Capítulo 13
Sarah deu um suspiro profundo ao ingressar na residência dos avôs em Londres, a viagem tinha sido mais tranquila do que ela tinha imaginado e por algum motivo a avó parecia tentar controlar os comentários violentos e a jovem achava que isso tinha haver com a visita do Duque Soberano de Saxo-Coburgo-Gota, da mesma maneira a insistência da Baronesa para que a neta mais velha participasse da temporada que iria se iniciar.
A neta mais velha do Barão amava Londres, o que lhe deixou animada com a viagem, mas apreensiva, pois em geral suas experiências tinham sido no mínimo desastrosas. De fato, a verdade era que a temporada Londrina era um evento muito importante para a Baronesa o que significa que toda sua fúria voltava para a morena, ou seja, a jovem nunca conseguia aproveitar como gostaria ou se envolver nos eventos como sua irmã caçula, nos bailes nunca era chamada para dançar e ela não sabia se isso se devia aos rumores sobre sua frágil saúde ou simplesmente em virtude de ninguém se interessar o suficiente.
Ademais, não era segredo para ninguém que seu dote era insignificante. Certa vez Anne deixou escapar que algumas senhoritas chamava Sarah da neta pobre do Barão, e que apostavam se alguém teria coragem de chamá-la para dançar ou cortejá-la, sua avó fazia de tudo para que Sarah não tivesse a mínima chance de conhecer alguém.
Não que ela desejasse encontrar um marido naquela temporada, isto pois, seu coração já estava tomado e duvidava muito que fosse alguém que se apaixonaria novamente, podiam chamá-la de romântica ou emocionada, mas não era alguém que entregava seu coração para qualquer pessoa.
— Dessa vez será diferente — garantiu Anne segurando as mãos da irmã mais velha. Naquele dia a caçula usava um vestido amarelo e o cabelo penteado com uma coroa de trança, estava radiante como sempre.
— Sim — concordou Sarah, cansada demais para formular qualquer outra resposta.
As irmãs pararam no corredor da mansão na frente do enorme espelho moldurado em ouro, uma exibição da Baronesa que não perdia a oportunidade de ostentar o dinheiro da família.
— O que foi? — questionou Anne voltando seu olhar para o espelho.
— Nada — sorriu Sarah, desta vez o sorriso alcançava seus olhos.
As pessoas nunca suspeitariam que ambas eram irmãs se não as conhecessem e em geral isso era algo que incomodava Sarah, mas não naquela tarde. Enquanto, encarava sua imagem refletida ao lado da irmã pela primeira vez em muitos anos não julgou a si mesma, sem palavras duras ou cruéis, se sentiu bem consigo mesma.
Ela era Sarah e a verdade era que se continuasse se comparando com sua irmã ou com qualquer outra pessoa sua vida iria passar e ela nunca conseguiria viver o real propósito de Deus para ela, ser quem Deus tinha criado ela para ser bastava e precisava apenas se lembrar disso. Estava na hora de deixar as amarras irem, não queria mais viver presas as comparações e muito menos as críticas, não queria ouvir os comentários cruéis da avó ou acreditar neles, pela primeira vez em muito tempo Sarah desejava simplesmente se amar, do jeitinho que era.
— Esta tão estranha desde que voltou a viver com a gente — apontou Anne, enquanto arrancava suas luvas e as depositava no aparador —, o que aconteceu na casa da cidade? Quer dizer além do término do seu noivado, falando nisso vai mesmos desisti de se casar com um Duque? A vovó está bem furiosa contigo.
— Quando a vovó não está furiosa comigo? — questionou Sarah dando de ombros —, sinceramente não quero falar sobre isso agora.
— Então quando?
— Vou subir para descansar um pouco.
— Sarah — importunou Anne, com os olhos brilhando de curiosidade —, vamos conversar.
— Não preocupe sua cabecinha com os meus problemas — pediu a irmã mais velha —, eu estou bem e quando eu tomar uma decisão lhe contarei.
Sarah depositou um beijo no rosto da caçula e sem esperar resposta caminhou em direção ao segundo maior quarto da casa, uma outra mudança de mente da Baronesa, que agora parecia tentada a tratar a jovem como sua neta, o problema era que ninguém sabia até quando isso ia durar.
Sem se importar com qualquer etiqueta a morena se jogou na cama e fechou os olhos, sua cabeça parecia querer começar a doer a qualquer momento e seus pensamentos pareciam correr em ritmo de maratona, e para piorar ao fechar os olhos somente conseguia visualizar o Duque e aquela lembrança fazia com que coração doesse de saudades, amor e tristeza, uma mistura de sentimentos que ela não sabia muito bem como lidar.
Ela sentia falta dele de uma maneira que a deixava desconectada, aquilo era normal? Era assim que as pessoas se sentiam quando se apaixonavam? A intensidade de seus desejos a deixava assustada, ansiava por uma vida ao lado dele, por um companheiro que compartilhasse seus dias bons e dias maus e por alguém que a aproximasse de Deus, mas seria August essa pessoa?
Ele tinha escondido coisa dela, tudo bem que ela conseguia agora compreender suas razões, mas ainda assim também temia confiar nele. Além do mais, aceitar os sentimentos do Duque não apenas a fazia enfrentar seus medos mais terríveis, como também mudaria toda a sua vida.
Se tornar uma Duquesa, um título equivalente a uma rainha na nação dele, e deixar sua irmã para trás, bem como formar sua própria família significava alterar todas as estruturas de sua vida e uma coisa sobre Sarah era que ela gostava do que era cômodo, odiava mudanças com toda a sua força.
Eram tantos os seus medos, mas permanecer parada e deixar de viver por causa de seus temores significava que era apenas uma covarde e alguém que passaria toda sua vida se perguntando e se? Entretanto, a verdade era que a vida não estava imune aos problemas, ainda que o Senhor lhe desse uma direção clara, ainda que tivesse uma visão ou um sonho, uma palavra ou qualquer coisa do tipo que confirmasse o relacionamento de ambos, de fato somente daria certo se os olhares deles estivessem voltados para aquele que é próprio amor, com Cristo poderiam enfrentar qualquer situação.
Se fizesse uma lista sabia que tinham muitos motivos para manter seu relacionamento com o Duque, mas ainda assim sempre surgia algum motivo em sua mente para que ela permanecesse onde estava, no local que sua mente apontava como seguro.
— Sarah — uma voz soou longe aos ouvidos da jovem a despertando do sono que lhe tinha pegado em meio aos seus pensamentos —, a modista nos espera no salão.
— Quem?
— A vovó encomendou vestidos novos — anunciou Anne, entrando no quarto sem esperar que a irmã lhe convidasse.
— Tudo bem — assentiu Sarah se sentando aos pés da cama —, ficarei aqui em cima.
— Não — explicou a loira —, os vestidos são para nós duas.
—Como é? — perguntou Sarah despertando completamente.
Anne não explicou puxando a irmã para fora do quarto com uma velocidade que a avó descreveria como nada elegante. No salão, a modista mais importante de Londres esperava as meninas ao lado da Baronesa, que julgou o vestido amaçado de Sarah e mordeu os lábios para não dizer nada rude.
Sarah mordeu os lábios também, mas para não rir, enquanto se perguntava o que o Duque tinha falado para a Baronesa ao ponto de calar a mulher mais velha, era como se a avó da morena tivesse se tornado outra pessoa.
— Essa cor vai ficar linda na senhorita — disse a senhora, analisando Sarah dos pés a cabeça —, mas vai precisar de luvas e de um chapéu, ou vários.
— Faça o que precisar — pediu a Baronesa —, ela precisa de um guarda-roupa novo.
— Eu realmente não acho que seja necessário — disse Sarah ao mesmo tempo em que tentava respirar ao sentir a mulher apertar o corpete, ser bonita significava que precisava se matar pouco a pouco?
— Simplesmente a ignore — respondeu a avó de Sarah —, envie a conta para o escritório do Barão e ele lhe pagará generosamente, mas não se esqueça de priorizar as minhas netas.
— Não haverá jovens mais bonitas do que as senhoritas Parker — bajulou a modista, para a alegria da Baronesa.
Quando Sarah finalmente conseguiu voltar para o quarto Maya já a esperava para ajudá-la a se arrumar para um baile, aparentemente sua avó tinha decidido comparecer a festa dada pela Viscondessa de Hinchingbrooke, uma mulher que parecia mais arqui-inimiga da avó do que amiga, mas ambas nunca se desgrudavam quando estavam em Londres.
A jovem brincava com seus anéis, um presente ou um empréstimo da avó, mas ela não sabia ao certo. Enquanto Maya prendia o cabelo dela com grampos, uma maquiagem clara cobria seu rosto ressaltando seus olhos castanhos e gentis, estava bonita ou pelo menos se sentia assim ao usar o vestido verde claro.
— Está animada para ir ao baile? — perguntou Maya.
— A comida sempre é boa — brincou Sarah ao colocar o brinco que a amiga lhe entregava —, mas a minha avó estará atenta e eu não poderia comer, provavelmente ficarei a noite toda sentada.
— Tenho certeza que alguém lhe chamará para dançar.
— Eles não teriam coragem — respondeu. — Ficou muito bom. Obrigada.
— Talvez o Sr. August esteja lá — sugeriu a indiana ficando na frente da amiga. — A senhorita Anne disse que ele voltou para Londres alguns dias antes de nós, para se encontrar com a Rainha.
— Não importa.
— Não importa mesmo?
Sarah não respondeu, mas seu coração se acelerou ao pensar na possibilidade de encontrar o Duque.
— É melhor não criar expectativas — foi a resposta de Sarah ao olhar uma última vez sua imagem no espelho.
A mansão da Viscondessa estava radiante e boa parte da elite Londrina se encontrava lá, assim que foi possível Sarah se afastou da avó e da irmã, um pouco tonta ao voltar ao ambiente social depois de tanto tempo. O cômodo estava cheio demais, e o ar abafado e a jovem se sentia deslocada naquele lugar, caminhou com passos vacilantes para o local onde as solteironas costumavam se sentar, mas foi impedida por alguém lhe chamava.
— Desculpa — voltando seu olhar e encarando o jovem cavalheiro que lhe cumprimentava, ela o conhecia de vista e sabia que tinha sido um dos muitos pretendentes da irmã. — Se está procurando minha irmã suponho que ela esteja mais para o centro da festa.
Ele riu, mas parecia mais uma careta.
— Na verdade eu gostaria de falar com a senhorita — respondeu, enquanto a analisava de uma maneira que a deixou ainda mais desconfortável.
— Comigo?
— Gostaria de reservar uma dança — disse ele, o rosto inclinado para baixo, com um início de sorriso que achava ser estonteante, mas que o fazia parecer estar doente e deixava suas feições um pouco animalesca.
Sarah lembrou o nome dele, era o Sr. Durán e sua família tinha uma vida boa, mas ele era o terceiro filho e os rumores era que gostava demais da jogatina e de mulheres.
— Ahh — Sarah exclamou um pouco perplexa. — Eu...
— Acho que não será possível — uma voz familiar sobressaiu sobre as trêmulas palavras de Sarah e ela não precisou levantar seu olhar para dizer quem estava ali, ainda que seus ouvidos não reconhecessem seu coração com certeza o faria. — Lady Sarah tem todas as danças reservadas para mim essa noite e nas próximas.
— O senhor é? — disse o cavalheiro sem esconder sua irritação.
— August, Duque de Saxe-Coburgo-Gota.
— Vossa Majestade — cumprimentou o jovem um pouco pálido —, não queria o ofender. Com licença, Lady Sarah.
— Covarde — disse August, num perfeito alemão, sua língua nativa.
— Quem disse que minhas danças estão reservadas ao senhor? — perguntou Sarah em alemão, sem esconder sua irritação.
— Falas alemão?
— Essa não é a questão, meu avó era um professor universitário que amava aprender idiomas e minha mãe aprendeu com ele e depois me ensinou — respondeu a jovem. — Não deveria ter feito o que fez, as pessoas falarão.
— Então deixe que falem — disse August.
— Pensei que se importasse com a minha reputação — indicou Sarah, em um tom baixo para evitar que os curiosos de plantão a escutasse.
— Eu me importo e por isso quero me casar com a senhorita — ele deu um sorriso que aqueceu o coração da jovem, como um homem podia ser tão bonito, refletiu Sarah tentando acalmar sua mente. — Ou preferes que eu deixe a dançar com aquele jovem com cara de cavalo?
— Senhor — repreendeu a senhorita, mas deu uma risada, pois o cavalheiro Dúran realmente tinha aquela aparência.
O rosto dele se iluminou ao vê-la sorrindo
— Desculpa Sarah — ele respondeu sinceramente — , mas não consegui me conter ao imaginá-la dançando com outros. Esta linda, como sempre.
— Obrigada.
— Eu sei que ainda está brava comigo e eu entendo, deveria ter sido sincero com a senhorita.
— Não precisamos falar sobre isso aqui — disse Sarah, ansiosa.
— Tudo bem, quando poderemos conversar?
— Eu ainda preciso de um tempo — disse ela, um pouco perdida.
O Duque assentiu.
— Ao menos posso ter a honra de uma única dança? — ele questionou a encarando tão profundamente, o que a fez corar.
Se ele continuasse a olhando daquela maneira ao final da noite ela teria um anel de noivado nas mãos, ele era um perigo ao coração emocionado dela.
— O senhor reservou todas as danças — disse ela aceitando o braço que ele lhe ofertava, ignorando a multidão atenta.
— Para toda uma vida senhorita — o sotaque dele saiu mais forte e ela lutou contra o frio em sua barriga.
— Vamos começar com essa noite, por hoje — pediu Sarah com a voz trêmula — , é o que consigo pensar.
— Por hoje basta — respondeu o Duque a puxando para mais próximo dele, enquanto os instrumentos soavam pelo salão.
Sarah passou a vida toda lendo livros de romance, mas nem em seus maiores devaneios, aqueles que apenas Deus conhecia, ela tinha se imaginado dançando com um Duque em meio a elite londrina. Diferente, dos romances ela tinha consciência das pessoas ao seu redor, mas a verdade era que eles apenas não importavam, ali nos braços dele parecia o lugar certo.
Era como se ambos se completassem, nenhum dos dois ousaram falar nada com medo de que aquele momento chegasse ao fim. Enquanto, dançavam escolhendo estarem alheios a todos, um rumor começava a soar por Londres, sobre como o irmão do Príncipe Albert estava completamente apaixonado pela solteirona da família Parker, e aparentemente era recíproco.
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