Capítulo 19


Sarah rasgou a folha em que desenhava ou tentava, pois sua mente não conseguia se concentrar o suficiente na tarefa que tinha decidido fazer. Em seguida, encarou sua cama bagunçada e se ressentiu por não conseguir dormir em paz, no mesmo instante em que uma leve batida na porta soou por todo o quarto. 

— Irmã, posso entrar? — a voz de Anne se sobressaiu no silêncio da madrugada. 

A noiva do Duque encarou indecisa com o que fazer, dizer que estava brava com Anne seria um eufemismo, pois se encontrava na verdade furiosa com o comportamento da caçula. De fato, era impossível para ela compreender as razões pelas quais a irmã havia escolhido o caminho do pecado e se deixado cegar pelas paixões da carne. Afinal, não sabia Anne que era nosso dever fugir da aparência do mal e não se deixar dominar pelos desejos da mocidade?

Sarah entendia  a natureza pecaminosa humana e sabia que o pecado poderia ter um grande apelo, mas ainda assim não deveria ter a irmã clamado ao Senhor? Afinal não é Deus aquele que é poderoso para nos guardar de tropeçar, e permitir com que nos apresentamos a ele irrepreensíveis, com alegria? E ao constatar que havia caído não deveria ter se arrependido ao invés de persistir no engano? 

Como ela poderia escolher deliberadamente o pecado ao invés de Deus? A resposta era apenas uma, a jovem nunca tinha conhecido ao Senhor verdadeiramente, conhecia de ouvir falar, conhecia de olhar para o céu e não de conviver diariamente com Deus, pois quanto mais afastado de Deus o homem se encontra mais fácil são para que os desejos da carne se sobressaía ao espírito. 

—  O que deseja? — questionou Sarah abrindo a porta, sua voz mais dura do que gostaria. Todavia, toda sua raiva e mágoa desapareceram ao encontrar a expressão chorosa e o rosto vermelho da caçula, quebrava o coração da morena ver sua irmãzinha naquele estado. 

— Podemos conversar? —  perguntou Anne, a voz engasgada em um soluço.  

— Venha —  respondeu estendendo a mão para loira.   

— Eu sinto muito pela maneira que eu agi hoje pela manhã — disse Anne em um único fôlego, enquanto se sentava no divã. 

Em tempo de paz ambas teriam deitado juntas na cama e conversado durante horas, mas naquele instante era impossível ignorar a distância fria entre as irmãs. Sarah voltou seu olhar para a irmã caçula, se questionando se o arrependimento era sincero. 

—  Isto significa que ouvirá o meu conselho e vai se afastar de Lord Byron?  

Os olhos claros de Anne se encheram de lágrimas e seus lábios tremeram e por um breve momento pareceu aos olhos de Sarah frágil e perdida, doeu no coração da irmã mais velha ver a irmão em tal estado, gostaria de carregá-la em seus braços como quando era um bebezinho. 

— Deixe-me explicar —  suplicou Anne — , imploro para que entendas o meu lado. Por favor — chorou Anne —, me apoia apenas dessa vez. 

— Eu não posso negociar os meus princípios por amor a ti Anne, não há nada que possa me dizer que vá me fazer apoiá-la em tamanha loucura. Ele é um homem casado e es uma senhorita solteira que nem deveria ousar se aproximar dele. 

— Ele não é tão ruim quanto achas — argumentou Anne —, na verdade é um homem muito gentil e foi inevitável não nos apaixonamos, era o nosso destino Sah e pode confiar em mim quando digo que nunca ultrapassamos qualquer barreira física.

Sarah suspirou irritada ao perceber que a irmã tentava justificar suas atitudes.

— Me poupe Anne, ele é um homem casado que troca juras de amor com uma senhorita solteira, e isto por si só já demonstra o caráter perverso dele.

Houve uma pausa enquanto o vento bateu na janela assustando ambas as meninas, Anne se encolheu no divã, pois odiava tempestades.  

—  Não se manda no coração — argumentou Anne, com o cenho franzido. —  Seja minha irmã, não pode entender o que eu te aponto e apenas por um momento deixar de lado essas suas convicções bobas? 

— Eu estou sendo sua irmã ao apontar seu erro  —  afirmou Sarah — , sabe tudo o que estas me falando agora é apenas a repetição do que já havia dito de manhã. —  Olhou para a irmã e novamente sentiu seu coração apertado.  —  É melhor voltar para o seu quarto.

— Vais me afastar? Eu farei qualquer coisa, mas não me olhe com esse ar de decepção. 

—  Eu estou decepcionada —  disse Sarah — , esse seu comportamento não foi o que os nossos pais nos ensinaram? 

— Ensinaram o quê Sarah? Eu mal me lembro deles — responde a loira — , eu nem sei quem eles eram de verdade, lado outro o que adianta ser boazinha? O que isso te trouxe além de humilhações do avó? 

—  Eu não estou preocupada em ajuntar tesouros e recompensas nessa terra — apontou Sarah — , não trato as pessoas bem por querer algo, mas por que eu entrego o que eu tenho.  

— Que evangelho é esse que trata sua irmã como uma criminosa? 

—  Não seja dramática — repreendeu Sarah — , eu não estou lhe afastando ou dizendo que não es minha irmã, eu a amo e sempre vou amar, mas não serei conivente com o seu pecado. — De algum modo Sarah sentiu que ela era a vilã da história.

— O que eu deveria fazer, eu o amo. 

—  Prometa-me que ira se afastar dele —  exigiu Sarah, com uma expressão decidida.

 — Sim. —  jurou Anne em meio aos soluços —  Prometo que não me aproximarei mais dele até que ele seja uma homem solteiro.

Horrorizada era como Sarah se sentiu naquele instante, pois como a irmã poderia ser tão egoísta ao ponto de desejar que a pobre mulher de Lord Byron falecesse.

—  É esse tipo de homem que quer como marido? —  questionou com o rosto vermelho — , alguém que não tem a mínima consideração pela esposa moribunda?

—  Lady Sofia está sofrendo — disse Anne pressionada — , a morte será um alívio para ela.

—  E ao que parece a ti e a Lord Byron — respondeu Sarah — , deveria estar orando para a melhora dela e não desejando pular na cama do marido da coitada.

—  Não permito que me trates como uma prostituta —  praticamente gritou Anne, mas abaixou a voz ao  encarar o olhar irritado da irmã mais velha.

—  Sinceramente? — disse Sarah no momento da fúria — , penso que algumas prostitutas tem mais caráter do que a ti. Pense minha irmã em tudo o que me disse hoje e a escolha que estas a fazer.

— Já disse que irei me afastar dele.

—  Até que a esposa dele morra —  explodiu Sarah. 

O rosto de Anne tremeu e ela já não parecia tão linda como sempre aos olhos de Sarah, era alguém que a jovem morena não conhecia e nem gostaria de conhecer. 

— A verdade Anne é que se persistir nesse caminho Lady Sofia não será a única a enfrentar a morte —  indicou Sarah —, lembre-se o pecado leva a morte espiritual e essa morte é muito pior do que aquela que nos separa dos vivos. 

—  Podemos não falar sobre isso?

—  Queres que eu ignore toda essa situação?

—  Eu não me encontrarei com ele novamente e afirmo que cortarei toda a nossa ligação — prometeu Anne — , só não quero perder minha irmã.

—  Eu quero acreditar. 

—  Então acredite —  disse Anne com uma voz doce — , somos família e isso é mais importante do que qualquer coisa. — A caçula Parker se sentou aos pés da cama e estendeu a mão para Sarah — Se quiseres até orarei para que Sofia melhore.

—  Deus deseja orações de coração e não de lábios - sussurrou Sarah segurando a mão da irmã — , se queres saber acho que deveria orar por si mesma, pois a mim Anne pareces mais doente de que Lady Sofia.

Sarah teve vontade de chorar, percebendo que qualquer coisa que dissesse a Anne parecia não ter efeito sobre o coração endurecido da irmã.

— Venha —  disse Sarah com um suspiro profundo. 

Anne deu um sorriso doce se aproximou da irmã deitando ao lado da mais velha. 

—  Posso dormir aqui hoje?  

— Sim — disse a morena com uma voz doce, mas horas depois apenas a loira dormia e a insônia ainda dominava a noiva do Duque.  

Senhor, orou Sarah, me parece que minha irmã fez uma escolha de quem servir e não é ao Senhor. Afinal, como dizer que es de Deus, mas as ações são contrárias ao que o Senhor aprova? O que adianta falar que têm fé, mas a fé é sem obras? Somos salvos pela graça, mas não é de graça, pois viver o evangelho significa negar a si mesma, aos desejos da carne, bem como ser transformado todos os dias e confrontado pelo ensino de Jesus.

Oro para que minha irmã possa compreender a verdade e se afaste de Lord Byron, pois no fundo eu sei que ela estas a mentir. O que devo fazer Aba? Apenas orar e esperar que ela tenha juízo?

Sarah não ouviu qualquer resposta aos seus questionamentos, mas ao olhar a irmã dormindo se lembrou de Atos: 7: 51.

Povo rebelde, obstinado de coração e de ouvidos! Vocês são iguais aos seus antepassados: sempre resistem ao Espírito Santo!

—  Ah pobre Anne, como se recusa a ouvir a verdade? Como podes conhecer a palavra e ainda assim resistir a ela? Não sabes que o que chama de amor estas a levar para longe Daquele que é sinônimo de Amor? — perguntou Sarah, mas a irmã que dormia profundamente nada respondeu.

Na manhã seguinte ao acordar Sarah se surpreendeu com a ausência de Anne, contudo nada comentou no café da manhã. Os avôs não perceberam a tensão existente e Sarah usou de toda sua força para agir normalmente com a irmã.

—  Lady Sarah sua carruagem está pronta — anunciou o Sr. Daniel horas mais tarde.

—  Vais sair novamente? —  questionou a Baronesa que lia um livro até então.

—  Eu os avisei sobre o convite da rainha — lembrou Sarah. 

—  Desse jeito —  disse a avó fechando o exemplar de Shakespeare. — Em alguns dias a rainha deve lhe convidar para morar na corte com ela. 

—  Guarde sua ironia Arabella —  disse o Barão, com uma expressão irritada — , vá minha querida e dê os nossos cumprimentos a vossa Majestade.

Sarah saiu antes que a avó pudesse tecer qualquer outro comentário ácido. No palácio a mais velha Parker foi recepcionada por uma Vitória bem humorada e trajada com um vestido violeta que combinava perfeitamente com sua personalidade.

—  Vamos — disse a rainha caminhando a passos lentos, enquanto era seguida por suas damas e por Sarah — , pedi que preparassem nosso almoço no jardim. 

— Isso é ótimo. 

— Me parece um pouco preocupada, tens certeza de que estas bem?

A rainha fez um gesto para que as damas se afastassem e as três mulheres a quem Sarah não recordava o nome foram se sentar em uma mesa afastada. Enquanto isso Vitória guiou a Parker até uma mesa preparada para elas.

—  Estou bem — respondeu Sarah se sentando à mesa. — Conheces o Barão Byron ?

— Jake Byron? - perguntou Vitória sem esconder sua curiosidade — É um completo libertino, mas por qual motivo pergunta? Não me digas que ele anda a te perturbar.

—  Não —  negou Sarah rapidamente — , eu o vi conversando com uma senhorita solteira.

—  Sua irmã — afirmou a rainha em um tom baixo para evitar que a criada que se aproximava com o almoço as escutassem.

—  Como sabes? — sussurrou Sarah com o coração acelerado e uma expressão angustiada.

—  Há rumores pela corte — disse a rainha, com um sorriso triste nos lábios. — Nada concreto é claro, mas um rumor pode ser forte o suficiente para estragar a vida de uma jovem.

—  Faz muito tempo? —  perguntou com os olhos cheios de lágrimas. — Ela me prometeu que irá se afastar.

—  Desde o começo da temporada —  expôs Vitória, enquanto saboreava a comida que tinha sido servida. Poucas coisas parecia afetar seu apetite e com certeza não um rumor que envolvesse Jake Byron, mesmo que demonstrasse tristeza pela situação que envolvia a irmã de Sarah. — A melhor coisa que sua família pode fazer é casar sua irmã o mais rápido possível, pois o Barão tem o costume de conquistar coração de jovens e destruir as pobres coitadas. O dote bom é a única coisa que impede que essas damas sejam completamente arruinadas socialmente, mas muitas delas são obrigadas a se contentar com qualquer arranjo.

—  Isso já aconteceu muitas vezes?

—  Toda temporada — respondeu a rainha, com uma expressão de pena — , e Lady Sofia fica cada vez mais doente ao descobrir sobre os envolvimentos do marido. Por mim eu expulsaria Lord Byron do parlamento, mas como descobri falta de caráter não impede que alguém tenha tamanho poder político.

—  O que eu faço? — questionou Sarah levando as mãos até o rosto para impedir que a rainha a visse chorar. — Meus avôs não irão acreditar em mim.

—  Ainda assim é seu dever alerta-los — apontou Vitória — , pois os rumores correm a todo vapor e logo seu avó como membro do parlamento descobrirá por outras maneiras. E torça para que sua irmã cumpra com a promessa de se afastar.

—  Tens razão.

—  Gostaria de não ter em relação a isso.

Vitória percebendo a aflição de Sarah a ajudou a se distrair com outros assuntos. A rainha tinha muitas histórias divertidas para contar e por um tempo a Parker mais velha se esqueceu das preocupações com a irmã.

As damas da rainha observavam a distancia as risadas alegres que sua senhora e Sarah soltavam entre as histórias contadas, enquanto os servos serviam a sobremesa. O clima era leve e descontraído quando estavam reunidas e isso acalmava o coração de Sarah que por vezes se sentia sufocada em Londres.

—  Majestade — um secretário da rainha se aproximou, com o rosto envergonhado — , desculpe incomodá-la, contudo o primeiro ministro a aguarda em vosso escritório.

— É urgente Elliot? — questionou a rainha colocando o guardanapo sobre a mesa.

—  Creio que sim —  respondeu Elliot.

Vitória suspirou como se a interrupção a irritasse.

—  Sinto muito Sarah —  se desculpou a rainha se colocando em pé — , podemos continuar nossa conversa outro dia?

—  Claro, eu adoraria — respondeu Sarah se despendido da amiga.

—  Sinta-se livre para terminar sua sobremesa — pediu Vitória — , e passear pelos jardins se desejar. Não prometo lhe encontrar mais tarde, pois quando o primeiro Ministro aparece nunca é um bom sinal.

Sarah assentiu, com um sorriso sincero nos lábios. Quando a rainha se afastou seu coração pesou novamente ao pensar na irmã e nem mesmo o manjar delicioso a animou novamente, por fim decidiu ir embora, pois não podia mais adiar a conversa com os avós.

—  Minha querida noiva — a conhecida voz de August fez com que um sorriso brotasse nos lábios de Sarah, uma reação involuntária.

—  Lord August — respondeu a jovem com o rosto vermelho, enquanto observava o Duque se aproximar da mesa.

—  Como se encontra?

—  Não sei muito como responder a sua pergunta — disse com sinceridade, pois odiaria mentir a August. 

—  Quer falar acerca do que lhe preocupa?

—  Não hoje — respondeu — , é um dia muito belo para eu estragar com tolas preocupações.

—  Se precisar —  disse August — , meus ouvidos são todos seus.

—  Eu irei me lembrar disso. 

Ele sorriu animado e logo começou a conversar com ela numa clara tentativa de distrair a mente da noiva do que lhe preocupada, era leve estar ao lado dele e a conversa nunca parecia morrer, mas até mesmo os raros momentos de silêncio era confortáveis.

Sarah agradeceu a Deus, consciente que não era sorte, mas o agir do Senhor que a permitiu encontrar um amor que era também seu amigo. Deus em sua infinita sabedoria tinha guiado a vida da jovem em um caminho que nem ela ousaria sonhar, mas que era muito melhor do que todos os sonhos que ela poderia planejar com suas próprias forças. 

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