Capítulo 5


Minha primeira lembrança na praia é de quando eu tinha seis anos. Acho que é uma das poucas memórias nítidas que tenho daquela época.

Faltavam algumas semanas para Jenny fazer um ano e naquela semana, ela tinha ficado doente. Foram noites e noites de toda a família em claro, porque ela sempre acordava chorando de dor, que depois descobrimos ser de uma otite.

Quando ela melhorou, mamãe estava tão cansada que queria ficar o dia todo descansando, então num dia de folga papai deixou Jenny com a irmã dele, tia May, e me levou para a praia. Foi o melhor dia da minha vida. Ou pelo menos um dos melhores.

Nós passamos o dia todo catando conchinhas, dando nomes e histórias para elas, e depois as devolvendo para o mar. Durante um intervalo das nossas catalogações, decidimos tomar sorvete. Foi a primeira vez que experimentei sorvete de morango e a paixão foi tanta que é o meu sabor favorito até hoje.

Eu lembro que por causa das noites que ficamos acordados tentando consolar Jenny, nós dois tínhamos olheiras embaixo dos olhos. Eu brinquei que parecíamos vampiros, e quando a noite caiu, nós fingíamos para as pessoas na rua que realmente éramos. Claro que ninguém acreditou, mas a Summer de seis anos se sentiu muito assustadora e confiante aquele dia.

No caminho de volta para casa, eu falei para papai que algumas crianças na minha escola estavam mexendo comigo por causa do meu cabelo "laranja". Ele me disse que, como eu nasci no pôr do sol, o Sol me beijou e como um presente eu acabei pegando a cor dele. E que aquilo me fazia muito especial. Se não fosse por ele, talvez eu estivesse traumatizada até hoje.

Aquele dia foi um dos maiores motivos para que eu e meu pai tivéssemos uma relação tão boa hoje. Eu contava todas as minhas dúvidas, meus tormentos, meus sonhos, tudo. Da vez que eu me apaixonei e tive meu coração quebrado e da vez que eu dei meu primeiro beijo. Claro que ele não gostou nenhum pouco, a ideia da sua menininha ter crescido era horrível para ele. Mas até que ele lida bem hoje em dia.

— Pai, você percebeu algo estranho na Jenny esses dias? — perguntei a caminho da lanchonete, depois de a deixarmos na escola. A coitadinha só ficaria de férias daqui a um mês. — Já é a segunda vez que ela vem dormir comigo essa semana.

Noite passada ela também tinha ido parar na minha cama de madrugada, com olheiras terríveis e alegando que não conseguia dormir.

— Ela anda meio aérea mesmo. Já perguntou a sua mãe?

— Ainda não. Parece que ela só consegue dormir agora se não estiver sozinha. — eu já estava começando a sentir falta da minha cama só pra mim, mas não conseguia não ficar preocupada com ela.

— Ou talvez ela só esteja te usando pra dormir na sua cama de casal. — papai sugeriu e deu uma risada maléfica. Não me segurei e ri também, no mesmo momento em que chegamos a Cali's.

Decidi tomar café aqui hoje, para continuar nos meus planos de fazer pelo menos uma coisa diferente por dia nesse verão. Por enquanto estava dando certo. Tinha levado meu caderno de desenhos e lápis e pretendia ficar lá colocando minhas ideias para fora até que enjoasse.

Papai entrou e foi direto para seu escritório nos fundos da lanchonete e eu me sentei na mesa que era "minha". Ficava encostada na parede que era metade de vidro e tinha uma boa vista da rua, dos carros indo e vindo, das crianças indo para a escola.

Eu gostava de tentar imaginar como seria a vida de cada um que passava por ali, eu achava fascinante como existiam tantas pessoas no mundo e como conseguíamos ser tão diferentes e tão parecidos ao mesmo tempo. Cada um com suas singularidades e manias.

Eu já estava no meu segundo queijo-quente quando terminei o rascunho de um desenho antigo. Era o rosto de uma menina, ela devia ter uns sete ou oito anos. Suas bochechas eram rosadas e a boca bem vermelha. Mas o que mais chamava atenção eram seus olhos: um tinha uma tonalidade esverdeada, parecido com os meus, um verde bem forte que lembrava a grama no início de uma manhã ensolarada. O outro era escuro, não tinha distinção entre a parte que deveria ser branca e a íris. Da sua pupila saíam pequenos pontos brancos e amarelos, lembravam estrelas, e iam se difundido por todo o seu olhos como uma galáxia inteira. Eles pareciam olhar para mim, bem no fundo da minha alma, como se me chamassem para mergulhar dentro deles.

— Desenho maneiro. — literalmente pulei da cadeira quando uma voz rouca surgiu atrás de mim, falando no pé do meu ouvido. E eu teria gritado também se não tivesse visto quem era.

— Kyle! — coloquei a mão sobre o peito, tentando acalmar meu coração que batia como louco. Provavelmente meu rosto estava tão branco como as outras folhas do meu caderno. — Eu nem tinha visto você aí.

— Percebi. Estava tão entretida que nem percebeu que já estou há uns cinco minutos aqui. — ele veio para a minha frente e apontou para a cadeira vazia. Indiquei com a cabeça para que ele se sentasse. — Você desenha muito bem.

— Obrigada. — fechei o caderno devagar, tentando não parecer grosseira. Eu não tinha muito o costume de mostrar meus desenhos para qualquer um. — O que faz aqui?

— É uma lanchonete, certo? — ele riu quando eu sorri sem graça e desviei o olhar. — Falaram sobre o melhor milkshake da cidade, e eu tive que vir experimentar.

— E o que achou?

— Bom... — eu já estava na defensiva quando ele hesitou, mas o sorriso não tinha saído de seus lábios. — faz jus ao título.

Soltei o ar, aliviada. Sabia que tinha que lidar com críticas negativas também, mas eu nunca gostava quando falavam mal do milkshake da minha família. Kyle pareceu confuso, e eu expliquei a ele. Sua cara de surpresa foi impagável.

— E se eu tivesse dito que não gostei? O que você teria feito?

— Provavelmente teria enxotado você de volta para o Texas. — tentei falar o mais séria possível, mas logo comecei a rir. Kyle ergueu uma sobrancelha e pendeu a cabeça para o lado, como um cachorrinho tentando ouvir melhor.

— Você lembrou que eu sou do Texas... — dei de ombros, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. Mas pelo meu estado quando ele me contou aquilo na festa, até eu me surpreendi. Ele me olhou rapidamente de cima a baixo antes de perguntar: — vai fazer algo hoje?

— Acho que não, por quê?

— Sabe, eu ainda conheço muito pouco de Los Angeles. Preciso de alguém para me apresentar os melhores lugares.  

Meu sorriso se formou junto com o dele. Guardei minhas coisas na mochila e nos levantamos, saindo da lanchonete sem esperar mais. Enquanto andávamos em direção ao seu carro - ou melhor, do pai dele -, o mesmo que me atropelou, montei uma rápida lista dos meus lugares favoritos da cidade. Ainda bem que tinha calçado meus tênis; hoje o dia seria longo.

Depois de quinze minutos de pura tensão no carro - Kyle tinha acabado de aprender a dirigir, então quase nos matou umas boas vezes -, chegamos no primeiro destino. Estacionamos e eu agradeci por ainda estar cedo, não passava das dez horas da manhã, porque ali costumava ficar muito cheio logo nas primeiras horas de sol.

— Bem-vindo ao pier de Santa Mônica. — eu disse assim que pomos os pés na estrutura de madeira que nos sustentava e nos fazia andar "por cima" das ondas que quebravam logo abaixo dos nossos pés. O vento lá era mais forte e eu precisei prender o cabelo num rabo de cavalo para que ele não ficasse chicoteando meu rosto a cada minuto. — Não tem tanto assim o que fazer, mas pra mim só essa vista vale a pena.

O píer dava uma visão de 360º para toda a praia de Santa Monica, que era uma das minhas favoritas, e se ficássemos bem na ponta dela, podíamos ver boa parte da cidade também. Eu já tinha vindo aqui várias vezes com Sara, quando matávamos aula, ou com Michael quando queríamos fugir um pouco dos nossos pais.

— O famoso píer... — Kyle comentou enquanto andávamos até a parte mais distante, mais próxima do fundo do mar. — Já ouvi falar bastante daqui. Merece uma foto.

Encostei na cerca de proteção enquanto ele tirava a mochila das costas e de dentro dela, uma câmera. Arregalei os olhos numa surpresa boa ao ver que era igual a minha, talvez um pouquinho mais atualizada. Virei de costas para procurar um bom ângulo para a foto, um que pegasse de alguma forma todas as partes bonitas do píer. Então escutei o "clique" atrás de mim.

— Prontinho. — quando virei de volta Kyle tinha um sorriso sacana nos lábios e balançava a foto recém revelada na ponta dos dedos. Quando a imagem se revelou por completo, ele sorriu ainda mais. — Ficou ótima.

Tive que pular para conseguir tirar a foto de suas mãos. No papel estava eu, meus cabelos e roupas voando para o mesmo lado, meu rosto de perfil observando a imensidão azul que nos cercava. Ele tinha razão, tinha ficado ótima. Mas claro que eu não ia dar meu braço a torcer.

— Vai ter volta, sr. Kyle.

— Vamos se você conseguir me pegar distraído como você estava. — ele tomou a foto de volta e guardou na mochila, junto com a câmera. O empurrei de leve com as costas da mão.

— Eu não estava distraída! Estava procurando um ângulo bom para a foto...

— Ah, eu sei reconhecer o ângulo bom das coisas... — seus olhos se pousaram sobre mim por mais tempo que o normal, e eu tive que virar o rosto para que ele não visse a vermelhidão que tomou conta das minhas bochechas. — Qual o próximo destino?

— Você já vai saber. Mas só eu for dirigindo dessa vez. — estendi a mão esperando as chaves e ele me entregou, admitindo que era um péssimo motorista.

O levei para um dos meus restaurantes favoritos já que faltava pouco para a hora do almoço, ainda em Santa Monica, mas para a parte que era recheada de montanhas. Como era dia, ainda era seguro fazer caminhadas e trilhas por ali, mas a noite, pela falta de segurança na região, tinha muitas histórias de pessoas que entravam e nunca mais apareciam.

Estacionei o carro no restaurante. Era uma espécie de drive-thru: nós fazíamos o pedido e podíamos comer em uma das trilhas ou clareiras. Depois de pagar, caminhamos por uma trilha até uma clareira um pouco mais distante de onde as pessoas passavam para seguir até o topo da montanha, dessa forma não seríamos interrompidos a cada dez minutos por turistas exploradores.

Sentamos no chão e apoiamos as comidas nas mochilas, já que nenhum dos dois tinha trago nada para forrar a grama. Depois de comer, as mochilas passaram de mesas a travesseiros, já que ambos estavam muitos cheios para andar para qualquer lugar.

— Talvez seja o frango que eu comi falando... — falei depois de alguns minutos em silêncio, olhando para o céu azul. — mas aquela nuvem parece um leão.

— Onde? — apontei para a nuvem bem acima de nós e Kyle seguiu meu olhar. — Tá doida? É claramente um gorila, tem até uma banana na mão dele.

— Aquilo é o rabo do leão! — gargalhei e entramos numa breve discussão de qual era o animal branco e fofinho que estava no céu. — Tá bom, tá bom. Pode ser uma mistura dos dois?

— Vou concordar só porque eu não quero ser abandonado aqui. — ele me encarou, os olhos semicerrados como se estivessem me ameaçando a não fazer aquilo. Ele apoiava a cabeça agora em uma das mãos, ficando alguns centímetros mais alto que eu. Nossos rostos perigosamente perto um do outro. — Sabe, verde combina com você.

Parece que eu desaprendi a falar naquela hora. Minha boca ficou meio aberta e só saiu um "ah..." meio esganiçado. Kyle me olhava como se quisesse gravar todos os meus traços, caminhava dos meus olhos até minha boca e então voltava e subia até meus cabelos espalhados na grama. Eu não conseguia desviar meu olhar do castanho dos seus olhos, sentindo meu coração se acelerar um pouco mais a cada segundo que passava. Estava tão silencioso ali, com apenas as nossas respirações se chocando uma contra a outra, que eu podia jurar que escutei seu coração batendo também.

E então um barulho ao fundo interrompeu aquele transe e nos tirou da bolha onde só nós dois existíamos. Agora nós nos encarávamos com a mesma pergunta no olhar: "o que diabos foi aquilo?". Então o barulho se repetiu e nos levantamos num salto.

— Foi um rugido, certeza. — falei em desespero, juntando nossas coisas e as embalagens para jogar no lixo. — O leão ficou ofendido que você o chamou de gorila.

— Não tem leões aqui, Summer! — ele estava tão desesperado quanto eu quando começamos a correr para sair dali.

— Quem te garante, Kyle? Quem te garante?

No meio do caminho começamos a rir, não ajudando muito na nossa corrida de fuga de qualquer que fosse o animal que estava por ali. Chegamos no carro na metade do tempo de antes, ambos ofegantes e pálidos como algodão. Eu até tremia um pouco, mas tinha quase certeza que não tinha sido pela corrida.

— Ok, acho que já deu de aventuras quase suicidas por hoje. — comentei quando entramos no carro, ele de volta ao lugar do motorista. Kyle concordou enquanto voltávamos pela orla.

Já de frente para a lanchonete, ele olhou o relógio em seu pulso e xingou baixinho, acompanhado de um tapa no volante.

— Droga, eu esqueci completamente. Vou te que ajudar minha tia e meu pai com alguma coisa lá de casa, na verdade já to bem atrasado... — ele resmungou mais algumas coisas que eu não entendi, enquanto arrumava as roupas e se olhava pelo retrovisor.

Nesse meio tempo eu enfiei a mão na mochila e anotei o número do telefone da minha casa em um pedaço de papel.

— Você quer que eu te deixe em casa?

— Não, tudo bem, eu moro aqui perto. — deixei o pedaço de papel no bolso de sua camisa. — Se quiser me ver de novo, pode me ligar... mas só se quiser.

— Summer — antes que eu pudesse sair completamente do carro, ele me puxou de volta pela mão e depositou um beijo demorado na minha bochecha. Estremeci com seus lábios quentes na minha pele, e desejei que eles estivessem um pouco mais para o lado... — eu adorei o dia. É claro que eu quero te ver de novo.

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