Capitulo 3 - Jorge - Gosto de brumas
"Crianças, já está passando da hora de vocês dormirem!" Bradou a mãe enfurecida com dois garotinhos loiros, pálidos e idênticos que estavam em pé a sua frente. Com os lábios formando um sorriso inocente e as mãos nas costas, rogavam pedindo para brincar por mais tempo, mesmo que o sol já tivesse passado da linha do horizonte e mal pudessem ver suas próprias mãos.
Antes que a mãe notasse, um par de braços envolveu-a fazendo relaxar um pouco. Os gêmeos a tinham atentado em paciência durante todo o dia, mas agora que Jorge chegara, eles aquietariam.
"Ora Jasmim, deixe que brinquem, logo serão homens". Jorge justificou com o mesmo sorriso maroto que os garotos. A mãe se encolheu numa prece silenciosa por paciência, ritual que sempre fazia.
Vendo a reação da mãe que estava prestes a irritar-se, os meninos ainda risonhos, se aproximaram do pai e entreolhando-se, pediram em um uníssono perfeito: "Papai, conte-nos sobre tia Álya novamente". Seu pai adorava essa história tanto quanto eles e isso animaria a casa novamente, disso tinham certeza.
"Minha irmã era uma menina ruiva que tinha um belo sorriso como de vossa mãe. Ela escrevia como ninguém na cidade tinha visto antes..." Diante disso, Jasmim sorriu como quem entende a deixa. "Nenhuma garota pode escrever, assim diziam os adultos, mas a menina não dava ouvidos e escrevia, escrevia, escrevia. Porém, um dia ela foi pega". Jorge movia as mãos teatralmente enquanto aninhava os garotos em seu colo. Os meninos vibravam prendendo a respiração ao escutar a história tão bem conhecida.
"Eu, esperto, descobri as notícias antes mesmo do alvorecer e fui rápido como um tufão ao contar Álya que dormia embolada em cima do meu monte de feno, o qual em vista de sua presença, nem eu mesmo pude usar na noite anterior". Murmurando, confessou que ainda se sentia ressentido de não passar bem aquela noite, e que tinha péssimas lembranças dos dias anteriores, acreditando que teria sido mais fácil com uma noite bem dormida. Todos sabiam que Jorge cedia tudo a irmã mais jovem. "Em pouco tempo ela. com suas peripécias, inventou um plano. Ouçam com atenção". Jorge repetia o conto quase de forma cantada, como sempre costumava fazer.
"Álya me entregou uma muda de roupas do pai, social demais para uma fuga. Ergui a sobrancelha em busca de informações, mas apenas recebi um sorriso ladeado como resposta. Minha irmãzinha era inteligente e nisso tenho confiança, mas temo que esteja a ponto de matar tanto a nós quanto ao jovem William, que pouco tinha a ver com isso. William era tão chato como Seamus!" exclamou erguendo o menino carrancudo que começou a esbanjar gargalhadas enquanto o outro se aproximava-se mais de sua mãe e da fogueira.
"Suspirei lentamente para não alertar a imaginação fértil de Álya enquanto vestia as roupas. Agora pareço um nobre prussiano e não um camponês da Nova Prússia... Ninguém questiona um prussiano, muito menos um forte e aparentemente inconsequente. Aos poucos, compreendia o plano." Disse quase sério e em falso tom professoral.
"Ao virar, vi Álya. Minha irmãzinha estava vestida com um dos vestidos de nossa mãe. Estava bela, muito parecida com nossa avó, a quem nunca conheceu. O pequeno William de doze anos não estava vestido a caráter, mas isso era até vantajoso. Essa pequena vila não tinha escravos por não haver ninguém com dinheiro o bastante para pagar um. Exceto, quiçá, algum dos nobres, mas para eles, a situação de servidão e vassalagem é bem mais proveitosa. Assim, poderíamos nos passar por jovens ricos e nobres, ao menos eu o faria." Continuou com o tom de explicação, agora dois tons mais escuros e com a voz claramente nublada pela saudade.
"Álya me tomou pela mão enquanto eu orientava o pequeno William em sua conduta. Peguei o corcel negro favorito de Álya e o selei." Ditou "Subimos ambos enquanto William guiava e fomos em direção à saída de Abgetreten".
Em um dia e meio, eu e minha irmã nos separamos. Ela me mandou seguir para a cidade e disse que encontraria como ir, bastava que lhe desse uma muda de roupa. Eu nunca mais a vi... Mas foi assim como conheci sua mãe, filha do padeiro, e dessa forma, tive vocês, meus garotos Valentim e Seamus. Eu os amo como minha própria vida." Terminou com a mesma paixão de sempre, e demonstrou que os contos da vida nunca perdem o gosto de brumas.
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