Fogo e Lágrimas

Eles chegaram ao Javali Dourado ao anoitecer e Voughan pediu dois quartos separados, sendo um para ele e o outro para as meninas. Ele estranhou a reação do balconista assim que viu Sylv de volta, era como se ele estivesse vendo um fantasma, o que dizia ao andarilho que ele tinha participado do sequestro dela, talvez dando cobertura aos mercenários. Fazendo uma nota mental para ficar de olho nele, Voughan pediu refeições para ele e para as suas companheiras e foi prontamente atendido, mediante às moedas que dançaram sobre o balcão, então ele apenas voltou até a mesa, onde aguardou as refeições e os três se alimentaram. O atendente levou uma garrafa grande de vinho até a mesa e disse que era cortesia da casa, para manter a preferência, mas Voughan disse que iria levar para beber no quarto, pois estavam muito cansados, então, após a refeição, eles subiram para os seus quartos, mas antes, ele deu uma boa olhada em todos as pessoas que estavam no lugar, gravando o rosto de um por um.

— Tem algo de errado nesse lugar — Voughan começou a dizer, antes que elas entrassem no quarto —, deixe-me verificar o quarto de vocês.

— Merda! — ele gritou, após passar a mão embaixo da cama e encontrar uma pequena bolsa de pano, com alguns itens dentro — É uma bolsa de feitiço, provavelmente colocada aqui para fazer quem deita nessa cama cair em um sono profundo.

— Aquele dia que os mercenários me raptaram, eu vim descansar aqui após o jantar — Sylv disse, se lembrando —, foi o Kiefer, o homem do balcão que me deu a chave deste quarto.

— O desgraçado está agindo com os mercenários — o andarilho concluiu —, ou pior, pode estar aliado aos demônios!

— O que a gente faz? — Lyanna perguntou.

— Eu acredito que eles têm uma passagem para este quarto, então eu dormirei aqui — Voughan pensou um pouco e depois disse, à medida em que ia preparando uma estratégia —, vocês ficam no outro quarto, onde eu irei preparar um pequeno portal até a estrebaria, para o caso de começar um ataque.

— Nós não vamos deixar você! — Sylv protestou, vendo onde ele queria chegar — Temos que ficar juntos!

— Lyanna — ele chamou, ignorando o protesto da mais jovem —, se vocês ouvirem o som de batalha, eu preciso que fujam pelo portal e continuem até Rioghail. Levem o Alísio também, independente do que acontecer, eu as encontrarei lá. Posso contar com você?

— Pode sim! — ela confirmou, com um tom sério.

— Ei, eu estou aqui, sabiam — Sylv disse, vendo que estava sendo ignorada —, nós podemos sair daqui agora e voltar para a estrada, não precisamos esperar por um ataque.

— Não podemos — Lyanna falou, olhando para a expressão de Voughan —, durante a noite o poder deles aumenta. Até às três horas da manhã estaremos em desvantagem, mas eles não querem enfrentar o Voughan aqui dentro, porque ele pode preparar proteções, então vão atacar furtivamente, por isso prepararam o quarto. Eles querem você por algum motivo e nós não vamos deixar que eles a peguem!

— Mas eu não quero ficar longe de você! — Sylv disse, deixando aflorar toda a sua fragilidade, enquanto se lançava na direção de Voughan, o abraçando — Você é o mais perto que tenho de uma família, mesmo tendo te conhecido há pouco tempo.

— Fique segura, pequena — ele disse, bagunçando os cabelos dela —, faça o que Lyanna lhe disser e, assim que der, eu encontrarei vocês.

Sem dizer mais nada, ele foi até o quarto onde elas iriam ficar e, após fazer uma espécie de oração, a janela do quarto e a parede abaixo dela, pareceram ser cobertas por uma espécie de membrana aquosa, que tremulava ao ser tocada e, admiradas, elas viram Voughan atravessá-la e voltar logo em seguida, dizendo que o portal para a estrebaria estava pronto, mas que só poderia ser acessado do lado de dentro e uma vez só, para evitar invasões e que elas fossem seguidas através dele. Ele lhes disse também que assim que percebessem que era ele quem estava no outro quarto, iriam vir atrás delas e esse era o momento em que elas deveriam fugir. Voughan ainda disse que, certamente, iriam atacar com muitos homens, então ele daria um jeito de acabar com todos ali, por isso não poderia ir com elas naquele momento, afinal, era a oportunidade de diminuir consideravelmente os números do inimigo.

Enquanto elas se preparavam para tentar descansar um pouco, ele tratou de sair pela estalagem, preparando a sua defesa, que seria ao mesmo tempo um grande ataque. Furtivamente, ele invadiu o depósito da estalagem e encontrou alguns produtos de limpeza que seriam ideais para o que ele queria fazer, além de um grande estoque de barris de vinho, hidromel e outras bebidas alcoólicas. Usando os produtos de limpeza, ele preparou alguns processos químicos, misturados à magia e os reservou, em pontos estratégicos para o momento que precisasse e voltou para o quarto. Ele não colocou defesas em seu quarto, afinal, estava esperando ser atacado para matar os perseguidores, mas sabia que eles viriam por volta da terceira hora da madrugada, que era um ponto alto de sono e do efeito do feitiço que tinham preparado, então só lhe restava esperar.

Ele estava deitado na cama e completamente coberto, quando ouviu um barulho de ranger de porta e escutou os passos de pelo menos cinco homens, que rodearam a cama e, ao puxarem o cobertor e ver que era ele quem estava lá, golpearam ao mesmo tempo com suas espadas, mas Voughan estava preparado e, ativando um portal na cama, caiu por ele, antes de ser atingido pelas lâminas e saiu em outro portal, colocado no teto logo acima da cama. Pegando os desprevenidos, ele usou suas adagas para atacar enquanto caía e cortou a garganta de dois deles. Com extrema destreza, ele se levantou e se colocou em posição de luta, defendendo os golpes e contra-atacando com precisão, mas antes de terminar com os inimigos dentro do quarto, viu outros inimigos entrando pela passagem que tinha atrás do guarda-roupa, então, derrubando o inimigo que estava entre ele e a porta, a abriu e saiu do quarto para o corredor, vendo que haviam outros inimigos do lado de fora, tentando arrombar a porta do quarto ao lado, onde estavam as meninas.

Elas acordaram com o barulho da batalha, vindo do quarto onde Voughan estava e, um tempo depois, ouviram pancadas na porta do quarto onde estavam, como se estivessem tentando arrombá-la, então se apressaram para se levantar e pegar as suas coisas. Lyanna não pensou duas vezes e puxou Sylv na direção do portal que Voughan deixou na janela, mas a mais jovem resistiu, dizendo que eles eram muitos e que não podiam deixá-lo sozinho contra tantos inimigos. Lyanna tentava convencê-la de que o andarilho podia lidar com todos sozinho, ou não teria dito para elas fugirem, mas Sylv estava irredutível e só se deixou levar, quando a porta foi arrombada e ela se assustou, então a deva aproveitou e a puxou, passando pelo portal. Ambas caíram no meio do feno macio e se apressaram em pegar os cavalos. As moedas de Voughan, assim como uma espada leve em uma bainha, um arco e uma aljava cheia de flechas, estavam presas à cela de Alísio e Lyanna entendeu que eram para ela, então tratou de colocar a bainha com a espada na cintura e a aljava e o arco nas costas e, montando, elas saíram da estrebaria, cavalgando para longe da estalagem, antes que descobrissem que elas estavam ali.

Enquanto elas se afastavam, Voughan atraía o máximo de inimigos para dentro. Cercado no corredor do segundo andar, ele acumulou um poder explosivo nas mãos e golpeou o chão de madeira, fazendo-o ceder e eles caírem no salão do bar, que, sendo mais de três horas da manhã, já estava fechado e lá embaixo mais inimigos apareceram cercando-o de todos os lados. Ele se defendia e lutava, sendo impossível evitar de receber alguns golpes, já que eram mais de trinta inimigos de uma só vez e não havia muito espaço para se movimentar. Ainda assim, muitos dos inimigos caíram à sua frente, antes de conseguirem atingi-lo com golpes críticos que o imobilizaram. Tendo várias espadas cravadas pelo seu corpo, ele se ajoelhou, e viu outros inimigos entrando pela porta e dizendo que as garotas tinham fugido. Ele começou a rir, mesmo com tantos ferimentos e com todo o seu sangue escorrendo pelas tábuas do piso, o que deixou os inimigos intrigados.

— Do que está rindo, andarilho? — um deles perguntou, segurando-o pelos cabelos e colocando a lâmina de sua espada em seu pescoço — Vê todos esses homens? Estão à serviço do senhor das trevas e vão pegar as suas protegidas. Os demônios querem a vidente, mas nós vamos nos divertir muito com elas antes de entregá-las, se é que você me entende!

— Eu imagino que quase todos os seus homens estão aqui, não é mesmo? — Voughan disse rindo, enquanto sangue saía de sua boca — Eu vou acabar com vocês!

— E como pretende fazer isso? — o homem zombou, puxando mais os cabelos dele — Você está acabado!

— Na verdade, todos nós estamos! — ele disse, com uma expressão de triunfo no olhar e, estalando os dedos, fez com que o seu sangue, que havia escorrido para o depósito, pegasse fogo, atingindo as substâncias que tinha preparado e os barris de bebidas, causando uma enorme explosão, que envolveu toda a estalagem, matando todos que estavam nela e nas proximidades.

Do alto de uma colina, as duas ouviram uma explosão e interromperam a cavalgada para olhar. Ao longe, viram o Javali de ouro e as árvores ao seu redor queimarem, com chamas vivas que subiam até os céus. Sylv quis voltar, mas Pérola não obedeceu, então ela apeou e quis ir a pé, até que Lyanna a alcançou e a abraçou.

— Ele pode estar ferido — a mais jovem disse, aos prantos, enquanto a deva a confortava —, ele não deixaria nenhuma de nós para trás!

— Ele disse que, independente do que acontecesse, nos encontraria em Rioghail — Lyanna disse, apertando-a contra o seu corpo —, e isso inclui uma grande explosão. Precisamos aproveitar essa vantagem que ele nos deu, ou tudo terá sido em vão.

— Você está certa! — Sylv disse, se afastando do abraço e enxugando as lágrimas. Mesmo que Voughan tenha lhe contado sobre a sua imortalidade,  ela não podia evitar de sentir medo de perdê-lo. — Vamos até o Rei, afinal se eu o vi em minhas visões ele tem que estar lá, independente do que acontecer.

— Esse tem que ser o espírito! — Lyanna disse e, voltando para os cavalos, montaram e continuaram cavalgando apressadamente através da madrugada.

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