Capítulo 8
— Sarah — repreendeu Anne com um olhar divertido —, vais acabar furando o chão de tanto caminhar.
A Parker mais velha revirou os olhos sem esconder seu nervosismo, seu coração estava acelerado e ela tinha quase certeza que a qualquer momento o órgão vital sairia por sua boca.
— Maria está atrasada.— Sarah caminhou até a porta na esperança de enxergar a velha empregada. — Talvez seja um sinal, é melhor que eu não vá.
— Deixe de ser boba — disse Anne segurando as mãos da irmã com carinho —, não há nada demais em sair para se divertir.
— Uma senhorita de alta classe não pode ser dar o luxo das garotas comuns — repetiu Sarah as exatas palavras de sua avó.
— Então que bom que a vovó nunca a considerou uma senhorita de alta classe — riu Anne piscando para a irmã, seus cabelos loiros estavam presos e um perfeito coque e sem qualquer esforço estava estonteante, por um breve momento Sarah se comparou a irmã. — Aproveita a liberdade que a vovó sempre te dá.
— Anne.
— De toda forma não é como se ambos pretendessem cometer algum tipo de pecado — apontou a caçula —, duvido que sua honra corra perigo.
— O quê?
— Não se preocupe — disse Anne —, eu pedi a Maria que a acompanhe até a cidade. Eu sabia que não ficaria confortável em sair tão publicamente com ele e sozinha.
— Ah Anne. — Sarah abraçou a irmã emocionada. — Obrigada por pensar em mim.
— Estou apenas devolvendo o favor — respondeu a jovem loira —, agora Maria vai te ajudar a se arrumar e depois te acompanhar no seu encontro.
— Encontro? Não sei se é a palavra certa.
Anne revirou aos olhos e ia responder petulantemente quando Maria entrou no quarto afobada, a velha senhora parecia ter corrido uma maratona.
— Desculpem o atraso meninas — disse tentando acalmar a própria respiração —, o Barão me pediu para ajudá-lo em algo.
Sarah assentiu se sentando perante a penteadeira e permitindo que a senhora a ajudasse a se preparar, naquela noite usava um vestido azul que contrastava com seus cabelos negros. Ao se olhar no espelho Sarah observou o próprio reflexo com uma pitada de autopiedade, eram comum e não sabia como alguém como Eduard poderia se interessar por ela.
Não era feia, na verdade era simplesmente ela.
— Es linda por dentro e por fora — disse Maria como se ouvisse os pensamentos da garota —, mas precisa reconhecer isso antes que os outros reconheçam. Não se preocupe com essa noite e nem fique se comparando com ninguém, cada um tem seu próprio valor.
Sarah assentiu envergonhada pelo rumo anterior de seus pensamentos, nunca tinha se importado com aquelas coisas. Com os olhos fechados fez uma breve oração, pedindo perdão ao senhor por depreciar aquilo que Ele tinha criado e implorou para que ela pudesse se olhar como ele a enxergava, alguém amado.
— É melhor irmos.
— Ela está muito nervosa Maria.— contou Anne rindo do desespero da irmã mais velha. — Não tema cinderella seu vestido não vai se transformar a meia-noite.
— Até porque voltarei antes disso — respondeu Sarah. — Obrigada por me ajudar Maria, não sei o que seria de mim sem seu apoio.
— Sempre estarei aqui pelas minhas meninas. — A parker mais velha abraçou a empregada com todo seu amor, sendo seguida por Anne que também amava a senhora como um membro da família.
— Como estou?— perguntou a jovem morena com um sorriso tímido nos lábios.
— Estonteante — disse Anne. — Eu me lembro tão pouco da mamãe, mas es como ela Sarah, linda.
— Obrigada — assentiu Sarah buscando acreditar nas palavras da caçula. — Todavia, eu não usaria a palavra estonteante.— respondeu passando as mãos nervosamente pelo tecido do vestido.
— Aceite o elogio.— ordenou Anne.— Mas, falta alguma coisa, eu não sei... talvez um brinco.
Anne revirava a caixa de joias que havia ganhando em seu último aniversário.
— Use esse.
— Eu não posso Anne, se a vovó me pega usando um dos brincos que ela lhe deu eu estarei morta antes que a noite chegue, ou pelo menos de castigo pelo resto da minha vida.
— Não se preocupe ela vai passar o dia todo na casa da Duquesa de Sussex — informou Anne ajudando a irmã a colocar os pequenos brincos azuis.— Ficou perfeito, o que acha Maria?
— Está parecendo uma princesa.
— O que foi? — perguntou Sarah preocupada com o olhar que a irmã lhe dava.
— Não consigo deixar de lembrar da mamãe.— a voz de Anne estava emocionada e ela lutava contra as lágrimas, Sarah a abraçou confortando a irmã mais nova.— Eu sinto tanta falta dela.
— Eu também.— sussurrou Sarah não conseguindo deixar de imaginar em como seria sua vida se seus pais não tivessem morrido.
— É melhor ir.— Anne se soltou dos braços da irmã limpando as lágrimas.— Ou Eduard vai pensar que desistiu.
O misterioso loiro esperava Sarah na porta da Igreja com um flor de girassol em mãos e um sorriso nos lábios que fez com que o coração dela batesse em puro desespero, enquanto a morena descia da carroça em paços lentos, sendo seguida por Maria.
— Espero que não se importe de Maria nos acompanhar — disse Sarah aceitando a flor.
— Claro que não — respondeu Eduard com a voz um pouco rouca, sem esconder que Sarah o afetava. — Eu entendo completamente.
— Eu estarei próxima, mas deixarei ambos a vontade — informou Maria com um sorriso.
Ambos assentiram.
— Divirta-se minha querida, mas tenha cuidado e evite as pessoas que conhecem sua avó, pois sabes que ela pode muito bem tornar as coisas complicadas para ti.
— Eu sei, não se preocupe Maria.— confortou Sarah.
Ela e Eduard começaram a caminhar lado a lado, em um silêncio envergonhado.
— Como está? — ambos perguntaram ao mesmo tempo.
— A senhorita primeiro.
— Estou bem — sussurrou a jovem envergonhada pelo olhar dele, sinceramente Sarah se sentia desmontada quando ela a encarava com aqueles olhos tão azuis.
Ambos continuaram conversando até chegar ao circo que não ficava muito longe da igreja e que aparentemente agora abrigava toda a cidade, todos curiosos para conhecer as maravilhas daquele mundo itinerante.
— É tudo tão incrível.— sussurrou Sarah se sentando junto a Eduard, enquanto Maria conversava com algumas amigas a pouco metros do casal.
— Fico feliz que esteja gostando.
Ele ofereceu um pouco de pipoca e ela aceitou sorrindo, a confusão de cores deixava o ambiente único e o coração de Sarah animado e saudoso se lembrando de como os pais sempre levava ela e a irmã a lugares como aquele.
O palhaço corria pela arena fazendo graças e levando a multidão ao choro de tanto rir, cada minuto era vivido por Sarah com intensidade, pois não poderia está mais contente, o dia estava mais do que perfeito, era como um sonho.
— Eu amei, muito obrigada pelo passeio — agradeceu Sarah seguindo a multidão para fora do Circo.
— Espera há algo ainda— Eduard segurou o braço de Sarah por um instante, soltando ao notar o olhar de uma mulher atrás deles.— Me perdoe. Eu quero lhe mostrar uma coisa.
Sarah assentiu e voltou seu olhar a procura de Maria, mas não havia sinal da velha no meio da multidão.
— Devemos? — perguntou Eduard indicando uma das barracas.
A morena mordeu os lábios em dúvida, confiava em Eduard, mas temia o que as pessoas podiam falar, todavia ele parecia tão animado.
— Tudo bem.— Ela o seguiu não conseguindo negar nada a ele.
Eles não caminharam para multo longe da multidão, enquanto Eduard a guiava de modo que ela não batesse de frente com algumas pessoas.
— Desenhista oficial certo?— brincou Eduard fazendo com que Sarah risse.— Bom, esse é o homem que pode fazer isso.
— Eduard pensei que tinha desistido— falou um homem careca que Sarah reconheceu como o dono do circo.
— Essa é a amiga que lhe falei.— Sarah olhava tudo sem entender, mas confiando em Eduard que sorria como uma criança em dia de natal.
— Bom, mãos as obras.— sorriu o homem.— Sou Meyer, e hoje a senhoria será minha desenhista oficial. Claro, se for o que quiser.
— Eduard.— disse Sarah sem acreditar, Meyer entregou a ela algumas folhas e carvão para que ela desenhasse. — Eu não posso.
— Por que não? Pode o que quiser Sarah.
Ela sorriu sem saber o que falar, aquele gesto tão pequeno de Eduard significava muito para a morena. É claro que sua mente questionava como um homem sem passado poderia convencer ao dono de um circo a fazer algo como aquilo, mas naquele momento optou por deixar de lado suas próprias desconfianças.
— Tudo por onde eu começo Sr. Meyer?
Ela ficou horas desenhando as pessoas, os clientes do circo adoravam seu trabalho e ela não poderia esta mais contente. Enquanto, Eduard sentando em um banco do outro lado da barraca a olhava com admiração.
— Obrigada, muito obrigada.— ela sussurrou extremamente agradecida. — Eu realmente me diverti muito essa tarde.
— Essa era a minha intenção.
— Eu tenho um último desenho.— Ela entregou o retrato a ele —, espero que goste.
— É perfeito como todos os seus trabalhos.
— É melhor eu ir — ela anunciou se afastando um pouco dele, todas as vezes em que conversavam era como se o corpo dela tivesse vida própria caminhando para próximo de Eduard.
— Nós vemos amanhã?
— Sim — assentiu com o rosto quente —, eu virei ao culto.
— Ótimo.— Ele levantou a mão como se desejasse tocar o rosto dela, mas Maria que com olhos de águia observava tudo tossiu alto o suficiente para assustar o casal. — Até mais Sarah.
Ela assentiu caminhando até a carroça onde Maria a encarava seriamente.
— Lady Sarah sumiu por horas dentro daquele circo e quando eu lhe encontro está desenhando, e ainda quase deixa um homem lhe tocar, o que está passando por sua cabeça minha menina?
— Desculpa eu não desejava assustá-la. —afirmou com sinceridade —, apenas me deixei me levar pelo momento, mas não vai acontecer de novo. Agora vamos para casa.
A viagem até a mansão foi silenciosa e Sarah começava a se sentir inquieta, de repente a alegria daquela tarde estava se transformando em tristeza e ela não sabia explicar a razão. Quando chegou em casa, apenas desejava ir direto para o seu quarto, mas ao entrar no salão a imagem de sua avó a assustou.
— Meus senhores.— A morena ficou surpresa ao notar a presença de seu avô, raramente o Barão conversava com ela ou ficava no mesmo ambiente que a Baronesa. — Posso ajudar com algo?
Sarah sentiu que algo estava errado, a fúria nos olhos da avó era doentia.
— Eu a recebi em minha casa e dei lhe todo o conforto do mundo e como es que me retribuiu? Com traição, com vergonha, pretendes arruinar essa família?
— Não sei sobre o que a senhora está falando.— O coração de Sarah batia forte, em completo medo.
— Veja es uma cínica como a mãe, deveria ter morrido junto. Achou mesmo que eu não saberia do seu encontro com um desconhecido? Ou que estava frequentando aquela taberna suja de meio de estrada? Eu sei de tudo o que acontece nas minhas terras, mas hoje foi o ponto d'água, pois ao invés de esconder suas atitudes apareceu em público com aquele homem.
— Arabella se acalme, não seja tão cruel com a jovem — tentou falar o avô de Sarah, mas a Baronesa não parecia lhe escutar.
Lágrimas pesadas se juntaram nos olhos de Sarah e ela se sentiu humilhada e extremamente triste.
— Não duvido dela estar gravida Gerald. De fato, não duvido de ter se deitado com aquele homem como a prostituta que é.
— Isso não é verdade — gaguejou Sarah. — Avó....—Sarah sentia uma dor na garganta e uma falta de ar.— Maria estava comigo, eu tomei todo cuidado.
— Eu não me importo — disse a Baronesa com um olhar de ferro —, eu a quero fora da minha casa.
— Eu... — Sarah não conseguia formular uma frase.
— Suma daqui, antes que eu mande um criado lhe arrancar pelos cabelos, e apenas mais uma coisa fique longe de Anne ou mandarei que te joguem em uma prisão, um lugar que a sua mãe deveria ter ido.
— Por favor,— implorou Sarah aos soluços com um dor sufocante na alma.— Por favor.
Mas, não havia forma de convencer a Arabella mudar de ideia, a avó de Sarah estava convencida de sua decisão.
Arabella deixou a sala sem ao menos se abalar pelo choro ruidoso da neta mais velha, tudo aquilo era apenas uma oportunidade para fazer o que há muito tempo desejava, se livrar de Sarah para sempre.
— Há uma casa na cidade — disse o Barão com um suspiro — vá para lá até que as coisas se acalmem, se é que isso é possível.
Sozinha na sala a morena se ajoelhou ao mesmo tempo em que tentava acalmar sua respiração, suas mãos tremiam e não conseguia enxergar nada quando sua irmã a abraçou tentando lhe acalmar.
— Eu tentarei convencer a vovó — disse a caçula —, vai ficar tudo bem.
Todavia, Sarah não conseguia acreditar na irmã.
Ó Deus envie o seu socorro, clamou a Parker mais velha em meio a aflição de sua alma.
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