Capítulo 4


— Não foram esses os talheres que eu lhe pedi Sr. More. — A voz exigente da avó de Sarah soou alta pelas paredes da casa.— Estou te vendo Sarah, venha até aqui agora. 

A jovem deu um suspiro profundo e saiu de trás da pilastra que se escondia encarando o olhar avaliador da matriarca da família, enquanto isso o Sr. More, o mordomo da casa, parecia feliz em saber que a raiva da Baronesa seria direcionada a outra pessoa. 

— Avó, bom dia — cumprimentou Sarah da melhor maneira possível, por hábito alisou seu vestido e ajeitou sua postura,  mas o olhar da mulher mais velha ainda era reprovador. — Hoje  está um belo dia, não concorda? 

— Um dia normal como qualquer outro — respondeu a Baronesa se aproximando da neta, sua expressão era curiosa. — Eu não tenho lhe visto tanto ultimamente, existe algo que eu deva saber? 

Sarah manteve o sorriso no rosto com certa dificuldade, não queria mentir a avó, mas também não podia dizer que no último mês era uma frequentadora assídua da taberna da beira de estrada. 

— Achei que a senhora iria preferir se eu não aparecesse tanto, principalmente com as visitas que tem recebido. — Disse Sarah, sabendo que aquela era uma verdade. — E o outono está tão bonito que tenho aproveitado meu tempo para desenhar.

O que era uma verdade seu portfólio de desenhos estava cada vez maior, pois passava boa parte do tempo desenhado ao lado do homem adormecido. 

— Faz bem — elogiou a Baronesa —, sua presença é um insulto a alguns membros da sociedade inglesa. — A ofensa saiu de seus lábios da mesma madeira que falaria para um empregado cortar mais batatas para o jantar. 

Sarah mordeu os lábios ignorando a pontada de dor e as lágrimas que ameaçava sair, sabia que sua avó odiava vê-la chorar e por isso manteve o sorriso no rosto. 

— Hoje receberemos o primo de segundo grau da rainha — continuou a senhora, sem se atentar ao rosto magoado da neta —, um jovem rico e influente, seria um bom partido para sua irmã. 

—  É um excelente notícia — respondeu Sarah —, eu irei me comportar odiaria atrapalhar as chances de minha irmã a um bom casamento. 

— Por acaso está sendo irônica ?

— Não — negou Sarah imediatamente —, quero sempre o melhor para Anne. 

— Ótimo, pois não aceitarei um comportamento odioso de sua parte para com minha neta. 

Sarah queria dizer que também era neta dela, mas isso só tornaria o humor da Baronesa pior.  

— Eu irei me comportar — sussurrou Sarah com os olhos voltados para o chão.

— Use aquele vestido novo que eu mandei fazer para você — ordenou —, ele lhe deixa menos desajeitada. Agora vá tenho muita coisa a organizar e já perdi muito do meu tempo contigo. Sr. more como eu estava dizendo ... — Sarah enviou um olhar simpático ao mordomo e saiu da sala o mais rápido possível, antes que sua avó dissesse mais alguma coisa com sua língua afiada direcionada a ela. 

— Está atrasada — resmungou Maya assim que Sarah pisou os pés na taberna, a estrangeira tinha se mostrado uma excelente aliada e era quem cuidava do estranho a maior parte do tempo, já que a jovem senhorita não podia permanecer tanto tempo longe de casa. 

— Desculpa,  levei mais tempo do que esperava para sair de casa. Como ele está hoje? Alguma novidade? 

— Do mesmo jeito. — Deu de ombros Maya, enquanto limpava o balão já perfeitamente limpo. — Tevê alguma sorte na cidade ontem? — perguntou voltando seu olhar para Sarah. 

— Nenhuma. — disse Sarah desanimada, ela havia ido até o xerife, mas não existia queixa de um homem desaparecido e nem mesmo os cartazes que Sarah havia espalhado pela cidade com o desenho do homem surtirá efeito, suas esperanças parecia a ponto de morrer. 

— Pequena Madame — gritou Mambo se aproximando de Sarah, enquanto Maya revirava os olhos para o homem. — Onde estão minhas moedas? 

— Aqui. — Entregou Sarah o pequeno pacote de moedas, seu dinheiro estava acabando e Mambo não parecia o tipo de pessoa que deixaria alguém a beira da morte ficar de graça em sua taberna, se o homem não acordasse Sarah teria que dá um jeito de arrumar mais moedas, ela só não sabia como. 

— Vou lhe da um conselho garota, pois me parece uma garota legal — disse o dono da taberna se sentando numa mesa próxima, enquanto contava suas moedas —, e estou  quase me sentindo culpado de ganhar esse dinheiro tão fácil. Deixe esse homem na porta de uma igreja e que os pastores façam a boa obra e vá viver sua vida de princesinha. 

— Obrigada pelo conselho Sr. Mambo — disse Sarah —, mas acredito que o Sr. desconhecido irá acordar logo e enquanto isso ajudarei como posso. 

Mambo riu, sua risada estrondosa acordou um bêbado deitado no chão. 

— Imagina Maya se todos os nossos clientes fossem  iguais  ao bonitão lá em cima, dinheiro fácil e sem trabalho. Um paraíso — disse Mambo se levantando e indo atender um cliente que entrava na taberna. 

— Não liga para ele — tranquilizou Maya —, enquanto você tiver dinheiro ele não vai te expulsar daqui. E eu ajudarei você como posso. 

—  Obrigada Maya, es uma boa amiga — respondeu Sarah sorrindo, ela tinha criado um carinho pela mulher estrangeira. 

— Não se acostume — disse Maya voltando ao seu típico humor, fazendo com que o sorriso de Sarah aumentasse—É melhor você subir e verificar como está o  belo adormecido. 

Sarah subiu as escadas para o quarto ainda rindo de Maya, naquele último vez em que visitava a taberna ela havia descoberto algumas coisas, entre elas que Maya era indiana e havia fugido de sua terra natal em um navio para evitar se casar com um homem com o dobro de sua idade, seu companheiro de viagem era um servo de sua família por quem ela tinha se apaixonado, mas o pobre homem tinha morrido ainda no navio em direção a Inglaterra, sozinha e sem apoio a mulher indiana precisou fazer todos os tipos de coisas para sobreviver, mais tarde Mambo tinha encontrado ela a beira da morte nas ruas de Londres, ele a ajudou e a trouxe para sua casa e lhe deu um teto e comida, contanto que trabalhasse para ele, desde então Maya estava ali por livre e espontânea vontade. 

A jovem neta da Baronesa escondeu o rosto de um homem que descia as escadas, sempre tentava evitar que as pessoas a vissem ali, já tinha sido bem difícil ir ao xerife sem que a notícia chegasse  aos ouvidos de seu avô ou pior da avó. Com cuidado abriu a porta do quarto com a chave que sempre carregava em seu bolso, deitado na cama completamente imóvel estava o homem que atormentava seus sonhos e sua curiosidade. 

Ele dormia pacificamente, suas feriadas começavam a cicatrizar e era impossível não notar sua beleza. Sarah se sentou na cadeira ao lado da cama, Maya tinha o limpando e dado a ele água por meio de um pano úmido, de modo que não havia nada para Sarah fazer a não ser esperar. 

—É um belo dia hoje Sr. — disse com um sorriso tímido. — Gostaria de saber quem você é, sua família deve esta preocupada. O xerife disse que não sabe nada sobre um homem desaparecido por essas redondezas. 

Sem esperar resposta, ela pegou seu caderno de desenho e o carvão que sempre carregava consigo. Naquele dia decidiu desenhar seus pais, sentia saudades deles ao ponto de seu coração doer, o pior da morte era que a vida continuava para aqueles que ficavam, a dor diminuía, mas não ia embora. 

Depois de um tempo trançando o rosto de sua mãe e com o pulso já dolorido por tanto praticar, decidiu conversar um pouco com o desconhecido, seu pai uma vez tinha lhe dito que aqueles em coma podia ouvir tudo ao seu redor. 

—Eu tenho orado muito pelo Sr. — disse ao homem ao seu lado.—  Eu sei que Deus ouvirá minhas preces,  vais  acordar quando for o tempo certo, então não se preocupe não deixarei Mambo lhe tirar daqui. 

— Estou um pouco chateada essa manhã — continuou sinceramente —, minha avó estava mais mal humorada do que de costume e disse coisas duras de se ouvir. Eu gostaria que ela pudesse me aceitar, mas tudo bem as coisas são como são. Ah, hoje receberemos a visita do primo da rainha e minha avó acha que ela será um bom partido para minha irmã Anne, da minha parte apenas queria que Anne se casasse com um bom homem de Deus, que a respeitasse e amasse a ela da maneira que ela deve ser amada, eu sei que isso era o que meus pais iriam querer se estivesse vivos. 

— A senhorita sempre fala tanto assim? — foi um sussurro tão baixo que a jovem tevê dificuldade em escutar em meio aos seus devaneios, mas ainda assim a voz rouca do homem soou pelo quarto, seu inglês era perfeito, mas era possível notar um leve sotaque.  

— O senhor acordou — disse Sarah pulando de sua cadeira, ele gemeu de dor ao tentar se sentar. — Deixe-me ajudá-lo. 

— Água. — Ele pediu com a voz seca. 

Ele a encarou com os olhos azuis brilhantes e ela sentiu seu coração deixando um pouco da água cair nele, o homem não pareceu se importar. Questionou a ela onde estava e ela prontamente respondeu, parecia atento a tudo ao seu redor como se esperasse ser atacado. 

— Quanto tempo eu dormi? — perguntou enquanto Sarah o ajudava a se deitar novamente na cama, era estranho estar tão próxima dele acordado. 

—  Duas semanas — gaguejou se afastando e arrumando seu vestido em um hábito nervoso —, eu o encontrei caído a beira da morte na estrada. 

— A senhorita salvou a minha vida? Sabe quem eu sou? 

— Sim, sinto muito eu não sei quem o senhor é — respondeu —, mas posso mandar uma carta para sua família. 

Ele a encarou atentamente e depois de um longo período em silêncio respondeu: 

— Não me lembro, não sei quem é minha família. 

—Como assim? Não se lembra? Qual o seu nome? — as perguntas saiam embaralhadas da boca de Sarah, sua expressão era preocupada. 

— Minha cabeça dói — respondeu ele colocando a mão sobre o rosto —, talvez eu apenas deva descansar mais um pouco. 

Sarah encarou o pobre homem com a mais sincera dor em seu coração. 

— Sim, tens razão — concordou a jovem —, mas não se preocupe vou ajudá-lo a descobrir quem es. 

Ele se virou deitando de costas para onde Sarah ainda estava parada como uma estátua, quando a respiração dele já estava leve e ela imaginou que estivesse dormindo deixou o quarto em passos lentos. Já no corredor correu para contar a novidade a Maya, enquanto orava em seus pensamentos, para que o Senhor trouxesse a memória do pobre homem e permitisse que ela o ajudasse. 







Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top