Capítulo 5




— O Senhor se lembrou de alguma coisa? Qualquer detalhe de sua vida que possa nos ajudar a encontrar sua família ?— questionou Sarah mantendo a porta do quarto aberta, enquanto entregava ao loiro uma sacola com roupas antigas de um funcionário da casa de seus avós, por sorte Mary não havia feito perguntas quando Sarah tinha pedido as peças velhas.

— Desculpa — respondeu seu sotaque estrangeiro soando forte, enquanto abria a sacola e examinava as roupas com certa curiosidade. 

Por um instante Sarah se questionou se havia algo o incomodando, mas não o questionou imaginando que era apenas o pesar de não se lembrar de nada. 

— Não se preocupe, tenho certeza que logo o senhor irá recobrar suas memórias — tranquilizou Sarah com sua voz doce. — Está se sentindo melhor para uma caminhada?

—Estou bem— afirmou, mas caminhava com certa dificuldade ainda. — Pensas em ir há algum lugar? Talvez um oficial possa nos ajudar a encontrar a minha família. — Ele parecia animado com a ideia de sair daquele pequeno quarto abafado.  

Sarah assentiu. 

—  Coloquei alguns desenhos seus pela cidade, mas ninguém parece reconhecê-lo. 

O homem a encarou surpreso como se não esperasse dela todo aquele empenho, mas Sarah não era alguém que fazia as coisas pela metade por isso tinha  dado algumas moedas a um garoto que trabalhava nos estábulos da mansão dos avós para ir até a cidade e espalhar cartazes, mas ninguém havia procurado Maya dizendo ser conhecido do homem, quem quer que ele fosse não parecia que o povo daquela região o conhecesse. 

— Acredito que agora que está acordado o xerife pode lhe ajudar melhor do que eu e Maya — apontou a jovem —, por que não se arruma e eu aguardo lá embaixo. Espero que essas roupas sejam do seu agrado. 

— São ótimas — agradeceu encarando ela atentamente, como se tentasse desvendá-la, com o rosto vermelho a neta da baronesa se apressou em sair do quarto.  

Como de costume Maya limpava o salão vazio devido ao horário, quando Sarah se sentou a estrangeiro sorriu amigavelmente. 

— Como ele está?

— Melhor — disse Sarah aceitando um pouco da água que a amiga tinha lhe servido. — O que foi? — questionou a jovem ao perceber que Maya parecia inquieta. 

— Pode parecer bobeira — expressou dando de ombros —, mas meu sexto sentido não confia nele, quem nos garante que não é um bandido que foi traído por seus próprios comparsas? 

— Ele não tem cara de bandido. 

— Ah queridinha — corrigiu Maya —, esses vilãos vis não tem cara ou coração. 

— Ele é um pobre coitado que nem se lembra do seu passado — argumentou a jovem senhorita inglesa —, darei a ele o benefício da dúvida. Ademais, pretendo levá-lo até o xerife e a verdade será revelada. 

—E  achas uma boa ideia ir a cidade a sós com ele? — perguntou Maya desconfiada, sempre desconfiando de qualquer pessoa viva. 

—Preciso ajudá-lo e essa é nossa melhor opção — respondeu Sarah. — É simplesmente horrível tudo isso que o aconteceu, não consigo imaginar como deve ser perder a memória.

— Não quer esperar até que eu termine aqui? Posso ir com vocês até a cidade. — Dura como uma pedra Maya ainda se preocupava com Sarah.

— Não posso — informou Sarah —, a senhora minha avó irá dar um jantar essa noite e  tenho que estar presente, mas não se preocupe Maya ficarei bem.

—Senhoras — a voz grossa do loiro surpreendeu ambas as mulheres alheias ao mundo a sua volta. 

 Sarah não pode deixar de notar o quão belo ele estava com aquelas velhas roupas, de certo modo havia um tom de majestoso em sua maneira, novamente se questionou quem ele era. Atenta a seu comportamento a jovem desviou seu olhar, enquanto o loiro caminhava até ela com certa dificuldade. 

—O senhor precisa de um nome, pelo menos até lembrar o seu —disse Maya surpreendendo Sarah por não ter se lembrado disso.

— Tens alguma ideia, talvez uma sensação de como as pessoas chamavam pelo senhor ? —questionou Sarah arrumando sua luva com mais atenção que era devida, mas não queria corar sobre o olhar intenso do homem sem passado.

Ele deu um suspiro profundo. 

—Nada.

—Ele tem rosto de Jonh ou Peter, são nomes bem comuns  — disse Maya sem qualquer delicadeza.

Sarah resistiu à vontade de repreender a amiga. 

—Não me sentirei ofendido com isso.

—Não fique, não foi nada pessoal — deu de ombros a indiana.— Alguma ideia de nome Sarah? 

—Você gosta de algum nome em particular? Podemos chamá-lo assim até que sua memória volte. — Sarah olhou para o loiro com um sorriso tímido nos lábios.

— Que tal Eduard? — indicou o loiro —, me parece ser um bom nome para ser chamado. 

— Por que escolheu esse nome? — questionou Maya. 

— Eu ouvi de um cliente há alguns dias — disse dando de ombros. 

— Es um bom mentiroso. 

— Maya — repreendeu Sarah envergonhada. 

— Não me estou ofendido com isso. 

— Eduard é ótimo — garantiu Sarah se colocando em pé e se apressando para sair dali antes que Maya falasse mais alguma coisa. 

Eduard a seguiu em silêncio preso em seus próprios pensamentos e Sarah sentiu que ele era algum mistério que ela precisava revelar, na carroça eles seguiram em direção a cidade calados escutando apenas o cavalgar do velho cavalo. 

— A senhorita sempre salva moribundos jogados na rua? Não me entenda mal, sou feliz e grato por tudo que fez por mim, eu apenas quero entender porque se arriscar?— Eduard questionou depois de um longo período. 

— Por qual motivo não salvaria? O que valeria minha reputação diante de Deus, se eu deixasse alguém morrer quando podia fazer algo.

Eduard encarou Sarah  como se a sua frente estivesse uma peça rara, algo que ele nunca tinha visto, mas que o fascinava. 

—  Deus. Essa é sua resposta? 

—  O senhor não acredita?

—Não sei — deu de ombros —, talvez. Contudo, acredito que não é algo que eu pensava muito, de fato Deus me parece algo distante. 

—Deveria acreditar — respondeu Sarah encarando profundamente seu companheiro de viagem —, porquê o senhor sobreviver foi um verdadeiro milagre.

—Talvez a senhorita tenha razão.

—Eu tenho.—sorriu Sarah convicta, não havia dúvida em seu coração quando se tratava de sua fé. — Olha estamos chegando a cidade, infelizmente não poderia ir até o xerife com o senhor, minha avó iria descobrir e eu estaria em verdadeiros apuros. 

—Tudo bem — assentiu —, apenas me deixe próximo ao local. 

Sarah concordou colocando um véu sobre o rosto para evitar ser reconhecida. De fato, sua avó dava a ela total liberdade, mas isso não significava que ela deveria ser vista sozinha com um homem, a velha baronesa morreria do coração se algo do tipo virasse fofoca das matronas da cidade.

—Aguardarei o Senhor na igreja central, nos encontramos lá tudo bem? — respondeu Sarah parando a alguns metros do velho prédio do xerife.

—Obrigado mais um vez por tudo o que está fazendo por mim, serei eternamente grato e  a recompensarei assim que possível— falou Eduard atentamente descendo da carroça com certa dificuldade. 

—Não se preocupe com isso — garantiu Sarah — meu desejo é que o senhor encontre seus entes queridos e  isso já será uma boa recompensa.  —  sua voz transbordava sinceridade.

Eduard sorriu novamente fazendo com que Sarah notasse a covinha em seu rosto, de repente sentiu um frio na barriga e imaginou que aquele era um sorriso que gostaria de vê por toda a sua vida, rapidamente se repreendeu mentalmente por tal pensamento, dizendo a si mesma que definitivamente devia ir a igreja.

—A senhorita sempre me surpreende. — Ele estendeu o chapéu em respeito e caminhou lentamente em direção ao escritório do xerife. 

Sarah ficou parada olhando ele entrar no prédio agradecendo aos céus pelo véu em seu rosto que impediu que Eduard notasse seu rosto vermelho. 

Naquela manhã a igreja estava quase vazia, Sarah se sentou no último banco como de costume, o prédio que precisava de uma reforma urgente cheirava a mofo, mas mesmo assim  Sarah se sentia confortável. 

Ela sorriu se lembrando de quanto sua mãe amava ir a casa de Deus, de como ajudar aos órfãos e viúvas iluminava o rosto dos pais, eles haviam ensinando tudo a ela sobre fé e sobre o infinito amor de Deus e era por isso que ela permanecia no caminho, apesar de todas as tribulações.

—Lady Sarah— a voz firme do reverendo Francis  assustou a morena, que estava perdida em suas antigas memórias. — Posso me assentar aqui?

—Claro.— sorriu calorosamente para o homem mais velho, os cabelos outrora ruivos do reverendo estavam bagunçados como sempre.

— Um belo dia não acha?

—Com certeza. O senhor está se sentindo melhor das dores?— o velho chefe da igreja sofria com a velhice, infelizmente usava todos os seus poucos recursos para ajudar as famílias carentes da região e pouco sobrava para tornar sua vida um pouco mais confortável. 

—Sim, as ervas que a senhorita me enviou tem ajudado a diminuir as dores, mas não se preocupe comigo— respondeu o reverendo. — A senhorita me parece preocupada.

Sarah mordeu os lábios em dúvidas, mas confiava no chefe da igreja com seus sábios conselhos, então relatou tudo o que tinha acontecido desde que encontrara Eduard desmaiado e cheio de sangue na estrada.

—A senhorita está preocupada se fez certo em abriga-lo? —perguntou Francis depois de ouvir todo o relato da  garota.

—Não, eu sei que fiz o certo —afirmou Sarah —, apenas estou preocupada e se ele não se lembrar? Queria poder ajudá-lo mais.

O velho homem riu para surpresa de Sarah.

—Minha querida sua parte foi feita e agora confie que Deus fará a Dele — aconselhou o homem de Deus. — Há tempo para toda as coisas e no tempo certo aquilo que está escondido será revelado.

— Sim, tens razão — sussurrou a morena com o coração um pouco mais leve.

Francis e Sarah olharam para a porta da igreja, onde Eduard estava parado com o chapéu em mãos parecendo deslocado.

O velho e a garota se levantam ao mesmo tempo.

—Senhor Eduard — o nome ainda parecia estranho aos lábios de Sarah — , quero lhe apresentar o Reverendo Francis, um bom amigo.

—Sarah me informou sobre sua situação — disse o velho —, se houver algo que eu possa fazer para ajudar não hesite em me dizer. — Eduard sacudiu a mão oferecida pelo homem mais velho.

—Obrigada reverendo.

—Como foi com o xerife ? — perguntou Sarah  curiosa.

—Sem nenhuma novidade — disse dando de ombros —, mas ele foi muito solicito e vai entrar em contato com outros condados para saber se há alguém com minha descrição desaparecido, resta esperar.

— Solicito — riu o reverendo —, é a primeira vez que ouço isso sobre o xerife, mas fico feliz que ele esteja te ajudando. 

Sarah suspirou ela esperava boas notícias.  

— É melhor voltarmos para a taberna — aconselhou a jovem —,  o senhor deve estar cansado.

— Na verdade eu gostaria de ficar um pouco mais — disse Eduard —, procurar algum emprego ou algo para fazer nesse período, não é certo depender da senhorita. 

—O senhor não está totalmente recuperado — disse Sarah um pouco preocupada com a ideia.

—Como disse anteriormente sou grato a senhorita, mas não posso abusar de sua boa vontade.

—Não está abusando de nada, pois eu faço do meu coração — garantiu Sarah —, espere ao menos  se recuperar totalmente e eu mesmo o ajudarei a procurar algo, o que acha?

—Estou bem. — O homem teimoso pensou a morena, notando que aquela era uma batalha perdida.

—Talvez eu posso ajudar — disse o reverendo Francis sorrindo animado — , eu estava há um tempo procurando alguém para me ajudar com as tarefas aqui na igreja, principalmente cuidar dos animais, pois infelizmente meus olhos já não são mais os mesmo. Não  posso pagar muito, algumas moedas por semana, mas a comida e abrigo é por minha conta.

—Excelente, quando poderia começar ?— Eduard parecia verdadeiramente animado.

—Amanhã. Sarah tem razão o senhor precisa descansar e o serviço ainda estará aqui. — respondeu o reverendo, feliz em poder ajudar.

—Acho que será uma boa opção. — Sarah concordou animada com a ideia de que o reverendo não ficaria tão sozinho e que Eduard não teria que trabalhar em algo pesado que prejudicasse sua saúde.

—Então assim será — combinou o loiro —, que horas o reverendo quer que eu venha?

— Ao amanhecer, amanhã mostrarei ao senhor sua quarto e seus deveres.

—Obrigado, serei grato por isso. 

— Não se preocupe filho — tranquilizou Francis —, eu te ajudo e você me ajuda e é assim que deve funcionar a vida.

— Ótimo — disse Sarah tentando controlar sua animação —, mas agora devemos ir, pois infelizmente não posso me atrasar hoje.

Eduard e Sarah  se despediram do reverendo deixando a igreja para trás, o sol estava alto, e naquele instante a jovem notou que havia demorado mais na cidade do que esperava inicialmente. 

— O senhor vai gostar de trabalhar com o reverendo — informou —, ele é um bom homem.

— A senhorita parece gostar muito dele. 

—Ele foi meu primeiro amigo quando vim morar aqui e me ajudou a superar a perda dos meus pais.

—Sinto muito pelos sua pais.

—Tudo bem, já faz um bom tempo e sei que eles estão felizes onde estão e eu continuo a honrar a memórias deles.

—A senhorita me surpreende desde que eu acordei, nunca reage da maneira que espero.

—E isso é ruim? — questionou Sarah curiosa parando nos fundos da taberna.

—Não, nem um pouco.—respondeu Eduard sorrindo para Sarah que retribuiu.

—Eu preciso ir. O senhor gostaria de uma carona amanhã? Digo para o serviço?

—Não quero atrapalhar. — Ele respondeu descendo da carroça com mais facilidade dessa vez. 

—Não vai e  eu devo ir a cidade de qualquer forma — expressou a jovem —, é dia de feira e eu preciso de tintas novas para as minhas telas.

— Eu agradeço então. 

—Certo até amanhã — despediu ela com um sorriso —, tente descansar. 

—Até amanhã — disse o loiro tirando o chapéu para Sarah.

Sarah sorriu antes de se afastar, sua mão coçava para pintar, enquanto uma nova tela surgia em sua mente. Aumentando a velocidade da carroça, balançou a cabeça tentando se livrar do sorriso do loiro, a baronesa ia matá-la, ela estava atrasada.

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