Capítulo 14

A temporada estava passando mais rápido que a neta mais velha do Barão de Meyer tinha imaginado e talvez isso se devia aos diversos eventos que agora era obrigada a participar, normalmente a residência em Londres estava sempre lotada com interesses amorosos da caçula, mas agora também recebia jovens senhores aparentemente apaixonados pela irmã mais velha. 

O fato de que o irmão mais velho do Príncipe Albert estivesse cortejando Sarah atraía homens decididos a verificar o que o Duque enxergava na mais velha Parker, alguns por curiosidade e outros por interesse, mas todos recusados por Sarah.

Afinal, ninguém pode conquistar um coração dado voluntariamente. 

— Eu pensei que Lady Olivia tinha lhe convidado para um chá da tarde —  disse Sarah passando os dedos pelas teclas do piano, tinha tocado a tarde toda para acalmar seu coração e aproveitar que a avó não estava na residência para criticar. 

Sabia que logo precisaria tomar uma decisão acerca do interesse do Duque, mas se sentia presa as coisas na Inglaterra, principalmente, a irmã mais nova. De uma maneira estranha se sentia egoísta ao se imaginar casando primeiro que a caçula e a deixando a sós com a vó, mesmo que a Baronesa fosse só amores para com a neta caçula.  

— Eu recusei —  respondeu Anne concentrada no bordado que tinha passado a amanhã toda fazendo. —, estou cansada das conversas tolas dessas senhoritas. 

—  Achei que eram todas amigas. 

 — As pessoas mudam — foi a resposta dada pela loira —, a muita coisa mais importante na vida do que fitas e cetins. 

— E o que a fez amadurecer tão rápido ? — perguntou Sarah. 

— Não sou mais uma garotinha — indicou Anne, com a voz dura — logo serei uma mulher casada. 

— Alguma das propostas lhe interessou? Me lembro que o irmão de Lady Olivia lhe prestou muita atenção no evento da Condensa de Jacob — apontou Sarah, encarando a irmã com uma expressão de curiosidade. —  Confesso que ele me pareceu um jovem muito decente e imaginei que tivesse lhe chamado a atenção. 

— Connor é um garoto —  esnobou Anne — , eu prefiro homens de verdade. 

Sarah observou a irmã atentamente, enquanto uma estranha sensação tomava conta de seu coração, alguma coisa estava errada. 

— Quem é ele? 

Anne deu a irmã um olhar divertido e parecia a ponto de provocá-la, mas um suave toque na porta chamou a atenção das irmãs. 

— Lady Sarah —  chamou o mordomo da família — , a senhorita tem uma visita. 

Sarah suspirou profundamente. 

— Será que eu posso dizer que estou ocupada? —  questionou a mais velha para a caçula, cansada das visitas de pretendentes. 

—  Apenas se quiser que a vovó tenha um ataque do coração — expressou a caçula, jogando o bordado na poltrona indignada com o próprio trabalho, não era uma artista nata. — Quem diria que um dia Sarah Elizabeth Parker chamaria mais atenção em uma temporada do que eu. 

— Para de brincadeira Anne — repreendeu a irmã mais velha —, sabes muito bem a razão pela qual esses senhores insistem em me procurar. 

— Lady Sarah, a joia da temporada — riu Anne —, eu realmente gosto disso apesar da ironia. 

—  Quem é dessa vez? —  questionou Sarah ignorando a irmã e se colocando para receber o indesejado convidado, pronta para recusar qualquer investida. 

—  Lord August, o Duque de Saxe-Coburgo-Gota — indicou o Sr. Daniel para a surpresa da morena que não esperava a visita, de fato o cunhado da rainha tinha sido extremamente paciente nas últimas semanas e dado a Sarah todo o tempo necessário para que ela lidasse com seus próprios sentimentos.

— É melhor não deixar seu noivo esperando. 

— Não estamos noivos —  repreendeu Sarah a irmã mais nova. 

—  Ainda —  respondeu Anne petulantemente —, mas basta uma palavra sua e o casamento será marcado. 

— Se eu me casasse com o Duque — disse Sarah, voltando seu olhar para a irmã —, como se sentiria em relação a isso? 

— E importa como eu me sinto? 

— Claro — expressou Sarah —, es minha irmã mais nova e minha família. 

— Seja feliz é o que importa — disse Anne —, eu ia sentir sua falta é claro, mas um dia eu terei minha própria família e a gente sempre vai ser irmã e sempre vamos nos apoiar, não é? 

— Claro — sorriu a irmã mais velha —, eu sempre estarei ao seu lado independente de qualquer coisa. 

— Inclusive da distância — brincou Anne —, agora pare de enrolar o Duque e vá. 

Sarah revirou olhos e seguiu o mordomo para a sala de estar, onde August a esperava. Como sempre o coração dela acelerou furiosamente ao vê-lo sorrir para ela, como se a jovem fosse algo realmente precioso. 

— Lord August — cumprimentou a neta mais velha do barão, lutando contra suas pernas trêmulas. 

— Lady Sarah —  respondeu o Duque, com um sorriso que alcançava seus olhos azuis.  —  Espero que perdoe minha petulância, mas precisava conversar com a senhorita. 

—  É claro — concordou a jovem —, podemos caminhar pelo jardim o que achas? 

— É uma ótima ideia. 

O casal caminhou para fora da residência seguidos pela preceptora de Sarah, uma senhora de idade que a Baronesa tinha contratado para evitar que qualquer rumor influenciasse a reputação da neta,  algo que agora parecia ser uma preocupação para a avó da jovem. O clima agradável do verão e o silêncio foram as companhias inicias de Sarah e August, até que  alcançasse um dos bancos do jardim. 

— Soube que as últimas semanas tem sido movimentada para a senhorita — brincou o Duque, enquanto analisava a expressão de Sarah atentamente. —  Alguma proposta de casamento? 

A morena sentiu seu rosto corar e se não estivesse se lembrando que o homem a sua frente era o governador de um país e cunhado da rainha teria respondido ele de uma forma nada cordial. 

— Não brinque comigo. 

— Não estou —  respondeu, a diversão brilhando em seus olhos — , até me pergunto se devo me preocupar com a concorrência. 

Sarah fez uma careta. 

—  Como se alguém pudesse concorrer com o senhor. 

 — Então tens me em mais alta estima do que eu imaginava — disse ele numa vez séria —, fico feliz em ouvir isso. 

Sarah o encarou e a intensidade de seus próprios sentimentos lhe tirou o fôlego. Como podia desejar tanto a proximidade daquele homem, não conseguia compreender o anseio em seu peito ou as imagens da família que juntos poderia formar, nunca antes em sua vida desejou construir uma vida familiar quanto naquele momento. 

— Eu não acho que o senhor tenha vindo até aqui para me provocar acerca do repentino interesse dos senhores londrinos em mim —  indicou a jovem, tentando acalmar seus sentimentos, sua voz era baixa e rouca. —  Que ambos sabemos ser apenas por sua causa. 

—  Não se subestime —  disse o Duque, a encarando profundamente — , a única razão pela qual em todas as outras temporadas ninguém se aproximava da senhorita era por causa de sua avó, eu apenas facilitei o acesso a eles, não que tenha sido de propósito ou que me agrade. 

— Lord August —  repreendeu Sarah, impacientemente. 

— Tudo bem, não irei lhe provocar acerca disso — prometeu — , a razão da minha visita é meu desejo de ser sincero com a senhorita. Ontem eu conversei com o Barão de Meyer. 

— Meu avó? 

— Sim — assentiu o Duque —, eu deixei claro, novamente, minhas intenções com a senhorita e informei que gostaria de conversar com a senhorita. Como sabe não posso permanecer em Londres por tanto tempo, meu povo espera o retorno de seu governante. 

— Vais embora ? — Sarah tentou lutar contra a iminente tristeza. 

— Ao final da temporada — anunciou Lord August —, eu adoraria que a senhorita me acompanhasse, mas entendo suas ressalvas e não irei lhe perturbar novamente caso seja essa a sua vontade. Todavia, antes de fazer um pedido ou de ouvir sua resposta quero compartilhar algo com a senhorita.

Ele parecia escolher com cuidado suas palavras. 

— Eu nasci ciente de minhas obrigações como filho mais velho —  ele disse depois de um tempo em silêncio — , um dia eu governaria todo um povo, portanto, minhas escolhas foram todas tomadas em virtude desse fato. Contudo, para ser verdadeiro com a senhorita eu tinha um sonho quando criança, gostaria de saber qual? 

— Qual era o seu sonho? — perguntou Sarah, apertando suas mãos contra o colo, numa tentativa de se acalmar. 

— Eu queria ser um missionário —  respondeu surpreendendo a jovem. 

—  Missionário? 

August riu. 

— Eu desejava levar Deus as pessoas — disse — , eu sei que pode parecer estranho vez que quando nos conhecêssemos o Senhor não era a minha maior preocupação.  Mas, eu sempre levei muito a sério o evangelho mesmo não podendo ser um missionário em terras estrangeiras, depois quando cresci eu desejava encontrar uma esposa com quem eu pudesse compartilhar meu anseio pela fé. 

 — E o que aconteceu? — perguntou Sarah sem conseguir esconder sua curiosidade, enquanto tentava acompanhar as palavras do Duque. 

—  Meus pais e meu tio, o Rei da Bélgica, escolheram minha esposa — continuou o Duque —, veja bem Alexandrina era uma boa esposa, mas não compartilhava do meu entusiasmo com as coisas do Senhor, de modo que  eu aprendi a guardar as coisas para mim. Em que pese as nossas diferenças pouco a pouco eu descobri que poderia amar a ela, uma sorte para um casamento arranjado, o que me deixou muito grato a Deus. 

Sarah tinha ouvido falar sobre a falecida Duquesa, sua avó tinha feito uma pesquisa detalhada acerca da vida do Duque. Contudo, ouvir de August acerca da mulher fez com que a neta da Baronesa se sentisse compadecida pela nobre mulher que tinha falecido tão precoce.  

— Ela ficou grávida, mas morreu no parto — disse August, um pouco perdido em suas próprias lembranças — , meu filho sobreviveu apenas um dia. Aquilo que me quebrou de maneiras que eu nunca pensei ser possível, eu me senti injustiçado por Deus, como Ele poderia me arrancar tudo aquilo que me era mais caro? Na minha cabeça eu sempre tinha sido tão bom que não merecia aquela dor, então me afastei de Deus e de tudo que pudesse me lembrar Dele, escolhi todos os dias viver na contramão de tudo o que antes acreditava, deixei que meus desejos e minha carne me guiasse ao invés do Espírito, de fato eu estava morto muito antes da senhorita me encontrar naquela estrada. 

Sarah assentiu, sem saber ao certo como responder. 

— Sarah quando eu ti conheci eu me lembrei de quem eu era e de quem eu estava sendo — a voz de August era cautelosa — , eu me senti envergonhado e sujo diante das minhas condutas e comportamento, quem eu era para culpar a Deus por tirar algo que sempre tinha sido Dele? Quem eu era para acusar injustamente ao Deus que sempre me amou de me tratar com crueldade? Conversei com o Reverendo, mas a culpa continuava me corrompendo, enquanto isso a senhorita continuava me constrangendo, amando aqueles que a perseguiam, perdoando seus avós dia após dia. 

 — E então? O que aconteceu? 

— O que um filho rebelde pode fazer? Eu voltei para casa, para a presença do pai —  anunciou o Duque — , que mais uma vez demonstrou misericórdia para um pecador como eu. 

— Não há lugar melhor —  respondeu a morena, alegre por ver que o coração do Duque estava no lugar certo. — Fico feliz em saber que o senhor entendeu o amor de Deus, somos humanos e limitados e muitas vezes não compreendemos as razões do Senhor, mas uma coisa é certa Ele continua sendo bom e fiel. 

August olhou intensamente para Sarah, suas mãos pareciam tentadas a segurar o rosto dela, mas sobre o olhar atento da preceptora ambos mantiveram a distância. 

— Eu sou falho e pecador Sarah — expressou August, as palavras saiam meio distorcidas. —  E um dia pensei que nunca mais ansiaria por uma família, mas a verdade é que desejo. De fato, de uma maneira ambiciosa desejo uma companheira de fé, alguém para crescer mutualmente na presença de Deus, muito mais do que já tive antes e sabendo que desejo muito mais do que mereço, anseio que essa mulher seja a senhorita, quero construir uma vida ao seu lado e amá-la no dia bom e no dia ruim, nos seus defeitos e nas suas qualidades. 

  Sarah tentou lutar contra as lágrimas em seus olhos, mas era complicado diante do turbilhão de emoções que a tomava. 

— Então tomarei coragem e farei uma pergunta a senhorita — disse August, a voz emocionada —, aceitarei qualquer que seja sua resposta. Aceitaria um pecador como eu? Aceita ser minha esposa? 

— Somente se o senhor aceitar uma pecadora como eu —  foi a resposta da jovem — ,  mas sim eu aceito ser sua esposa. 

  


 

 

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