendo inteiramente humano novamente.
Eu apenas peguei o frasco da Gula e encarei minha Mestra, ela assentiu em silêncio — entendendo o que eu estava pedindo de maneira não verbal. Foi assim que decidi usar um feitiço explosivo para fazer aquela relíquia em pedaços.
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