Capítulo 6


Naquela manhã Sarah se sentia absolutamente horrível, não havia uma única parte do seu corpo que não estivesse dolorida e sua cabeça estava estranhamente pesada e não tinha ajudado muito o fato de sua avó ter invadido seu quarto antes mesmo que o sol desse bom dia, a lista de reclamações tinha sido interminável. 

— Sarah eu estava te procurando — gritou Anne entrando animadamente no quarto, sua voz estridente fez com que Sarah levasse as mãos a cabeça e suspirar pesadamente. — Você está horrível. 

— Obrigada? — disse a morena um pouco confusa. 

— Não quis dizer isso. — A jovem loira se desculpou entrando debaixo das cobertas com a irmã e dando a ela um sorriso caloroso. 

—Como posso te ajudar? — Sarah até tentou sorrir, mas tinha certeza que sua expressão estava mais para uma careta. 

  — Irei a igreja com você —  anunciou a irmã caçula de Sarah com um sorriso satisfeito.

A tentativa de sorriso de Sarah morreu e ela encarou a irmã tentando compreender o que se passava na cabeça da jovem. 

— Desde quando passou a  frequentar a igreja da cidade? 

 A família toda de Sarah se dizia bons cristão, seus avós faziam valorosas contribuições para igreja anglicana e iam aos cultos todos os domingo na igreja construída a poucos quilômetros da enorme mansão e Anne os acompanhava sem reclamações, enquanto Sarah sempre estava doente de mais para ir ou com tarefas para realizar, desculpas inventadas pela baronesa. 

Ansiando por comunhão a morena passou a participar dos cultos na igreja da cidade, com o decorrer do tempo fez bons amigos, sendo o principal o Reverendo Francis. Aquele era o seu lugar, onde podia fugir das constantes críticas da avó e se sentia amada e cuidada, por isso a pequena rebeldia de sua irmã em acompanhá-la parecia pesar em seu coração, de uma forma egoísta Sarah não desejava dividir aquilo com a caçula. 

Ademais, não queria ter que explicar para a irmã quem era Eduard. 

Algumas semanas tinham transcorrido desde que o loiro tinha começado a ajudar o Reverendo na igreja e quase todos os dias Sarah aparecia na cidade para que os dois pudessem conversar, aqueles breves momentos tinham dado a vida da morena um novo brilho e até os sermões de sua avó estavam mais suportáveis. 

  — É um desculpa, — sussurrou baixinho Anne para que apenas a irmã a escutasse. —  quero ir visitar minha amiga Rose. 

—  Sabe bens o que eu penso sobre mentiras — alertou Sarah se levantando da cama, enquanto Anne não se mostrou abalada com a censura da irmã e simplesmente revirou os olhos. 

— Eu também irei a igreja.— disse Anne com um sorriso sapeca, que normalmente a livrava de qualquer problema. — É que  a vovó acha que Rose é uma péssima companhia. 

— Rose? É a filha do Visconde de Phillips? Eu pensei que a avó a aprovasse — disse Sarah sem esconder sua própria curiosidade e confusão. 

— Ela se casou com um carpinteiro — explicou Anne —, o pai dela gastou muito dinheiro para que isso não se tornasse um assunto público. Ah mais é tão romântico que ela tenha se casado por amor e realmente gosto de conversar com ela e o filho dela nasceu há poucos meses e eu ainda não o conheço. 

Sarah encarou a irmã apertando seus próprios lábios, mas não conseguia negar nada a caçula. 

  — Se a avó descobrir — resmungou — ,a culpa será toda sua. Agora deixe-me arrumar e me encontre no hall em vinte minutos, não se atrase. 

— Eu te amo — disse Anne pulando no pescoço da irmã mais velha.

— Não é assim que uma senhorita deve se portar — disse Sarah imitando a avó arrancando uma risada da jovem loira que do mesmo jeito que entrou no quarto saiu.

Anne não se atrasou e quando Sarah desceu as escadas a irmã já estava com seu chapéu e luvas bem colocados, sua aparência bonita e delicada fez com que Sarah passasse as mãos nervosamente sobre o próprio vestido, naquele dia se sentia uma estranha em sua própria pele. 

Felizmente, a cidade não ficava muito longe da mansão e Sarah podia fazer o percurso com os olhos fechados, contudo nos últimos tempos seu coração acelerava todas as vezes em que via as pequenas casas do aglomerado urbano e ela sabia e se envergonha em saber que a razão daquilo era o misterioso homem loiro de olhos azuis. 

  — Olha ali é a  Rose e seu marido  e estão me esperando na loja de Madame Surrender . — Apontou Anne fazendo com que Sarah parasse rapidamente a carroça. 

— Antes das cinco você deve esta de volta, —  Combinou Sarah segurando com força as rédeas do cavalo que teimosamente queria continuar seu trajeto. — Não podemos nós atrasar para o jantar. 

  — Você sempre atrasa — disse Anne petulantemente. 

— Por favor Anne, não quero ter que ouvir mais um sermão da avó e sabe bem que ela vai me culpar se você se atrasar. 

 — Tudo bem —  concordou Anne beijando a bochecha da irmã com carinho, antes de pular com habilidade da carroça para ir ao encontro dos amigos. 

  — Não se atrase   —  recomendou novamente Sarah.— , esperarei você na igreja. 

Anne já estava longe e não se importou em responder a irmã mais velha. Sarah suspirou sabendo que a decisão de trazer a irmã a cidade renderia a ela muitos problemas, mas naquele momento não havia o que ela pudesse fazer, de modo que seguiu para a igreja. 

  — Pensei que não veria a senhorita hoje.—  Eduard estava parado na porta dos fundos da casa do reverendo com um sorriso no rosto, era estranho como até mesmo naqueles roupas simples ele parecia ser mais do um plebeu. 

— Minha irmã me atrasou —  explicou Sarah retribuindo o sorriso, dessa vez sem corar como de costume.  — Como está se sentindo essa tarde?

Aquela era a maneira de Sarah perguntar se a memória dele havia voltado, se ele ia partir de repente voltando para a família que provavelmente o esperava, ela sabia que era egoísta de sua parte desejar que as coisas permanecem daquela forma. 

 — Estou me sentindo bem, as tonturas sumiram e me sinto como se não tivesse quase morrido. — Eduard respondeu, como sempre ao falar de sua memória uma sombra tomava conta do seu rosto e Sarah se perguntou até que ponto ele estava sendo sincero. — Aconteceu alguma coisa a senhorita parece um pouco ansiosa?  — estava claro que tentava mudar de assunto. 

  — Minha irmã, o senhor sabe como ela é. —  E era verdade, tagarela como sempre  Sarah tinha contado tudo sobre sua vida ao loiro, de modo que mesmo sem suas memorias ele tinha a mente cheia dos relatos das memórias mais queridas de Sarah. 

  — Ela está bem?—  Eduard parecia verdadeiramente preocupado.

— Sim, apenas indo visitar uma amiga aqui na cidade o que provavelmente vai fazer minha avó me tirar do testamento, não que eu que esteja lá de qualquer forma. 

Ele se aproximou de Sarah, uma distancia apropriada para evitar os olhares curiosos que passavam pela rua. 

  — Eu tenho algo para a senhorita.—  Eduard sorriu brilhantemente e novamente o coração de Sarah parecia a ponto de sair pela boca. —  Um presente que espero que aceite. 

  — O senhor não gastou muito não foi?— implorou a morena, eles já tinha tido aquela discussão várias vezes, enquanto o loiro queria retribuir tudo o que Sarah havia gastado com ele, ela não aceitava. 

Tinha explicado ao loiro que o dinheiro não era um problema para ela, seus avós dariam qualquer quantia a ela, se isso significasse não ter que lidar diretamente com a neta mais velha, e de qualquer modo Sarah se sentiria horrível por ser paga para fazer sua obrigação como cristã de ajudar ao próximo. 

O amigo, sim ela o considerava um amigo, não havia aceitado muito bem, mas havia desistido de tentar convencer a morena. 

  — Não se conta o valor de um presente —  Deu uma bronca nela enquanto pegava algo no bolso de sua camisa.—, que tipo de cavalheiro eu seria. 

Sarah estranhou a escolha de palavra e se perguntou se deveria insistir que ele fosse mais sincero com ela. Contudo, antes que ela pudesse abrir a boca o loiro entregou um pequeno embrulho de papel. 

—   É uma forma de lhe agradecer por tudo o que fez. 

  — Não é necessário, tudo o que fiz foi de coração.—  De repente Sarah estava emocionado, ao abrir o embrulho se deparou com um delicado pincel com seu nome em tons dourados, não parecia ser algo barato, mas também não parecia ser algo que Eduard poderia comprar. — Eu amei, estou muito agradecida. 

Eles estavam próximos demais, algo que costumavam fazer sem perceber se aproximarem um do outro a medida que conversava. Sarah suspirou dando um passo para trás, não gostaria de se tornar centro de algum rumor infundado pelas matriarcas da cidade. 

—   Fico contente.— Ele passou a mão pelos cabelos parecendo sentir o clima pesado que se formava em volta deles. 

  — O Reverendo está em casa? 

— Não, ele está visitando alguns irmãos da igreja.— Eduard deu de ombros, desde que ele tinha acordado Sarah tinha percebido que ele não era muito ligado a religião ou algo do tipo, uma vez ele tinha dito que não tinha tempo para Deus, a morena havia ficado chocada e provavelmente orará em favor dele mais do que de costume. — Que faltaram na igreja no último culto. 

  Mas, nas últimas semanas parecia compartilhar de uma pequena semente de fé, o que alegrava o coração de Sarah. 

 —É melhor eu ir.  — A voz de Sarah saiu infeliz. 

  —   Fique —  pediu ele parecendo um pouco surpreso com a própria reação. — A senhora Anna está lá dentro. 

Anna era uma senhora muito gentil que sempre ajudava o reverendo com os afazeres da casa. Um pouco mais tranquila em saber que haveria mais pessoas na casa a morena seguiu a Eduard, um pouco mais animada do que deveria em ter mais alguns momentos com ele. 

Sua mente a acusava de entrar em um terreno perigoso, um que provavelmente quebraria seu coração em mil pedaços. 



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