Capítulo 30
— Inglaterra? — August questionou a esposa. — Nesse atual momento? Isso ... é muito preciptado não acha? Quero dizer viajar grávida não me parece muito adequado, afinal é uma viagem cansativa.
Ele brincava com os cachos do cabelo de Sarah, aproveitando os primeiros raios de sol da manhã antes que ambos precisassem de levantar para os seus afazares. Nos últimos dois meses o Castelo parecia reagir ao bom humor da Duquesa, com a sogra longe aquele parecia finalmente o lar de Sarah. Contudo, uma coisa ainda lhe preocupava, a saúde do Barão de Meyer, que insistia em ver a neta antes de partir desse mundo.
— Eu conversei com os médicos da corte — explicou Sarah, numa tentativa de convencer ao Duque —, não há riscos para mim ou para o bebê. Eu preciso ver ao meu avô, suas últimas cartas são preocupantes e como Jasper e Anne estão voltando para a Inglaterra, esse é o melhor momento.
O Duque encarou a esposa com o coração apertado, mas sabendo que não podia impedir aquela viagem. Por fim, assentiu concordando com a ideia da Duquesa.
— Eu não posso deixar o estado nesse momento — expressou com um suspiro pesado — Há uma crescente preocupação em relação ao ducado do Eslésvico.
Sarah encarou o marido com preocupação, sabendo o quanto aquele assunto tinha lhe tornado pesaroso nos últimos tempos. Aquela não era a primeira vez que conversavam sobre aquele tema.
— Uma guerra? — Sarah sentiu seu sangue gelar diante daquela hipótese.
— Talvez — respondeu o Duque —, a Confederação aguarda uma posição minha, mas não levarei minhas tropas levianamente a luta. Espero que tudo se resolva de forma diplomatíca, então não se preocupe — acalmou August, depositando um leve beijo no rosto da esposa.
— Eu volterei o mais breve possível — prometeu Sarah, encarando o rosto do marido com o coração ansioso.
August asssentiu, puxando ela para seus braços com força.
Quando pisou os pés na Inglaterra Sarah compreendeu o quão diferente estava da menina assustada que tinha chegado ali após a morte dos pais e da jovem que partirá dali para se casar. Não apenas sua vida já não era mais a mesma, mas cada partícula de seu ser tinha sido transformado.
— Ansiosa? — questionou Anne que tinha lhe acompanhando na viagem junto com o pequeno Thomas e Jasper Hale.
O garotinho loiro estava no colo da ama, e parecia irritado em permanecer preso, quando seu pai o tomou e o colocou sobre as malas ele pareceu radiante, o que fez ambas as mulheres rirem.
— Então?
— Ansiosa o suficiente — respondeu a Duquesa, ajeitando seu xale numa tentativa de aplacar seus próprios nervos. — Temo não ter sido uma boa ideia vir agora, mas o que podia fazer? Com o vovô insistindo para que eu viesse.
— Ele tem suas razões.
— Sabes de algo e me esconde?
— É melhor a gente agilizar antes que o pequeno Thomas derrube todas as nossas malas. — Sarah assentiu ignorando que a irmã não tinha lhe respondido.
De fato, a única razão pela qual tinha insistindo naquela viagem tinha sido porquê seu avô não estava bem e sabia que aquela era a última chance de se despedir do velho Barão, o homem tinha tido sua cota de falhas com a neta, mas ainda assim era família e tinha feito o melhor para acolher as duas orfãs.
A viagem até a mansão pareceu mais longa do que a viagem até a Inglaterra e o enjoo de Sarah intensificou, enquanto seu coração se apertava e um pequeno questionamento na sua mente intensificava, será que ela realmente deveria ter feito aquela viagem. Relutantemente afastou aqueles pensamentos e orou para que Deus lhe ajudasse, seu coração parecia cada instante mais apertado.
As ruas de Londres estavam movimentadas e todos pareciam seguir suas vidas, como se nada mais importasse. Era engraçado como todos pareciam tão centrados em si que nem ao menos conseguiam notar os sofrimentos ao seu redor, novamente o coração de Sarah se apertou e ela sentiu falta de August, desejou que o marido estivesse ali como um consolo.
E se algo mudasse em Saxe-Coburgo? August parecia considerar seriamente uma guerra contra a Dinamarca e aquilo assustava a Duquesa ainda mais do que ver ao avô doente, estava tão longe e nada podia fazer para ajudar ao marido.
— Não se preocupe com August — disse Jasper quando desceram enfrente da mansão — , ele disse que se algo mudasse ia nos avisar e não partiria antes que eu a levasse de volta para casa.
— Obrigada.
Quando entraram na mansão do Barão em Londres ambas as netas se entreolharam ao perceberem o olhar vermelho do mordomo da família. Era o único funcionário que os aguardava, algo incomum para aquela casa, na qual a Baronesa sempre gostava de se cabar da quantidade de pessoas a sua disposição.
— Quando? — perguntou Anne com os olhos cheios de lágrimas, enquanto era abraçada pelo marido.
A Duquesa sentiu suas próprias lágrimas caírem sobre seu rosto, enquanto suas mãos pareciam mais trêmulas. Havia tanto que desejava falar ao avô, mas agora era tarde demais e tudo o que lhe restava era planos frustados pela súbita, mas previsível morte.
— Hoje de manhã, minha senhora — respondeu o fiel funcionário — , ele aguardava com ansiedade a chegada de ambas, infelizmente a morte não respeita os desejos de ninguém.
Os acontecimentos seguintes correram contra a mente de Sarah, como um borrão que machucava sua alma. Em meios aos abraços e palavras de luto, se relembrava de todas as perdas que tinha tido até ali, se pegou recordando o funeral de seus pais e a dor angustiante que parecia sempre latejar nos piores momentos. A Baronesa parecia presa em seu próprio luto e tinha ignorado a presença da neta, como nos velhos tempos.
Sarah sentiu uma urgência em orar e clamou ao Senhor para que lhe desse forças e a ajudasse a cada membro de sua família, ao entrar na sala da mansão após o enterro e perceber que finalmente todos os estranhos tinham ido embora se sentiu aliviada, não aguentava mais ser forte e então permitiu chorar pelo avô perdido.
No último sempre trocava cartas com o Barão e tinha descoberto tanta coisa sobre ele e sobre seu pai, se sentia mais próxima do que nunca e como se finalmente fosse aceita naquela família, eles faziam planos para que o Barão pudesse ir visitar ao Duque e a Duquesa, mesmo que soubessem que eram planos que não poderiam ser realizados, afinal a saúde do velho Barão apenas piorava.
— Sinto muito, minha querida — consolou Maria, enquanto Sarah se aconchegava nos braços da empregada. — Seu avô a amava, da maneira dele, mas a amava.
— Eu sei — chorou Sarah — , como estão as coisas por aqui?
— Nada bem — confessou Maria, limpando as lágrimas do rosto da neta mais velha do Barão — , a Baronesa está cada dia mais difícil de lidar e temo que com a morte do Barão as coisas se tornem ainda piores.
— Como assim?
Sarah empurrou a água que Maria lhe ofereceu, sem conseguir beber ou comer qualquer coisa naquele momento. Ela percebeu que a avó não estava muito bem, mas como ela nunca parecia estar bem não questionou muito.
— O médico teme que a mente dela não esteja em um bom estado — explicou Maria — , ela vem esquecendo muitas coisas e parece não ter ideia do que acontece, em alguns momentos parece voltar ao passado.
— Eles chamam de demência — explicou Jasper ao entrar na sala naquele instante acompanhando de Anne, ajudou a esposa a se sentar ao lado da irmã e em seguida sentou em uma poltrona na frente delas, seus ombros curvados revalava o fardo que carregava. Agora, era oficialmente o Barão de Meyer.
— Por que eu não sabia disso?
— Eu não queria lhe preocupar — disse Anne, com um sorriso triste — , sua vida já é tão cheia de responsabilidades e eu achei que tudo ficaria bem, agora temo o que pode acontecer.
— É tão ruim assim? — perguntou Sarah para irmã.
— O que está acontecendo aqui? Por qual razão Sarah está usando essa roupa horrorosa de luto? — gritou a Baronesa ao entrar na sala para o susto de todos, que até então acreditavam que a velha senhora dormia em seu quarto, após ter sido medicada no funeral.
— Vovó não se lembra? — perguntou Anne se pondo de pé e caminhando em direção a avó que a encarava com um semblante de confusão. — O vovô morreu, acabamos de enterrar ele no jazigo da família.
— Gerald?
— Sim.
A senhora encarou a neta caçula em transtorno e então de repente voltou seu olhar para Sarah, mas parecia não enxergar a neta ali.
— É sua culpa — vociferou entre dentes — , é tudo sua culpa.
Para Sarah, aquele momento e a voz raivosa da Baronesa lhe fizeram sucumbir e ela se sentiu criança novamente, diante da perda de seus pais.
— Não — chorou Sarah — , não é minha culpa.
— É claro que não Sarah — acalmou Jasper a cunhada — , todos sabemos que o que aconteceu foi a morte natural do Barão, não a ouça.
— É sua culpa — gritou a velha senhora transtornada.
— Anne é melhor levar ela para cima — expressou Jasper — Maria vá chamar o médico, por favor.
A empregada saiu as pressas deixando sala se sentindo vazia diante dos gritos da baronesa.
— É sua culpa — esbravejou a Baronesa, empurrando Anne que desequilibrou e acabou caindo no sofá — , matou meu filho, meu amado menino. Mande chamar Gerald, diga a ele para trazer meu Thomas, onde está Thomas?
— Vovó acalma-se — implorou Anne, enquanto se mantinha afastada da velha e Jasper tentava conter a Baronesa.
— Eu disse a Thomas, de fato implorou a ele — gritou em um surto completo — , não vá para aquela maldita guerra é perigoso, mas ele insistiu em cumprir com seu dever cívico e então depois decidiu assumir aquela criança como se fosse dele, culpado pela morte daquele maldito soldado.
— O que está dizendo? — perguntou Sarah, em meio a suas próprias lágrimas.
— Não lhe dê atenção — disse Maria, que havia retornado a sala — , eu lhe disse que a mente dela não está bem. O médico logo vai chegar.
— A criança não era dele — disse a Baronesa abruptamente —, já trabalhava para nós naquela época, não se lembra Maria? Aquele mulher engravidou e meu filho assumiu, por pena e culpa e ela o levou de mim, e não satisfeita me enviou o morto.
— Que criança ? — perguntou Sarah caminhando até a avó e encarando a mulher que por tantos anos tinha lhe maltratado —, o que a senhora está falando?
— Eu prometi a Gerald que não falaria sobre isso — delirou a velha — , prometi que cuidaria dela para Thomas, como se fosse meu sangue.
— Cuidaria de quem?
— Esquece isso Sarah — pediu Anne — , querido me ajude a levar a vovó para cima.
— Não — disse Sarah, com o coração acelerado — , quem era a criança ?
— Gerald eu tentei — suspirou a Baronesa contra os braços de Jasper, confundindo o com o marido — , mas a garota se parece tanto com ela. Se Thomas não tivesse se sentido culpado, se Thomas não tivesse insistindo em assumir uma responsabilidade que não era dele, então ainda teríamos o nosso menino conosco. Sarah se parece demais com aquela mulher que tomou nosso filho, como eu poderia me esquecer?
Sarah sentiu seus braços tremerem, tal como seu corpo inteiro. Ouviu Jasper gritar uma ordem a Maria e a outros funcionários que o ajudaram a retirar a Baronesa delirante da sala.
— Não a ouca, tudo bem? — implorou Anne, mas seus olhos não conseguiam encarar a irmã.
— Desde quando? Desde quando sabe dessa história? — perguntou Sarah secamente. — Era isso que estava escondendo de mim?Anne me responda — gritou a Duquesa diante do silêncio da irmã.
— No batizado de Thomas — explicou a caçula — , o vovô contou a Jasper e pediu que a gente te entregasse algo, se ele não conseguisse lhe falar pessoalmente.
— Toda a minha vida é uma mentira — chorou Sarah sem conseguir se acalmar. — Quem eu sou?
Anne respirou fundo e encarou a irmã.
— Es Sarah minha amada irmã, filha do papai e da mamãe — disse Anne em soluços —, nada mudou.
— Isso não é o que acabei de escutar.
— O papai te escolheu — Anne pressionou sua testa contra a da irmã, próximas ao ponto de sentirem o tremor do corpo de ambas — , não importa o passado. Ele a amava e a chamava de filha, como o meu pequeno Thomas e Jasper.
— O que ela fez? — chorou Sarah, pensando na mãe e em seu próprio nascimento. — Quem é meu pai?
Anne pediu a Maria que havia retornado que ajudasse a acalmar a irmã e saiu as pressas da sala retornando alguns minutos depois com uma pequena caixa de madeira em mãos.
— Eu preciso que se acalme — implorou a loira para a Duquesa — , pelo bem do seu bebê. Não pode se estressar dessa maneira, por favor.
Sarah assentiu, mas não conseguia parar de chorar.
— É por isso que ela me odeia? A vovó? Ela me odeia pelo erro da minha mãe? Eu consigo entender.
— Não diga isso — recriminou Anne, parecendo ser a irmã mais velha naquele momento — , nada justifica a maneira como a vovó sempre te tratou.
— Então me explica — implorou Sarah — , eu tenho o direito de saber.
Anne pediu a Maria que deixasse a sós com a irmã, então a encarou com o rosto em dor como se odiasse ser ela a contar a verdade a irmã. Ao longe era possível ouvir os gritos da Baronesa que chorava pela perda do filho e do marido em um dor que parecia lhe repatir a alma, a Duquesan de Saxe-Coburgo-Gota engoliu em seco.
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