O Andarilho Sem Nome

Alearth
Planícies do Reino de Ridirean

O forte sol cegou seus olhos, e ele os cobriu com as mãos assim que os abriu. Aquela luz também mostrava que não estava mais na caverna onde tinha enfrentado o dragão. Ser imortal era um grande trunfo em uma batalha, pois saber que voltaria à vida o deixava tranquilo para ir até as últimas consequências para vencer. Enfrentar um dragão não era nada fácil, e ele não tinha tempo a perder, então decidiu usar a estratégia mais rápida e eficaz contra aquela espécie: atacá-lo pelo lado de dentro.

Ele estava a caminho das planícies de Ridirean quando sentiu o tremor vindo das Minas de Iarann. Não era normal acontecerem terremotos naquela área, então resolveu checar e ao chegar na aldeia dos mineiros, o lorde daquelas terras o abordou em desespero. Alguns homens tinham desaparecido dentro das minas, e os que retornaram relataram que as escavações tinham acordado uma fera, cujo rosnado fazia as montanhas tremerem. O lorde conhecia a sua fama e a sua coragem, e então ofereceu uma boa quantia de ouro para que ele matasse a fera. Ele não faria aquilo por ouro, mas faria porque as casas daquele vilarejo eram construídas aos pés das Cordilheiras de Iarann, e um deslizamento de terra varreria aquela comunidade do mapa. Contudo, aceitou o ouro, porque aquele senhor era abastado e, em uma longa jornada, as moedas poderiam ser úteis.

Antes de entrar na caverna, ele já tinha ideia do que iria enfrentar, pois dragões costumavam dormir por eras em tocas que cavavam profundamente sob montanhas. Sabiamente, ocultou sua sacola com uma magia espacial, de modo que pudesse pegá-la novamente independente de onde estivesse. Andando pelas galerias, ele precisou se abrigar várias vezes, protegendo-se de pedras que desprendiam-se do teto sempre que o dragão rugia. Pelo que conhecia de dragões, eles deixavam as cavernas quando acordavam, mas aquele ali devia ter sido acordado antes da hora, por isso estava tão furioso e não queria sair. No entanto, nenhum barulho humano seria capaz de acordar um dragão de repouso.

Após uma longa caminhada por túneis adentro, chegou a um grande espaço onde pôde ver a fera colossal, cuja cabeça era maior que a dele pelo menos três vezes. As escamas de dragão negro eram imunes a magia e incrivelmente duras e resistentes. Logo, sua espada e seu arco não teriam serventia, nem mesmo combinados com magia. Assim, ele também os guardou no mesmo espaço mágico que a sacola. Aquele animal poderia facilmente engoli-lo sem sequer mastigá-lo, e foi desse detalhe que surgiu a estratégia.

O dragão o recebeu com uma baforada de fogo que ele facilmente bloqueou, conjurando uma forte corrente de ar, que soprou as chamas para o lado. Continuou se aproximando, enquanto sua parede de vento o protegia, até estar a poucos metros do bicho, que estava cada vez mais irritado. Quando o dragão interrompeu o ataque de fogo para respirar, ele usou a rajada de vento em direção ao solo, para se impulsionar para cima, ficando da altura da cabeça gigante.

Em um movimento rápido, o dragão se projetou para a frente com sua boca aberta visando mordê-lo. Mas, evitando os dentes afiados, ele apenas se deixou engolir, descendo escorregando pela grande goela. Chegando ao estômago da fera, ele encontrou o que precisava para o seu grande final. Devido ao tempo em que esteve repousando, o estômago era um grande salão vazio, e as substâncias internas geravam diversos tipos de gás. Apenas a parte interna da traqueia, do nariz e boca dos dragões tinha revestimento contra o fogo que ele produzia. Assim, usou sua magia para espalhar os gases por toda a extensão da galeria estomacal e então conjurou fogo, causando uma grande explosão que matou os dois.

A partir da explosão ele só se lembra de tentar abrir os olhos e ter que cobri-los rapidamente por conta da luz do sol. Se acostumando com a luz, viu que estava nas Planícies de Ridirean, completamente nu. Levantando-se, pegou sua bolsa no compartimento mágico e tirou dela uma manta surrada e um capuz, que vestiu. Então, materializou um longo cajado, sabendo que teria um longo caminho pela frente. Após caminhar um tempo, avistou uma casa isolada em um campo, onde uma menina tirava água de um poço despreocupada. Aproximando-se dela, pediu um pouco do líquido.

— Qual é o seu nome? — perguntou a criança, enquanto lhe servia uma caneca de água recém-tirada do poço.

Essa era uma pergunta difícil para alguém como ele, que já fora chamado por tantos nomes e sequer sabia se possuía um realmente. Sem responder, ele aceitou a água com uma reverência e a tomou avidamente, como quem não bebe água há dias. Era assim sempre que voltava — uma sede infernal — como se passasse anos no inferno, entre a morte e a vida, espaço que geralmente durava apenas alguns instantes. Já havia tentado botar um fim em seu sofrimento diversas vezes e de incontáveis formas. Certa vez, o seu corpo foi derretido e fundido à lava de um vulcão, mas instantes depois lá estava ele, acordando nu em algum lugar, morrendo de sede.

Não tinha ideia de suas origens, nem do porquê de não conseguir morrer. Sua lembrança mais antiga era de um século atrás, quando foi encontrado por uma bela jovem, nu e desacordado, boiando em um rio onde ela se banhava. Aquele rosto permaneceu em sua mente, aquela jovem foi o seu primeiro amor e a sua primeira grande dor. Ela o acolheu, ensinou-lhe a falar sua língua e as suas artes mágicas druidas, mas também ampliou sua maldição quando lhe ensinou a amar.

Ele aprendeu que nem toda magia do mundo era capaz de curar a doença chamada ganância e nada pôde fazer quando os bárbaros vieram em busca das riquezas daquela terra, que em suas lembranças era seu único lar, e não pouparam ninguém. Vê-la morrer, junto com todos os outros e depois voltar à vida sozinho foi uma dor insuportável que o fez se matar inúmeras vezes, até entender que já que não permanecia morto, só a vingança lhe traria paz.

Durante vinte anos, ele percorreu o mundo, buscando se aperfeiçoar em muitas artes marciais e em diversas magias. Sua capacidade de não morrer permitia-lhe treinar até às últimas consequências, o que fez dele um grande especialista em tudo o que se dispôs a aprender. No entanto, ao contrário do que pensava, a vingança não lhe trouxe paz e, mesmo depois de matar até o último membro do clã de bárbaros que massacrou seu povo, aquele vazio em seu peito insistia em permanecer.

Cem anos e muitas mortes depois, ele não havia envelhecido um dia sequer, e as únicas cicatrizes que carregava eram em sua alma. A manta que usava, com aquele capuz cobrindo o rosto, o fazia parecer-se com um simples andarilho que batia seu longo cajado por aí, e a inocência daquela menina que lhe servia água e perguntava seu nome, mostrava que talvez a maldade ainda não tivesse manchado aquele lugar, ou que seus pais preferiram poupá-la. Aquele olhar gentil não fazia ideia de todo mal e escuridão que existia por aí, e que apesar de todos os demônios e seres obscuros que se alimentavam de sangue e almas, o ser mais cruel de todos ainda se chamava homem.

Por fim, ele não respondeu seu nome, apenas agradeceu com uma bênção druida silenciosa de boa sorte e estendeu a ela uma pulseira de couro e sementes coloridas que ela agradeceu com seu melhor sorriso enquanto ele se afastava. Os homens geralmente eram arrogantes e ignorantes demais para perceber a magia, e por isso, desconheciam a existência de seres mágicos e mundos mágicos, e ao invés de buscarem conhecimento, se limitavam a ver os acontecimentos não-humanos como questões sobrenaturais ou paranormais.

Elfos, Devas, Demônios, Fadas, Ondinas, Elementais e Draconianos eram vistos como divindades pelos humanos, que buscavam seres superiores para adorar em busca de esperança, ou para culpar por seus fracassos e desventuras. Mas, em sua busca desenfreada por poder, eles eram capazes de tudo, e sua ganância insaciável era sua maior fraqueza. Uma dessas raças se alimentava disso para se fortalecer e tomar lugar de destaque no mundo dos humanos, que era a chave para controlar todo o universo paralelo.

Essa era a batalha daquele andarilho, que em busca de redenção e de dar sentido a sua existência imortal, peregrinava pelo mundo dos humanos combatendo as hordas demoníacas que utilizavam a ganância dos homens para cometer suas atrocidades. Sabendo que os lordes demônios tinham planos mais nefastos, mesmo sem saber exatamente quais eram. Muitos anos de estudo, algumas visitas a mundos paralelos e muitas mortes depois, ele, mesmo com seu conhecimento insondável sobre tudo, não havia desvendado quais eram as reais intenções de Dolghur, o senhor das trevas, mas soube pelos seus informantes que ele estava juntando exércitos e isso significava que ele pretendia uma guerra.

Aquela inocente garota fez ele repensar se estava no caminho certo. Um de seus corvos encantados havia interceptado uma mensagem com um pedido de socorro. Mortes terríveis estavam acontecendo em uma região habitada, que apesar de isolada de qualquer cidade do reino, prestava contas ao rei Tytus III, e estava sob sua proteção. A serenidade da garota demonstrava seu total desconhecimento dessas barbáries que seu corvo o relatou, mas sua magia de localização nunca falhava, então decidiu seguir em frente.

Do topo de uma elevação, ele avistou ao longe um grande rio que separava o campo que atravessava, de uma floresta densa de árvores altas e imponentes, que ele imaginou se tratar da floresta relatada na mensagem interceptada. Ao aproximar-se, percebeu que o rio tinha águas agitadas e sua corrente seguia agressiva, o que indicava uma cachoeira em seu curso. Para ambos os lados, ele se estendia até onde os olhos podiam ver, e sua largura também era extensa. Isso, junto com a floresta, fazia uma barreira natural contra quase todo tipo de invasores.

Uma pessoa normal levaria dias dando a volta no rio em busca de uma ponte, ou de um trecho de águas mais calmas para atravessá-lo, mas ele não se encaixava em nenhum quesito da categoria normal. Recitando algumas palavras em uma língua ancestral, tocou o solo com seu cajado, fazendo com que instantaneamente grossas raízes brotassem de ambas as paredes do rio, encontrando-se e entrelaçando-se no centro, formando uma ponte sólida e imponente, que se desfez assim que ele a atravessou. As árvores se mostravam ainda mais imponentes quando olhadas de perto, e seus grossos troncos mostravam o quanto eram ancestrais e carregavam a sabedoria da terra pelos séculos. As árvores estavam dispostas a centímetros umas das outras, como se formassem um muro, de forma que nenhum ser normal conseguisse passar. Encostando o ouvido ao tronco de uma delas, ele fez silêncio por um instante e depois, ajoelhando-se, inclinou-se até quase tocar sua raiz com a testa.

— Um que respeita as leis naturais, pede passagem — ele disse como se fizesse uma solicitação para a árvore —, porque seu solo é sagrado, e toda carne é indigna de pisá-lo!

Imediatamente após recitar tais palavras, um caminho se abriu à sua frente após as árvores se rearranjarem ao redor. Ele, tendo certeza de que sua presença era bem-vinda e seu pedido de passagem fora liberado, seguiu floresta adentro, após agradecer em uma linguagem celta, sendo que as árvores voltavam a suas posições originais imediatamente após sua passagem. Depois de caminhar algum tempo através do corredor de árvores, ele se viu em uma enorme clareira que, aos seus olhos, parecia uma propriedade privada, visto a cabana que estava disposta em seu centro. Era como se as árvores fossem as cercas de seu território, e quem quer que morasse ali era bem poderoso e tinha completa empatia com a natureza.

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