Capítulo 11
Os rumores corriam pela cidade ou pelo menos era isso que Iva tinha contado a Sarah, todos os habitantes da região tentavam adivinhar as razões pelas quais a neta mais velha do Barão agora residia na mansão da cidade ao invés do campo com os avós.
A morena optou por ignorar os olhares e as conversas fiadas e caminhou decididamente até um dos bancos da igreja, contudo ao se sentar próximo a Sra. White, uma mulher que sempre tinha sido gentil com a jovem, imaginou que as teorias acerca de sua mudança poderiam ser piores do que imaginou, pois a mulher mais velha simplesmente se afastou e virou o rosto.
Sarah tentou não transparecer em seu rosto a tristeza.
— Desculpe o atraso — sussurrou Eduard se sentando disfarçadamente — , precisei resolver um problema para o reverendo.
Se ele notou o cochicho dentro da igreja ignorou.
— Tudo bem — respondeu Sarah com um sorriso doce nos lábios, mas manteve o olhar voltado para o altar.
O fato de que em menos de dois dias se casaria com o homem ao seu lado deixava o coração de Sarah ansioso. De fato, em sua mente ainda parecia um sonho que ela de todas as pessoas iria realmente se casar e que seus avós apoiavam aquela união, de alguma forma Eduard parecia ter convencido o Barão e a Baronesa acerca dos benefícios daquele casamento.
O reverendo começou a pregação, mas nem mesmo a passagem favorita de Sarah conseguiu impedir a inquietação dela diante dos olhares, as pessoas eram rudes. Por um instante se viu compelida a convencer Eduard a ir embora dali, mas sabia que isso seria pior e apenas aumentaria os rumores e ela não queria ser covarde.
— Agora mais um anúncio— disse o Reverendo com um sorriso enorme ao final do culto — , meu coração se alegra de anunciar que em dois dias terei a honra de celebrar a união de dois membros dessa congregação, como os senhores já devem saber, Lady Sarah Parker e o Sr. Eduard vão se casar, não se esqueçam de cumprimentarem aos noivos.
Alguns corajosos aplaudiram, enquanto outros julgavam ao casal.
— A senhorita está bem?— perguntou o noivo de Sarah quando ambos deixaram a igreja, depois de se livrarem da multidão de curiosos que queriam parabenizar os noivos, o casal caminhava em direção a casa de Sarah.
— Estou bem. — assegurou a morena, alisando a saia de sua vestido em uma reação nervosa. — O senhor não precisa se preocupar comigo.
— Eu sempre irei me preocupar.
Sarah esboçou um sorriso sincero e sentiu que a qualquer momento as borboletas em seu estômago poderiam começar a voar. Ao entrarem na casa foram surpreendidos pela presença do Barão, o nobre saboreava um chá a espera do casal de noivos.
— Vovô — cumprimentou Sarah sem esconder sua própria surpresa.
— Minha jovem eu estava a esperando.
— Há algum problema?
— Não — negou o Barão se colocando em pé —, apenas gostaria de falar um pouco com ambos antes de vosso casamento.
Sarah assentiu.
O avô questionou como Eduard estava e Sarah pediu licença para ir até a cozinha ordenar que um chá fosse preparado. Ao retornar para a sala de estar o Barão e Eduard pareciam conversar profundamente, mas ao notarem a presença da jovem imediatamente se calaram.
—Iva irá trazer o chá — informou Sarah se sentando ao lado do noivo e ignorando sua própria curiosidade.
— Querida — começou o Barão com a respiração lenta —, sei que falhei como avô e não ouso lhe pedir perdão, mas estou realmente feliz que tenha encontrado um bom casamento. Talvez, apoiá-la faça com que me odeia menos.
— Eu não lhe odeio.
— Es boa demais com esse velho — respondeu —, mas seu pai me odiaria, pois falhei com ele e como seu avô mais vezes do que deveria.
— O papai nunca lhe odiou— disse com sinceridade, de fato o pai de Sarah tinha sido deserdado e fugido de casa, mas mesmo assim quando falava dos pais eram com amor, até mesmo da baronesa ele sempre contava boas histórias.
Sarah amava seus avós como o pai os tinha amado e por essa razão a rejeição sempre tinha sido ainda mais dolorida.
— Espero que tenha razão, mas não foi para lembrar do passado que vim até aqui — anunciou o avô —, de fato eu gostaria de poder lhe entregar seu dote, mas sabes bem como sua avó é.
— Não é necessário — Sarah e Eduard falaram ao mesmo tempo, fazendo com que um pequeno sorriso brotasse nos lábios da morena por aquela semelhança.
— Eu imploro que aceitem — implorou o Barão os olhos cheios de dor — , pense como um presente de seu pai Sarah.
— Meu pai ?
O barão pegou uma pequena caixa de madeira que estava ao seu lado e estendeu para a neta.
— Abra.
Sarah assentiu abrindo o objeto com o máximo de cuidado, dentro dele estava uma papel.
— Eu não entendo.
— Eu sei que não precisam de minha ajuda — disse o Barão encarando a Eduard demoradamente —, mas acho que seu pai gostaria que tivessem isso, é uma escritura de uma residência em Londres, no momento está alugada, mas a partir do casamento todos os rendimentos serão revertidos para Sarah.
— O que isso tem haver como o meu pai?
— Era parte do patrimônio dele — respondeu o velho —, aparentemente seu pai pretendia voltar a Inglaterra antes de morrer, infelizmente não foi possível.
— Ele comprou essa casa?
— Sim.
Sarah ficou surpresa não imaginava que o pai e a mãe desejassem voltar para a Inglaterra, pois eram todos tão felizes na Califórnia.
— Obrigada — agradeceu a jovem emocionada.
Depois disso o Barão continuou conversando com o casal e questionando a ambos acerca dos planos sobre o futuro, já era tarde quando finalmente deixou a casa. Naquela noite ao se deitar Sarah se sentiu inquieta e se perguntou quantas coisas não tinha ignorado ao aponto de não notar que seus pais desejavam voltar para a Inglaterra, a mãe de Sarah sempre dizia que ela era boa em ignorar as coisas, enquanto a maioria das pessoas reagiam as mais simples das agressões a morena as ignorava, sempre evitando uma briga, sempre sendo paciente e amorosa mesmo com pessoas como a sua avó.
Ela se perguntou até que ponto isso era algo bom?
Ao abrir o jornal naquela manhã foi surpreendida por uma notícia, na capa do jornal a imagem refletida de Eduard fez com que derrubasse a xícara de chá em si mesma, mas o choque impediu que gritasse ao ser queimada.
EXECUTADOS HOMENS QUE ATENTARAM CONTRA A VIDA DA RAINHA E DO PRÍNCIPE.
— Lady Sarah — a voz de Eduard a assustou fazendo com que a neta do Barão pulasse da poltrona que estava sentada, não tinha escutado quando Iva anunciou a visita do noivo. — Podemos conversar por um instante?
— Sobre isso? — questionou ela apontando a reportagem.
— Eu... explicarei tudo, mas antes preciso que se lembre o quão profundo são os meus sentimentos por ti, entendes que realmente gosto da senhorita e de sua companhia e desejo tê-la como minha esposa.
Sarah encarou os olhos claros e nublados dele que estavam consumidos por angustia, sua mente trabalhava a mil por hora e ela não gostava do resultado, enquanto o medo parecia querer consumir cada gota de seu sangue ela lutou contra as lágrimas que teimavam em querer sair, tentava se lembrar de que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, contudo sua fé parecia vacilar.
Se sentia tão traída e não conseguia expressar palavras para descrever a confusão de sentimentos que a dominava. Suspirou com a respiração acelerada e com o seu mundo girando, as mãos trêmulas e o coração quebrado em mil pedaços em um dor que não parecia humana.
— O senhor não foi completamente sincero comigo, tudo o que lhe pedi era que não mentisse para mim.
Ela se afastou quando ele tentou segurá-la, nada podia ser pior do que ser tocada por ele, queria gritar e simplesmente sumir daquele lugar, sentia sua garganta arder e os olhos cheios de lágrimas tornavam sua visão embaraçada.
— Sarah — Eduard ou seja quem ele fosse tentou se aproximar dela, a expressão sofrida não causou reação alguma nela, pois tudo o que conseguia sentir naquele momento era a dor da traição, conseguia ouvir a risada maléfica da avó gritando em como ela tinha sido estúpida.
E ela concordava com a voz aguda da avó, tinha realmente sido uma boba em acreditar que um homem poderia amá-la, como a Baronesa de Meyer sempre lhe dizia o destino de Sarah era viver sozinha como uma solteirona.
— Não. — A morena agradeceu ao fato de estarem longe de ouvidos curiosos, seu orgulho estava destruído e nunca havia se sentindo tão humilhada como naquele momento, sentia raiva dele, mas principalmente sentia raiva de si mesma por acreditar que alguém além de sua irmã poderia realmente se importar com ela. — Quem é o senhor? Como pode brincar com os meus sentimentos.
Desejava correr daquele lugar, mas suas pernas pareciam não ter força ou vontade própria para agir, era um daqueles momentos onde o cérebro não comanda o corpo.
— Acredite quando eu digo que fui sincero em relação aos meus sentimentos — respondeu ele parecendo ser consumido pela culpa, mas uma vez tentou se aproximar dela, contudo novamente ela se afastou — deixe-me explicar e creio que vai compreender os meus motivos.
Desejou nunca mais olhar no rosto do homem que amava, porque sim amava aquele desconhecido e era por isso que se sentia ainda mais machucada, se culpou por acreditar nele e se apaixonar, como podia ter sido tão idiota a ponto de aceitar se casar com ele, sua avó deveria ter razão quando dizia que ela não passava de uma garota estúpida.
— Eu...— ela estava pronta para deixar Eduard ou quem quer que ele fosse sozinho, mas então se lembrou do que sua mãe sempre dizia que quem responde antes de ouvir comete insensatez e passa vergonha, no fundo de seu coração ela sabia que precisava de uma resposta sobre qual era o motivo que levará o loiro a fingir não se lembrar da própria vida — O senhor tem cinco minutos.
— Eu estava viajando para Londres para encontrar meu irmão caçula — o loiro encarou Sarah esperando uma reação, mas a mesma se manteve calada para não reagir pela fúria ou pelo desespero que agora dominava seu coração —, eu tinha descoberto que alguém tramava contra a vida de minha cunhada, como eu não confiava em ninguém para enviar uma carta e avisá-los do risco que Victória corria optei por encontrá-los pessoalmente, todavia de algum modo as pessoas por de trás da trama de assassinato contra a vida de minha cunhada souberam que eu conhecia seus planos e enviaram homens para me matar, eu lutei com todas as minhas forças, mas eles eram muitos e fui deixado para morrer nessa estrada se não fosse pela senhorita não acho que teria sobrevivido.
— Quando acordei não sabia em quem confiar e temi que os homens que me atacaram ainda estivessem por perto e mesmo quando ficou claro que eu não corria mais perigo, eu não quis envolvê-la em toda essa situação.
— Mas quando o senhor me contou que se lembrava podia ter revelado toda a verdade e ainda assim não o fez, o senhor mentiu.
— Eu não menti, mas apenas não contei toda a história.
— Omissão também é uma forma de mentira — disse ela em voz baixa — achou que era melhor? Que ia ficar tudo bem em me enganar? Isso demonstra muito o seu caráter. O Senhor entrou em contato com vosso irmão? E então o que aconteceu ?— Sarah tentava entender toda aquela situação, precisava saber todos os motivos que levaram o loiro a enganar.
— Quando acordei e entrei em contato com meu irmão nós dois concordamos que era importante que os homens que haviam me atacado continuasse a acreditar que eu estava morto, pois somente assim continuariam com o plano contra a vida de minha cunhada e com sorte conseguiríamos pega-los — explicou o loiro com o rosto cheio de tensão — Para isso eu deveria permanecer aqui e esperar o momento certo de retornar a Londres, contudo eu apenas não contava com o fato de que me envolveria tanto com a senhorita.
— O senhor não precisava me pedir em casamento por pena ou compaixão, nunca lhe pedi que se casasse comigo ou minha família o obrigou.
— Eu não pedi em casamento por pena — argumentou ele se aproximando de Sarah— Eu quis e quero me casar com a senhorita.
— Se a notícia não tivesse sido publicada iria me contar?
— Uma hora.
—Deixaria eu me casar sem saber quem o senhor realmente é? Sem que eu soubesse com quem eu planejava passar o resto da minha vida? Achas que por ser uma pessoa importante pode brincar com os meus sentimentos ou me esconder as coisas? Eu não me importo com quem o senhor seja, mas me importo com a sinceridade e a confiança do meu futuro marido.
Ela tentava se lembrar dos ensinamentos que seus pais haviam passado enquanto vivos, ela tentava lembrar do perdão imerecido que Jesus tinha dado a ela, mas era como se estivesse na pele do apostolo Paulo quando ele dizia que o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo.
Naquele instante não conseguia se imaginar perdoando o homem a sua frente.
— Eu não quero vê-lo— sussurrou com o coração quebrado —, não consigo acreditar que pode ser tão cruel e ter brincado com os meus sentimentos.
Sarah nunca havia sentindo tanta violência dentro de si e tentava com toda sua força ignorar a vontade de agredir algo ou melhor alguém. Sua mente não conseguia lidar com o fato de que Eduard ou quem quer ele fosse, era o irmão do príncipe consorte da Inglaterra e que tinha pedido ela em casamento, não conseguia lidar com todas aquelas revelações ou emoções que a dominava.
— Por favor Sarah me dê essa chance — implorou o loiro, cada expressão gritando sinceridade e ela queria muito acreditar nas palavras dele, mas não conseguia — por favor acredite quando que quero realmente me casar com senhorita da forma correta, sei que errei e imploro vosso perdão.
— Eu...— a mente dela rodava— Fique longe de mim.
— Eu a amo — os olhos dele estavam cheios de lágrimas — podemos recomeçar, quero levá-la para conhecer a minha família e podemos nos conhecer melhor e quando estiver pronta poderemos construir um futuro juntos, desejo que a senhorita possa me conhecer por quem eu realmente sou.
— Quem é o senhor?— Sarah sussurrou apertando o papel do jornal nas mãos, pois sentia medo de escutar o final daquela história — Eu não o conheço e sinceramente nesse momento é a última coisa que desejo.
— Meu nome é Ernesto Augusto — ele parecia estar com certa dificuldade em falar —, mas minha família me chama de Augusto e eu sou Duque Soberano de Saxe-Coburgo-Gota.
— Vossa Excelência — falou Sarah limpando as lágrimas do rosto, seu tom de voz não era dos mais respeitosos e ela pouco se importou com qualquer etiqueta social — Eu não quero nada que venha do senhor, eu lhe imploro permaneça longe de mim, pois já destruiu minha vida e o meu coração o suficiente por toda essa vida.
Sem esperar por resposta ela correu para longe dele com seu coração ferido por uma dor que sentia não poder suportar.
Não desejava que ninguém a visse naquele estado, com toda sua força bateu a porta do quarto e caiu ao chão sem se importar em sujar seu vestido, enquanto deixava que as lágrimas e os soluços a dominassem implorou a Deus que arrancasse dela aquele sentimento e a dor causada por ele, mas não houve resposta a sua oração e pela primeira vez não conseguia achar sentido no rumo que sua vida estava tomando ou confiar que no final tudo daria certo.
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