Capítulo 27


Anne lutou contra o cansaço que agora parecia sempre dominar seu corpo, seu coração estava acelerado e sua mente dominada por uma tristeza que parecia querer destruir cada parte dela. Por um momento, a jovem se questionou se não seria mais simples desistir e deixar que a angústia dominasse todo o seu ser, afinal qual razão para permanecer inteira? 

Não, ela negou aos pensamentos deprimidos fitando sua irmã do outro lado do salão sentada ao lado de seu marido e radiano de felicidade, uma felicidade que Anne invejou. Os olhares das irmãs se fixaram por um insante, enquanto a mais velha sorriu como se desejasse compartilhar com Anne de sua própria felicidade, o que a loira não duvidava. Parecia tolo que a Duquesa ainda acreditasse que havia algo como alegria reservado para Anne, mas Sarah era sempre alguém com esperança, refletiu a caçula Parker. 

Ela queria acreditar, desejou com todo o seu coração ver uma saída no túnel de escuridão pela qual nos últimos tempos andava, um lugar que tinha entrado com suas próprias pernas, mas que agora parecia não conseguir sair. 

— Senhorita Anne — cumprimentou Jasper Hale, com um leve sorriso no rosto que sempre irritava a jovem —, estamos em um casamento e não em um velório. 

— Sério? Estava em dúvida que tipo de evento social era esse —  respondeu Anne, um instante depois. 

— Ao menos nesse dia poderia ser um pouco menos infantil? Já não causou problemas o suficiente para sua irmã e para August? 

Anne sentiu seus olhos ficarem cheios de água ao mesmo tempo que apertou os punhos com força para evitar que suas mãos fossem em direção a sua barriga, ainda conseguia sentir o gelo em suas entranhas de quando o médico de confiança do Duque confirmou que a loira estava realmente grávida. 

— Guarde os seus julgamentos para o senhor —  disse Anne, sentindo a vergonha e a raiva dominar seu corpo na mesma proporção. 

Desejou culpar a irmã pela situação que estava vivendo, querendo convencer a si mesma que as coisas poderiam ter sido diferentes. Ao menos se estivesse na Inglaterra quando a esposa de Jake faleceu, então ele teria se casado com ela.  Ah quem ela queria enganar, ele nunca teria casado com ela, uma parte dela sempre duvidou das declarações que ele lhe fazia, pareciam vazias e normalmente impulsonadas pela bebida e pelo ópio utilizado. 

Jasper a encarou parecendo querer dizer algo, mas foi impedido por Anne que puxou a mão dele levemente sem que fosse notada pelas pessoas. 

— Dance comigo — disse Anne caminhando com toda a delicadeza possível em direção a pista de dança, sendo seguida por um Jasper confuso. 

— Qual o seu problema? 

—  O meu? O homem ao lado da minha avó —  disse Anne indicando com cabeça a Baraonesa e um dinarmaquês — , ela parece decidida a me casar com ele. 

— E acha que dançar comigo vai afungentá-lo?  

— Se não funcionar estou esperando contar para ele que estou grávida de um homem casado, o que acha? 

Jasper parou de dançar encarando Anne. 

— O senhor não sabia? — guaguejou a loira soltando a mão do herdeiro de seu avô. — Eu pensei que Sarah e August... 

— Eles não...

— É eu sou mais repugnante do que o senhor imaginava não é? Vamos deixar isso entre nós, como disse anteriormente não há razão para atrapalharmos o dia de Sarah e August — expressou Anne com a voz mais forte que conseguia, então virou as costas e deixou Jasper no meio da pista de dança. Ao passar pela avó ignorou a tentativa da Baronesa de apresentar ela ao jovem estrangeiro, do que adiavanta ser educada e charmosa naquele momento, ninguém nunca se casaria com ela. 

Os corredores do castelo pareciam maiores do que o normal e ela precisou de toda sua força para não desabar ali mesmo, o que ela tinha feito de sua vida? E tudo o que fazia era apenas piorar a situação. 

Sarah tinha sido simplesmente Sarah, por mais desapontada que estivesse com a irmã mais nova em nenhum momento pensou em não permanecer ao lado dela. Depois do choque inicial e de conversar com August fez com que Anne consultasse um médico que confirmou o que Anne já sabia em seu coração, carregava um filho em seu ventre. 

Ao entrar em seu quarto permitou com que as lágrimas percorressem seu rosto e levou a mão por sua barriga sem qualquer volume, um filho. Céus, não conseguia cuidar nem mesmo dela e agora seria uma mãe, nunca mais poderia sair aos olhos do público e seu filho nunca seria aceito na sociedade, tinha destruído sua vida e agora condenava a vida de um inocente, por pura e simples tolice. 

Acreditou na mentira de que seus pecados afetava apenas a ela mesma, o egoismo que dominava seu coração ignorou as consequências de sua escolha. 

— Me perdoe criança — sussurou Anne para seu próprio ventre —, eu não tenho muito o que oferecer e não acho que a vida será fácil para nenhum de nós dois daqui em diante, mas vou tentar o meu melhor, apenas não sei como. 

Anne chorou até que o sono dominasse seu corpo, tentando se agarrar a um fio de esperança de que ainda poderia ser feliz, sonhou com casa branca e uma criança loira correndo em direção a ela e agarrando suas pernas, arracando uma risada sincera da mãe, algo que há muito tempo não saia dos lábios da loira. Um filho que ela já amava, acordou com um sorriso saudoso em seus lábios, decidida a aceitar a oferta de August de ir morar no interior, longe de todos. 

O dia ainda não havia amanhecido quando Anne desceu as escadas, o castelo parecia dormir depois da intensa festa de casamento. Um pouco mais calma depois de dias de pura angústia a jovem loira caminhou pelos arredores do castelo, sendo guiada pela trilha de árvores que a lembrava das histórias de sua mãe,  sem perceber que estava indo longe demais. Os primeiros flocos de neve a alertaram que era hora de voltar para dentro e sair da floresta que de repente tinha se tornado escura e nada aconchegante. 

— Ah não —  murmurrou ao sentir seus delos começarem a ficar gelados — , não acredito que estou perdida. 

Ela continou caminhando pelo que pareceu horas, sentindo seu corpo enrijecido pelo frio e o medo começar a dominar sua mente. Ia morrer naquele lugar? Pensou em seu bebê e imediatemente sentiu as lágrimas embaracem sua visão, o tremor do vento gelado agitou cada parte de Anne. 

Estava a ponto de desitir completamente quando viu um ponto escuro em meio a neve, um pequeno chalé escondido em meio a floresta, uma esperança para o coração aflito da jovem. Caminhou com seus passos gelados e lentos até o que parecia ser sua salvação, a porta abriu ao primeiro toque e ela sentiu sua audição voltar ao normal, com certeza alguém iria encontrar ela naquele lugar, por mais que tivesse andado muito não devia ter se afastado tanto do castelo. 

Agradecida por ter prestado atenção nas histórias de Sarah sobre como os pais levava ambas para acampar conseguiu acender a laleira, o fogo iluminou o ambiente que não parecia nada abandonado. 

— Será que alguém mora aqui? — questionou a si mesma e ao bebê —, vamos ficar bem. 

— Anne? Anne? — uma voz preocupada soou a distância para o alívio da jovem. 

— Estou aqui — gritou Anne caminhando rapidamente para a porta do chalé, o vento e a neve tinha piorado muito e era praticamente impossível visualizar qualquer coisa. Por isso quando um Jasper coberto de neve apareceu na frente dela, a jovem gritou. 

— Como me achou? — perguntou confusa, ainda que aliviada. 

— Eu vi quando saiu do castelo e caminhou em direção a floresta — disse ele entrando no chalé sem qualquer cerimônia —, então quando a senhorita não apareceu para o almoço e todos ficaram preocupados, imaginei que tivesse se perdido. De fato, é muito fácil se perder por essa floresta e é exatamente por isso que August construiu essa cabana. 

— Eu não queria — se desculpou Anne, envergonhada. — Podemos voltar?

— Com essa neve? É impossível. 

Anne pensou em como a irmã deveria ter ficado preocupada e mais uma vez foi dominada pela culpa, pensou que deveria se desculpar. O problema era que todas as vezes que estava próxima da irmã seu pior parecia aparecer, não importava o quanto desejasse que as coisas voltassem a ser como antes, suas atitudes a fazia a se lembrar da avó. 

— A senhorita deve estar com fome — disse Jasper, caminhando até um pequeno armário —, deve ter alguma coisa por aqui. 

Um pequeno cutucão no útero de Anne a impediu de dizer qualquer coisa, sentindo suas forças indo embora soltou um grito agunizante. 

— Anne — se aproximou Jasper assustado —, diga-me aonde dói? 

— Não, não — Anne se apavorou constando o que estava acontecendo —, meu bebê. 

Jasper a levou até o sofá e a deitando com cuidado, enquanto Anne tentava raciocinar. Talvez fosse algo normal, talvez a dor agonizante em seu ventre fosse apenas uma cólica, mesmo que dentro de si soubesse aquilo não era uma dor normal. 

— O que eu posso fazer por você? Diga-me? Eu irei buscar um médico — a voz de Jasper parecia morrer ao perceber que era impossível fazer o que queria, na pior das hipóteses acabaria morrendo antes de chegar o castelo. 

— Não — gritou Anne puxando a mão dele, sem qualquer cerimônia —, eu não quero ficar sozinha. Ah Deus — implorou a loira —, não leve meu bebezinho. 

— Vai ficar tudo bem — tentou tranquilizar Jasper, se colocando de joelhos. 

— Eu sei que o senhor me odeia — disse Anne, em meio a um suspiro de dor. 

— Eu não te odeio — disse Jasper —, apenas não concordo com suas atitudes. 

— Tarde demais para mudar, não? — disse Anne, entre lágrimas. 

— Nunca é tarde. 

— Estou sagrando — respondeu a loira, sem precisar olhar para baixo para saber que tinha razão. — Vou perder o meu bebê e morrer aqui, um bom final para uma pecadora. 

Jasper a encarou impaciente. 

— Pare de falar bobagem. 

— Não é bobagem — disse Anne chorosa —, estou arruinada de todas as formas. Por que me apegar a essa vida? O que eu posso ter, o que posso dar a essa criança, talvez morrer seja uma benção para nós dois. 

— Não ouse desistir — ameaçou Jasper —, lute por si mesma e por esse bebê. Anne, não importa os seus pecados Deus ainda tem misercórdia reservada. 

— Está doendo muito — chorou Anne apertando a mão de Jasper —, tudo dói. 

A dor intensa dominou cada parte do corpo de Anne, enquanto ela delirava em suas próprias palavras, a voz de Jasper pareceu mais doce até que ela tomasse a consciência de que ele cantava um louvor. No meio da nevasca e sem acesso a um médico, tudo o que restava a eles era clamar a Deus, por um instante a loira perguntou se Deus a ouviria.

— Eu não amo — disse Anne entre as lágrimas e os gemidos de dor —, eu não amo a Deus e nem a mim mesma ou ninguém, não sei o que é amor. Tudo o que resta em mim são trevas, não há nada de bom. 

— Que bom — disse Jasper ignorando o olhar incrédulo de Anne continou —, isso mostra que a senhorita é como qualquer outro pecador. Reconhecer nossa incapacidade é o primeiro passo para se aproximar de Deus, nós somente amamos porquê primeiro Deus nos amou, então deixa Ele te amar Anne. 

— Como? 

— O aceitando — explicou Jasper —, recebendo o perdão dele. 

— Eu não sou merecedora. 

 — Tampouco eu — respondeu o homem —, mas ainda assim ele me perdou. 

— Dúvido que sua lista de pecados sejam como os meus. 

— Não há diferença entre pecadores, todos pecaram e distituídos estão da glória de Deus. 

A dor intensificou e Anne deu um grito agunizante, apertando ainda mais a mão de Jasper. 

— Ah Deus me perdoe — disse Anne ignorando qualquer regra de boa conduta e colocando seu rosto contra o peito de Jasper, a dor a impedia de raciocinar e ele não parecia se importar. —, eu sinto muito — chorou armagamente —, me perdoe — ela gritou mais uma vez diante da dor emocional —, eu não quero perder o meu bebê, eu não quero morrer Sr. Hale. 

— Vai ficar tudo bem — respondeu Jasper, enquanto fazia sua própria oração pedindo a Deus misercórdia e cura. 

A fraqueza dominou o corpo de Anne e por um instante ela não conseguia sentir os próprios braços, a escuridão parecia querer tomar conta de sua visão e ela queria ceder, entrar naquele lugar que parecia mais seguro que aquele em que ela estava, cheio de dor e sangue. A voz de Jasper a fez voltar a si, ele implorou a ele para continuar acordada, parecia desejar que ela permanecesse viva. 

Anne queria questionar ele a razão, não seria melhor para todos se ela simplesmente fosse embora? Não, ela não desejava ser esgoista havia pessoas que se importava com ela, Sarah ficaria arrasada se ela fosse embora assim, ela ainda precisava pedir perdão a irmã, ainda precisava provar a todos que podia ser alguém melhor do que era. 

Anne resistiu até quando pode, mas uma hora a escuridão dominou seus olhos e ela não sabia mais o que estava abrançando se a morte ou a vida, ela tinha tido alguma chance? 


Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top