Capítulo 23

Sarah sentiu um aperto em seu coração e uma vontade de chorar, mas apertou os dedos com força para impedir a reação de seu corpo. Estava pensando em todas as ofenças ouvidas até ali, tentando não se sentir triste. Ao mesmo tempo em que lidava com o turbilhão de sua mente, sua irmã caçula e a a Baronesa de Meyer travavam um discussão, era inevitável não sentir o ar de desgosto que ambas as mulheres transmitiam, demonstrando que a viagem em família seria um pesadelo longo. 

— Achas que eu desejo ir? — resmungou a avó, com uma expressão azeda — Não. Contudo, estou deixando de lado a minha própria vontade pelo bem do nome dessa família — gritou a Baronesa — O que achas que as pessoas irão dizer se não fores ao casamento de sua própria irmã? Sejas razoável. Eu prometo que assim que a cerimônia acabar voltaremos a Inglaterra.  

— Eu não quero ir — Anne exibiu uma expressão infantil — Não posso dizer que estou doente? 

Sarah sentia uma pontada em seu coração ao ouvir aquelas palavras da irmã. Uma coisa era a insatisfação da avó com a união dela com o Duque, mas notar tal sentimento em sua própria irmã era sem dúvidas uma situação que a abalava.  

A Parker mais velha mordeu os lábios e encarou os próprios sapatos para evitar que lágrimas traiçoeiras tomassem conta de seu rosto e tentou ignorar as vozes das mulheres, no mesmo instante orou ao Senhor por forças para suportar todas as duras palavras que antes era comum apenas a avó, mas que nos últimos tempos Anne exibia com perfeita naturalidade. 

— Chega dessa confusão. — disse o Barão adentrando ao salão de visitas e lançando a Sarah um olhar de simpatia. Naquela tarde ele exibia uma aparência cansada o que fez com que ela temesse pela longa viagem que o Barão seria obrigado a suportar, de fato na noite anterior ela tentará por todos os meios convence-ló a se ausentar pelo bem da própria saúde, mas seu avô estava decidido em não perder a cerimônia do casamento dela. — É possível ouvir vossos gritos do jardim. Anne pegue sua bagagem de mão e entre imediatamente na  carruagem. 

— Vovô — implorou Anne, com os lábios franzidos e os olhos úmidos. 

— Não quero ouvir uma palavra a mais sobre isso — ordenou o Barão, contudo sem esconder seu desânimo com as atitudes da neta caçula. Por um breve momento Anne demonstrou um pouco de vergonha, mas em seguida voltou a exibir uma expressão de raiva. —  Ou entra como uma dama ou mandarei os rapazes joga-lá dentro do navio. Todavia, que fique claro que irá nos acompanhar nessa viagem. 

Anne lançou uma olhar furioso a Sarah, contudo não pestanejou contra a ordem do avô. Ao seguir a irmã para fora da mansão e notar os olhares dos funcionários, pele menos Sarah  agradeceu pelo fato do Sr. Harris ter ido mais cedo junto a comitiva da Rainha e do Príncipe ou então teria presenciado mais um comportamento indecente de Anne. 

Para a infelicidade de Sarah o comportamento de sua irmã piorou assim que colocou os pés no navio e para não ter que lidar com as birras periódicas de Anne, ela precisou permanecer em sua cabine praticamente durante toda a viagem. Nem mesmo a terrível tempestade que assolou o mar na primeira noite se comparava ao gritos de Anne com os criados, de fato a cada instante a irmã caçula se tornava uma cópia da própria avó. 

Sarah pensou em sua amada mãe e em como ela estaria envergonhada como o comportamento de Anne, as atitudes promiscuas e egoístas da irmã que revelavam o domínio das obras da carne em sua vida. Não havia mais luz em Anne e as trevas cresciam a cada instante, que tremendas trevas, o que fazia com que Sarah constasse que bastava uma pequena brecha para que a natureza pecaminosa do homem dominasse. 

O arrependimento de não ter insistido com o avô para que aceitassem acompanhar a Rainha em seu navio a dominou durante todo o percurso. Se não fosse pela decisão da avó de comparecer ao baile dado por sua amiga, a Condessa de Baltimore, todos teriam ido na comitiva de Victória o que com certeza teria tornado a viagem mais tolerável e menos terrível para Sarah. 

— Então o que acha ? — perguntou Maya ao entrarem na carruagem que as esperava no porto de Saxe-Coburgo-Gotha. Por sorte, não precisaram  aguentar a companhia da irmã ou da avó, pois August havia enviado uma carruagem especialmente para ela, um gesto de gentileza que muito a alegrou. 

Sarah observou a paisagem pela janela e abriu um sorriso animada para o que Deus havia preparado para ela naquele lugar. A paisagem pintada pelo outono tornava a recepção de Sarah no território semi-independente ainda mais memorável e ela sem dúvidas pintaria aquela imagem assim que surgisse uma oportunidade. 

— Eu acredito que serei muito feliz aqui — comentou sem conseguir afastar seus olhos das folhas das árvores no chão. 

— Sem dúvidas — concordou Maya, com um sorriso brilhante. — É o melhor longe da jararaquinha vó e neta. 

— Maya — repreendeu Sarah. 

— Desculpa é o velhor homem. — A indiana não parecia muito arrependida e ambas as mulheres acabaram rindo. 

Sarah permaneceu em silêncio durante o resto da viagem, contemplando a paisagem da terra em que seu futuro marido era o Duque. 

A ideia de ser uma Duquesa assustava Sarah, sabia que o título naquele país equivalia ao título de uma rainha e nunca em sua vida ela havia se imaginado em tamanha posição. Com certeza teria muitas coisas para aprender e se sentia forte o suficiente para suportar as dificuldades que por ventura surgissem, afinal pertencia a um Deus que a fortalecia. 

 Por sorte sua falecida mãe era neta de alemães e quando Sarah ainda era uma criança ensinou a ela a língua alemã, de modo que a dificuldade de comunicação não lhe era uma preocupação, tal informação havia acalmado o  coração de August que temia pela adaptação de Sarah. 

Em breve ela não seria mais Sarah Parker, mas Sarah a Duquesa Soberana de Saxe-Coburgo-Gotha. 

Com os olhos fechados ela sorriu e orou Senhor ensina-me a viver conforme seus propósitos. Ajuda-me nessa jornada e nunca me deixe esquecer quem eu sou, uma filha amada, mas imerecedora de sua graça. Eu oro para que não importes a posição que eu tenha, não deixe que eu me esqueça que tudo o que há de bom em mim provém de ti. 

— Sarah chegamos — anunciou Maya. 

A grandeza do Castelo de Reinhardsbrunn surpreendeu a Sarah e com certeza dificuldade ela desceu da carruagem. Com um sorriso no rosto e sem esconder a alegria em seus olhos o Duque se aproximou, sendo seguido por alguns rostos conhecidos, dentre os quais o de Victória e Albert, e desconhecidos. 

— Lady Sarah. 

— Lord August — ela respondeu com uma breve reverência, não esquecendo os protocolos que Victória gentilmente tinha lhe ensinado. Ele cumprimentou aos avôs de Sarah e a Anne,  sem esquecer Maya, que parecia um pouco nervosa. — Quero lhe apresentar uma pessoa. 

Sarah assentiu o seguindo. 

— Essa é minha mãe — Augusto apresentou uma mulher alto e loira, com uma beleza gélida e um olhar ainda mais frio, apesar do sorriso que ostentava. — A Grã-Duquesa Mãe. 

Luísa de Saxe-Coburgo-Gotha avaliou a Sarah, sem esconder a insatisfação pela escolha do filho para noiva.

— Sua noiva é uma bela dama meu filho — foram as únicas palavras que saíram da boca de Grã-Duquesa.

— Sim. — concordou August, se havia notado a malícia na voz da mãe escondeu muito bem. 

— Minha querida amiga Sarah — cumprimentou Victória ao notar o silêncio constrangedor. — Como foi a viagem? 

— Cansativa, — respondeu Sarah retribuindo o abraço da monarca britânica. 

— Não ligue para a Luísa — sussurrou Victória, de modo que apenas Sarah a ouvisse. — Ela apenas está irritada que não será a mulher mais poderosa desse país. Meu conselho é que não deixe que ela domine essa relação, essa será sua casa. 

Sarah não respondeu, mas ao olhar novamente para a Grã Duquesa temeu que a mulher pudesse ser pior que sua avó. Os receios da jovem Parker se mostraram verdadeiros horas mais tarde, já instalada no quarto que seria seu após o casamento, um leve baque na porta chamou sua atenção. 

— Vossa Majestade — cumprimentou Sarah, surpresa. 

Sem esperar qualquer convite a mãe de August e Albert adentrou o quarto, permanecendo em silêncio por um tempo que Sarah pensou ser demasiado longo. 

— Eu fiquei verdadeiramente espantada com as notícias — disse, encarando Sarah com um sorriso frio, usava tons escuros e o cabelo loiro perfeitamente preso, era possível notar a semelhança física com o filho, mas aparentemente as semelhanças terminavam ali —, meu filho mais velho parte em uma viagem de negócios e me volta com uma noiva, parece até uma história de um livro de romance.

— Eu gosto de pensar que é o agir de Deus — disse Sarah —, afinal quem melhor do que o próprio amor para escrever um romance. 

— Na minha opinião parece uma história de mau gosto — refletiu, com um meio sorriso. — Cancele o casamento e volte para a Inglaterra. 

Sarah olhou assustado, concentrando-se em manter seu corpo ereto. Afinal, era notável que a Duquesa não aprovava a escolha de noiva do filho, mas a jovem nunca imaginou que teria a coragem de tentar cancelar o matrimônio. 

— Não — respondeu Sarah se lembrando do conselho de Victória —, sinto muito em ter que contrariar Vossa Majestade, mas creio que com o tempo iras aceitar meu relacionamento com Vosso filho. 

Luíza riu e Sarah pensou que ela era bem pior do que a avó. 

— Tudo bem — concordou a velha nobre, provocando um arrepio de medo em Sarah —, se insiste em fazer as coisas mais complicadas. Contudo, saibaque isso não vai acabar bem e esse casamento não vai acontecer. 

Sarah apertou as mãos, sentindo sua cor ir embora diante da ameaça, mas decidida a não mostrar qualquer fraqueza. 

— Se isso é uma ameaça — respondeu a jovem morena, —, guarde-a para si, pois eu não a temerei. August me pediu em casamento e eu aceitei, de agora em diante apenas a morte poderá me separar dele. 

— Então é mais tola do que eu imaginei — disse a Duquesa-Mãe, encarando a futura noiva com raiva.  — Quero que saibas que eu não permitirei que meu precioso filho de case com uma garota qualquer, não importe o que ele ache. 

— Acho melhor a senhora se retirar — pediu Sarah —, estou cansada e a viagem foi longa. Ah e para o bem da nossa relação familiar vou fingir que essa conversa nunca aconteceu. 

— Eu sou uma pessíma pessoa para se ter como inimiga — apontou indo em direção a saída —, e eu nunca perco. 

— Sempre tem uma primeira vez para tudo — respondeu Sarah —, o casamento vai acontecer. 

— Como quiser — foi a última palavra da Duquesa ao deixar completamente a visão da neta mais velha do Barão, estava claro que não pretendia permitir a união do filho com a jovem e que usaria de todos os meios para isso. 

Sarah sentiu suas forças irem embora ao fechar a porta e cair ao chão. 

 Oh Senhor o que devo fazer, orou com as mãos no rosto, enquanto as lágrimas que há dias estava segurando finalmente encontrou seu caminho pelo rosto da jovem. 







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